quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Darkside Blues (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/11/2007.

Ano: 1994
Diretor: Yoshimichi Furukawa
Estúdio: J.C. Staff
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 83 min
Gênero: Terror / Sci-Fi / Ação


Se alguém por aí andava procurando um anime com estilo nota 10 e conteúdo zero mas já estava perdendo as esperanças, não precisa perder mais tempo, pois Darkside Blues é a solução! No fundo, acho difícil que alguém realmente tenha vontade de assistir a um anime com estas características, mas como tem doido que gosta de qualquer coisa, fica aí a nossa contribuição para a "Ação Filantrópica Animehaus 2007 - Lunáticos Também Gostam de Animes".

Bom, não é novidade para ninguém que este webmaster-preguiça já tem alguns anos de estrada e é bem mais velhinho que a média dos visitantes do site. Por esta razão, é provável que muitos não conheçam a fama de "Darkside Blues" à época de seu lançamento. Num período em que todos os distros de animes trabalhavam em VHS (é, eu sou velho assim...), era lugar comum ouvir as pessoas dizerem que nunca tinham visto um anime tão violento e sanguinolento quanto "Darkside Blues", que ficaram impressionados a ponto de perder o sono, e por aí vai. Creio que a maioria destas pessoas passou a infância e adolescência assistindo a algum precursor dos "Teletubbies" 24 horas por dia, porque se impressionar tanto com um animezinho tão chinfrim é um negócio difícil de acreditar.

Mas como eu sou um gato e a curiosidade sempre me mata, lá fui eu conferir este tal de "Darkside Blues", tudo em prol da supracitada "Ação Filantrópica Animehaus 2007". E o início é promissor, um ambiente de pesadelo no qual um relógio invertido e com 13 marcadores (ao invés dos tradicionais 12) é envolvido por uma super teia vermelha... neste local, uma mulher semi-nua e com os seios à mostra é brutalmente torturada por outra. O motivo? 10 terroristas destruíram uma central de controle no QG da Persona Century, poderoso grupo que controla 90% dos continentes através do poder e do dinheiro e que considera os humanos como meros parasitas. O verdadeiro motivo do atentado era matar o presidente da Persona Century, mas as coisas não deram certo e a maioria dos terroristas morreu após a violenta reação da companhia. Tamaki, a tal torturadora, manda-chuva da Persona Century e o verdadeiro demo em pessoa, tortura a terrorista capturada com o intuito de arrancar dela o nome dos demais cúmplices pelo atentado que não morreram após o mesmo... e sua punição, verdade seja dita, é bem dolorosa.

Neste meio tempo, em Kabuki-cho, uma das poucas áreas livres da influência da Persona Century, alguns eventos provocam a junção entre dois universos, uma passagem para o lado escuro se abre e, dela, emerge de uma forma inesquecivelmente bisonha um homem de olhar triste e enigmático, o qual assume o nome Darkside.

Darkside está ligado a estranhos eventos ocorridos 18 anos antes (clichê 1), e em sua chegada conhece Mai, líder do "Messiah", um grupo clandestino que luta para manter Kabuki-cho livre da influència da Persona Century. Carismática e corajosa, Mai conta com a ajuda de fiéis seguidores, incluindo seu braço direito, Kenzo, um fortão gigantesco e com um grande coração. Apesar do tamanho e do jeitão despojado, Kenzo não é apenas um simplório mas, sim, um inteligente engenheiro elétrico, sendo responsável pela criação das bugigangas eletrônicas usadas pelo "Messiah". A situação do grupo se complica ainda mais quando descobrem um dos terroristas sobreviventes e resolvem ajudá-lo a se recuperar dos graves ferimentos antes que possa seguir viagem.

Com isto, podemos resumir a história em poucas linhas: Darkside, o indestrutível (clichê 2), assume o espírito da cidade (!) e, enquanto tenta renovar as pessoas na escuridão através do "Tratamento de Sonhos" (!!), ajuda a Messiah a enfrentar as mais variadas ameaças oriundas da demoníaca família Hozuki, cujos membros controlam a Persona Century e são considerados verdadeiros monstros.


