quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Genius Party (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 09/10/2009.

Ano: 2007
Diretor: Vários
Estúdio: Studio 4ºC
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 100 min
Gênero: Sci-Fi / Cyberpunk / Adulto


Projeto do Studio 4ºC que contaria com 14 animações dos mais variados artistas, os quais teriam a liberdade de criar o que quisessem, desde que o tema central girasse em torno do "espírito da criatividade", por assim dizer. No fim das contas, apenas sete das obras originalmente programadas entraram em "Genius Party". Das sete obras restantes, cinco foram lançadas posteriormente numa nova coletânea chamada "Genius Party Beyond", apesar de já estarem prontas no momento do lançamento do "Genius Party" original. As duas obras restantes, "Le Manchot Mélomane", do francês Nicolas de Crécy, e um projeto sem título de Hiro Yamagata, acabaram ficando de fora de ambas as coletâneas.

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Genius Party (direção de Atsuko Fukushima)

Esta animação curtinha já mostra de cara o porquê do Studio 4ºC ser tão cultuado entre os fãs de animação, em função da excelência técnica e do caráter experimental de suas obras. Uma espécie de pato esquisito, aparentemente feito de retalhos e com um olho esbugalhado, corre por um campo repleto de, sei lá, bolas de beisebol com olhinhos na cara e coraçõezinhos na cabeça. O pato é temido pelas bolinhas de beisebol, pois tudo o que ele quer é sugar seus coraçõezinhos. Mas em seqüências viajandonas repletas de cores, animadas com brilhantismo e embaladas por uma trilha sonora eletrônica empolgante, uma das bolinhas mostra que basta alguém começar a agir e se destacar da massa para que as idéias novas comecem a se espalhar. Original, divertido e tecnicamente sublime, "Genius Party" abre com chave de ouro esta coletânea.

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Shanghai Dragon (direção de Shôji Kawamori)

Na 2a metade do século XX, Gongrong, um menino melequento que adora desenhar o tempo todo, é motivo de chacota de todos os colegas de sua escola em Xangai, China. A única pessoa que o defende é Meihua, uma garota corajosa e que gosta dele. De repente, algo cai do céu e cria uma enorme cratera, de dentro da qual sai uma espícula azul de cristal. Gongrong mal imaginaria que aquela coisinha reluzente o levaria a combater robôs e naves gigantescas, tudo graças à sua tremenda criatividade.

De cara chama a atenção o fato de "Shanghai Dragon" ser todo falado em mandarim, o que dá mais autenticidade à obra. Além disto, é um deleite poder ver toda a criatividade de Shôji Kawamori em termos de "design" de robôs e naves aliada à fantástica técnica dos profissionais do Studio 4ºC. Animações em 2D e 3D perfeitamente integradas, tomadas de câmera louquíssimas em cenas de ação para lá de alucinadas. Mas o fator mais surpreendente é ver Kawamori, geralmente tão afeito a obras mais sérias, criar um anime com tiradas cômicas geniais. Tudo isto em uma história interessante que fala da importância de se manter a criatividade e a alegria em todas as fases da vida. Talvez a narrativa não tenha aquele toque experimental tão típico das obras do Studio 4ºC, mas quem disse que é preciso reinventar a roda todos os dias?

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Deathtic 4 (direção de Shinya Kimura)

Um garoto de olhos esbugalhados e com uma mãe horrorosa vive num mundo que mais parece um pesadelo, no qual ser considerado fedorento é um enorme elogio. Mas em se tratando de um mundo de zumbis, as coisas não poderiam mesmo ser diferentes.

Certo dia, enquanto se encaminhava para a escola, o garoto vê um sapo cair do céu e parar direto num lago. Um ser vivo num mundo de zumbis? Que horror! Para evitar problemas com a polícia dos zumbis, o garoto pede ajuda a Blaze, Ashe e Posse, três auto-denominados "super-heróis", para que possam devolver o sapo a seu mundo através do buraco Uzu-Uzu, um portal que comunica o reino dos mortos com o mundo dos vivos.

O visual todo distorcido de "Deathtic 4" lembra o pouco o estilo de "A Noiva-Cadáver", de Tim Burton, e o clima de estranheza é ajudado por uma trilha sonora bizarra e esquisita. A criatividade transborda por todos os cantos, mas é uma pena que o próprio ritmo do anime seja tão estranho quanto o mundo que retrata, o que deixa "Deathtic 4" menos engraçado e assustador do que deveria.

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Doorbell (direção de Yoji Fukuyama)

Um estudante começa a vivenciar estranhos eventos, como se várias cópias de si mesmo começassem a aparecer o tempo todo. Sem saber se está enxergando outras dimensões ou outros universos, o rapaz sente que está perdendo sua vida para suas cópias, e precisa tomar providências a respeito.

