sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ray (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 13/05/2007.

Alternativos: Ray The Animation, Ray Project
Ano: 2006
Diretor: Naohito Takahashi
Estúdio: OLM / Tezuka Productions
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 30 min
Gênero: Drama / Romance / Sci-Fi



Akihito Yoshitomi, autor de "Ray", é um mangaka que se tornou conhecido pelo inesperado sucesso de crítica e público de sua obra Eat-Man. Ainda que ambas as séries animadas baseadas naquele mangá estejam longe do status de obras-primas, pelo menos elas ofereciam um bom equilíbrio entre ação e um enredo interessante. Infelizmente "Ray - the Animation" é uma tremenda decepção, e como não cheguei a ver muitos comentários acêrca do mangá que deu origem à série, não sei dizer se o fato do anime ser tão medíocre é culpa de Akihito Yoshitomi, por ter criado um mangá ruim, ou da equipe que levou a sua história às telas e não soube adaptar algo tão promissor para o formato animado.

A idéia inicial é bem interessante. Em uma casa na montanha, um local de ambiente soturno, uma garota com os olhos vendados descansa na mesa de operações enquanto Black Jack (sim, ele mesmo, o doutor de talento sobre-humano criado por Osamu Tezuka), diz que a garota descobrirá seu novo eu ao acordar e que precisará decidir como tocará a vida após voltar a enxergar.

Já na cidade grande, um atentado a bomba deixa uma mulher ferida e, em meio à confusão, uma bela garota chamada Ray Kasugano chega para ajudar. Ray consegue enxergar através das coisas com seus olhos avermelhados, visualizando o interior do corpo humano como se fosse uma máquina de tomografia ambulante. Esta habilidade permite que ela faça diagnósticos rápidos e precisos, além de realizar procedimentos cirúrgicos considerados impossíveis.

Ray conta com o auxílio de Shinoyama, uma rapaz meio atrapalhado e preguiçoso que trabalha em casa e é um verdadeiro gênio no tocante à criação de avançados dispositivos, como bisturis elétricos de última geração e órgãos artificiais. Além de criar estes dispositivos para seu próprio sustento, Shinoyama desenvolve novos aparelhos para que Ray possa realizar suas cirurgias impossíveis com maior segurança. Uma inegável química parece existir entre ambos, mas Ray tem algumas feridas abertas em seu passado e acaba não dando muita margem para uma aproximação de Shinoyama, o qual é cobiçadíssimo entre as enfermeiras do hospital onde Ray começa a trabalhar.

Cada episódio envolve um caso clínico impossível de ser solucionado, a menos que Ray se torne responsável pela cirurgia. À medida em que os casos se sucedem e vamos conhecendo novos personagens, o passado de Ray é desvendado pouco a pouco, com algumas idéias bem interessantes sobre o tráfico de órgãos e o uso de crianças geradas apenas para que seus órgãos abasteçam este triste mercado, no qual a procura supera em muito a oferta. O grande problema é o fato de "Ray - the Animation" ser uma série excessivamente formulaica e que abusa de todas aquelas coisas comumente execradas aqui no Animehaus, como clichês, melodramas e coincidências, além de alguns personagens que... bem...


Explicando melhor as coisas. Uma mesma história pode ser contada de várias maneiras diferentes, com estilos narrativos e ambientações completamente distintos. "Ray" é um anime que mereceria uma abordagem um pouco mais séria e pé-no-chão, mesmo com algumas elementos fantasiosos, como a habilidade insana da personagem principal. É fácil perceber que as coisas não vão bem quando todas as enfermeiras do hospital demonstram habilidades de luta comparáveis às dos lutadores de Street Fighter II, incluindo a enfermeira Misato, cuja aparência física e estilo de luta são muito parecidos com os da Chun-Li. A seqüência em que estas garotas enfrentam membros de uma gangue culmina numa das cenas mais constrangedoras que eu me lembre de ter visto num anime... para não estragar a surpresa, fecho a frase com um termo enigmático: homem-pião com tapa-olho de pirata.

Uma ceninha ruim não seria motivo para estragar a série toda, ainda mais com uma dupla de personagens tão boa como Ray e Shinoyama. Ela, belíssima e talentosa, quer saber o máximo sobre seu passado e reencontrar uma pessoa importante, há tempos desaparecida, mas toca a vida como pode e não fica se lamuriando pelos cantos. As conversas que têm com o pobre Shinoyama são impagáveis. Ele, por outro lado, apesar do jeitão meio sonso e de alívio cômico, é um cara super ligado e que não tem medo de dizer o que sente abertamente a Ray, mesmo sabendo que o endurecido coração da garota não lhe dá muitas chances.

Uma pena que o restante do pacote não ajude muito os nossos amigos. A animação não decepciona, ainda que passe longe do memorável, e a apresentação da série, com pessoas que parecem estar em um desfile de corpos descarnados, é muito boa, mas o enredo toma um rumo que chega a dar raiva. Há um certo abuso de fan-service, com Ray e as enfermeiras sempre de sainha curtinha enquanto trabalham no hospital. A tal trama envolvendo a corporação que gerencia o tráfico é muito ruim e, para variar, tudo é explicado de uma maneira risível. Há uma tremenda falta de lógica em algumas partes, como em um episódio no qual Ray tratará um tumor e o desenrolar dos fatos contradiz toda a explicação anterior sobre a razão pela qual uma anestesia comum não poderia ser utilizada naquela cirurgia. Parece ainda que, no universo de Ray, o tempo anda em outro ritmo, pois como alguém consegue desenvolver e criar um coração artificial em menos de um dia é um verdadeiro mistério. E o melodrama atinge níveis quase épicos em cenas como aquela em que uma garota grita para a irmã: "Me dê seu coração!!"... e não no sentido figurado. Eu poderia falar horas sobre várias outras coisas, mas preciso terminar o texto antes que alguém perca a paciência de vez com a resenha gigante.



O triste é que Ray tinha um tremendo potencial para ser uma série acima da média. Quando a trama se concentra para valer na questão da clonagem, do tráfico de órgãos ou mesmo no relacionamento entre Ray e Shinoyama, o interesse do espectador aumenta. Um anime decepcionante, não apenas pela fama do autor do mangá como, ainda, pela excelente equipe técnica responsável pelo anime, como Naohito Takahashi na direção (Berserk, Figure 17) e roteiristas de renome como Atsuhiro Tomioka (Berserk, Chrno Crusade) e Yuuji Hosono (Pumpkin Scissors). Difícil saber o que deu errado na receita ao longo do caminho, mas que o bolo ficou com um sabor muito ruim, isto não dá para negar. Black Jack deve ter se arrependido de sua pequena participação especial.


Marcelo Reis


 

3 comentários:

  1. Um anime medíocre que só vi para passar o tempo.

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    1. É uma pena que não temos como recuperar o tempo perdido em obras medíocres como esta. Totalmente esquecível.

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    2. Sinto vontade de ver Black Jack, mas ninguém traduziu ainda.

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