terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Byousoku 5 Centimeter (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 13/04/2008.

Alternativos: 5 Centimeters Per Second, Byousoku 5 Centimeter - a chain of short stories about their distance, Byousoku 5 cm
Ano: 2007
Diretor: Makoto Shinkai
Estúdio: CoMix Wave
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 62 min
Gênero: Drama / Romance


Se conquistar uma boa reputação em qualquer área de atuação é algo sempre difícil de conseguir, mais difícil ainda é conseguir manter esta mesma boa reputação com o passar dos anos, por várias razões. O profissional em questão pode acabar dormindo por cima dos louros do sucesso e se acomodar, e levando-se em conta a exigência cada vez maior do público consumidor, tal postura pode se revelar um erro catastrófico.

Claro que o mesmo se aplica aos profissionais que trabalham com obras audio-visuais, talvez até em maior escala, tendo em vista que o resultado de seu trabalho é exposto para milhões e milhões de críticos em potencial espalhados ao redor do mundo. É de se imaginar, portanto, a pressão que profissionais renomados como Hayao Miyazaki e Satoshi Kon devem sofrer para manter um padrão inalterado de qualidade em suas obras.

Aos pouquinhos, à medida em que seu portfólio de obras vai aumentando, Makoto Shinkai começa a entrar nesta classe de animadores cultuados, cujo público cada vez mais exigente e conhecedor de seu talento provavelmente não aceitará obras de qualidade duvidosa. Se isto é bom por um lado, pois mantém o artista antenado com seu público e buscando fazer sempre o melhor, por outro pode resultar em obras que se esforçam tanto para ser diferenciadas que, em alguns momentos, podem se tornar artificiais. Ainda que Byousoku 5 Centimeter passe, com o perdão do trocadilho, a centímetros de se tornar a obra máxima deste genial animador nipônico, certos aspectos em seu 3o e último ato prejudicam sobremaneira a quase perfeição dos dois atos que o precedem.

No caso de Byousoku 5 Centimeter, a divisão em atos não é apenas empírica, já que a obra é um longa-metragem dividido em três capítulos distintos e com nomes específicos, que abordam diferentes épocas, visões e locais ligados ao relacionamento entre Takaki Tohno e Akari Shinohara. Este é um anime difícil de ser analisado, pois há sempre o risco de revelar mais do que o necessário sobre o enredo, que começa no período da primavera, quando as folhas de cerejeira começam a cair. Takaki e Akari, jovens saindo da pre-adolescência, observam este belo fenômeno em Tóquio, cidade onde moram e estudam, quando a garota comenta com Takaki que as folhas de cerejeira caem a uma velocidade de 5cm por segundo. Pouco depois, ambos se despedem de forma apressada e prometem se encontrar novamente dentro de um ano, para observarem o mesmo fenômeno.

Akari se mudará com os pais para Tochigi, e tal mudança repentina caiu como uma bomba entre os dois jovens, muito ligados desde que descobriram, aos poucos, que tinham uma grande afinidade recíproca, além de gostarem de atividades semelhantes e mais tranqüilas, como a leitura. Justamente quando havia a possibilidade desta afinidade evoluir para algo mais, ocorre esta separação. E talvez como uma espécie de presságio, os tais 5cm por segundo parecem afastá-los cada vez mais, não apenas em termos físicos, mas também emocionais e temporais.
Mais uma vez, Makoto Shinkai consegue mostrar toda a sua capacidade para criar belas paisagens baseadas em imagens reais. Seja em cenários diurnos ou noturnos, sob um belo sol de primavera à beira do mar ou sob uma tremenda nevasca, cada imagem deste anime é um primor de qualidade, com um nível de detalhamento quase doentio e uma combinação de cores harmônica e perfeita. Nada parece fora do lugar ou exagerado, e a preocupação de Shinkai em adicionar luzes e sombras com a qualidade de sempre ajuda a tornar um visual de Byousoku 5 Centimeter um verdadeiro deleite para os olhos.

O interessante no trabalho de Shinkai é a sua esperteza para criar animações ao mesmo tempo simples e impressionantes. A maior parte da animação consiste em movimentos de câmera e cenários que deslizam em níveis diferentes, os quais, enriquecidos pelo visual detalhado e pelos supracitados efeitos de luzes e sombras, transformam uma coisa teoricamente simples em algo magnífico. Isto não quer dizer que a animação dos personagens seja mal-feita, longe disto. A evolução ocorrida neste aspecto entre "Hoshi no Koe" e "Kumo no Mukou, Yakusoku no Basho" permanece inalterada, tanto em relação ao desenho dos personagens quanto à animação propriamente dita dos mesmos. Alguns momentos são sublimes, como a seqüência da passagem das nuvens sobre Kagoshima, o foguete rumo ao céu, a viagem de trem sob a neve rumo a Tochigi, entre outros.


