quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Kino no Tabi (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 23/01/2005.

Alternativos: Kino's Journey, Kino's Travels
Ano: 2003
Diretor: Ryutaro Nakamura
Estúdio: GENCO / A.C.G.T / Studio Wombat
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 24 min
Gênero: Aventura / Drama


Freqüentemente recebo críticas ferozes e e-mails enraivecidos por causa de alguns textos publicados no Animehaus. As pessoas criticam os meus critérios de avaliação e as notas dadas e, por esta razão, chegam a ofender até a minha décima geração de antepassados. Tudo bem: tornar-se uma pessoa pública tem seu preço, hehehe. Entre as "reviews" mais polêmicas de minha autoria, destacam-se os textos sobre "Evangelion" (mesmo com a nota alta que dei ao anime!) e Serial Experiments Lain... por causa destas resenhas, cheguei até mesmo a sofrer ameaças de morte, vejam só!

Enfim, mesmo não concordando com tudo o que muitos disseram, respeito a opinião de todos mas mantenho o que disse nos respectivos textos. Um dos maiores problemas de ambas as séries (e outros animes não citados) é a mania que alguns autores têm de embalar idéias interessantes em uma roupagem rebuscada, cheia de firulas e altamente estilizada, tentando fazer com o enredo pareça mais revolucionário do que realmente é. Se isto funciona como uma beleza em animes como Boogiepop Phantom, onde o estilo e a narrativa fragmentada são essenciais para se atingir o efeito desejado, o resultado muitas vezes deixa a desejar em outras obras. Se o enredo é suficientemente forte para causar impacto, não há necessidade de apelar para certas artimanhas estilísticas e narrativas. "Now and Then, Here and There" é um ótimo exemplo, mas "Kino no Tabi" (GENCO / Media Works) talvez seja a obra ideal para mostrar que é possível contar uma história emocionante e revolucionária de uma forma simples e agradável.

Baseado na série de livros escritos por Keiichi Shigawara, os quais são um sucesso de crítica e público no Japão, "Kino's Travels" (2004) segue as aventuras de Kino, jovem que viaja ao redor do mundo com sua motocicleta Hermes para conhecer diferentes países, suas culturas e, neste processo, obter respostas para dúvidas que existem em sua mente a respeito do mundo e das pessoas que o habitam.

Sempre com um revólver (Persuader) na cintura, capacete transado e uma jaqueta estilosa, Kino viaja sem destino certo, mas sempre seguindo uma regra imutável: deve ficar no máximo 3 dias em cada país, período suficiente apenas para captar os sentimentos do local pois, se ficar muito tempo, não conseguirá viajar por todo o mundo. Mas a verdadeira razão pode ser outra... talvez Kino não queira se afeiçoar a nenhum lugar em especial pois, desta maneira, correria o risco de ter que abandonar sua vida de viajante. Houve apenas um país no qual Kino desejou ficar por mais tempo mas, por uma certa razão, acabou ficando apenas os 3 dias regulamentares e seguiu viagem.

Apesar de jovem, Kino tem uma cabeça boa, e sua postura e expressão mostram que as situações vivenciadas nas viagens lhe trouxeram sabedoria e desconfiança em relação às pessoas. Kino não deixa de treinar com sua arma uma só noite, e com toda a razão. Seu olhar, melancólico mesmo quando ri nas conversas com Hermes, deixa mostras de que algo trágico e marcante deve ter acontecido em seu passado.


Peraí... "Conversa com Hermes? Mas Hermes não é uma motocicleta?". Pois é, um detalhe nesta incrível série diz respeito a alguns toques surreais que pipocam aqui e ali, e Hermes é um exemplo especial deste surrealismo. Hermes, na realidade, é um Motorrad que possui consciência própria e conversa como um humano. Mas não se preocupem: nada de bichinhos falantes ou bules dançarinos por aqui. É possível ouvir a voz de Hermes como se fosse um pensamento em voz alta, mas a sua aparência externa permanece inalterada, sem boquinha ou olhinhos expressivos. O relacionamento entre Hermes e Kino é fantástico, e os inspirados diálogos de ambos ao longo de sua jornada garantem não apenas boas risadas mas, também, muitos momentos de reflexão.

Reflexão, aliás, é a palavra-chave em relação a esta série impecável. Não conheço os livros que deram origem ao anime mas, levando-se em conta o sucesso de que desfrutam no Japão, é de se imaginar que sejam realmente excelentes. Mas é inegável que, em relação à versão anime, grande parte do sucesso diz respeito à perfeita direção de Ryutaro Nakamura (Serial Experiments Lain, Legend of Crystania) e a mais um roteiro brilhante de Sadayuki Murai (Perfect Blue, Millennium Actress, Kousetsu Hyaku Monogatari). Um dos grandes méritos da narrativa foi conseguir criar países com características totalmente surreais e, ao mesmo tempo, fazer com que este surrealismo se encaixasse perfeitamente na identidade de cada país. Para não estragar a surpresa, não comentarei detalhadamente sobre as peculiaridades de cada país, pois isto tiraria grande parte do prazer de se assistir à série.