Este curta parecia muito promissor no papel, mas o resultado final ficou muito aquém do esperado. Para começar, chega a ser estranho dizer que uma obra do Studio 4ºC decepciona nos aspectos técnicos, mas é isto o que acontece aqui. "Doorbell" possui cenários simples demais e uma animação falsa, com uma integração muito fraca entre 2D e 3D, mais parecendo um OVA feito a toque de caixa. O ritmo é muito estranho, truncado, embalado por uma trilha sonora besta que não combina em nada com os eventos descritos. Para piorar, o enredo não diz a que veio em momento algum, além de não fazer nenhuma alusão ao tema central de "Genius Party", que é a criatividade. Não chega a ser horrível, mas é medíocre. Bem medíocre.

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Limit Cycle (direção de Hideki Futamura)

Gaaah, que anime chato! Longo, maçante e prolixo, "Limit Cycle" é basicamente uma colagem de animações estilizadas em CGI e com uma narração monótona e eterna usando as idéias mais batidas sobre as dicotomias "emoção e razão", "real e virtual", "Deus e ciência", "instinto e conhecimento", e assim por diante. Para aqueles que tentam descobrir uma forma de manipular o tempo, "Limit Cycle" consegue esta proeza, transformando seus quase 19min de duração em momentos excruciantes que parecem durar 10 vezes mais.

O anime tem seus méritos, com algumas seqüências visualmente belas e inspiradas, especialmente uma que mostra os "prazeres da carne", por assim dizer. Mas como curtir qualquer coisa em uma obra chata, com um narrador monotônico e tedioso que desfila um verdadeiro tratado de masturbação filosófica? Confesso que tive a tentação de largar "Limit Cycle" pela metade, mas como eu precisava escrever a resenha, fui obrigado a fazer este sacrifício. Estão me devendo esta, caros leitores!

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Happy Machine (direção de Masaaki Yuasa)

Um bebê se diverte com um brinquedinho cheio de cores em seu quarto enorme, no qual nada é de verdade, apenas simula a realidade. Mas quando este brinquedo pára de funcionar e sua mãe virtual literalmente se esvazia como um balão, o garoto sai de sua cama e acaba caindo num mundo real muito bizarro, no qual fica com cara de porquinho. (!)

"Happy Machine" tem a cara de seu diretor Masaaki Yuasa, que já havia provado em "Mindgame" que era capaz de criar obras surreais e interessantes. A criança explora com curiosidade um mundo muito louco onde tudo é novidade, com direito a um "cãozinho" verde que adora beber xixi e cujo cocô gera árvores instantâneas. Com cores fortes e chapadas e uma animação de alto nível, "Happy Machine" fala do ciclo de nascimento, morte e renovação que ocorre desde que o mundo é mundo, talvez querendo dizer que é preciso estar sempre em busca de algo novo, sob risco de estagnar e parar no tempo.

"Happy Machine" acaba pecando por ser meio chatinho, pois acaba se tornando bem repetitivo com o passar do tempo. O anime seria bem melhor com alguns minutos a menos, mas é interessante. Não chega a ser um "Cat Soup", mas vale a pena.

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Baby Blue (direção de Shinichiro Watanabe)

Shou é um rapaz reservado, estudioso e considerado um aluno-modelo em sua escola. Por isto a surpresa de sua amiga Hazuki quando ele pergunta se ela não gostaria de "matar aula", vivendo aquele dia sem pensar no amanhã e no futuro. Amigos próximos durante a infância, Shou e Hazuki acabaram se afastando um pouco à medida em que cresciam. A experiência de passarem um dia inteiro juntos, sem se preocuparem com nada, permitiu que pudessem se ver novamente como eram na infância, sem máscaras sociais que ocultassem suas verdadeiras personalidades.

Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop) criou uma pequena pérola sobre a separação e as desilusões durante a adolescência, alternando entre momentos cômicos e tensos com uma fluidez narrativa notável. Usando um estilo visual bem realista que lembra bastante as obras de Makoto Shinkai, Watanabe teve o mérito de não cair no romantismo meio piegas que às vezes permeia a obra do criador de "Hoshi no Koe".

Além de contar com a ajuda da sempre talentosa Yoko Kanno, que criou mais uma trilha sonora excelente voltada ao "blues", Shinichiro Watanabe ainda teve dois nomes de peso como dubladores de Shou e Kazuki: Yuuya Yagira, que venceu o prêmio de melhor ator em Cannes em 2004 por "Ninguém Pode Saber", e Rinko Kikuchi, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "Babel". Ambos trazem uma aura melancólica aos dois personagens principais, que percebem o quanto a vida de ambos poderia ter sido diferente se tivessem tirado suas "máscaras" com mais freqüência.

Se "Genius Party" abriu esta coletânea com chave de ouro, "Baby Blue" repete a dose no fechamento.

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Infelizmente é preciso avaliar o conjunto da obra, e "Genius Party" é bem irregular neste aspecto. Uma coletânea que teoricamente reuniria um "bando de gênios", de acordo com o seu próprio nome, não poderia ter uma obra medíocre como "Doorbell", e muito menos um poço de auto-indulgência insuportável como "Limit Cycle". Mas os outros grandes momentos acabam compensando, e muito, estes deslizes.


Marcelo Reis


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