sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Shamanic Princess (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/11/2007.

Ano: 1996
Diretor: Mitsuru Hongo / Hiroyuki Nishimura
Estúdio: Bandai Visual / MOVIC / Triangle Staff
País: Japão
Episódios: 6
Duração: 30 min
Gênero: Fantasia / Drama / Ação


Entre as várias boas sensações vividas ao assistir a este belo anime de 1996, produzido pela Bandai Visual / MOVIC e com animação a cargo do Triangle Staff, uma das melhores foi perceber como uma animação tradicional bem feita continua sendo algo muito agradável de se ver, ainda mais levando-se em conta os excessos de CGI presentes em grande parte das animações atuais. E outra sensação muito boa diz respeito ao conteúdo da série propriamente dita, um shoujo típico dividido em 6 OVAs mas que flerta com elementos dos shounen e, de quebra, ainda coloca as mulheres em posição de dominância em relação aos homens. Não digo isto pensando em algum fetichismo sado-masoquista nem nada, mas apenas para demonstrar a preocupação da roteirista Mami Watanabe (Phantom Quest Corporation) em fugir do lugar-comum nas animações japonesas, quase sempre retratando as mulheres como submissas apalermadas e prontas a se apaixonar por qualquer zé-mané. Em Shamanic Princess, homens e mulheres são tratados com respeito, e quando pinta algum tipo de atração entre os personagens, é por algum motivo bem melhor do que o simples desejo de ser tratada como um mero objeto... se bem que o anime tem muito fan-service e, neste caso, só as mulheres ficam semi-nuas. Resquícios de um machismo arraigado, difícil de apagar.

O Mundo Guardião, uma terra de magos existente num universo paralelo ao nosso, está em polvorosa, pois o poderoso "Trono de Yord" foi roubado. Por ser um ítem indispensável para o funcionamento do Mundo Guardião, o "Trono de Yord" deve ser imediatamente recuperado e, para isto, seus líderes dão à bela Tiara a missão de vir à Terra com o intuito de recuperar o objeto das mãos do enigmático Kagetsu.

Na Terra, Tiara se apresenta como uma estudante comum que vive longe dos pais mas, no verdade, é uma poderosa feiticeira capaz de usar magias poderosíssimas quanto evoca o seu xamã. Tiara conta com a ajuda de Japolo, um bichinho falador com excelente faro e uma enorme capacidade para combater espíritos malignos. Por ser muito nervosa e prepotente, pois sabe que seu poder está num nível muito superior à maioria dos outros magos, Tiara não é de dar ouvidos a Japolo, ainda que a função de seu companheiro seja justamente dar conselhos à garota. Por esta razão, as discussões entre ambos são constantes e, claro, muitos problemas de fácil resolução acabam se complicando além da conta. E tudo fica ainda mais enrolado quando os dois descobrem que não são os únicos atrás de Kagetsu e do "Trono de Yord". O desenrolar dos fatos mostra a Tiara que a missão para a qual foi designada pode causar problemas mais sérios do que o imaginado.

"Shamanic Princess" chama a atenção de cara pela excelência técnica: quase todas as seqüências possuem algum tipo de detalhe nos desenhos ou na animação que nos deixam de queixo caído. O uso de cores é de um bom gosto extremo, aliadas a um perfeito uso no contraste entre luzes e sombras. Os cenários são claros e de cores vivas nos momentos alegres, e desbotados e escurecidos nos momentos ruins. A ambientação da cidade é feita com uma incrível riqueza de detalhes e a animação 100% tradicional impressiona pela fluidez, e isto não ocorre apenas nos momentos-chave, mas em toda e qualquer seqüência deste anime. È interessante perceber como a lua aparece cada hora de uma cor, por exemplo, dependendo de quem esteja em combate naquele momento. Há uma outra seqüência em que algumas flores foram retratadas com tamanha riqueza de detalhes que dá vontade de parar naquele quadro específico e observar a imagem com calma. Méritos para Hajime Matsuoka (Street Fighter II: The Animated Movie), cujo talento permitiu que "Shamanic Princess" se tornasse um anime com um visual detalhado e de extremo bom gosto.


