sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Mahou Tsukai Ni Taisetsu Na Koto (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/08/2004.

Alternativos: Someday's Dreamers
Ano: 2003
Diretor: Masami Shimoda
Estúdio: J.C. Staff / Viewworks
País: Japão
Episódios: 12
Duração: 30 min
Gênero: Drama / Romance


Histórias baseadas em "escolas de magia" já eram sucesso no Japão muito antes do fenômeno "Harry Potter". Esta paixão dos japoneses por coisas ligadas à magia talvez explique a razão pela qual o Japão se tornou um dos países no qual o bruxinho inglês seja mais venerado em todo o mundo. As estórias escritas por J.K. Rowling, no entanto, possuem características bem diferentes daquelas produzidas no Japão. Enquanto os livros de Harry Potter flertam constantemente com aspectos mais obscuros e assustadores da sociedade e dos indivíduos, o que chega a ser surpreendente em uma obra teoricamente voltada para o público infanto-juvenil, as estórias japonesas são bem mais simplistas e alegrinhas, sendo basicamente voltadas para o público feminino infantil.

Levando tudo isto em consideração, Mahou Tsukai ni Taisetsu na Koto (para facilitar, MTNTNK) pode ser considerado um anime sobre "escolas de magia" bem diferente do usual. Embora não arrisque tanto nos temas sérios como os livros de Harry Potter, MTNTNK nem de longe lembra as séries de magia mais infantis e bobinhas comumente produzidas no Japão. Isto não quer dizer que a série seja perfeita, é claro, mas é inegável que MTNTNK, mesmo com seus defeitos, é uma louvável tentativa de se criar um anime sobre magias que não seja excessivamente pueril.

No ambiente deste anime, a magia não é uma arte oculta, exercida na surdina para evitar o pânico entre a população do planeta. Pelo contrário, as pessoas comuns são as grandes beneficiárias do poder dos magos, desde que tenham dinheiro para pagar pelo serviço. É isto mesmo: a magia é um negócio, sujeito a leis semelhantes àquelas que regem o relacionamento entre prestadores de serviços e seus clientes. Os trabalhos dos magos são regulados por leis específicas, definidas em tratados, de forma a evitar qualquer tipo de abuso por parte dos praticantes de magia ou dos clientes. De acordo com a ética dos magos, a magia não deve causar nenhum tipo de dano físico, social ou financeiro, nem desequilíbrios no mundo, e deve ser usada apenas após autorização expressa do Escritório Público, caso a solicitação do cliente em questão seja aprovada.

Kikuchi Yume é uma garota do interior que chega a Tóquio para continuar seu treinamento em magia. Filha de uma lendária praticante das artes mágicas que escolheu abandonar a carreira, Yume é ainda uma caloura em magia, e deve chegar ao local de treinamento sem usar nenhuma forma de feitiço. A enorme quantidade de pessoas e prédios em Tóquio causam um misto de pânico e opressão em Yume que, acostumada ao clima mais tranqüilo do interior, anda meio distraída pelas ruas, com a mente dispersa. Quando volta à realidade, Yume se vê em uma situação de atropelamento iminente... sem saída, ela acaba apelando para a magia, mesmo sabendo que isto pode lhe trazer sérios problemas. Esta situação reflete bem o dilema que Yume enfrentará ao longo de toda a série: será que ela deveria seguir as regras o tempo todo, sem pestanejar, ou a trangressão destas mesmas regras seria algo aceitável, dependendo da situação?


Preparando-se para a bronca iminente, Yume chega ao local de treinamento e conhece seu orientador, Oyamada Masami, o qual pensava ser uma mulher em função do nome feminino (Masami). Desfeita a confusão, Yume começa a conhecer melhor o seu treinador, um homem educado mas com expressão entristecida. Além de tutor de Yume, Oyamada trabalha sem descanso em sua própria boate, localizada logo abaixo de casa. Neste ambiente, Yume conhecerá outras pessoas que terão importância fundamental no seu crescimento, como o bem-humorado Kera, ajudante de Oyamada, e a expansiva Melinda, bela mulher de origem latina que trabalha como DJ na boate. Outra personagem de importância é Angela Brooks, uma bela americana de poucos sorrisos, extremamente talentosa e que também está em treinamento, sob a tutela pessoal do Chefe Ginpun, um ser andrógino responsável por grande parte das leis sobre o uso da magia.

Tecnicamente falando, MTNTNK não é um anime que impressiona muito. Apesar dos belos cenários e de algumas seqüências bonitas, como aquelas que envolvem a realização das magias, o nível de animação deixa a desejar na maior parte do tempo, com um abuso de imagem paradas e uso equivocado de efeitos 3D. A cena do atropelamento é um perfeito exemplo destes problemas, o que se torna ainda mais decepcionante quando vemos que o excepcional estúdio J.C. Staff (Kare Kano, Utena, Excel Saga) foi o responsável pela animação. Por outro lado, os personagens possuem um traço muito agradável, e a animação dos mesmos, apesar de simples, não decepciona.

Os personagens, no geral, são muito bem construídos, e mesmo aqueles que tinham tudo para ser antipáticos, como Angela Brooks, acabam conquistando o espectador, pois o comportamento de todos é plenamente justificado pelas circunstâncias. O ambiente em que se passa a estória também é muito interessante, especialmente pelo contraste entre a profissão artesanal dos magos e seu controle por uma central altamente informatizada, com equipamentos de última geração e rastreamento por satélite. Além do dilema de Yume em seguir regras ou não, MTNTNK mostra que a magia, apesar de poderosa, não possui força ilimitada e nem é capaz de resolver todos os problemas.

Alguns problemas da série são comuns àqueles presentes em vários outros animes: excesso de coincidências ou situações forçadas para criar dramalhões desnecessários, personagens excessivamente altruístas, fatos teoricamente importantes que são completamente esquecidos, etc. Mas o grande problema de MTNTNK diz respeito à linha narrativa utilizada. Como foi dito no início do texto, a equipe de produção merece nosso aplauso por arriscar na criação de uma obra sobre magias com um teor mais adulto, mas a verdade é que o pessoal exagerou na dose. O andamento muito lento em algumas partes e o abuso de cenas paradas ou contemplativas soam como uma tentativa desesperada de fazer MTNTNK parecer mais profundo e artístico do que realmente é. MTNTNK é um bom anime, isto é inegável, mas nem de longe é a obra-prima na qual os produtores quiseram transformá-la.



Mahou Tsukai ni Taisetsu na Koto, apesar do nome "trava-língua", é um anime que não trava a vida de ninguém. Apesar dos defeitos citados, é uma obra delicada e emocionante que, ao contrário da maioria dos animes recentes, possui um final magnífico. Para quem curte belas histórias e gosta de se emocionar, MTNTNK é uma ótima opção.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. E você saberia um site para poder assistir esse anime?
    Aliás, como você conseguiu assistir esse anime?

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    1. Eu assisti legendado em inglês, há mais de 10 anos. Existe uma versão em português feita pelos fansubbers OGA e Agaman, mas não sei se está disponível em algum lugar.

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