Um dos questionamentos principais de "Kino's Travels" diz respeito aos estragos que os humanos têm feito ao mundo como um todo e, por tabela, à própria existência da humanidade em termos físicos, psicológicos e sociais. O trabalho passou a ser considerado algo doloroso, o fanatismo religioso criou legiões de pessoas que não têm pensamentos próprios, e a vida adulta passou a representar uma rotina repetitiva em que é preciso realizar atividades desagradáveis por toda a vida. Na maior parte do mundo de Kino, os humanos adultos vivem como autômatos, trabalhando sem objetivo e sem descanso... algum paralelo com a nossa vidinha atual??

Os toques surreais presentes na série acentuam ainda mais o absurdo da situação. Como ficar indiferente ao se deparar com pessoas contruindo torres gigantescas por anos a fio apenas porque é algo que todo mundo sempre fez, sem saber a razão pela qual realizam esta atividade? Ou não se emocionar com um episódio em especial que mostra o absurdo da guerra de uma forma inovadora, quase inacreditável e, por isto mesmo, muitíssimo dolorosa e marcante? Uma frase citada no anime resume bem o sentimento do espectador: "O mundo é um palco, e as pessoas são marionetes à mercê do destino, vivendo em círculos". Precisão cirúrgica.

Um anime com um enredo tão rico e bem narrado nem precisaria vir embalado num pacote técnico impecável, mas já que isto aconteceu, quem sou eu para reclamar?! Ótimo desenho de personagens, excelentes temas de abertura ("All the Way", cantado por Mikuni Shimokawa) e encerramento ("The Beautiful World", cantado por Ai Maeda, responsável também pela ótima dublagem de Kino), trabalho de arte e animação perfeitos (estúdio A.C.G.T.), sem abusar de preciosismos mas prestando uma atenção tremenda a detalhes sutis de expressão e movimento. Tudo isto contribui para deixar a experiência de se assistir a "Kino's Travels" ainda mais agradável.



Entre as dúvidas presentes na cabeça de Kino, a principal diz respeito à real natureza do mundo:

- "O mundo é bonito? Como pode ser belo, se nele existem tantas coisas feias?".

Cabe a cada espectador absorver, da melhor forma possível, as informações apresentadas ao longo do anime e tirar suas próprias conclusões. Independentemente do resultado, fica uma certeza: "Kino's Travels" é uma obra-prima incontestável em todos os aspectos, e prova cabal de que é possível contar uma história que faz pensar (e muito) sem abusar de maneirismos visuais e narrativos.

"O céu não tem limites, pois é o reflexo da minha alma..."


Marcelo Reis


 

4 comentários:

  1. Ótimo texto!
    Kino no Tabi está em meu top 5; é um anime com desenvolvimento lento, mas totalmente bem-vindo e necessário para criar a ótima atmosfera que tem. Uma pena eu ainda não saber inglês suficiente para ler os livros (muito menos japonês).

    Ah, e excelente site! Vou ler também as resenhas de Serial Experiments Lain e Neon Genesis Evangelion, que também estão no meu top 5.
    Até mais. :)

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    1. Olá, WanGos Lain.

      Opa, valeu pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado da resenha - Kino no Tabi é realmente um anime sensacional, um dos meus preferidos também.

      Só estou com medo de sua reação às minhas resenhas de Lain e EVA, já que foram meus dois textos mais polêmicos até hoje. :P

      Um grande abraço!

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  2. Desenvolvimento lento, leve, sutil e eminentemente psicológico. Os episódios se desenvolvem com uma certa autonomia um do outro, exceto uns dois ou três, o que garante temáticas bem diversas. Embora o surrealismo muito presente, é como se diz, ocorre uma subsunção aos nossos momentos... tudo, absolutamente tudo em Kino no Tabi é aplicável aos nossos dias... amei a ironia quanto ao Hermes.
    Outra grande sacada, Hermes é o deus mensageiro, protetor dos viajantes... olha só que apropriado, não? Abraço.
    Att.
    Nadia.

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    1. Anime fantástico, não é, Nádia?

      Adorei seu comentário, e confesso não ter percebido o lance de Hermes, deus mensageiro e protetor dos viajantes. Isto sem dúvida enriquece ainda mais todo a história: valeu demais pelo toque! :)

      Um grande abraço,

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