quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Kaiba (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/02/2011.

Ano: 2008
Diretor: Masaaki Yuasa
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 12
Duração: 24 min
Gênero: Aventura / Drama / Sci-Fi


A morte de Satoshi Kon em agosto de 2010, com apenas 46 anos, e a idade cada vez mais avançada de grandes diretores como Hayao Miyazaki, Isao Takahata e Rintaro deixa os fãs de animes com a pulga atrás da orelha. Claro, ainda há muita gente boa das antigas em atividade (Mamoru Oshii, Katsuhiro Otomo, Yoshiaki Kawajiri) e que terá, em tese, uma longa estrada pela frente. Mas, e a longo prazo? Em quem podemos apostar como possíveis sucessores destes nomes consagrados? Muito se fala dos independentes Makoto Shinkai (Hoshi no Koe) e Shuhei Morita (Freedom), além de outros ligados a grandes estúdios, como Kenji Kamiyama (GITS-SAC, Higashi no Eden), Mamoru Hosoda (Toki wo Kakeru Shoujo, Summer Wars) e Kenji Nakamura (Mononoke, Kuuchuu Buranko). Difícil imaginar esta lista sem a presença de Masaaki Yuasa (MindGame, Kemonozume, The Tatami Galaxy), que sempre consegue imprimir uma marca visual e narrativa inconfundível às suas obras.

"Kaiba" é mais um anime dirigido por Masaaki Yuasa, baseado numa idéia original do próprio diretor. A história se passa num mundo no qual as memórias e personalidades das pessoas ficam contidas num triângulo enfiado no topo da cabeça. Os ricos vivem bem no alto, mergulhados na opulência e nas drogas, enquanto os pobres vivem embaixo, na miséria, separados dos ricos por nuvens elétricas que não podem ser atravessadas, sob pena de terem seus triângulos apagados.

Para completar a desgraça, os pobres são caçados impiedosamente a mando do Rei, uma vez que seus corpos valem muito dinheiro. À medida em que os corpos dos ricos vão envelhecendo, eles precisam de corpos jovens para inserir suas memórias neles e, assim, continuarem a viver eternamente. Parentes vendem parentes por puro interesse financeiro, enquanto outras pessoas vendem os próprios corpos para ajudar as famílias, na esperança de que possam renascer num novo corpo. Mas, infelizmente, este é um triste universo no qual todas as lembranças e experiências de vida de uma pessoa não valem simplesmente nada, e podem ser apagadas e modificadas com a mesma rapidez com que editamos arquivos em nosso computador. E com bancos de dados simplesmente lotados, "pessoas" são "apagadas" com a maior naturalidade.

É neste mundo que acorda Kaiba, um garoto de cabelos verdes com um estranho buraco no peito e um pingente no pescoço, contendo a foto de uma mulher desconhecida. Mas o que mais chama a atenção em Kaiba é o fato de ele não possuir memória alguma, algo inimaginável neste universo. E à medida em que acompanhamos sua jornada para recuperar suas memórias, num ambiente "sui generis" em que personalidades femininas podem habitar corpos masculinos, e vice-versa, ou idosos podem viver em corpos de bebê, vamos sabendo mais e mais sobre o porquê deste mundo funcionar desta maneira, e de que modo Kaiba influenciou (e ainda pode influenciar) o desenrolar dos acontecimentos de forma decisiva.


Tecnicamente, "Kaiba" é mais um trabalho espetacular da Madhouse, com uma animação de fluidez notável, especialmente em se tratando de uma série de TV. Com um visual de cores chapadas e com predominância de tons pastéis, "Kaiba" tem muitas semelhanças estéticas com as antigas obras de Osamu Tezuka, como "Tetsuwan Atom", especialmente o desenho de personagens, a cargo de Nobutaka Ito (Kemonozume). A princípio, temos a impressão de estarmos vendo um mundo de "algodão-doce", por assim dizer, já que tudo é bem arredondado e fofinho. Muita gente acaba não querendo ver este anime justamente em função de seu visual diferente, o que é uma pena, pois este contraste entre visual infantil e temática adulta dá um charme todo especial a "Kaiba". Por exemplo, quando as pessoas tomam um tiro, elas viram uma espécie de "plasta" colorida, e o espectador se assusta ao ver que uma cena nada chocante em termos visuais acaba sendo emocionalmente mais forte justamente em função disto. E isto sem contar as pirações visuais em momentos como a exploração das memórias ou durante tudo o que ocorre em Abipa, o Planeta Utópico. E para quem vê as imagens bonitinhas e não acredita muito quando falo em temática adulta, esperem até ver as cenas de sexo.

Todo o trabalho de som é incrível. Desde a trilha sonora eletrônica piradaça de Kiyoshi Yoshida (Toki wo Kakeru Shoujo) aos efeitos sonoros, tudo combina às mil maravilhas com a proposta visual e narrativa de "Kaiba". E os belos e lentos temas de abertura, "Never", e encerramento, "Carry Me Away", ambos cantados por Seira Kagami, possuem letras que têm tudo a ver com a história (ter alguém ao seu lado, não sentir-se só).

"Kaiba" tem o mérito de ser uma série com um enredo muito complexo sem que, com isto, caia na monotonia e no falatório chato de tantas obras ditas "cabeça". Aqui, emoção, diversão e conteúdo andam juntos, e chega a ser surpreendente que uma obra que ataca em tantas frentes (religião, política, filosofia) consiga fazê-lo de forma tão coerente e agradável. A direção de Masaaki Yuasa alterna com maestria momentos de ação e humor com outros devastadores do ponto de vista emocional. É realmente de partir o coração ver que, num universo em que as memórias podem ser invadidas e modificadas, é quase impossível saber até que ponto determinada pessoa é realmente única. Se as experiências ao longo da vida acabam não valendo grande coisa, qual o motivo para se viver, afinal? A quantidade de perguntas que surgem são para deixar qualquer um tonto. O que é a memória? As pessoas têm uma alma ou suas personalidades são apenas dados? Quem é a garota da foto, e qual a sua importância na trama? Quem, ou o quê, é Kaiba? E felizmente, por mais que o anime pareça confuso em alguns momentos, no fim das contas tudo se explica.



Em minha humilde opinião, "Kaiba" é um anime quase perfeito, que só se perde um pouco quando começa uma certa trama política rumo ao final. Não que ela seja ruim de todo, mas além de ser apresentada de forma meio corrida e com alguns furos, ainda quebra um pouco o ritmo da emocionante jornada de Kaiba. Mas não deixem este comentário de "crítico-cri-cri" desanimá-los. "Kaiba" é um dos grandes animes dos últimos anos, que consegue fazer o espectador pensar, refletir e se emocionar para valer. Se Masaaki Yuasa continuar nesta sequência ininterrupta de boas obras, o futuro será promissor para os fãs de bons animes.


Marcelo Reis


 

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