quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Kakurenbo (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/09/2006.

Alternativos: Kakurenbo - Hide and Seek
Ano: 2004
Diretor: Shuhei Morita
Estúdio: CoMix Wave / Yamatoworks
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 25 min
Gênero: Terror / Mistério


A evolução tecnológica tem trazido muitas facilidades para a população, através de telefones celulares cada vez mais eficientes, internet rápida, iPods, máquinas fotográficas e filmadoras digitais, e assim por diante. Vários profissionais também foram altamente beneficiados por esta tecnologia onipresente, como músicos, produtores de jogos eletrônicos, escritores e, claro, animadores. Hoje em dia, é possível que uma pessoa consiga seu lugar no mercado sem a necessidade de trabalhar em uma grande empresa: se tiver o talento para fazer um bom trabalho e conseguir fazer uma bela divulgação do mesmo usando a internet, tem grandes chances de obter sucesso.

Em relação ao mundo da animação, a referência máxima continua sendo Makoto Shinkai, que apareceu em grande estilo com o belíssimo OVA "Hoshi no Koe", cujo sucesso abriu as portas para que pudesse realizar o igualmente belo longa-metragem "Beyond the Clouds". Considerado uma das maiores promessas da animação e com chances de se tornar um dos grandes nomes do futuro, Makoto Shinkai é a prova viva de que o talento puro ainda tem lugar no mercado.

Seu sucesso serviu de estímulo para muita gente talentosa em todo o Japão, pessoas com muitas idéias e uma enorme vontade de trabalhar mas que não conseguiam um lugar dentro do competitivo mercado japonês. É claro que, neste "boom" de animações caseiras, surgiu muita coisa ruim ou que não passava nem perto da excelência das obras de Makoto Shinkai. Mas uma coisa é certa: "Kakurenbo" nem de longe se encaixa neste perfil de obras medíocres, sendo um dos poucos animes independentes que parecem ter sido feitos por um grande estúdio de animação.

Curtíssimo filme com apenas 25 minutos, lançado em 2005 pela Comix Wave (a mesma que distribui as obras de Shinkai) e produzido pelo novíssimo e minúsculo estúdio Yamatoworks, Kakurenbo é uma obra feita por uma equipe de 10 pessoas, além dos "seiyuus", mas pode-se dizer que o grosso da produção foi realizado apenas por três pessoas. Shuhei Morita foi responsável pela maior parte das tarefas: além de criador do mangá homônimo que deu origem ao anime, Morita ainda trabalhou como diretor, desenhista de cenário, criador dos "storyboards", editor, produtor e animador em CGI. Daisuke Sajiki e Shiro Kuro dividem algumas destas importantes funções com Shuhei Morita, mas em menor número.

Em um anime tão curto, é bom falar o mínimo para não estragar as surpresas. Kakurenbo quer dizer "esconde-esconde", e a história do anime fala sobre o jogo do "o-to-ko-yo", uma variante secreta, diferente e perigosa desta brincadeira tão comum e inocente. De acordo com os boatos, é preciso evitar a "Cidade Sombria", pois acredita-se que demônios vivam lá. Muitas crianças foram até esta cidade para brincar de "o-to-ko-yo", mas nunca voltaram. Para participar do jogo, as crianças devem andar pelas ruas, procurando pelos caracteres "o-to-ko-yo" que brilham com destaque nos painéis em neon e indicam o caminho para se chegar ao local da brincadeira. Quando sete crianças chegam, o jogo começa...


Apesar de ser o primeiro anime da Yamatoworks, é preciso admitir que os caras começaram mandando muito bem, fazendo escolhas difíceis que se mostraram extremamente acertadas. Um exemplo diz respeito ao enfoque dado à história: é muito difícil conseguir se aprofundar no histórico dos personagens em uma animação tão curta, exceto em um caso como Hoshi no Koe, que possui apenas dois personagens. Em Kakurenbo existem várias crianças, e praticamente a única que merece um pouco mais de atenção é Hikora, um garoto que entra no jogo para procurar a irmã Sorincha, desaparecida há alguns dias após ter saído para participar do "o-to-ko-yo". Os demais são personagens mais genéricos, como o valentão que vira um covarde na hora H, ou duas garotas, talvez gêmeas, que não abrem a boca mas parecem saber mais do que aparentam sobre o que acontece no jogo. Existe ainda uma garota misteriosa na história, que parece ser Sorincha mas trata Hikora de forma distante... qual seria o seu papel?

E por que digo que não se aprofundar nos personagens foi uma decisão acertada? Porque, ao invés de perder um tempo precioso descrevendo os personagens, a equipe resolveu se focar no que realmente importa, o clima de pesadelo, estranheza e terror que permeia todo a brincadeira. E, acreditem, poucos animes conseguiram passar esta sensação com tamanho sucesso. Para começo de conversa, a animação de Kakurenbo é simplesmente inacreditável, com uma combinação de cores, luzes e sombras capazes de impressionar até mesmo profissionais experientes no ramo, criando um ambiente muito colorido e, ao mesmo tempo, sombrio e opressivo. Kakurenbo é um anime totalmente feito em ambientação 3D, com cenários de fundo belíssimos e detalhados, enquanto os personagens foram criados usando a técnica de "cel-shading", famosa por ter causado furor no cultuado jogo "Jet Set Radio", desenvolvido pela Smilebit para o SEGA Dreamcast. Esta foi mais uma escolha acertada da equipe, pois geralmente a inserção de personagens 2D em um universo 3D fica falsa, um não se encaixa bem no outro, enquanto personagens 3D usando "cel-shading" se integram perfeitamente ao ambiente.

Em mais uma jogada de mestre, Shuhei Morita & Cia criaram uma regra de acordo com a qual cada criança deveria usar uma máscara de raposa para participar do "o-to-ko-yo". Com isto, evitaram o problema de criar as expressões faciais dos personagens em 3D, algo sempre muito complicado, e ainda adicionaram um tempero especial ao anime, já que as máscaras, além de muito expressivas, dão um clima tétrico às crianças.

Os demônios são um caso à parte. Todo o anime é um deslumbre visual, mas os demônios são verdadeiras obras-de-arte em termos de "design" e animação, estando sem dúvida entre algumas das entidades mais assustadoras já mostradas em um anime. Dá aquele frio na espinha só de imaginar a situação das crianças enfrentando seres tão soturnos. Para aumentar ainda mais a dramaticidade, Shuhei Morita optou pelo uso constante de tomadas em "contre-plongée", de baixo para cima, que passam a impressão de que os monstros são ainda mais poderosos e assustadores. além de "fade-outs" nos momentos certos, deixando que o espectador imagine o que possa ter acontecido na cena. Tudo isto auxiliado por uma trilha sonora embasbacante de Karin Nakano e Reiji Kitasato, lembrando em alguns momentos a poderosa trilha feita por Geinoh Yamashirogumi para o cultuado "Akira", só que ainda mais mórbida.



Com uma interessante idéia de "ciclo sem fim" rumo ao final, Kakurenbo mostra que o pessoal da Yamatoworks dará muito o que falar no futuro. É claro que uma história um pouquinho mais interessante ou personagens um pouquinho mais detalhados ajudariam muito, mas, no final das contas, Kakurenbo cumpre sua função com sobras. É um anime de visual belíssimo, com um clima de terror angustiante que só aumenta com o passar do tempo, e ainda possui alguns "demoniozinhos" muito simpáticos para tirar o sono dos mais sensíveis. Por isto, pense bem antes de brincar de "esconde-esconde"... sabe-se lá o que pode lhe aguardar na esquina mais próxima.


Marcelo Reis


 

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