Hmmm... pois é... vamos primeiro aos elogios. Com animação a cargo da J.C. Staff, "Darkside Blues" é realmente um primor em termos técnicos, com uma animação fluida e cuja qualidade não decai em nenhum momento. E por se tratar de uma obra na qual a dicotomia luz-sombra está sempre presente, é preciso elogiar o excelente trabalho de arte, com misturas muito loucas de cores que deixam o ambiente das "trevas", por assim dizer, com um clima de pesadelo que chega a arrepiar. E mesmo se tratando de uma obra cujo roteiro não é o ponto forte, é louvável perceber que pelo menos alguns personagens são muito bons, com motivações plausíveis para os seus atos e até mesmo um histórico psicológico mais ou menos convincente. E o desenho de personagens de Hiro Hamasaki (diretor de Akai Koudan Zillion) é muito diferente e expressivo, ainda que um pouco estranho em alguns momentos.

Os problemas... ah, os problemas... Na parte técnica, a trilha sonora é um "pseudo-blues" que não convence em momento algum. A sonoridade lembra um bom blues americano, mas falta toda a alma e sentimento necessários a este tipo de música. Em relação aos personagens, se é verdade que alguns são bem bolados, outros são puro clichê: os malvadões adoram fazer pose, os galãs andam tão devagar que parecem flutuar no ambiente... em resumo: características puramente "shounen" num anime que deveria ter uma abordagem totalmente distinta. E mesmo o lado shounen é muito mal feito, com lutas que prometem mundos e fundos mas que terminam antes mesmo de começar. Se o espectador espirrar, perde a luta inteira num piscar de olhos.

Como o roteiro não sabia se atacava como "shounen" ou anime de terror, isto se reflete claramente na narrativa ruim e fragmentada em excesso, que repete à exaustão o esquema "monstro do dia", e isto em um anime de apenas 83 minutos de duração. É quase certo que os problemas sejam realmente do roteiro, e não do romance no qual foi inspirado, já que o autor do mesmo é ninguém menos que Hideyuki Kikuchi, criador dos livros que originaram excelentes animes como "Vampire Hunter D", "Wicked City" e "A Wind Named Amnesia". O roteiro tem uma falta de lógica tremenda, principalmente em relação à toda poderosa Persona Century... com o andamento da história, vemos que todo os eventos poderiam ter sido evitados se a Persona usasse o seu poder logo de cara. É como se alguém, ao invés de pisar de uma vez em uma barata que está ao lado de seu pé, resolva treinar primeiro um exército de milhões de pulgas-ninjas e com canhões laser implantados nos olhos para dizimar a tal barata em grande estilo, e com muito mais dificuldade e trabalho.

Como levar a sério um anime no qual os personagens precisam explicar em palavras tudo o que farão em seguida, cujo enredo é baseado num excesso de coincidências idiotas, diálogos pífios e toques cômicos sem timing algum, um conjunto irregular que desemboca num desfecho podre e totalmente previsível? Acham exagero? Bom, não sei quanto a vocês, mas se eu fosse enfrentar um cara e ele dissesse, em tom de bravata, que me aniquilaria com seu raio portátil de 500.000ºC, começaria a rolar no chão, de tanto rir... e tenho certeza que a intenção do comentário não era me fazer rir.



"Darkside Blues" não chega a ser tão horrendo quanto "Sin, the Movie" porque ainda possui alguns lampejos interessantes em seu decorrer, além de ser visualmente arrebatador, mas é uma obra que não recomendo a ninguém. A não ser, é claro, que você se enquadre no perfil daqueles a quem ajudamos em nossa campanha filantrópica supracitada. Se for este o caso, aproveite! Mas não me chame para lhe fazer companhia, por favor... filantropia é uma coisa, masoquismo é outra bem diferente.


Marcelo Reis


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