quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Feeling from Mountain and Water (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/10/2008.

Alternativos: Shan Shui Qing; Love of Mountain and River; Feelings of Mountains and Waters
Ano: 1988
Diretor: Te Wei
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 19 min
Gênero: Drama



Apesar do nome, a Revolução Cultural que se realizou na China entre 1966 e 1976 acabou com toda a estrutura cultural e artística do país durante o período em que esteve em vigor. No caso da animação, por exemplo, a China havia assombrado o mundo em 1961 e 1964, com o longa-metragem dividido em duas partes "Uproar in Heaven", inspirado no famoso livro "Hsi Yu Chi", também conhecido como "Saiyuki" ou "Journey to the West". Infelizmente, a Revolução Cultural colocou um freio nesta contínua evolução da animação dentro do país, a qual somente voltou a viver tempos áureos com o término da dita "Revolução".

Te Wei sentiu na pele os cruéis efeitos da Revolução Cultural. Diretor do Shanghai Animation Studio de 1950 a 1964, Te Wei foi torturado e passou um ano em prisão domiciliar, sendo exilado em seguida para trabalhar no campo, no interior da China. Após a Revolução Cultural, Te Wei reassumiu a direção do Shanghai Animation Studio de 1976 até 1984, e só voltou a dirigir uma animação em 1988, 25 anos após ter realizado o maravilhoso "The Cowboy´s Flute". Aos 73 anos de idade, o mestre provou que o tempo manteve seu talento intacto, e realizou sua grande obra-prima com este maravilhoso "Feeling from Mountain and Water".

Mais uma das raras obras de animação que utilizam a técnica da aquarela, "Feeling..." acompanha a trajetória de um senhor que, sempre carregando um pacote comprido, atravessa um rio com o auxílio de uma jovem barqueira, a qual toca uma melodia alegre em sua flautinha o tempo todo. Após passar mal e ser acudido pela garota, o senhor toca com maestria um instrumento de cordas chamado "guqin". Percebendo o interesse da jovem pelo mesmo, resolve retribuir a calorosa acolhida que teve, ensinando a garota a tocar o instrumento.

Assim como "The Cowboy´s Flute", "Feeling..." não possui um único diálogo, o que facilita a apreciação da obra por pessoas de todo o mundo. Toda a parte sonora se compõe dos efeitos do ambiente e das músicas tipicamente chinesas tocadas pelo senhor e pela jovem no "guqin".


Visualmente, "Feeling..." é não menos que assombroso. Desta vez, a equipe responsável buscou replicar o estilo de pintura "Shan Shui", basicamente caracterizado pela representação de paisagens naturais, como rios, montanhas e desfiladeiros. O próprio nome em chinês desta animação, "Shan Shui Qing", já reflete o estilo utilizado. É claro que os personagens têm importância fundamental na obra, mas a paisagem é tão ou mais importante que os mesmos, tanto que as próprias músicas tendem a acompanhar o que se passa no ambiente.

Se as obras anteriores de Te Wei já impressionavam em termos visuais, "Feeling..." resolve jogar o queixo do espectador no chão de uma vez. A animação dos rios é de uma perfeição singular, e os personagens com traços bem orientais possuem uma riqueza ímpar de expressões faciais e corporais, tudo bem condizente com a idade e o comportamento de cada um.

"Feeling..." trabalha muito com a questão do "antigo" e do "novo". O senhor parece seguir rumo ao ocaso e ao descanso, enquanto a jovem, com sede de aprender, tem toda a vida ainda pela frente. O adulto, calmo e sereno, assume o papel de mestre, para ajudar a pessoa mais jovem a ganhar asas e seguir seu caminho sozinha. O interessante é que mesmo sem uma linha de diálogo, percebe-se nitidamente o afeto sincero que surge entre o senhor e a jovem, algo importante para que o desfecho da história funcione da forma desejada.



"Feeling from Mountain and Water" tem um clima mais melancólico que as demais obras de Te Wei, talvez por influência dos tempos difíceis vividos por ele durante a Revolução Cultural. Vencedor de alguns prêmios de animação em Montreal (Canadá) e Shanghai (China), é tecnicamente irrepreensível, conta uma sensível história sobre o amadurecimento e a separação e, apesar do ritmo contemplativo, passa num piscar de olhos. É uma obra imprescindível para qualquer pessoa que curta uma animação mais adulta e de altíssima qualidade, e que queira conhecer mais um pouco sobre o rico universo das animações chinesas.


Marcelo Reis


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