quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ergo Proxy (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 20/03/2007.

Ano: 2006
Diretor: Shukou Murase
Estúdio: Manglobe Inc.
País: Japão
Episódios: 23
Duração: 30 min
Gênero: Aventura / Drama / Sci-Fi



Manglobe. Guardem bem este nome, pois ele certamente começará a ser citado com cada vez mais freqüência entre os grandes estúdios de animação japoneses. Por sinal, os estúdios famosos como Madhouse, Gonzo e Bones podem colocar as barbas de môlho, porque o Manglobe, com apenas duas obras no currículo, já mostrou que não veio para brincar. É verdade que o Manglobe já começou grande, com um capital de giro considerável e contando com dois experientes profissionais em seu comando, Shinichiro Kobayashi e Takashi Kochiyama, ambos egressos da tradicional e poderosa Sunrise.

Samurai Champloo, sua primeira obra, contou com a presença de ninguém menos que Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop) na direção, e a qualidade e ousadia presentes em todos os aspectos desta série impressionaram aos anime-maníacos. Com isto, a curiosidade para ver como seria a obra seguinte do Manglobe aumentava a cada dia, e os profissionais do estúdio teriam que suar para criar algo que não fizesse feio frente ao sensacional Samurai Champloo.

Valeu a espera. Ergo Proxy é um anime de altíssimo nível, com uma temática ambiciosa e complexa apresentada de forma adulta sem ser exageradamente cerebral. Mas não se poderia esperar algo diferente de uma equipe classe A como esta, a começar pelo diretor Shukou Murase, famoso pelos excelentes desenhos de personagens em obras como Gundam Wing e Gasaraki, mas que mostrou ser também um diretor de mão cheia em sua obra de estréia nesta função, Witch Hunter Robin. Por sinal, Ergo Proxy possui o mesmo estilo sombrio e angular de WHR, e é provável que outras obras futuramente dirigidas por Murase sigam a mesma linha, o que seria algo muito bem-vindo. Com outros feras como o compositor Yoshihiko Ike (KARAS, Dead Leaves), o desenhista de personagens Naoyuki Onda (Ai no Kusabi, Gantz) e o diretor de arte Takashi Aoi (Najica), pelo menos na parte técnica o sucesso estaria garantido.

Mas técnica não é tudo sem o auxílio de uma grande história, e aqui merece destaque o fantástico trabalho de Dai Sato (Samurai Champloo, Wolf's Rain) e sua equipe, que criaram um roteiro complexo e cativante, no qual referências filosóficas e psicológicas são utilizadas a todo momento sem que a narrativa perca o ritmo ou se torne maçante.

Numa arrepiante seqüência inicial, uma entidade semelhante a um demônio, com extrema agilidade e força, escapa durante uma experiência em um laboratório. Uma voz comenta sobre planos malignos do criador, punição a certas pessoas por algo que fizeram e uma certa voz do despertar que é ouvida... palavras aparentemente sem sentido mas que se encaixarão bem no enredo ao longo da história.

Estamos em Romdeau City, o último paraíso existente no planeta, um reduto de civilização num mundo com o meio-ambiente arrasado. Um lugar bonito, onde tudo funciona como um relógio, mas monótono, sem alegria ou emoção. Neste ambiente os humanos são educados desde cedo para se tornarem bons cidadãos, obedientes e comportados, sempre comprando coisas e com os sentimentos reprimidos e constantemente monitorados por um sistema central e automatizado, o qual mantém a existência humana viável dentro de Romdeau.

Os seres humanos são acompanhados por autoraves, andróides programados para se adequarem à mentalidade e necessidade de seu mestre. O surgimento de um vírus de computador chamado Cogito causa uma tremenda comoção na cidade, fazendo com que os autoraves por ele infectados despertem, ganhem consciência e não dependam mais de controle humano. Cidadãos começam a ser assassinados pelas máquinas, e a Inspetora Real Mayer fica encarregada da investigação destes casos.

Filha da elite de Romdeau, Real sempre se sentiu deslocada neste ambiente, como se sentisse, lá no fundo, que algo não estava bem. Ao lado de seu autorave particular, Iggy, Real começa a conhecer um pouco mais sobre a verdadeira face da existência humana em Romdeau, a manipulação de informações, e o surgimento de um imigrante chamado Vincent Law pode mudar não apenas a vida de Real, mas do planeta como um todo. Vincent é uma pessoa apagada que precisa se tornar um bom cidadão, se socializar, o que se torna mais grave em função de seu status de imigrante, classe discriminada e considerada inferior dentro de Romdeau.


