quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Hakuja-Den (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/08/2008.

Alternativos: Hakujaden; Legend of the White Snake; Panda and the Magic Serpent
Ano: 1958
Diretor: Kazuhiko Okabe / Taiji Yabushita
Estúdio: Toei Animation
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 78 min
Gênero: Aventura / Romance / Fantasia


Produzido em 1958, "Hakuja Den" é considerado o primeiro longa-metragem japonês de animação em cores, e foi a segunda animação produzida pelo hoje famoso estúdio Toei Animation (a primeira foi o curta-metragem "Little Kitty´s Graffiti"). Baseado no popular conto chinês "Bai She Zhuan", "Hakuja Den" tem um estilo bem diferente daquele ao qual geralmente associamos os animes, como personagens de olhos grandes e com traços estilizados. Em termos narrativos e visuais, "Hakuja Den" tem mais semelhança com as animações produzidas nos EUA por Walt Disney e Max Fleischer, por exemplo, incluindo a presença de canções e danças que têm importância no enredo.

Numa bela seqüência de abertura simulando um teatro de fantoches de vara, somos apresentados à história de "Hakuja Den". Um garoto compra uma serpente branca e imediatamente eles se tornam amigos. Mas a pressão e a ameaça dos adultos obriga o garoto a se separar de sua grande amiga serpente. Na despedida, ela lhe pede que não se torne um adulto insensível quando crescer, e que continue a ser tão bondoso quanto em sua infância.

Muito tempo depois, um furacão de origem sobrenatural assola a região de Hsi Hu, na China, e em seu rastro surgem duas garotas, a bela Pai Niang e sua ajudante Hsiao Ching. Pai Niang, na verdade, é o espírito da serpente branca que surgiu na Terra em forma humana e quer se reencontrar com o antigo amigo, hoje um belo jovem chamado Hsu Hsien. Sempre acompanhado de seus dois animais de estimação, o panda-gigante Panda e o panda-vermelho Mimi, Hsu Hsien fica intrigado com um instrumento de cordas que parece reverberar ao som de sua própria flauta, e mais intrigado ainda com a bela jovem que leva o tal instrumento. Mas a presença do Reverendo Hokai, um "bonzo" que afasta os seres sobrenaturais da Terra, representa um grande perigo para um possível reencontro entre os dois antigos amigos.

"Hakuja Den" é uma obra que impressiona em termos técnicos com sua excepcional animação e o belo colorido em tons pastéis. Os personagens humanos possuem movimentos suaves e elegantes, enquanto os animais têm um jeitão mais faceiro e brincalhão. Alguns detalhes nos cenários são de encher os olhos, como a perfeição dos reflexos na água e o uso de desfoque, opacidade e transparência para aumentar a sensação de profundidade. E como o enredo é baseado numa obra literária da China, a cultura deste país é muito bem representada através das músicas típicas, dragões, acrobatas com pratos e até mesmo um engolidor de espadas que... bem... só vendo mesmo. Por sinal, muitos devem estranhar porque o Japão escolheu uma obra chinesa para servir como base para sua estréia nos longas de animação. Isto aconteceu porque o Japão adotou uma política de reconciliação pós-guerra com seus vizinhos asiáticos, em especial com a China, algo parecido com a Política da Boa Vizinhança adotada pelo governo norte-americano perante os vizinhos latino-americanos e que levou Walt Disney a criar a obra "Alô Amigos!"


A história simples e inocente versa sobre temas como honra, lealdade, coragem e amizade, mas possui muitos toques de magia e eventos sobrenaturais. Por ser o primeiro longa de animação da Toei, a capacidade de síntese narrativa ainda precisava de alguns retoques. Isto pode ser exemplificado com o uso excessivo de narrações para explicar o enredo, assim como o andamento meio truncado ao longo da obra. O terço final, em especial, é bem arrastado, com eventos visualmente interessantes mas um pouco idiotas e que não levam a nada. Um detalhe muito curioso: apenas dois seiyuus, Hisaya Morishige e Mariko Miyagi, fizeram todas as vozes em Hakuja Den, um feito impressionante.

Os personagens humanos são interessantes, mas o romantismo e o melodrama excessivos atrapalham um pouco, deixando-os um pouco maniqueístas. Hsu Hsien, por exemplo, é bonzinho em excesso e é feito de gato e sapato por quase todo mundo, nunca tomando uma atitude quando necessária. Os personagens animais, por outro lado, são bem mais convincentes, e o anime flui muito melhor sempre que estão em cena. Panda e Mimi são fiéis ao seu amo e fazem de tudo para ajudar o seu reencontro com a serpente branca, e os momentos em que enfrentam uma inusitada gangue de ladrões são, de longe, a melhor parte da obra.

Algumas curiosidades:

-"Hakuja Den" venceu o Prêmio Especial da seção infantil do Festival de Veneza em 1959, e foi o primeiro anime exibido nos EUA, em 1961;

-Um de seus diretores, Taiji Yabushita, acabou dirigindo outros clássicos como Shonen Sarutobi Sasuke, Sinbad no Bouken e Alakazam the Great;

-Na versão americana, o panda-vermelho Mimi foi chamado de gato;

-Por sinal, o panda-vermelho é o símbolo do Mozilla Firefox, pois um de seus nomes em inglês é justamente "firefox".



"Hakuja Den" não chega a ser brilhante em termos de enredo e narrativa, mas a importância histórica deste anime é inegável, pois foi graças a ele que a Toei Doga começou a ser tornar a potência que é hoje e, claro, foi com "Hakuja Den" que a indústria japonesa de animes deu seus primeiros passos. Não menos importante é o fato de vários grandes animadores, como Hayao Miyazaki, Isao Takahata e Rin Taro, terem começado a carreira justamente na Toei, e isto só foi possível graças ao surgimento desta obra tecnicamente primorosa, ainda que inocente e melodramática em demasia.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Um clássico. Tem um tom bem ocidentalizado de animação e narrativa.

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    1. Exatamente, ele tem muito mais semelhanças com animações ocidentais da época do que com características que usualmente associamos a animes.

      Por sinal, estou precisando resenhar mais animações desde período.

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