terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Curtas sobre Curtas #01


Entre os vários motivos pelos quais resolvi iniciar esta empreitada solo no Glodosbora, um dos principais é a liberdade de poder escrever sem precisar me prender a uma determinada estrutura. No Animehaus até foi possível quebrar isto um pouco, quando começamos a falar de outros tipos de animações fora do universo anime, mas em termos de estruturas de resenhas e artigos, entre outras coisas, não dava muito para sair do formato utilizado. Além disto, por mais que seja legal uma resenha super bem embasada e completa, às vezes é complicado escrever um texto complexo sobre um curta metragem de 3min, por exemplo. Melhor seria um pequeno artigo falando de 2, 3, 4 ou mais obras, só para dar uma idéia geral sobre as mesmas, para que os leitores possam, ao menos, tomar conhecimento de sua existência e, claro, saber se vale a pena ou não assisti-las.

Tendo isto em mente, inauguro hoje a seção "Curtas Sobre Curtas", que consistirá de postagens falando sobre determinados curtas-metragens, de animação ou não, de forma um pouco mais simplificada do que a normalmente utilizada nas resenhas-padrão do Animehaus. Para começar, três "pequenas grandes obras" da animação, provenientes da França, Espanha e Polônia.


REPLAY

Curta de 9min de duração, criado em 2007 por 3 alunos da fantástica ESMA (Ecole Supérieure des Métiers Artistiques), localizada em Montpellier, França, e famosa pelas fantásticas animações de fim de curso de seus alunos, que colocam no bolso grande parte das animações ditas "profissionais" que existem por aí.

"Replay" se passa num local desolado na Rússia, no qual é impossível andar pela superfície sem máscaras contra gás e óculos de proteção, sob pena de morte imediata. É neste ambiente que vivem, em um abrigo subterrâneo devidamente protegido, a jovem Lana e o garoto Theo. Lana sempre sobe à superfície para recolher objetos largados pelas ruas de uma verdadeira "cidade-fantasma", buscando ganhar algum dinheiro com a venda posterior dos mesmos. Théo nasceu neste ambiente mortal e sempre viveu no subterrâneo, nunca tendo conhecido nenhuma outra pessoa além de Lana, e só tem permissão para subir à superfìcie acompanhado pela garota. Por esta razão, sua ansiedade é sempre grande quando Lana volta da superfície, pois fica louco para ver os "tesouros" que ela trará para o subterrâneo.

Certo dia, entre os objetos recolhidos por Lana, encontra-se um gravador contendo sons captados no dia-a-dia normal da cidade (buzinas, conversas), enquanto a vida ainda pulsava por lá. Theo fica encantado ao ouvir a conversa de crianças brincando, quer ficar com o gravador de qualquer maneira, mas Lana diz que venderá o aparelho, pois poderá ganhar um belo dinheiro com o mesmo. Sem conseguir tirar aqueles sons da cabeça, resta saber até que ponto o garoto iria para manter a posse do aparelho e procurar saber um pouco mais sobre a história por trás daqueles sons.

Em termos visuais, "Replay" não é tão impressionante quanto outras obras produzidas na ESMA, apesar de ainda ser muito bem feito. A cidade abandonada, em especial, lembra muito Pripyat, na Ucrânia, evacuada às pressas após o acidente nuclear de Chernobyl em 1985. Mas o mais marcante em "Replay" é a qualidade da narrativa, sendo palpável a sensação de desespero de Theo em querer vivenciar um tipo de existência que a dura realidade simplesmente não permite mais.

Com um final melancólico e, de certo modo, agridoce, "Replay" é uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece as excelentes animações criadas na ESMA.


LA DAMA Y LA MUERTE

Animação espanhola produzida por Antonio Banderas e indicada ao Oscar 2010 como Melhor Curta de Animação, "La Dama y La Muerte" se passa numa fazenda, em um ambiente desolado e sombrio. Ao som de um velho gramofone, uma idosa aguarda ansiosamente a chegada da Morte, para que possa se reencontrar com o falecido marido. Quando tudo parece resolvido e a senhora está prestes a entrar no reino dos mortos, um médico bonitão e que se acha "o cara" acaba trazendo-a de volta à vida. Inicia-se uma luta feroz, hilária e surreal entre a Morte e o médico (acompanhado de suas enfermeiras gostosas) pelo destino da pobre senhora, que é jogada de um lado para o outro como um saco de batatas.

Tecnicamente, "La Dama y La Muerte" é impecável, uma animação em CGI de excelente qualidade e com personagens muito expressivos e cartunescos. O ritmo da animação é alucinante, lembrando um pouco as peripécias exageradas de Scrat nos longas-metragens de "A Era do Gelo". Não há nenhum diálogo inteligível, apenas gritos e grunhidos de satisfação e raiva, de acordo com o andamento da disputa ferrenha entre a "morte gulosa" e o "Dr. Queixudo".

"La Dama y La Muerte" não traz super questionamentos filosóficos nem nada do tipo. É uma obra divertida e de excelente qualidade técnica, que passa voando e ainda conta com um final sensacional.


PATHS OF HATE

Claro que não dava para iniciar a seção de curtas sem falar do Platige, hehehe. "Paths of Hate" começou a chamar a atenção assim que pintou seu primeiro trailer, mostrando dois aviões em combate em sequências animadas de tirar o fôlego, com um visual semelhante a "comics" num ambiente 3D. Restava saber se a obra completa faria jus ao "hype" tremendo causado pelo trailer em questão.

Dirigida por Damian Nenow (The Great Escape), "Paths of Hate" já começa em meio a uma ensandecida batalha aérea na II Guerra Mundial entre um piloto inglês em seu Spitfire, e outro alemão num Messerschmitt, que usam de todos os recursos possíveis para matar o seu oponente. Pequenos fragmentos de imagens mostram que a religião, a pátria e os entes queridos são motivações por trás da fúria bestial que move os dois homens. Com olhares sangrentos e sedentos de morte, os homens vão perdendo completamente sua humanidade, única forma pela qual poderão encerrar, de alguma maneira, esta batalha feroz. E neste processo, vão deixando os tais "caminhos de ódio" para trás, caminhos estes que remontam aos primórdios da história e sempre resultam em horror, morte e destruição.

Se o trailer de "Paths of Hate" já impressionava, a obra completa é de cair o queixo. Usando cores chapadas e com traços de sombreamento imitando histórias em quadrinhos, a animação usa na maior parte do tempo uma câmera nervosa e irregular, como se fosse controlada por um ser humano, aumentando ainda mais o realismo das batalhas. A sensação de profundidade no ambiente impressiona, especialmente em meio às nuvens, e a movimentação corporal e facial dos pilotos é algo de outro mundo. Podem acreditar quando eu digo que vocês nunca viram nada parecido com "Paths of Hate": o estilo é realmente único.

"Paths of Hate" é um obra do Platige um pouco mais conhecida em nosso país, por ter sido eleita a Melhor Animação no Anima Mundi 2011 pelo júri profissional. Vencedora ainda de vários outros prêmios ao redor do mundo (Annecy, Comic-Con, SIGGRAPH), "Paths of Hate" tornou-se minha animação preferida do Platige, gerando ainda uma ansiedade prazerosa para ver como será a próxima obra dirigida por Damian Nenow, "Another Day of Life". Baseada no livro de Ryszard Kapuscinski, autor do excelente "Império", "Another Day of Life" será um mistura de animação e documentário e, muito provavelmente, o primeiro longa-metragem produzido pelo Platige.


Marcelo Reis


 

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