quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Hitsuji no Uta (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/04/2006.

Alternativos: Sheep's Song, Lament of the Lamb
Ano: 2003
Diretor: Gisaburô Sugii
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 4
Duração: 30 min
Gênero: Cyberpunk / Terror / Romance



Anime estranho, este... tudo o que poderia se tornar um atrativo especial acaba tendo um efeito contrário. Apesar de contar com a Madhouse na animação, a qualidade técnica deixa a desejar; é uma série curta de apenas 4 OVAs, mas o tempo parece não passar por causa do ritmo modorrento; a história promete mas não engrena nunca, nem como drama, nem como terror; e a trilha sonora, que no início até lembra um pouco Boogiepop Phantom, praticamente se resume à mesma vinheta eletrônica enfadonha repetida "ad infinitum".

Uma pena, já que a premissa a partir da qual se desenvolve toda a história é realmente interessante: a presença de vampiros no mundo real, não no sentido mitológico ao qual estamos acostumados (sensíveis à luz solar, etc) mas, sim, por uma razão científica. No caso, em relação ao que acontece dentro da família Takashiro, cuja linhagem é acometida por uma raríssima doença sangüínea...

Mas vamos por partes, e voltemos ao início. O jovem Kazuna Takashiro perdeu a mãe quando jovem e foi abandonado logo depois pelo pai, um eminente e respeitado médico. Vivendo com amigos dos pais desde então, aos quais chama de "tios", Kazuna tem uma aparência cansada e macilenta, com um olhar triste e marcado, sempre com a sensação de que foi realmente jogado de lado pela família.

Mas isto não impede que ele viva normalmente, com amigos e mesmo uma paixão reprimida por Yaegashi, estudante da mesma escola que participa do Clube de Artes e que nunca sorri. Certo dia, enquanto conversavam, Yaegashi machuca a mão, que começa a sangrar... ao ver o sangue, Kazuna entra em parafuso, surta completamente e acaba desmaiando, sem entender o que aconteceu. Nesta mesma época, Kazuna começa a ter sonhos estranhos, visões, lembranças do passado, e ainda é informado por seu tio que possui uma irmã mais velha, com problemas de saúde e que vive com o pai desde que o mesmo saiu de casa.


Para resumir, Kazuna acaba se encontrando por acaso com a irmã, Chizuna, ao visitar a antiga casa da família. Chizuna possui uma postura distante, meio gélida, e informa a Kazuna tudo sobre a família Takashiro, a morte do pai e a grande revelação: ambos são vampiros. Conforme o comentado no início da resenha, os membros da família não se tranformam em morcegos nem fogem correndo de alho ou crucifixos... no caso, sofrem de uma doença genética que causa fortíssimos espasmos e uma incontrolável vontade de morder o pescoço de alguém para sugar o sangue da mesma. Chizuna explica que todos os membros da família acometidos pela doença no passado morreram (suicídio, outras doenças ou mesmo por insanidade completa). Kazuna ainda não despertou completamente como "vampiro", mas a irmã já é, digamos, uma "vampira consolidada", e sente que sua presença ao lado do irmão será fundamental para que o mesmo se adapte de forma mais tranqüila à sua nova realidade.

Baseado no mangá homônimo de Kei Toume, Hitsuji no Uta ("Canção dos Cordeiros") contou com a direção de Gisaburo Sugii, profissional com muitos anos de estrada e responsável por obras tão diferentes quanto "Street Fighter II: The Movie" e "Night on the Galactic Railroad". Em Hitsuji no Uta, Sugii atuou com mão extremamente pesada, tentando de todas as formas transformar o anime em algo artístico, com uma narrativa fragmentada e muito lenta, intercalada por momentos puramente esquizofrênicos. Por não conseguir encontrar o tom adequado para a história, a direção de Sugii causa um efeito colateral sério, que é a total falta de empatia com o público. As crises espasmódicas, por exemplo, são agitadas, os personagens se contorcem, gritam, a música de fundo é alta e desesperada, mas em nenhum momento o "mise-en-scène" realmente pega o espectador pelo cangote. Falando em música, não me lembro de uma trilha sonora mais irritante do que esta... a tal vinhetinha eletrônica é legal na primeira vez, na segunda já começa a irritar... fácil imaginar a sensação quando ela toca pela trigésima vez, não?

Geralmente o nome Madhouse é sinônimo de qualidade em animação, mas em Hitsuji no Uta isto não ocorre. Apesar do bom clima de desamparo passado pelas cores suaves e, ainda, pelo capricho na criação dos detalhados cenários de fundo, a animação como um todo é realmente decepcionante, com um abuso de imagens paradas e repetição de seqüências. Os momentos de crise chegam a ser engraçados em função disto, já que praticamente todo o clima é dado pelas imagens de fundo em movimento contínuo.

Mas South Park é prova de que uma animação tosca pode gerar um produto muito bom, o que não é o caso aqui. Ainda que a animação seja muito superior do que em South Park (aí seria até sacanagem, né?), o conteúdo é muito fraco, principalmente quando o relacionamento entre Kazuna e Chizuna começa a ficar cada vez mais forte, de uma forma completamente forçada e irreal. O ritmo da narrativa fica cada vez mais irritante, e os diálogos, sofríveis. Como exemplo, um momento inesquecível ocorre em uma inacreditável crise de Kazuna... ele grita, se contorce, faz caretas, espuma como um cãozinho raivoso... e Chizuna, "genial", pergunta: "Está tendo um espasmo?". E existe algo que não dá para entender de forma alguma do ponto de vista lógico: como alguém pode preferir manter uma doença tão séria em segredo ao invés de procurar algum centro de pesquisa, mesmo sabendo que a morte é algo quase certo no final da estrada?



As coisas melhoram um tiquinho de nada rumo ao final (apesar do dramalhão), mas uma obra não pode ser analisada apenas por uma ou outra parte: o conjunto é o que importa. Neste aspecto, Hitsuji no Uta é uma grande decepção, um anime que não acerta no drama nem no suspense, com personagens formulaicos e, de quebra, talvez o pior trabalho de animação da Madhouse em anos.


Marcelo Reis


 

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