A parte sonora ficou novamente a cargo de Tenmon, companheiro de longa data de Shinkai e que entrega mais uma excelente trilha sonora instrumental. Difícil dizer se a trilha em si é melhor que a de "Kumo no Mukou, Yakusoku no Basho", talvez estejam no mesmo nível, mas o fato da trilha de "Byousoku" ser, digamos, menos invasiva é algo digno de nota... o espectador percebe a música suave ao fundo, sente como as melodias são belas e como tudo aquilo ajuda a compor o clima. Belas trilhas sonoras são sempre um espetáculo à parte, e não é preciso colocá-las o tempo inteiro no volume máximo para mostrar a sua qualidade. Neste aspecto, Byousoku 5 Centimeter acertou em cheio.

Apesar de dividido em três capítulos, Byousoku 5cm conta uma história única, na qual cada capítulo aborda uma determinada época da vida de Takaki (Akari entra mais como um objeto de admiração, ainda que tenha importância fundamental na história). O 1o capítulo mostra a separação de ambos e a difícil jornada de Takaki para cumprir a promessa de se encontrarem um ano depois; o 2o mostra um Takaki adolescente vivendo em Kagoshima, no extremo sul da ilha de Kyushu, com a mente ainda focada em Akari, enquanto a colega de escola Kanae Sumida tenta encontrar uma brecha em seu coração; e o 3o mostra a vida adulta de Takaki e Akari e o destino que coube a cada um... o amor de ambos finalmente se concretizará para valer, ou não?

Conforme o comentado acima, é difícil falar sobre o enredo sem entregar muita coisa da trama, mas vamos lá. De longe, o 1o capítulo é o melhor dos três, super contemplativo, com um ritmo bem lento que retrata perfeitamente o crescimento da afinidade entre Takaki e Akari, a dor da separação, os contatos esporádicos ao longo do tempo e a luta para concretizar a tal promessa de se reencontrarem um ano depois. Esta parte do anime vai e volta no tempo constantemente, de modo a mostrar com mais clareza porque o relacionamento de Takaki e Akari evoluiu num crescendo constante, sem apelar para a pieguice em momento algum. É impossível não se emocionar com os momentos finais deste capítulo, nos quais a alegria e a tristeza andam de mãos dadas, mostrando que, se o futuro que os aguarda talvez seja inevitável, é melhor viver aquele momento para valer. Se o anime acabasse aí, Byousoku 5cm certamente tomaria o lugar de "Hoshi no Koe" como a obra máxima de Makoto Shinkai.

Enquanto o 1o capítulo mostra a separação física pelo ponto de vista de Takaki, o 2o mostra a separação emocional pelo ponto de Kanae, a tal colega de Takaki que se apaixona por ele e tenta penetrar a couraça que parece isolar o garoto de qualquer contato afetivo. Não que ele aja como um cara fechadão nem nada: é uma pessoa agradável, que conversa normalmente e é sempre solícito. Mas bem no fundo, Kanae tem a nítida impressão que a mente de Takaki está em outra dimensão, pensando num outro lugar... e num outro alguém.

Ainda que este 2o capítulo não seja tão maravilhoso quanto o 1o, ele dá um bom prosseguimento à história, mostrando não apenas a dificuldade de Takaki em lidar com a separação, sem saber se deveria cortar qualquer tipo de contato com Akari ou se deveria pelo menos mandar alguma notícia para ela mas, também, o surgimento de um novo caso de amor fadado ao insucesso, pois Kanae sabe que, não importa o que ela faça, será impossível atingir o coração de Takaki, o qual já pertence à outra pessoa.


E aí vem a parte mais polêmica de Byousoku 5cm, que é seu 3o capítulo. Basta conferir alguns comentários pela internet para ver que muita gente ama de paixão, enquanto outros consideram-no decepcionante... e, infelizmente, me encaixo no 2o caso. Para começar, é complicado separar apenas 14 minutos, de um total de 62 minutos do anime completo, para fechar uma história que ainda tinha muito pano para manga. Não digo que haveria necessidade de fechar cada aspecto da obra, timtim por timtim, mas ficou a nítida impressão que o 3o capítulo foi feito mais às pressas do que os dois primeiros. Uma obra que se caracterizou pelo ritmo contemplativo o tempo inteiro, com as coisas sendo apresentadas gradualmente, ser fechado de forma apressada e praticamente com um videoclipe que mostra flashes rápidos da vida de Takaki, Akari e de outras pessoas próximas a ambos, não me pareceu uma grande opção. A música de fundo para este clipe, "One More Time, One More Chance", cantada por Masayoshi Yamazaki e cuja versão na voz de Jun Matsumoto foi um sucesso no Japão há alguns anos, tem uma letra que demonstra com perfeição o que deve ter se passado na mente de Takaki, e foi neste ponto que grande parte do encanto da obra se perdeu...

