terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Curtas sobre Curtas #03


Enquanto retorno aos poucos ao universo dos animes e preparo novas resenhas com calma, segue abaixo mais um post da série "Curtas sobre Curtas".



A GENTLEMEN'S DUEL

Animação norte americana produzida em 2006 pelo Blur Studio, um estúdio geralmente mais envolvido em efeitos visuais para filmes (Scott Pilgrim, Battleship, Avatar) e sequências cinemáticas para videogames (Marvel: Ultimate Alliance, Dark Souls II). Ainda assim, o Blur Studio de vez enquando se arrisca nos curtas, inclusive tendo sido indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação em 2004 com "Gopher Broke".

Mas o assunto agora é "A Gentlemen's Duel". Nesta hilária e surreal obra, um cavalheiro inglês e outro francês, que se acham lindos e maravilhosos, disputam a atenção de uma bela aristocrata. A coitadinha acaba "pagando o pato" e sofrendo os efeitos colaterais desta verdadeira briga de pavões. A coisa vai ficando cada vez mais séria, se encaminhando para um duelo final inesperado e de proporções inimagináveis.

Tecnicamente, "A Gentlemen's Duel" é um primor. Desde o início é possível perceber que o Blur Studio sabe muito bem o que faz, pela riqueza de detalhes nos cenários, personagens bem modelados e animação super fluida. O enredo apresenta situações cada vez mais absurdas, e as ótimas dublagens tornam as cenas em si ainda mais cômicas, especialmente porque há uma troca constante de xingamentos e imprópérios entre os dois homens ao longo do confronto.

"A Gentlemen's Duel" não muda a vida de ninguém, mas é muito engraçado e possui cenas que impressionam demais pela qualidade técnica, especialmente durante o tal duelo.


DUM SPIRO

Com um título baseado no dito latino "Dum spiro, spero" (algo como "enquanto eu respirar, há esperança"), "Dum Spiro" é uma das seis animações da turma de formandos da ESMA no ano de 2012. O logotipo da escola surge bem no início, em meio a círculos que lembram muito a abertura dos desenhos antigos dos "Looney Tunes". Até a música e os efeitos sonoros nos remetem imediatamente às obras enlouquecidas de Chuck Jones e Robert McKinnon, produzidas para a Warner, que são a inspiração óbvia para este curta-metragem ensandecido.

No período do Império Romano, um soldado deve levar uma mensagem importantíssima de César a uma tribo de bárbaros, acampada do outro lado da floresta. A mensagem poderá mudar todo o curso da batalha, e deve ser entregue custe o que custar. Mas um urso de avental e apaixonado por flores será um obstáculo quase intransponível para o pobre soldado.

"Dum Spiro" utiliza a técnica de "cell-shading" para dar um tom de animação 2D ao ambiente 3D. Tudo nesta obra é exageradíssimo, os personagens são super expressivos, e a cada momento pintam situações e engenhocas mais e mais bizarras em cena, tudo para que a mensagem seja entregue de qualquer maneira. "Dum Spiro" lembra demais os desenhos em que o Coiote tenta roubar ovelhas, mas toma muita pancada do cão pastor... dá até dó do mensageiro, coitado!

Com escolas de qualidade como a ESMA, Gobelins e Supinfocom, a França está realmente em estado de graça no tocante a animações. Dá uma satisfação muito grande ver a qualidade incrível das obras dos alunos destas escolas mas, também, uma certa tristeza em ver que, no Brasil, a animação ainda não é encarada com a mesma seriedade que na Europa.

Enfim, divagações à parte, "Dum Spiro" é um curta muito divertido, e uma bela homenagem às antigas animações de Chuck Jones e companhia.


FATHER AND DAUGHTER

Se os dois primeiros curtas analisados nesta postagem são uma diversão despretensiosa, a coisa muda de figura com "Father & Daughter", belíssimo drama escrito e dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit. Uma co-produção entre Holanda e Grã-Bretanha, "Father and Daughter" foi o vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação em 2001, além de várias outras premiações importantes como o Anima Mundi (Brasil), BAFTA (Grã-Bretanha) e Annecy (França).

Um pai se despede da filhinha à beira de um cais, sai remando em um pequeno bote, mas nunca mais reaparece. O tempo segue, as estações do ano vão e vêm, e a garotinha vai tocando a vida. Ela cresce e passa por todas aquelas situações comuns na existência da maioria das pessoas (amizades, namoros, casamento, etc), mas a saudade do pai permanece em todos os momentos. Sempre andando de bicicleta, volta e meia ela retorna ao local de onde seu pai zarpou, na esperança de reencontrá-lo novamente.

"Father and Daughter" utiliza uma técnica de aquarela inspirada nas artes chinesa e japonesa, lembrando um pouco o trabalho visual de várias obras de Te Wei. Usando constantemente um jogo de luz e sombras para causar um forte contraste entre os objetos, "Father and Daughter" possui uma animação sutil, detalhada e muito bem feita, na qual até mesmo os reflexos em poças d'água são realizados com perfeição. Não há nenhum diálogo ao longo de toda a obra, que tem como pano de fundo musical uma trilha instrumental melancólica, apenas com acordeon e piano.

A idéia do ciclo da vida como um eterno retorno está presente em alguns detalhes, como as bicicletas onipresentes e suas rodas que não param nunca de girar. Há ainda a variação de idade das pessoas que se cruzam de bicicleta em caminhos opostos. No início, a garotinha cruza com uma senhora, a coisa vai se invertendo aos poucos rumo ao final, quando ocorre praticamente o inverso do início, como se os idosos partissem para dar lugar aos jovens, que também envelhecem... e o ciclo se repete "ad infinitum".

Uma obra-prima incontestável, com um lindo final que permanece na memória.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Assisti o "Father and daughter" no Animamundi, quando conseguia frequentar mais as suas sessões, e de fato é um daqueles exemplos que ficam na memória pelo modo ímpar que te tocam a emoção. Obrigado pela resenha.

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    1. Olá, cyokota. Obrigado pela mensagem.

      "Father and Daughter" é fantástico mesmo, de uma sensibilidade ímpar, ainda mais tratando-se de um tema tão delicado. Fico feliz que tenha gostado da resenha.

      Um grande abraço!

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