E olhem que nem comentei sobre as magias! Com nomes como "Campo Estático" e "Neutralizador", estas magias não apenas são criativas do ponto de vista funcional mas, também, um espetáculo em termos visuais, um verdadeiro deleite para quem curte animes do gênero. E o interessante é que as lutas não apenas são bonitas de se ver mas, ainda, bastante violentas: quando o pessoal resolve pôr para quebrar, o bicho pega para valer.

O desenho de personagens de Atsuko Ishida (Rayearth TV, Shin Hakkenden) é singular, apesar de seguir a linha comum aos shoujos (rostos e silhuetas finos e angulados), e sua capacidade para criar corpos femininos bem proporcionados é uma coisa de louco. Quando Tiara evoca seu xamã pela 1a vez, é difícil não se impressionar com a roupa ousada, seu corpo perfeito e, claro, com o bom gosto permanente, pois mesmo se tratando de um fan-service descarado, não há apelações como a exibição gratuita de calcinhas e seios sem motivo aparente. Sem contar que ela realmente é poderosa pra caramba! Só o cabelo-asa é um problema meio sério em termos estéticos mas, enfim...

Ainda na parte técnica, a trilha sonora é boa, misturando uma temática medieval a pitadas de eletrônica, dando um bom clima às imagens mas sem ser ostensiva. A série possui um tema de abertura (Inori no Asa) e dois de encerramento (Omoide no Mori e Kaze no Matsuri). Destas músicas, apenas Kaze no Matsuri merece maior destaque, pois possui uma melodia muito boa, embalada por uma ótima seção de tambores e um baixo realmente envolvente.

Todos os personagens são muito bem desenvolvidos, agem movidos por motivações plausíveis e comportam-se de forma bem adequada às suas respectivas personalidades. Mesmo Japolo, que age na maior parte do tempo como alívio cômico, é bem legal e tem importância fundamental na trama. E, em termos de roteiro, se não chega a ser um primor de originalidade, pelo menos "Shamanic Princess" não é um anime de magia bobão nem exageradíssimo, apesar de um pouco formulaico nos quesitos "paixões não correspondidas". O anime brinca muito com a noção do que é verdade ou mentira, sonho ou realidade, e isto torna-se mais evidente quando os fatos sobre o "Trono de Yord" começam a aparecer.

"Shamanic Princess" foi dirigido por duas pessoas, e isto fica bem evidente quando terminamos de ver a série. Mitsuru Hongo (Outlaw Star, Megami Kouhosei) dirigiu os 4 primeiros OVAs, enquanto Hiroyuki Nishimura (desenho de personagens em YS II) dirigiu os dois últimos. Os 4 primeiros OVAs são muito bons, mas a maioria dos (poucos) problemas citados ocorrem justamente neles, culminando com um 4o OVA estranho, o qual alterna partes excelentes e péssimas na mesma proporção e termina de um jeito estranhíssimo, dando inclusive a impressão que a série toda acaba ali. Mas chegam o 5o e 6o OVAs, e tudo o que havia de bom nos 4 primeiros OVAs fica ainda melhor: a equipe técnica consegue a proeza de deixar o anime visualmente ainda mais perfeito, o clima é muito mais soturno e pesado, e até as explicações para os bichinhos falantes convencem totalmente. O mais interessante nisto tudo é que Mitsuru Hongo é um diretor muito mais experiente que Hiroyuki Nishimura, mas o resultado do trabalho de ambos passa a impressão de ser justamente o contrário.



Daria para o enredo do anime ter ainda muito mais coisas, mas o resultado final vale muito a pena, ainda que prejudicado de forma indelével pelo inconstante OVA 4. "Shamanic Princess" não tem personagens maniqueístas nem os tenebrosos clichezões e coincidências que assolam grande parte dos animes. No fundo, é uma obra que fala de histórias de amor e relacionamentos pessoais que podem dar certo ou não, tudo isto num mundo repleto de magia e exibido num pacote tecnicamente impecável. Não reinventa a roda em termos de enredo, entretém e ainda aproveita para deslumbrar o espectador com seu visual de extremo bom gosto.


Marcelo Reis


 

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