sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Rail of the Star (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 05/06/2010.

Alternativos: O-Hoshisama no Rail
Ano: 1993
Diretor: Satoru Namekawa / Toshio Hirata
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 79 min
Gênero: Drama / Histórico / Guerra


No papel, "Rail of the Star" tem muitas semelhanças com "Grave of the Fireflies / Hotaru no Haka": sua história se passa na II Guerra Mundial, é baseado num romance autobiográfico (no caso, da autora Chitose Kobayashi), e conta as agruras da guerra sob o ponto de vista de uma criança. Mas se "Grave" mostrava as desgraças da guerra sem retoques, "Rail of the Star" acaba sendo muito pueril na maior parte do tempo, o que tira quase toda a força das situações mostradas na tela, por mais dramáticas que sejam.

Chika Sakamoto é uma atriz teatral de sucesso em Tóquio que se prepara para mais uma apresentação, quando vê uma notícia na televisão que chama sua atenção: 42 órfãos japoneses que ficaram presos na China chegam ao aeroporto de Narita, esperando encontrar seus parentes. Isto desperta lembranças em Chiko, pois por muito pouco ela não se tornou um deles.

Em 1940, Chiko mora com os pais e sua irmã Miko no norte da Coréia, na fronteira com a região da Manchúria (China), numa época em que o país ainda não havia sido dividido em Coréia do Sul e do Norte. O pai é gerente de uma carvoaria na região e, por esta razão, a família desfruta de uma excelente qualidade de vida, estando sempre unida e feliz. Mas com a entrada do Japão na II Guerra Mundial em 1941, contra os Aliados, tudo isto muda. Chiko, aos poucos, vai tomando conhecimento de uma realidade mais brutal, na qual os invasores japoneses, seus compatriotas, humilham os nativos coreanos, proibidos de usarem seus nomes, sua língua, e até mesmo de chamar a Coréia de seu próprio país.

Com o andamento da II Guerra e o desenrolar dos fatos, a situação da Coréia e de todos os seus habitantes está prestes a sofrer mudanças drásticas, e Chiko e sua família passarão por muitas provações até que possam voltar, um dia, à sua terra natal.


Antes de começar a análise em si, eu gostaria de relembrar uma frase que usei na resenha de "Grave of the Fireflies": "Nas mãos de um diretor incapaz, Grave of the Fireflies teria facilmente descambado para o choro fácil e para a pieguice." Infelizmente, é exatamente isto o que acontece em "Rail of the Star", agravado pelo fato de que tudo parece ter sido atenuado para um ponto de vista mais infantil. Muitas situações tensas são embaladas por uma trilha alegrinha e nada a ver, as pessoas reagem e conversam com tal alegria e tranquilidade que parecem estar vivendo em tempos de paz. Desta forma, exceto em momentos esparsos, não dá para sentir para valer o que foi a guerra de verdade, ao contrário do que acontece em "Hotaru no Haka". E se lembrarmos que a coisa na Coréia foi feia, com direito a execuções e estupros em massa, isto chega a ser imperdoável. Em compensação, quando acontece algo dramático ou trágico, aquilo é martelado de tal forma na cabeça do espectador, com um excesso de choros, gritos e música melodramática, que todo o impacto desaparece.

Em relação à parte técnica, decepção total. Apesar de ser um longa-metragem produzido pela sempre incrível Madhouse, "Rail of the Star" possui uma qualidade de animação infinitamente inferior a "Ninja Scroll", por exemplo, produzido pela mesma Madhouse também em 1993. Verdade seja dita, os cenários são muito bem feitos, refletindo bem a época da guerra, mas a animação abusa de células deslizantes para dar impressão de movimento, e a animação dos personagens em geral é bem simples, com um "chara" inexpressivo, exceto no caso de Chiko e Miko, cujas expressões vivas muitas vezes beiram o SD.

Se levarmos em conta o gabarito da equipe envolvida, chega a ser estranho termos um resultado final tão medíocre. O responsável pelo "chara design", Yoshinori Kanemori, foi um dos responsáveis pelo excelente desenho de personagens de "Legend of the Galactic Heroes", e ainda trabalhou em "X TV" e "Yawara!". Apesar de seu estilo lembrar um pouco o traço de Naoki Urasawa (Monster, Master Keaton), seu trabalho aqui é bem mediano. E os diretores Toshio Hirata ("Gen - Pés Descalços", "Pet Shop of Horrors") e Satoru Namekawa ("Lemon Angel") parecem dois estreantes sem controle de sua função, pois dirigem este anime com a mão pesada, sem nenhuma sutileza, abusando das narrações didáticas em "voiceover" e sem demonstrar o menor controle de ritmo. Apesar de ter apenas 77min, "Rail of the Star" é arrastado e parece ter o dobro desta duração.



O anime tenta passar algumas mensagens interessantes. Mostra os sacrifícios feitos em tempos de guerra, o sofrimento maior das crianças, que não entendem bem o que está acontecendo, e que numa guerra, não importa a nacionalidade, a população civil sempre perde. Mas numa obra sem ritmo, sem carisma, com uma abordagem equivocada para um tema tão sério e culminando em um final muito, muito tosco, infelizmente as boas intenções acabam ficando pelo caminho.


Marcelo Reis


 

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