sábado, 16 de fevereiro de 2013

Tokyo Godfathers (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/08/2004.

Ano: 2003
Diretor: Satoshi Kon
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 92 min
Gênero: Comédia / Drama


Prezado Satoshi Kon, teremos que entrar em um acordo: ou o senhor pára de dirigir animes excepcionais de uma vez por todas, ou minhas "reviews" relacionadas às suas obras perderão a graça. Já vejo a reação dos leitores: "Ahn... é do Satoshi Kon? O "xodó" do Marcelo Reis? Nem preciso ler o texto, a nota vai ser alta mesmo...". Além disto, Kon-san, como o senhor se dá ao luxo de mudar completamente de estilo entre uma obra e outra, sem perder o controle em momento algum? Passou do violento suspense de "Perfect Blue" para a emocionante e nostálgica fantasia de "Sennen Joyu" com a maior naturalidade e, agora, em sua terceira obra, cria uma hilária história de Natal protagonizada por três mendigos e que não apela para a pieguice em nenhum momento. Suspense, fantasia, comédia, tudo realizado com extrema competência... já está na hora de errar a receita do bolo, não acha?

Ironias à parte, o fato é que Satoshi Kon realmente tem se mostrado um profissional muito acima da média, e fico a imaginar se algum dia ele dirigirá um anime ruim, já que, até o momento, sua filmografia tem sido impecável. Responsável pela direção, história original, desenho de personagens (ao lado de Kenichi Konishi) e roteiro (em conjunto com Keiko Nobumoto, criadora de Cowboy Bebop e Wolf's Rain), Satoshi Kon vem provando a cada dia que é, disparado, o mais genial profissional da animação japonesa nos dias atuais (Hayao Miyazaki e Isao Takahata à parte, é claro).

Mas, afinal, do que se trata "Tokyo Godfathers"? O título leva a crer que o anime possa ter algo a ver com "gângsters", com a Máfia ou mesmo a Yakuza, mas não é nada disto. A história, conforme os comentários iniciais, gira em torno da vida de três mendigos, Gin, Miyuki e Hana, os quais vivem nas ruas de Tóquio e formam um grupo inusitado. Gin é um barbudão que vive como mendigo há anos, gosta de tomar uns goles caprichados e não é muito chegado a assumir compromissos. Nervosão, Gin costuma quebrar o pau com Miyuki, uma jovem e rebelde garota que fugiu de casa. Totalmente desbocada, Miyuki não mede as palavras na hora de soltar impropérios aos companheiros de infortúnio. Finalmente, temos Hana, uma engraçadíssima ex-"drag-queen" que assume o papel de verdadeira "mãezona" dos inconseqüentes Gin e Miyuki. Delicada e emotiva, Hana sonha em ter um filho mas, por motivos óbvios, não tem condições de realizar o seu desejo.


Após assistirem, na noite de Natal, a uma montagem teatral sobre o nascimento de Jesus, Gin e Hana resolvem fazer uma busca nos depósitos de lixo de Tóquio, tentando encontrar um presentinho interessante para a jovem Miyuki. No meio do bate-boca tradicional que sempre acontece entre os três, ouve-se um choro ao longe... Em meio a vários sacos de lixo, os três mendigos, horrorizados, encontram uma criança recém-nascida, aos prantos, e um bilhete: "Cuide desta criança". Hana quer levá-la para casa e cuidar dela como se fosse sua filha, mas Gin e Miyuki conseguem convencê-la de que isto é loucura e que precisam entregar a criança à polícia. Hana aceita em termos: prefere procurar pela verdadeira mãe da criança, para saber a razão pela qual cometeu um ato tão abominável. Tendo apenas uma chave como ponto de partida, o trio de mendigos sai pelas ruas de Tóquio em busca da mãe da Kiyoko (nome que deram à criança). Neste processo, uma seqüência de eventos milagrosos e coincidências fazem com que Gin, Miyuki e Hana reflitam sobre o próprio passado e os eventos que os levaram a esta situação de mendicância e, por que não, de infelicidade.

Tecnicamente, "Tokyo Godfathers" é o mais bem acabado anime de Satoshi Kon. A cada dia que passa, torna-se mais difícil comentar sobre a animação realizada pela Madhouse sem cair em lugares-comuns. Os cenários, baseados em paisagens reais de Tóquio, são deslumbrantes, parecendo verdadeiras fotografias em alguns momentos. As tomadas de câmera continuam impecáveis, com os mesmos efeitos inventivos e realistas utilizados em "Perfect Blue" e "Sennen Joyu". Personagens, carros, tudo é animado com uma fluidez e perfeição notáveis. Merece destaque o cuidado utilizado nas expressões faciais dos personagens, com uma sutil mistura entre traços tradicionais e exageros na linha "SD - Super Deform", assim como a sutileza nos movimentos corporais, que se adaptam com perfeição à personalidade de cada integrante da história. Não dá para deixar de citar a impagável e lisérgica seqüência "A História do Diabo Vermelho", momento inspiradíssimo de Kon & Cia.

O roteiro de Satoshi Kon e Keiko Nobumoto é primoroso: evita cair no dramalhão e na pieguice mesmo nas horas mais dramáticas, imprime um ritmo vigoroso sem acelerar o andamento da história e ainda provoca gargalhadas convulsivas no espectador. Os personagens principais são carismáticos e nada estereotipados, e possuem qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Estas características mais realistas de suas personalidades fazem com que o público se identifique com seus problemas e conflitos com mais facilidade. Dá vontade de pegar um avião para Tóquio e convidar os três para tomar um "sakezinho" e jogar conversa fora! É impossível não rir ou se emocionar com os dramas de Hana, os resmungos de Miyuki ou as caretas impagáveis de Gin. Méritos também dos "seiyuus" responsáveis pela dublagem destes personagens, os quais realizam um trabalho, no mínimo, brilhante.

O único ponto levemente negativo de "Tokyo Godfathers" diz respeito ao excesso de coincidências que acontecem ao longo do anime. Tudo bem que se trata de uma obra relacionada ao Natal e aos milagres que podem acontecer nesta época, e realmente tudo parece conspirar divinamente a favor de nossos amigos, mas uma quantidade menor de "eventos milagrosos" teria sido muito benéfica ao anime como um todo.



Quem dera se todo filme "de Natal" tivesse metade do carisma e do encanto de "Tokyo Godfathers"! Sem apelar para mensagens edificantes vazias ou coisas do gênero, "Tokyo Godfathers" é a prova inconteste de que o talento de Satoshi Kon não é algo passageiro. Com 3 espetaculares longa-metragens no currículo, não dá para dizer que todo o sucesso deste talentoso diretor seja apenas mera obra do acaso. "Tokyo Godfathers" pode não ser um anime tão revolucionário quanto as obras anteriores de Kon, mas é, de longe, o mais divertido deles. Entretenimento de primeira!


Marcelo Reis


 

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