quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Legend of Black Heaven (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2005.

Alternativos: Black Heaven, Kachou Oji
Ano: 1999
Diretor: Yasuhito Kikuchi
Estúdio: AIC / Pioneer LDC
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 30 min
Gênero: Aventura / Comédia / Sci-Fi



Pobre Tanaka Oji. Típico assalariado japonês, um empregado comum em meio à massa de trabalhadores, Oji leva aquela vidinha modorrenta tão comum à maioria das pessoas nos dias de hoje. Oji precisa sustentar a esposa e o filho e, por esta razão, se viu obrigado a abandonar os sonhos de outrora e levar uma vida "séria", com um emprego decente e detestável, no qual passa o dia contando as horas para que o expediente acabe rapidamente. Sem coragem para arriscar uma nova carreira ou mesmo uma promoção no emprego atual, Oji é praticamente um morto-vivo.

Que saudades dos bons tempos de juventude, quando sua simples presença magnética causava furor na mulherada. Afinal, Tanaka Oji era ninguém menos que Gabriel Tanaka, ou simplesmente Gabe, guitarrista da Black Heaven, conjunto de "heavy metal" que desfrutou de um sucesso fenomenal no passado. Os tempos de glória são apenas história, e Oji precisa conviver com a dura e monótona realidade, na qual as únicas lembranças do passado são a coleção de discos, com preciosidades como vinis raros das bandas UFO e Michael Schenker Group, além de sua fantástica guitarra Gibson Flying V. Tocar sua guitarra em casa após o expediente é praticamente o único prazer de Oji, durante o qual sente aquele fluxo de energia de seus tempos de juventude. Isto quando sua esposa não cisma de jogar toda esta "bobagem adolescente" na lixeira mais próxima, para desespero de um descabelado Oji.

Mas o futuro reserva algo para nosso amigo Oji... nada menos que a salvação do Universo! Pois é, algumas belas e gostosíssimas protetoras vindas do espaço aparecem de supetão e explicam a Oji que ele é a "Fonte do Som"! Yeah, baby! A poderosa guitarra de Oji, aliada ao seu incrível "feeling" enquanto toca e à sua indefectível palheta improvisada (uma moedinha de 10 centavos!), produz a única freqüência no universo capaz de ativar o super-canhão da força espacial alienígena que luta contra invasores malignos provenientes de outras bandas espaciais.


Em termos de enredos simultaneamente criativos e idiotas, este anime produzido pela Pioneer LDC está no mesmo nível de pérolas como Sadamitsu the Destroyer. Se o desenvolvimento dos eventos não chega a ser tão bem encaixado quanto em Sadamitsu, Black Heaven se dá ao luxo de adicionar ótimas tiradas sobre as dificuldades do amadurecimento, especialmente no caso de um ex-astro da música. Como um cara acostumado a ser o "rei da cocada" pode, de uma hora para outra, aceitar o fato de que está envelhecendo e se adaptar à vida normal, sem badalação e sem "rock'n'roll"? É interessante também o anime mostrar como é difícil recomeçar a sonhar quando se está mais velho e acostumado com a monotonia e o tédio. Quando tudo isto ocorre com um personagem tão cativante quanto Tanaka Oji, fica ainda mais fácil se identificar com tais problemas e torcer para valer pelo protagonista.

O grande trunfo de Black Heaven é sua capacidade de não se levar a sério mesmo nestes momentos reflexivos. O anime é uma doideira só, diferente das insanidades absolutas de obras como FLCL ou Dead Leaves mas igualmente hilário. Só as cenas mostrando Oji despertando com a cara amassada e o cabelo parecendo um quiosque após um incêndio já valem a série. Black Heaven é recheado de diálogos de duplo sentido, além de inúmeras gozações com erros de tradução, sentais, notícias sensacionalistas em tablóides, entre outras coisas.

Um anime tão centrado no "rock" não podia ter uma trilha sonora ruim, a começar pela excelente música de abertura, "Cautionary Warning", composta por John Sykes, excepcional ex-guitarrista do Whitesnake. As performances de Tanaka Oji durante as batalhas também são excelentes, assim como as músicas que tocam durante as lembranças do passado de Oji dentro do Black Heaven.

É uma pena que, como foi dito acima, o andamento de Black Heaven não é tão redondinho quanto o de Sadamitsu. Apesar de ter apenas 13 episódios, Black Heaven possui muitos "fillers" em alguns capítulos, o que acaba deixando a série meio monótona e paradona de vez em quando. Mesmo com várias situações engraçadas e com um protagonista sensacional, a série nunca chega a empolgar para valer. A animação, apesar de estar a cargo dos famosos estúdios AIC e A.P.P.P, deixa a desejar em vários momentos, especialmente nas batalhas espaciais, que são horríveis. E o final, só para variar, é fraquíssimo.



Quem gosta de "heavy metal" vai curtir bastante a série, principalmente em função das várias referências a bandas consagradas do passado, mas mesmo quem não é fã do estilo vai se divertir bastante. Black Heaven não é ruim, de forma alguma, mas tampouco pode ser considerado um anime realmente bom. As muitas partes hilárias são impagáveis, é verdade, mas as partes não tão hilárias é que são o problema.

"Hard Rock Save the Space"


Marcelo Reis


 

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