terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Blue Gender (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 13/05/2007.

Ano: 1999
Diretor: Masashi Abe
Estúdio: AIC / Toshiba EMI
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 25 min
Gênero: Aventura / Sci-Fi / Terror



Se eu tivesse que fazer um ranking das maiores decepções que já tive com algum anime, provavelmente Blue Gender encabeçaria a lista. Não digo que seja o pior anime que já vi, é claro, pois enquanto houver cópias de "Sin the Movie" espalhadas por aí, dificilmente alguma obra conseguirá tirá-lo do primeiro lugar. Mas se animes como "Nazca" e "Sin the Movie" já possuem resenhas negativas o suficiente para sabermos que são realmente tenebrosos de tão ruins, o mesmo não pode ser dito de Blue Gender, o qual possui um número considerável de críticas positivas enaltecendo o tom sombrio e adulto da obra, dando ênfase também às generosas doses de sangue para quem procura algo com visual forte. Não discordo dos aspectos enaltecidos por tais resenhas, mas confesso que não consegui enxergar muitas qualidades no anime além destas, apesar do promissor início.

Um jovem chamado Yuji Kaido acorda do coma em que se encontrava e é salvo por uma pessoa controlando um robô. Sem entender o que está acontecendo, Yuji começa a se lembrar de alguns fragmentos de seu passado enquanto é transportado por corredores longos, metálicos e sem luz, numa espécie de fortaleza. Yuji é chamado de "amostra" por aqueles que o resgataram, descobre que dormiu por 22 anos e que, por ter uma doença incurável, foi induzido ao sono por todo este tempo para que pudesse ser curado no futuro. Yuji fica sabendo, ainda, que o mundo como conhecia anteriormente não é o mais o mesmo, após ter sido completamente destruído por uma raça de alienígenas chamada pelos humanos de "Blue".

14 anos antes, em 2017, os "Blue" apareceram pela primeira vez e foram confundidos com armas biológicas criados por algum país inimigo. Eram algo totalmente diferente, pois se alimentavam de matéria orgânica e inorgânica. Com sua rápida proliferação, os "Blue" se tornaram uma ameaça, transformando os humanos em casulos para comerem vários deles de uma vez. Além disto, os "Blue" evoluíam à medida em que entravam em combate, tornando-se cada vez mais perigosos para a raça humana como um todo. Ameaçados de extinção, os humanos fugiram para o espaço para viver num local chamado "Segunda Terra". enquanto eecuperavam as forças para, um dia, voltarem à terra natal para combater e extinguir os "Blue" de uma vez por todas. Como Yuji Kaido se encaixa neste enredo, por que é considerado uma "amostra" e qual a razão verdadeira para ter permanecido em coma por anos são alguns dos mistérios desvendados ao pouco ao longo de Blue Gender.

Produção realizada pela Toshiba EMI e o estúdio AIC em 1999, Blue Gender realmente começa muito bem, com um clima de destruição iminente que chega a lembrar um pouco o filme "Tropas Estelares", de Paul Verhoeven, inclusive na carnificina onipresente e explícita. Os personagens morrem para valer e das formas mais horríveis que se possa imaginar. E por mais que esta opção pelo "gore" pareça apelativa, no caso de Blue Gender é um tremendo acerto, pois mostra o quanto os "Blue" são perigosos, nocivos e, por tais motivos, devem realmente ser eliminados antes que a raça humana desapareça por completo. A atmosfera mais adulta e séria do anime é um achado: sem brechas para tiradinhas humorísticas fora de hora e abordando temas como desejos sexuais e homossexualismo sem meias verdades e com uma franqueza surpreendente para uma série do gênero. O roteiro ainda aproveita para criticar a raça humana de forma nada velada, pois foi o seu egocentrismo e excesso de confiança que causou sua própria derrocada, ao acharem que nunca seriam derrotados por seres "inferiores" como os "Blue".


Após uma quebra no ritmo nos primeiros episódios e uma nova e rápida engrenada a partir do episódio 6, a série como um todo entra numa descendente contínua até chegar ao final. A obra deixa muito a desejar do ponto de vista técnico, com algumas cenas tão paradas que lembram alguns animes produzidos na década de 70, na qual havia uma evidente economia no uso das células de acetato em função do alto preço das mesmas. O "design" dos aliens é muito ridículo, alguns deles possuindo bocas que parecem vaginas e se tornando, por esta razão, involuntariamente cômicos. A trilha sonora é tão inexpressiva que nem merece comentários... na realidade, exceto pela excelente apresentação dos créditos iniciais e do interessante, ainda que inconsistente, "chara design" criado por Koji Watanabe (desenho mecânico em Noein), o restante da série é tecnicamente pífio.

Mas nenhum dos problemas citados se compara ao horror causado pelo roteiro e pelo personagem principal de Blue Gender. Uma boa narrativa teria plenas condições de transformar o argumento original da série em algo muito interessante, bem diferente deste amontoado de clichês e diálogos risíveis, além do já manjadíssimo vilão com razões imbecis para fazer besteira e do herói que sempre se acha culpado de todas as desgraças do mundo.



