quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Kurau: Phantom Memory (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/06/2006.

Ano: 2004
Diretor: Yasuhiro Irie
Estúdio: BONES
País: Japão
Episódios: 24
Duração: 24 min
Gênero: Drama / Aventura / Sci-Fi



Conversando com meu amigo Shenmue_GdA um dia destes, percebi claramente como a questão do gosto é altamente subjetiva e como pequenos detalhes podem fazer toda a diferença na assimilação de uma mesma obra. Digo isto porque eu e o Shenmue temos gostos realmente muito parecidos: se determinado filme ou anime me agradou, é quase certo que o mesmo acontecerá com ele, e vice-versa. O fato é que, nesta conversa por e-mail, o Shenmue comentou que estava louco para ler minha resenha sobre Kurau - Phantom Memory, pois foi a primeira vez que nossas opiniões não bateram de forma alguma: muito pelo contrário, divergiram completamente.

Talvez minha decepção com esta obra tenha sido agravada por duas coisas: primeiro, por Kurau ser uma obra de um de meus estúdios de animação favoritos, o BONES, e segundo, porque havia lido coisas muito positivas a respeito da série, o que acabou deixando a minha expectativa um pouco elevada. O fato é que Kurau, apesar de alguns momentos sublimes e inspirados, em nenhum momento passou a impressão de ser uma obra à altura do talento dos profissionais do estúdio BONES.

Tudo começa na Lua, no ano 2100. Kurau é uma menina que vive com o pai, Dr. Amami, um renomado pesquisador que trabalha em um projeto relacionado a uma nova super-forma de energia. Kurau perdeu a mãe quando nova e, por isto, se apegou muito ao pai, gosta de estar sempre ao lado dele. Em seu aniversário de 12 anos, Kurau ganha um presente e tanto: poderá assistir a um dos misteriosos experimentos do pai "in loco".

Um acidente ocorre durante este experimento, o reator sai de controle e partículas desta super-energia voam em todas as direções. Uma destas partículas atinge Kurau, que se desintegra e volta em uma nova forma, meio etérea. Sem memória, esta nova forma chamada Rynax diz que Kurau a havia chamado e que, por esta razão, ocorreu esta conexão entre ambas. Além disto, revela que partículas Rynax precisam de um par e que, por haver perdido o seu complemento, precisaria usar o corpo de Kurau para sobreviver até que encontrasse novamente seu par.

Kurau passa a ter super habilidades, e sua personalidade se alterna constantemente com a de Rynax, a qual parece querer mimetizar o comportamento da garota. Fica a dúvida no ar: Kurau ainda existe dentro de seu corpo em sua forma original, ou Rynax é a única forma que realmente permaneceu?

Submetida a experimentos desumanos para testar os limites de seus super-poderes, Kurau começa a se desesperar e acaba, sem querer, ferindo gravemente o próprio pai. Não agüentando mais ver sua filha passando por tamanho sofrimento, o Dr.Amami dá um sumiço na garota e diz que Kurau morreu, para evitar que ela seja perseguida.

10 anos depois, já na Terra, Kurau trabalha como agente e realiza apenas trabalhos perigosos. Com um comportamento meio "machoney" e trabalhando como uma louca, ela é conhecida como "A Temerária Kurau", não apenas pela dedicação insana ao trabalho mas, principalmente, pelo modo como age em função de seus poderes, atravessando portas e paredes ou desfragmentando o próprio corpo. Mas poucos sabem a principal razão por trás deste ritmo acelerado de trabalho... Kurau, no fundo, quer ocupar a cabeça ao máximo de modo a esquecer os eventos traumáticos do passado, além de tentar se afastar um pouco do sentimento de solidão que lhe persegue, agravado pelo Rynax sem par que continua a viver em seu corpo. O surgimento de uma garota chamada Christmas, provável par do Rynax que carrega dentro de si, é apenas o pilar de eventos que mudarão completamente a vida de Kurau dali em diante.