Explico: é notória a dificuldade que grande parte dos japoneses tem para expressar seus sentimentos de forma adequada, especialmente aqueles que sofrem de extrema timidez. O fato é que, rumo ao final, aquilo que poderia expressar um grande amor acaba se revelando algo um pouco doentio. Sem revelar o que acontece no final propriamente dito, não me parece algo muito comum alguém passar 13 anos apaixonado por outra pessoa, vivendo através de sonhos mas sem tomar qualquer tipo de atitude para manter este amor vivo. Esperar que qualquer tipo de amor se mantenha vivo por tanto tempo, sem qualquer forma de contato, é algo meio fora de realidade, especialmente levando-se em conta que tal amor surgiu na pré-adolescência. Sem querer desmerecer nada, pessoal, mas quem já tem um pouquinho mais de tempo de vida (como este nobre ancião que vos escreve) sabe que as paixões enlouquecidas que surgem nesta época dificilmente duram tanto tempo. E quem fala isto não é alguém excessivamente realista... posso dizer tranqüilamente que sou um cara muito romântico, e os relacionamentos e desencontros amorosos de histórias como "Honey & Clover" e "Toki wo Kakeru Shoujo" conseguem me cativar e levar às lágrimas com extrema facilidade, justamente por equilibrarem bem o romantismo com um pouquinho de realismo. Por esta razão, o romantismo exagerado de Byousoku 5 Centimeter acabou prejudicando sobremaneira o resultado final.



Dizer que "Byousoku" não vale a pena apenas pelo ato final seria uma baita sacanagem, pois praticamente todo o anime é absolutamente irretocável. Mesmo este ato final, motivo de desagrado para muita gente, é justamente o que cativa grande parte do público. Byousoku 5cm é um anime recomendadíssimo, muito superior à grande maioria dos animes disponíveis por aí mas que, em minha humilde opinião, deixou de ser a obra-prima máxima de Makoto Shinkai justamente por ter um final que caiu numa armadilha que seus outros animes evitaram: um romantismo fora de realidade, que acabou reduzindo a força e a veracidade do relacionamento retratado pela obra.


Marcelo Reis


15 comentários:

  1. A perfeição do universo esse filme ... a história da minha vida ;-; a música tema é a música

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    1. Pois é, Rodrigo, eu sou muito fã do Makoto Shinkai e achei os dois primeiros atos excepcionais. Pena que o 3º deixou muito a desejar.

      Quanto à música, não há o que falar, é excelente mesmo.

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  2. Realmente o grande problema da 3ª parte é o tempo decorrido (13 anos). Pois aquilo que o anime retrata realmente acontece na vida real, mas em um tempo bem menor do que todos esses anos. Mas creio que a mensagem principal ainda subsiste, que é o fato de que as pessoas mudam com o tempo e elas devem ser proativas para manter um relacionamento.
    As pessoas não gostaram do final porque não foi usual, feliz. E é duro ver algo esperando uma fantasia e se deparar com um retrato seco e relativamente cotidiano da realidade.
    Os dois seguem caminhos separados. Ela superou primeiro, construiu uma vida com outro cara. E ele só superou no momento em que a viu na linha do trem e continuou seu caminho. Esse foi o momento que finalmente ela se transformou em passado para ele.

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    1. Eu gostei muito do conteúdo do último capítulo, porém não apreciei a forma de como ele foi apresentado. Não me importo se é final feliz ou não, especialmente numa obra com um tema com esse, porém queria que fosse um pouco mais explicado e mais estendido esse final. Porém uma coisa eu digo: aguentar muito tempo por uma mulher exige uma alta dose de determinação e disciplina. Pena que neste caso isso foi destrutivo para ele, pois mostra no filme que Takaki se relacionou com outras mulheres, principalmente aquela de óculos mas não conseguiu se desprender do passado e assim acabou destruindo esta relação, talvez a mais longa que ele teve. Mesmo com algumas coisas que me desagradaram, eu gostei bastante do filme.