É complicado não falar demais sobre o enredo de uma obra tão intrigante mas, para fazer o barco andar, basta dizer que Real vê uma mensagem em seu banheiro, "Despertar", e logo depois é atacada por um monstro gigantesco, assustador, que arrebenta o teto de sua casa e chora ao vê-la. O surgimento de outra entidade igualmente impressionante, o embate entre ambas, tudo isto causa tamanha choque em Real que ela acaba perdendo a consciência. Teria sido verdade tudo aquilo que ocorreu, ou a mente de Real estaria criando coisas que, na verdade, nunca aconteceram? E o que seria, afinal, a verdade neste ambiente tão cheios de desinformações e dissimulações como o existente em Romdeau?

Não dá para falar de Ergo Proxy sem comentar sobre as músicas, desde o excelente tema de abertura "Kiri" (Monoral), passando pela ótima trilha sonora ambiental eletrônica e repleta de ruídos até chegar em uma das músicas mais fodásticas já escritas pelo Radiohead, "Paranoid Android". Só a presença desta música já é um problema para que eu seja o mais isento possível na hora de analisar Ergo Proxy, mas sou um cara experiente, sensato e sei que vou conseguir... será?

Tecnicamente o Manglobe é irrepreensível. Apesar de alguns cenários serem, às vezes, escuros em demasia, o que dificulta a visualização do que ocorre nas cenas, no geral o trabalho é de encher os olhos, com uma animação que chega a doer de tão fluida e um ambiente sombrio, gélido e de desolação. Mesmo a falsa beleza artificial de Romdeau deixa transparecer um quê de tristeza e melancolia, como se fosse apenas uma pálida lembrança da verdadeira beleza natural existente anos antes. O desenho de personagens é um show à parte, com personagens muito expressivos, especialmente Real Mayer, cada um bem diferente do outro e com características físicas que combinam muito bem com a psicologia de cada um. Merece destaque a criatividade e estilo usados no visual dos Proxys, os tais monstros, cujos detalhes são basicamente feitos à base de contrastes entre tons claros e escuros, luzes e sombras. E, assim como o Bones fez em Kurau - Phantom Memory, a equipe de arte do Manglobe criou uma idéia de futuro muito interessante, no qual é nítida a evolução tecnológica de Romdeau sem que, com isto, pareça algo extremamente distante de nossa realidade atual. Vale lembrar que Ergo Proxy, assim como Texhnolyze, possui algumas cenas muito violentas, e talvez algumas pessoas mais sensíveis a este tipo de coisa possam se impressionar um pouco.

Os personagens são todos muito bons. Real Mayer veste desde cedo a máscara de uma pessoa durona e insensível mas, inconscientemente, bem lá no fundo, existe um quê de bondade e alegria prestes a despertar, como os autoraves. E é sempre bom vermos uma série com uma personagem feminina tão forte. Vincent Law começa como alguém moleirão e chato, parecendo até um projeto de Shinji Ikari, mas logo sua complexa personalidade (e põe complexa nisto) começa a dar as caras, e é impossível não se fascinar com o desenrolar de sua história. Temos ainda Pino, uma autorave infectada pelo Cogito que sempre se veste de coelho e se comporta com uma perfeita menininha, ainda que certas dúvidas e atitudes que tem mostram claramente a sua natureza cibernética. E, no campo dos autoraves, não dá para deixar de mencionar o auxiliar de Real, Iggy, um cara tão gente boa e cuja dedicação à garota é tão marcante que chega a nos emocionar para valer. Confesso que o personagem Raul Creed, Diretor-Geral de Romdeau e subordinado ao Entourage (grupo de sábios), não me convenceu muito, e suas motivações pareceram levemente forçadas e, até certo ponto, implausíveis. E temos ainda Daedalus Yumeno, jovem médico que é um verdadeiro prodígio na área da genética e que nutre por Real, desde a infância, um amor não correspondido.

Mas é a história o grande trunfo de Ergo Proxy. Sem abusar do falatório tão comum a tantas séries que utilizam informações filosóficas em seu enredo e, claro, sem diluir o conteúdo de modo a tornar tudo mais palatável ao grande público, Ergo Proxy consegue levantar questões interessantes e manter a narrativa como um todo ainda muito interessante. A necessidade de se ter uma "raison d'être", ou razão de ser, e de ser reconhecido por outras pessoas para que sua existência seja legitimada. O que seriam as memórias e lembranças? O despertar da consciência? E toda a questão do "penso, logo existo" que, aqui, toma um rumo semelhante ao utilizado em Ghost in the Shell... até que ponto a consciência das máquinas deve ser considerada como algo à parte, quando comparadas aos humanos, especialmente numa sociedade em que ambos são praticamente produzidos da mesma forma, em série? A questão da clonagem é tratada com muita propriedade nesta série que, apesar de alguns momentos "monstro do dia", mantém o tom sério e a temática complexa inalterados quase ao longo de toda a narrativa.