O tema central de Kurau - Phantom Memory poderia ser resumido em poucas palavras: ninguém quer uma vida solitária; é preciso respeitar aqueles que são diferentes, mesmo que à primeira vista pareçam ameaçadores; pessoas queridas sempre protegem aqueles que amam; governos em geral não se interessam pelos indivíduos; a paz no mundo realmente parece algo inatingível. Mesmo não sendo tópicos propriamente originais, poderiam dar origem a uma série instigante, nos moldes de Haibane Renmei, algo que fizesse o espectador refletir um pouco e, quem sabe, até sair um pouco modificado ao final.

Infelizmente, isto não ocorre. Talvez pela falta de um roteiro realmente equilibrado e de um diretor com pulso firme, Kurau - Phantom Memory parece uma série sem identidade definida, ora se comportando como um anime "monstro-do-dia", ora tentando ser profundo e filosófico, mas sem muito sucesso em nenhuma das frentes. Como foi dito no início, existem momentos realmente fabulosos na série, nos quais alguns lampejos da genialidade vista em outras obras do BONES aparecem com força total, especialmente rumo ao final, quando questões mais sérias começam a ser levantadas, como a quase impossibilidade de se ter uma paz verdadeira no mundo ou a necessidade de uma pessoa ser realmente livre para viver de forma plena. Frente a perdas dolorosas, é melhor se lembrar das coisas e eventos relacionados a tais perdas, ou seria melhor passar uma borracha em cima e se esquecer de tudo? E Kurau - Phantom Memory possui pelo menos 2 ou 3 seqüências antológicas em que o poder do Rynax é mostrado de forma impressionante, tão fortes que o fôlego parece desaparecer de uma hora para outra, tamanho o impacto.

Uma pena que momentos como estes são raros. Um dos grandes problemas nesta série é o abuso de situações piegas e dramalhões, como se isto fosse o melhor recurso para comover o espectador. Se uma situação já é suficientemente dramática para tal comoção, não há a menor necessidade de colocar os personagens em prantos e gritando na tela por um looongo tempo. O efeito acaba se invertendo e toda a carga emotiva se esvai. È mais ou menos o que ocorre em enterros: é muito mais fácil se emocionar com a dor de pessoas mais contidas do que daquelas que se esgoelam a plenos pulmões, se arrastando pelo chão.

Para aliviar a barra, vamos a alguns pontos positivos. Como sempre, não há o que reclamar do ponto de vista técnico. A visão de futuro criada é muito interessante e original, pois se parece com o que temos no presente mas com alguns detalhes bacanas, como carros com supercondutores, jornais que mudam a página de um jeito muito doido, entre outras coisas. Musicalmente o anime não alcança grandes vôos, com uma trilha instrumental que cumpre seu papel sem muito destaque, um tema de abertura muito chôco (Natsukashii Umi) e uma música final bacana (Moonlight). E os personagens, embora longe de serem realmente cativantes, possuem um desenvolvimento muito bom, merecendo destaque o relacionamento sincero entre Kurau e Christmas, assim como a boa construção do bem-humorado agente Doug (ex-membro da GPO) e da ambígüa investigadora Ayaka, assim como o obscuro inspetor Wong. A animação do BONES nunca deixa a desejar, e Kurau felizmente não foge à regra.

Alívio é bom mas dura pouco, hehehe. Infelizmente o roteiro de Kurau possui buracos tremendos, os quais, aliados a clichês super batidos, atrapalham a força da história e deixam o espectador indiferente ante o rumo que a vida dos personagens possa levar. Alguém realmente acredita que o velho disfarce com óculos escuros engana alguém? Como pessoas super-procuradas conseguem andar livremente em um mundo de alta tecnologia? Como uma agente tão poderosa e com o mesmo nome da garota teoricamente falecida consegue viver 10 anos sem ser encontrada? Como um agente sozinho consegue ir para a Lua e descolar um Pod super poderoso em um momento crucial da série?


Sempre comento sobre o problema que é a falta de foco em algumas séries, nunca se decidindo entre ser uma obra séria ou algo mais descabeçado. Às vezes é possível achar um ótimo equilíbrio como em Full Metal Alchemist ou NieA Under 7, mas quando a mistura desanda, o sabor é realmente indigesto. Kurau nem de longe é uma série horrível, mas quando vemos o potencial existente em seus momentos de brilhantismo, só podemos lamentar e imaginar o que poderia ter saído deste material tão promissor e, infelizmente, mal explorado.


Marcelo Reis


 

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