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    2. Creio que o final tenha ficado claro, sobre o que aconteceu. Se tivesse sido "explicado melhor", perderia-se um pouco do estilo do anime, que é apresentar tudo de forma subentendida e nebulosa mesmo.
      Eu acho que na verdade o Takaki não se relacionou com nenhuma além da Akari. Ele "fingiu" se relacionar com elas. Faltou determinação e disciplina no sentido de colocar o relacionamento para andar, enviar as mensagens, telefonar, etc. Ele sempre postergou isso e o tempo venceu.

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    3. Falo em "determinação e disciplina" no sentido de suportar amargamente isso por muito tempo pois talvez eu ou até mesmo você não conseguiríamos aguentar essa pressão e o arrependimento pela falta de atitude por muito tempo e decidiríamos mudar nossos rumos e focar outros objetivos. Porém na trama do anime, Takaki falhou miseravelmente em 2 detalhes: não lutou pelo amor que sentia pela Akari, mesmo com todos os obstáculos que ele encontrou na vida e se não conseguisse ou quisesse estar ao lado dela, procurasse pelo menos um pouco de felicidade, estando sozinho ou ao lado de outra mulher, que não foi o caso. No entanto no final do filme dá a entender que ele deva ter superado após descobrir que a Akari não o esperou diante das passagens dos trens e seguiu sua vida em frente.

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    4. E outra coisa que concordo com você: as pessoas adoram fantasias e finais felizes mas se chocam quando vê algo que é real e simples. Adoro essas reações negativas daqueles que esperam algo e encontram outra coisa.

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    5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Rodolfo e Pedro Ricardo, antes de mais nada, obrigado pelos ótimos comentários, e mil desculpas pela demora em escrever alguma coisa aqui - vida real cobrando um preço alto, :)

    Enfim, assisti a este anime há exatos 8 anos, então confesso não me lembrar com detalhes do que senti à época, mas relendo a resenha e vendo os seus comentários, não tenho muito o que adicionar ali realmente: é um belo anime, com os 2 primeiros segmentos praticamente impecáveis, mas um 3º segmento muito acelerado, num ritmo de videoclipe que não combina com o restante da obra, e um romantismo exagerado que, ao contrário de passar a sensação de verdade dura e crua, acabou gerando um efeito contrário (em mim, pelo menos) de algo totalmente fora da realidade.

    Continuo fã do Makoto Shinkai mas, hoje em dia, não nego que as obras de Mamomu Hosoda me causam uma impressão bem mais forte e duradoura.

    Grande abraço!

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    1. Boa análise. Você já assistiu Clannad e Clannad After Story? Faz uma análise futuramente sobre eles.

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    2. Cara, foi muuuito mal pela demora, mas este ano está sendo meio complicado, estou mexendo com construção de minha casa, então a cabeça anda a mil. :)

      Ainda não assisti a nenhum Clannad, mas gostaria muito de assistir. Eu acredito que me mudarei pra casa nova até o final do ano, e talvez a partir de então eu consiga voltar a assistir a um pouco mais de animes e, consequentemente, a escrever resenhas. Clannad já está na lista. :)

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  4. Eu sinceramente não achei um romance exagerado. Seria exagerado se eles acabassem ficando juntos no final. Aí sim, seria meloso ao extremo.
    Eu penso que a obra retratou algo comum, com um certo floreio artístico presente em ficções, mas ainda com a essência do real. O Takaki ficou sim um pouco forçado, mas isso não retira um certo realismo do tema que ocorre de fato na vida, o tempo passar e as pessoas mudarem com ele.

    Brou, tu continua vendo anime? Tem animelist pra adicionar?

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    1. Como falei com o Pedro Ricardo no comentário acima, foi mal pela demora em responder, mas o ano está realmente uma loucura por aqui.

      Sobre sua pergunta, tenho assistido bem menos animes do que antes, por causa do tempo corrido mesmo. Mas a paixão pelo tema continua a mesma: vamos torcer para que, após o término de construção de minha casa (isto sempre dá muita dor-de-cabeça e gastos), eu consiga me organizar melhor para voltar a escrever novos textos para o AH.

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    2. Opa, sobre o myanimelist: https://myanimelist.net/profile/marceloreis

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  5. Tem gente que odiou, gente que amou. Na minha opinião, o anime cumpriu bem o papel. Poderia ser melhor? Poderia sim! Mas a base do anime foi construída sem muitas delongas. Takaki poderia ser feliz com um novo amor, mas a sua prisão ao passado culminou na sua destruição. O final do anime, Takaki me parece dar a ideia que seguiu em frente, após o sorriso dele depois que não viu mais a Akari. (ilusão dele ou não? Não sei!)

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