sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Metropolis (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 05/07/2004.

Alternativos: Osamu Tezuka's Metropolis
Ano: 2001
Diretor: Rin Taro
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 107 min
Gênero: Aventura / Drama / Sci-Fi



Baseado no mangá homônimo escrito pelo mestre Osamu Tezuka em 1949, Metropolis é uma superprodução da Toho e Bandai Visual lançada em 2001 cujos números não deixam dúvidas a respeito de sua magnitude: levou 5 anos para ser finalizada, 150.000 células de acetato foram necessárias para produzir as animações dos personagens, e foram gastos nada menos que 15 milhões de dólares em todo o projeto. Contando com a direção segura de Rin Taro (Galaxy Express 999, Peacock King) e um roteiro enxuto de Katsuhiro Otomo (Akira, Memories), Metropolis felizmente não confia apenas na parte técnica para atrair o público, apesar de ser, talvez, o anime com o visual mais impressionante feito até então. Sua história, embora complexa, em nenhum momento confunde a cabeça do público, e flui com naturalidade.

Metropolis é uma nação industrial com tecnologia avançadíssima, onde robôs realizam várias funções normalmente feitas por seres humanos. Apesar de necessários à economia, os robôs são mal-vistos pela população em geral, pois são considerados responsáveis pela escassez de empregos. Em função da miséria resultante, grande parte da população é obrigada a viver segregada na Área 1, espécie de gueto destinado aos párias da sociedade. Além de odiados pelo povo, os robôs são tratados com descaso pela elite de Metropolis, e sofrem uma vigilância severa por parte dos Marduques, grupo armado criado pelo poderoso Duque Red e liderado pelo violento Rock. Seus membros se vestem como fascistas e são responsáveis pela eliminação de robôs defeituosos ou fora da área permitida. O clima de agitação permanente e a tensão constante entre elite, população e robôs leva a crer que alguma revolução possa estar prestes a estourar...

Metropolis está em polvorosa com a inauguração do Zigurate, uma superinstalação teoricamente destinada ao progresso da nação mas que, de acordo com alguns boatos e rumores, poderia ser um dispositivo criado com intenções bélicas. Shunsaku Ban, um investigador japonês, chega na surdina à Metropolis, juntamente com seu sobrinho Kenichi, para buscar informações sobre um tal de Dr. Laughton, cientista brilhante e criminoso envolvido no tráfico internacional de órgãos. O surgimento de Tima, uma avançada robô criada por Laughton, pode levar Shunsaku e Kenichi a conhecer um pouco mais sobre a sombria verdade que se esconde por trás de toda a tecnologia de Metropolis. Qual seria a verdadeira função do Zigurate, e qual seria sua ligação com Tima, Duque Red e o futuro de Metropolis?

A pergunta mais comum feita em relação a este anime é, sem dúvida, se ele tem alguma coisa a ver com o longa-metragem alemão "Metropolis", dirigido por Fritz Lang em 1926 e que também se passa em um futuro supertecnológico e totalitário. Tezuka sempre afirmou que não se baseou no filme alemão, ao qual ele não assistira, mas que se inspirou apenas no poster original da obra de Lang. O fato é que existe muita coisa semelhante entre as duas obras: um tirano que não se importa com as massas, uma população oprimida que se revolta, além da presença de robôs femininas com papel fundamental no enredo (Maria e Tima). Coincidências à parte, não dá para negar que a história do anime (e, provavelmente, também a do mangá) possui brilho próprio, e cativa o espectador com facilidade desde o primeiro minuto.

A presença de excelentes personagens é um fator decisivo para conquistar o público, e Metropolis não decepciona neste aspecto. Kenichi, apesar da aparência frágil, não é um bobalhão, e amadurece admiravelmente frente às dificuldades. Tima é uma personagem complexa, cuja expressão vazia e robótica contrasta com sua perfeita aparência humana. De vez em quando ela emana lampejos de humanidade, especialmente quando exposta ao sol: nestes momentos ela parece reluzir, como se fosse uma obra divina. Os demais personagens são igualmente fascinantes, com um destaque especial para Rock. Inexistente no mangá de Tezuka, Rock foi uma criação pessoal de Katsuhiro Otomo. Ele se encaixou tão perfeitamente à história que fica difícil acreditar em sua ausência na obra original. Metropolis perderia muito de seu encanto sem este personagem tão complexo e ambígüo.

Já viram que a parte técnica ficou pro final, certo? Pois é, a verdade é que não dá para descrever em palavras a perfeição absoluta que é Metropolis na parte visual. A Madhouse prova, mais uma vez, que está muito acima dos demais estúdios japoneses de animação, talvez à exceção do Ghibli e da Production IG. Seus cenários são de uma riqueza de detalhes impressionante, com efeitos de computação gráfica usados de forma brilhante e nada gratuita. A animação fluida e perfeita dos personagens mostra a razão pela qual foram gastos tantas células de acetato. Um aspecto interessante diz respeito aos diferentes estilos de desenho utilizados nos cenários e nos personagens. Enquanto os cenários de fundo representam o que há de mais impressionante em termos de tecnologia 3D, os personagens foram desenhados à mão, no mesmo estilo utilizado no mangá de Tezuka. Muita gente não gostou desta mistura: sinceramente, não tenho reclamações a este respeito.

A trilha sonora jazzística, apesar de interessante, parece um pouco deslocada em alguns momentos, mas isto não é um problema sério. Problema, mesmo, são os exageros presentes nas seqüências finais de Metropolis. Tudo caminhava de forma quase perfeita até ali, mas a quantidade de situações exageradas e despropositadas é tão grande que tira parte da força da história e de sua aura realista.



Com referências à Torre de Babel (chamada de Zigurate pelos babilônios) e cutucando a eterna vontade do homem de se equiparar a Deus, Metropolis definitivamente não é um festival de belas imagens sem substância. Sua história teria força suficiente para se sustentar por conta própria, mesmo em uma produção de baixo orçamento. Como ela veio embalada num pacote super-luxo, repleto de imagens e seqüências inesquecíveis, só nos resta encostar na cadeira e aproveitar a viagem ao máximo!


Marcelo Reis


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