É uma pena que os três episódios finais tenham ficado tão corridos e sem nexo em algumas partes, como se a equipe de produção tivesse que suar a camisa para condensar informações de 6 ou mais episódios em apenas 3. O resultado final não ficou ruim, mas daria para ter terminado tudo de forma mais tranqüila e coerente. E não sei quanto aos demais fãs das série mas o episódio do Quiz, apesar de engraçado, ficou muito despropositado no meio do anime. O episódio 19, por exemplo, que critica a Disney de forma nada sutil, abusa do humor mas não pareceu deslocado do conjunto da série, ao contrário deste episódio do Quiz.



Mas tudo bem, cair matando em cima deste anime apenas por estas bobeirinhas não seria justo. Sombria, melancólica, complexa e violenta, Ergo Proxy é uma excelente série que pega firme em temas pesados e, mais uma vez, comprova que os animes têm muito mais a oferecer aos fãs do que apenas pancadaria descerebrada e romances melosos. Nada de errado com isto, concordo, mas um pouquinho de substância para estimular e dar nós no cérebro cai muito bem de vez em quando.

OBS: Vale a pena pesquisar na Wikipedia sobre Jacques Lacan, George Berkeley, Edmund Husserl e Jacques Derrida, grandes pensadores que deram nome aos quatro membros do Entourage. Muitas das idéias criadas e desenvolvidas por eles aparecem com força em Ergo Proxy. E, claro, se levarmos em conta o nome do anime (Ergo Proxy) e o nome do vírus (Cogito), não é difícil chegar à famosa frase supostamente proferida por René Descartes, "Cogito, ergo sum", ou o já citado "penso, logo existo". Como "proxy" pode ser traduzido como "intermediário" ou "substituto", basta juntar os pontinhos para chegar às conclusões.


Marcelo Reis


 

4 comentários:

  1. Ola Marcelo gostava muito do Animehaus, muitos animes que assisti conheci lá, pelo menos as rewiens estão vivas aqui no blog, mesmo sem aquela facilidade de navegação do antigo site.
    Abraço e Parabéns por esse grande trabalho.
    Conheça meu blog e canal do youtube
    http://supercrix.blogspot.com.br/2013/07/animabc-2013-domingo-dia-0906-palestras.html
    http://www.youtube.com/user/Supercrix12

    ResponderExcluir
  2. Olá, Cristhiano.

    Valeu pela mensagem aqui no blog.

    Dei um pulo no seu blog e vi que você é fã de Rammstein: banda da pesada, sou fã também. ^_^

    ResponderExcluir
  3. Rapaz, um dos meus animes preferidos de todos os tempos, apesar do final ser corrido, acho que cortaram a verba para os dois ultimos episodios. Se não me engano o production ig ainda estava se estabelecendo nessa época. É cada vez mais raro encontrar animes sérios, realmente sérios, com tons obscuros atualmente, e acho que quase sempre. Desenhos japoneses são um produto que em 95 porcento dos casos são voltados para o público mais infantil, isso é um fato. O plot pode ser meio batido abordando temas como IA, vontade própria das máquinas, e uma sociedade controlada por pequena elite. Mas foda-se, nunca me canso desses temas, e abordar um tema várias vezes não escasseia suas possibilidades. No mais os temas são bem abordados, tem-se a confusão de que até hoje não sei direito o que são os proxies senão entidades que podem salvar o planeta ou coisa parecida, mas isso não ficou muito claro. No mais os personagens são muito bem trabalhados, principalmente por conta com um pequeno núcleo central, Re-L é extremamente mimada, mas gosto dela. Se eu fosse recomendar um anime para você, diria juuni kokuki, seria o anime que eu desejaria assistir perto de minha morte, ou seja, foi um dos melhores, senão o melhor que assisti até hoje. Tenho quase certeza que você nao assistiu. 45 episódios, mas passa bem rápido.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi mal a demora, cara! Andei desligadaço do blog nos últimos meses, muita coisa rolando no dia-a-dia. ^^"

      Olha, os animes do Noitanima ainda são muito bons, sempre tem alguma coisa com uma temática mais adulta. E você tem razão sobre abordagens diferentes de um mesmo tema: no fundo, ideías 100% originais não existem mais em termos de conteúdo narrativo, o que cativa é a maneira como certos temas básicos são apresentados.

      Rapaz, estou precisando assistir Juuni Kokki não é de hoje. Não conheço uma única pessoa que tenha assistido à série e não tenha considerado-a uma obra-prima.

      Excluir