sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sin, the Movie

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/09/2005.

Ano: 1999
Diretor: Yasunori Urata
Estúdio: ADV Films / Phoenix Animation
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 57 min
Gênero: Terror / Violência / Sci-Fi


Juro que tentei evitar o uso de uma frase-clichê dentro desta resenha, mas não consegui resistir. Mesmo quem não assistiu ao filme "Apocalypse Now" já deve ter ouvido falar da célebre frase proferida pelo Coronel Kurtz (Marlon Brando) em meio à loucura da Guerra do Vietnã: "O horror... o horror...". Por mais que eu tentasse fugir da tentação de usar esta citação neste texto, não consegui encontrar outras palavras que expressassem com tamanha exatidão a sensação que tive ao terminar de assistir a "Sin the Movie". É inacreditável imaginar que alguém teve coragem (ou burrice) suficiente para investir em algo tão horrendo quanto este anime.

É triste ter que perder tempo explicando o "enredo", mas vamos lá. No ano de 2070, John Blade é o líder do HARDCORPS, tropa de elite de Sky City encarregada de investigar, entre outras coisas, o que existe por trás da chegada de remessas cada vez maiores de drogas à cidade. Estas drogas são vendidas pelas Indústrias Sin Tek como se fossem remédios comuns, com a conivência do governo, o qual recebe uma porção considerável da enorme quantidade de dinheiro envolvida nas transações. Os HARDCORPS procuram saber as verdadeiras intenções por trás das vendas de tais drogas ao público em geral, assim como as relações entre o que acontece no presente com os eventos ocorridos 8 anos antes, também chamados de "Chave Final".

A estranha e violenta morte do companheiro e "expert" em computadores John Christopher Armack, também membro dos HARDCORPS, deixa Blade com a certeza de que algo muito ruim está sendo planejado na cúpula da Sin Tek, provavelmente com a participação dos militares e da máfia que controla a cidade. Mortes horríveis causadas por estranhas infecções, seres assustadores e indestrutíveis aniquilando a todos que cruzam seu caminho... o futuro de Sky City parece cada vez mais sombrio, e apenas Blade pode mudar a situação.

Ah, que coisa horrorosa! Reciclando sem dó idéias já utilizadas à exaustão em obras superiores, "Sin the Movie" até que tenta ser profundo ao falar de temas sérios como a manipulação do DNA por laboratórios inescrupulosos, os quais buscam a geração de mutantes indestrutíveis que seriam usados como armas perfeitas pelos militares. O problema é que a execução inepta e risível do anime, com cenas supostamente trágicas que se tornam cômicas e algumas das piores animações em CGI já vistas, transforma tudo o que poderia gerar reflexão ou mesmo uma simples diversão em algo doloroso de tão ruim.


"Sin the Movie" é fruto de mais uma cooperação entre empresas norte-americanas e japonesas. Baseado no "videogame" homônimo criado pela Ritual Entertainment em 1998, "Sin the Movie" foi 100% produzido e financiado em 1999 pela ADV Films, a maior distribuidora de animes dos Estados Unidos, com animação a cargo do estúdio Phoenix Entertainment. Se a Manga Entertainment se deu bem ao contratar a Production IG alguns anos depois para a criação do excelente "Dead Leaves", a ADV Films entrou em uma verdadeira roubada, gerando uma obra que é freqüentemente citada nas listas de "10 Piores Animes da História", e com toda a razão.

Nem tudo é um lixo absoluto em "Sin". O desenho de personagens criado por Dan Kongoji (Kite) é excelente, assim como a maioria das cenas de animação nas quais não aparecem efeitos de CGI. "Sin the Movie" é um anime com doses generosas de violência, e aqueles que curtem obras com alto teor de "gore" vão se deliciar com as vísceras e miolos que voam pela tela em abundância. "Like no Other" (Bennie Pilgren), o tema musical de abertura, é uma ótima música eletrônica que dá um perfeito clima à boa animação de introdução. Uma pena que este início promissor dê lugar ao horror completo que se segue...

Por onde começar? Pelos personagens formulaicos e maniqueístas que não convencem nem uma criança de 3 anos? Ou pela direção psicótica e inexistente de Yasunori Urata, o qual parece ter conduzido este anime de cabeça para baixo dentro de um tanque de água, com as mãos algemadas e rodeado por tubarões famintos e polvos gigantes com poderosas ventosas sugadoras de cérebro? Só assim para justificar uma inépcia tão grande na direção de um anime com apenas 57 minutos de duração e um roteiro simples.

Roteiro? Que roteiro? Gente, só vendo para crer. Todos os clichês humanamente possíveis de serem criados estão aqui: se levarmos em conta que o anime é curto, temos que dar o braço a torcer e admitir que isto é uma verdadeira proeza. Interessante é ver que, após sermos apresentados a dezenas de subtramas envolvendo os militares, a máfia, o assassinato do pai de Blade no passado, um vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, sua filha esquizofrênica e uma garota resgatada dos esgotos, chegamos a conclusão... nenhuma!! Mas ainda tem mais: saberemos que a menina dos esgotos é intimamente ligada a Blade por um motivo tão justificável quanto abrir a própria cabeça a machadadas apenas para tirar o cérebro e ver como ele é macio. Veremos que uma mega-indústria como a Sin Tek realmente confia na sorte, pois se dá ao luxo de manter um gigantesco prédio de 75 andares absolutamente sem funcionários. E o que dizer do incrível, do insano, do inesquecível GHOST MODE, o qual me recuso a descrever em palavras!! Tudo isto embalado por uma narrativa nada acelerada e perfeitamente compreensível:

- Ei, você! 
- Não, não atire!
- Hehehe, a morte... sim, sou coronel.
- Mas como? Acabou a comida?
- Ele é meu irmão.
- O que dizer mais sobre isto... ouço tiros...
- Sim, conheci sua mãe. Uma boa pessoa...
- AGHHH! Tiros!
- Pobre John. Agora é um mutante.
- Parece que a guerra é inevitável.
- E assim falou Zarathustra...

"Capice"?

Mas a parte mais triste em tudo isto é perceber que o talentoso compositor Masamichi Amano adora embarcar em uma canoa furada. Autor de excelentes trilhas sonoras para obras como os filmes Battle Royale I e II ou o fantástico Giant Robo, Masamichi Amano sempre conseguiu demonstrar seu imenso talento, mesmo em obras dispensáveis como Ninja Resurrection. A trilha sonora de "Sin the Movie" não chega a ser excepcional, mas consegue dar um bom clima de tensão em alguns momentos. Talvez Amano-san devesse fazer uma visitinha a uma benzedeira para ver se consegue melhorar sua situação, pois já está na hora de participar de obras à altura de sua capacidade.



Muita gente diz que eu e outros colaboradores do site somos mal-humorados, que pegamos pesado nos animes ruins e que não temos o direito de desmerecer o trabalho dos outros. Gente, tudo o que queremos é dar a chance àqueles que lêem os textos do Animehaus de usarem melhor o seu tempo, assistindo a animes que realmente valham a pena e evitando obras de baixíssimo nível, e às vezes não dá para passar esta idéia sem usar palavras mais contundentes ou um sarcasmo exagerado nos textos. Para não ser totalmente injusto, "Sin the Movie" ainda tem uma utilidade para sua triste existência: pode ser usado em palestras como o mais perfeito exemplo de como NÃO se deve fazer um anime. Assista por sua conta e risco.


Marcelo Reis


 

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