Falando em herói... fãs de EVA, podem ficar satisfeitos pois finalmente um protagonista conseguiu ser infinitamente mais insuportável que Shinji Ikari, cuja chatice ainda pode ser justificada pelo fardo de ser um adolescente com o destino do mundo nas mãos, o que não ocorre aqui. Apesar de tantos problemas na série, Yuji Kaido é, de longe, a principal razão para que a experiência de se assistir a Blue Gender seja um porre na maior parte do tempo. Sabe aqueles caras tão chatos, mas tão chatos, que só de ver a aura da distinta figura passando do outro lado da rua você já está fugindo para o lado oposto, à velocidade da luz? Pois é, Yuji Kaido certamente é muito mais chato que qualquer um destes caras que vieram à sua mente, um mala-sem-alça na mais pura acepção do termo. Um personagem totalmente irreal, que reclama sem parar com as pessoas que o ajudam, enquanto age com uma bondade extrema em outros momentos, mesmo num mundo totalmente devastado e no qual pode morrer a qualquer momento. Se Yuji vê alguém à beira da morte e cercado por trocentos mil "Blue", nada no mundo é capaz de convencê-lo que sacrificar uma equipe inteira por um moribundo é algo, no mínimo, estúpido. Como se isto não bastasse, ele se envolve em dramas forçados e coloca as vidas dos outros em perigo pelos motivos mais estapafúrdios, sempre agindo como um bebê chorão. Ao olhar as anotações que fiz enquanto assisti à série, contei pelo menos umas 10 observações nas quais eu clamava aos céus: "Por favor, meu Deus, mate este cara logo porque não agüento mais!".

Eu ainda poderia dar detalhes sobre a ridícula idéia por trás dos "Supporters", ou voltar à fraquíssima animação que abusa de células deslizantes e com um uso totalmente inadequado de "zooms" e "close-ups", ou mesmo o incrível final que apela para "A Força do Amor" de uma maneira inacreditável, mas para não parecer que sou um eterno chato ranheta, tenho que dar o braço a torcer em uma coisa: Blue Gender possui uma das melhores personagens femininas que me lembro de ter visto em um anime, chamada Marlene Angel. Ela, sozinha, justifica a experiência excruciante de se assistir a este anime. Com um ódio plenamente justificado em relação aos "Blue", Marlene é uma mulher forte, decidida, com um pensamento rápido e extremamente habilidosa em combates, sendo a responsável por cuidar da segurança de Yuji Kaido. Oriunda de um mundo já devastado, Marlene é altamente lógica e não consegue compreender os chiliques constantes de Yuji, e realmente ficamos a pensar como pode ter pintado qualquer tipo de clima romântico entre dois personagens tão díspares. Para quem se cansou de ver personagens femininas retratadas de forma imbecil e sexista, vale a pena assistir ao episódio 6 apenas para ver Marlene fazendo uma "proposta indecente" capaz de desarmar qualquer um.



Se alguém ainda se interessar em conhecer alguma coisa deste anime, o ideal seria fazer uma coletânea de melhores momentos da série, de preferência com a presença maciça de Marlene Angel e a ausência absoluta de Yuji Kaido. Porque, sinceramente, assistir a 26 episódios de algo tão decepcionante apenas em função de um ou outro momento interessante me parece um preço alto demais.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Rapaz, adorei a primeira metade de blue gender, quase perfeita, a segunda metade foi sofrível, mas como adorava/adoro Marlene, assisti mesmo assim. Gosto de Yuji também, tanto quanto Marlene, pelo menos até a metade da série, e o relacionamento dos dois gostei bastante também, e acho que os dois se complementam, Yuji é totalmente emocional e Marlene bastante lógica sem muitas vivências realmente "românticas". Quanto a ele ser um chorão, de certa forma, acordar em um mundo apocalíptico, cheio de monstros atrás de mim, talvez me deixasse mais sentimental também =). De qualquer forma gosto do jeito indagador de Yuji, e até mesmo irracional. Obs: gosto de Shinji também =), ele é um pé no saco as vezes, mas totalmente entendível suas razões. As pessoas querem protagonistas mais proativos, nem sempre é isso que encontramos, nem Yuji nem Shinji foram totalmente passivos, apesar de não corresponderem as nossas expectativas em todas as situações, eles responderam da melhor forma possível dentro de suas possibilidades aos problemas que se apresentavam.

    Esse log de medicina, é Nícolas falando, preguiça de deslogar.

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    1. Beleza, Nícolas?

      Antes de mais nada, valeu demais pelos comentários! Vou responder a todos eles, é só questão de tempo. :)

      POis é, rapaz, o início de Blue Gender foi tão incrível, deu pena e raiva de ver a série afundar tanto. Tinha potencial para ser antológica, mas acabou ficando antologicamente terrível, hehehe.

      Você comentou algo interessante sobre protagonistas proativos ou não. Concordo demais com praticamente tudo o que você escreveu mas, no caso de Shinji e Yuji, nem é tanto isto o que incomoda (também gosto de personagens hesitantes, mais humanos), mas o fato dos dois serem chatos demais! E isto vale também para personagens altamente proativos, como alguns heróis e vilões de shounens que acreditam ser possível ganhar de tudo no grito e nas caretas: chatos, chatos! :D

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