sábado, 16 de fevereiro de 2013

Whisper of the Heart (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2003.

Alternativos: Mimi wo Sumaseba
Ano: 1995
Diretor: Yoshifumi Kondou
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 111 min
Gênero: Aventura / Fantasia / Romance


Um dos poucos animes do Studio Ghibli que não contou com Hayao Miyazaki ou Isao Takahata na direção, Whisper of the Heart (Mimi o Sumaseba) conta uma história bem intimista, que valoriza a arte, a vida e a beleza. Baseado no mangá de Aoi Hiragi, Whisper of the Heart foi roteirizado por Hayao Miyazaki e comandado pelo diretor estreante Yoshifumi Kondou. O fato de Yoshifumi Kondou ser um novato na direção não indica falta de experiência na produção de animes, já que ele era, à epoca (1995), um dos mais antigos e respeitados membros efetivos do Studio Ghibli, tendo atuado como chefe de animação em Grave of the Fireflies, além de ser o responsável pelo desenho de alguns personagens memoráveis, como Setsuko (Grave of the Fireflies) e Anne (Anne of Green Gables).

E Yoshifumi Kondou mostrou criatividade e coragem logo de cara, escolhendo como tema de abertura a canção "Take me Home, Country Road", de John Denver. A sensação de ouvir uma música inteiramente em inglês na abertura de um anime do Ghibli é bem estranha, mas não incomoda, principalmente se levarmos em conta a importância desta canção ao longo da história.

Falando em história, vamos ao enredo deste anime! Tsukishima Shizuku é uma garota alegre e de temperamento forte, que vive com os pais e a irmã mais velha num pequeno e bagunçado apartamento. Com o pai trabalhando na Biblioteca Municipal e a mãe estudando novamente, Shizuku e sua irmã Shiho precisam organizar o tempo para conciliarem os estudos e o trabalho com as tarefas caseiras, como lavar roupas e preparar o almoço. Shiho costuma pegar no pé de Shizuku, já que sua irmã mais nova costuma ser bem relapsa nos estudos ou na hora de realizar as tarefas de arrumação da casa, e pressiona os pais para que sejam um pouco mais duros com a filha caçula.

Mas seus pais preferem deixar que Shizuku encontre seu próprio ritmo, pois sabem que ela tem consciência de suas obrigações, deixando de realizá-las apenas quando fica completamente absorta em seu grande "hobby", a leitura. Shizuku é uma leitora compulsiva, devorando livros com um apetite assombroso, onde quer que esteja. É justamente esta sua compulsão pelos livros que a faz notar um fato interessante, nas fichas de empréstimo da biblioteca: alguma pessoa, de nome "Amasawa Seiji", havia lido exatamente os mesmos títulos que ela, não importando o quão raro ou incomum fosse o livro em questão. Logicamente, Shizuku fica curiosa para saber quem é Seiji, e sua busca por este misterioso leitor acaba colocando em seu caminho um enigmático e gordo gato cinza com uma orelha roxa, uma loja de antigüidades em um bairro elegante e, ainda, uma estátua representando um gato esbelto e impecavelmente vestido. Como tudo isto se encaixa na história? Assista e descubra! ~_^"


É pleonasmo falar que a qualidade de animação em uma obra do Ghibli é de cair o queixo. Como sempre, os artistas deste estúdio se superam a cada novo filme, retratando com perfeição os aspectos urbanos de uma metrópole, os movimentos fluidos dos personagens e as sutis mudanças de expressão dos mesmos. Whisper of the Heart foi um dos primeiros animes do Studio Ghibli a utilizar extensivamente a computação gráfica para aumentar o realismo das cenas, e o resultado alcançado é de tirar o chapéu!

O roteiro de Miyazaki mostra, com elegância, como a adolescência é uma fase complicada, com as primeiras e doloridas desilusões amorosas, a insegurança em relação ao futuro profissional, entre outras coisas. É de se admirar, ainda, a forma como a família é retratada em Whisper of the Heart, demonstrando o quanto a unidade familiar e o suporte dos pais são importantes para a formação emocional do adolescente.

A estréia de Yoshifumi Kondou havia agradado tanto a Miyazaki que este havia pensado em abandonar a direção de animes, após Mononoke Hime (1997), para dedicar-se apenas à produção dos mesmos, deixando a direção das futuras produções do Ghibli nas mãos de Kondou. Mas quis o destino que, em 21 de janeiro de 1998, aos 47 anos de idade, Yoshifumi Kondou viesse a falecer, vítima de um aneurisma. Este triste episódio causou uma enorme comoção entre os membros do Ghibli, especialmente Miyazaki e Takahata, que vinham acompanhando a evolução deste tímido e talentoso colega desde o início, quando Kondou ainda tinha 21 anos e trabalhava com eles no Nippon Animation Studio. A cerimônia fúnebre realizada em 23 de janeiro de 1998 contou com a presença de um arrasado Hayao Miyazaki, aos prantos, e um memorável e emocionante discurso proferido por Isao Takahata.



Esta morte encerrou prematuramente uma brilhante carreira em ascensão. Yoshifumi Kondou demonstrou que tinha tudo para se tornar um diretor genial, nos moldes de Miyazaki e Takahata. Se não fosse o final bobinho e a trama edificante em excesso, Whisper of the Heart seria um anime perfeito. Ainda assim, a incrível interação entre os personagens e a história emocionante consertam qualquer pequeno defeito deste belo anime. A cena em que Shizuku canta "Country Road" em japonês, junto a uma inusitada trupe de músicos, é, em toda a sua simplicidade, um dos grandes momentos da animação em todos os tempos. Um toque de gênio deixado para a posteridade pelo saudoso Yoshifumi Kondou.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Achei o "final casamenteiro" um pouco forçado para crianças daquela idade.

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    1. Ih, rapaz, eu teria que ver o anime de novo pra reparar nisto - sinceramente, à época, não tive esta sensação, não.

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