sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Midori (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 06/11/2009.

Alternativos: Mr. Arashi's Amazing Freak Show; Shoujo Tsubaki
Ano: 1992
Diretor: Hiroshi Harada
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 48 min
Gênero: Drama / Terror / Adulto


Para que se possa compreender melhor este estranho anime, é recomendável que o espectador saiba o que significa o termo "ero-guro", uma vez que "Midori" se enquadra neste estilo. Em linhas gerais, "ero-guro" é um termo que abrange as palavras em inglês "erotic" e "grotesque", e se refere a um movimento cultural surgido no Japão no início do século XX. O lado "ero" do termo, logicamente, se foca no erotismo e nas perversões sexuais, enquanto o lado "guro" se foca no grotesco, mais especificamente retratando pessoas horríveis e deformadas.

"Midori" é baseado no mangá "Shoujo Tsubaki", de Suehiro Maruo, um dos nomes mais famosos do mangá underground e que teve algumas obras lançadas no Brasil pela Editora Conrad, como "O Vampiro que Ri", "Paraíso - O Sorriso do Vampiro" e "Ero-Guro - O Erótico-Grotesco de Suehiro Maruo". Quem conhece as obras de Maruo já sabe o que encontrará em "Midori", mas quem não conhece pode tomar um choque e tanto, pois "doentio" é um adjetivo leve para as coisas que aparecem no anime.

Midori é uma garota que vive em Tóquio no final do século XIX e vende flores nas ruelas das cidade. Com o pai desaparecido e a mãe agonizando na cama, ela precisa garantir o seu sustento de alguma forma. Certa noite, ela é abordada por um homem que lhe dá um endereço, dizendo que aquela vida nas ruas não era adequada para uma mocinha tão delicada. Mal sabia a pobre Midori que o tal endereço era, na verdade, um circo de aberrações. Além de ser transformada em escrava, Midori sofre todos os tipos de abusos imagináveis, e perde sua inocência infantil de forma brutal, da noite para o dia.

A garota vive observando os trens que passam à distância, sonhando com o dia em que poderia sair daquele inferno e voltar à sua casa em Tóquio. A chegada de Wonder Masamitsu, um anão mágico e contorcionista que causa uma reviravolta no circo de aberrações, traz uma esperança de um futuro melhor à garota.


Fãs de "ero-guro" não terão do que reclamar, pois "Midori" é um verdadeiro desfile de cenas grotescas, com muito sangue, sexo, estupro, vísceras voando para todos os lados e muita nojeira. Os personagens do circo não deixam a desejar neste aspecto, indo desde uma mulher-cobra até um homem todo enfaixado e sem braços, além de um ser bizarro com a cabeça sempre caída para o lado. A direção de arte de Katsufumi Hariu (Sakura, Macross Plus) utiliza traços e cores suaves nos ambientes alegres, mudando para um estilo mais sujo e deformado nos ambientes tristes. O desenho de personagens é esquisito, especialmente quando as pessoas sorriem em cena, pois seus dentes arreganhados parecem dentaduras grandes demais para caber na boca. Mas como esquisitices são a alma do negócio nos "ero-guros", talvez a intenção tenha sido esta mesma.

Um detalhe interessante descrito no artigo http://www.pelleas.net/aniTOP/index.php?&m=20040921 é que o diretor Hiroshi Harada não conseguiu patrocínio para realizar esta obra, por motivos óbvios. Por esta razão, levou cinco anos trabalhando praticamente sozinho para terminar este anime, emulando o chamado "kami-shibai", nome dado a uma tradicional forma narrativa japonesa, na qual um homem vai contando uma história através de vários desenhos feitos em cartões. Com isto, chega a ser até complicado chamar "Midori" de animação, pois a animação propriamente dita nesta obra é muito, muito limitada. Em função do tema espinhoso, a exibição de "Midori" até hoje é proibida no Japão, e o anime só foi lançado em DVD há pouco tempo, numa edição européia de 2006.

A trilha sonora é outra decepção. O nome de J.A. Seazer gerou muitas expectativas, em função de seu trabalho fenomenal em "Shoujo Kakumei Utena". A trilha não é exatamente ruim, mas é tão comum e apagada que, na maior parte do tempo, a gente nem percebe que há alguma música de fundo.

Mas decepcionante mesmo é a história. Tudo bem que, num "ero-guro", o público-alvo esteja mais interessado em ver as perversões e aberrações comuns ao tema, mas um fiapo de história decente seria recomendável. Não conheço o mangá original de Suehiro Maruo, portanto não tenho como dizer se este problema já existia anteriormente ou se surgiu apenas no anime, mas a narrativa truncada e os personagens rasos não prendem a atenção do público. O comportamento dos personagens chega a ser constrangedor em alguns momentos, com vilões consumados agindo como mocinhos arrependidos, e supostos heróis se comportando como verdadeiros demônios, sem nenhum motivo aparente para tal mudança repentina. Tudo parece ser apenas uma mera desculpa para mostrar mais e mais cenas grotescas e eróticas.



"Midori" é um perfeito exemplo de obra "ame ou odeie". Quem não gosta de cenas fortes de violência e sexo deve passar longe deste anime, mas mesmo aqueles que gostam podem se decepcionar, já que apenas o aspecto erótico-grotesco da obra não é suficiente para torná-la realmente interessante.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Tecnicamente falando, é um dos piores "animes" que eu já vi. Mas eu dou moral pelo fato do diretor "botar a cara a tapa", bancando praticamente sozinho, sem dinheiro, com um tema alternativaço, quase de forma independente.

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    1. Realmente, apesar do traço ser interessante, a "animação" em si é bem podre. Mas como você disse bem, tem que ter muita coragem e paixão pelo tema para realizar algo assim praticamente sozinho. Ero-guro definitvamente não é pra todo mundo.

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