quinta-feira, 16 de outubro de 2014

História do Japão nos Animes - Parte 1

OBS: Artigo publicado originalmente no Animehaus em 04/12/2009.


Vamos aprender um pouco da evolução dos animes dentro da história e cultura japonesa. Afinal, quantas vezes assistimos a um anime e ficamos querendo saber um pouco mais sobre os fatos e pessoas que marcaram esta época? Iniciarei esta série de artigos com uma luz vinda do passado: do Xogunato ao Imperialismo.



Souji Okita (Peace Maker Kurogane)


Hikaru (Otogizoushi)


Shinsengunmi (RK Tsuioku Hen)

Período conturbado no Japão, os anos de 1600 a 1867 (o Bakumatsu, o Bakufu e a Restauração Meiji) são extremamente comentados em diversos animes, como Rurouni Kenshin, Samurai Deeper Kyo, Peacemaker Kurogane, Otogizoushi, em filmes como Kai Doh Maru e em "lives" como Shinobi. Mas vocês sabem o que isso significa? Qual a coincidência entre as obras citadas acima?

Pense um pouco mais... Não descobriu? 

Nada mais é que o período do Xogunato Japonês que se compara ao período de regime feudal no ocidente. Já o Bakumatsu, também bastante citado, é o nome dado ao período de decadência do Xogunato. Mas que fique bem entendido, este período marca o início da modernização do Japão.

Deixemos de enrolação e vamos ao que interessa realmente: os animes conhecidos que tratam dessa época conturbada.

Samurai Deeper Kyo começa logo após a premissa da batalha de Sekigahara em 1600 onde, nessa época, existia toda uma movimentação política que acabou levando Tokugawa Ieyasu à vitória sobre os daimiôs ocidentais, o que praticamente lhe deu o controle total do Japão. Mas o que realmente importa é que foi nessa batalha que o Xogum estabeleceu seu poder incontestável e redistribuiu os espólios entre sua família e aliados, adquirindo assim confiança, apoio e poder suficientes para dominar a todos, inclusive seu sucessor, seu filho Hidetada, algo que também é representado no anime Samurai Deeper Kyo, onde Hidetada aparece como um filho submisso e fugitivo do Xogum.

Com o Japão reunificado, o imperador não podia ignorar a existência de alguém tão poderoso e influente, então decidiu legitimar o poder do Xogum Ieyasu. E para garantir o elo entre as famílias Kamakura (família imperial) e os Tokugawas, a neta de Ieyasu tornou-se consorte imperial em 1619. Nessa época o Japão gozou de estabilidade. Estabilidade forçada com evolução política acentuada.



Gennosuke (Shinobi)


Shiro no Kiseki


Samurai Champloo


Rurouni Kenshin - Seisou Hen

Aqui se consolida o período Edo, também conhecido como Período Tokugawa (não passa de uma divisão histórica de tempo - 1603 a 1867). Esse período marca o início do Xogunato Tokugawa, oficialmente estabelecido em 1603 pelo primeiro Xogum Tokugawa Ieyasu e garantido por seus sucessores.


Esta época é ricamente utilizada pelos animadores japoneses, por ser incrivelmente recheada de personagens históricos como: Katsura Kogoro, um dos 3 notáveis da Restauração Meiji, que após uma trajetória sangrenta, acabou levando a vitória aos imperialistas; Sagara Sauzou, Capitão do Sekihoutai, uma tropa de elite formada por ex-camponeses e agora soldados que deram suas vidas no campo de batalha até finalmente serem descartados, sendo considerados ”armas obsoletas“ que deveriam desaparecer com o Xogunato; Saitou Hajime, Capitão da 3a divisão do Shinsengunmi, que após uma trajetória de lutas, devidamente retratadas em Rurouni Kenshin e Peacemaker Kurogane, tornou-se informante da polícia; Yamagata Aritomo, ex-líder do Kihetai e Ministro do Exército, o grande nome da história japonesa nessa época, conhecido como um dos pilares da nova política imperialista, acaba sendo assassinado; Souji Okita, Capitão da 1a divisão do Shinsengunmi, espadachim extraordinário que acabou morrendo jovem e com vida obscura, pouco sabe-se sobre a sua vida, a não ser que, quando retratado nos animes, ele passa um ar feminino; Yoshida Shouin, líder da facção de Restauradores Meiji e líder filosófico do grupo; e, claro, não poderíamos esquecer de Gensai Kawakani, o assassino no qual foi baseado a história de Kenshin, mas ele teve seu final infeliz, 10 anos após o início da Era Meiji: Kawakani não conseguiu se adaptar às mudanças da nova era e acabou por ser morto enforcado em 1864.


Vários animes usaram personagens históricos para sua realização. Todos os que citei acima tiveram sua vida revirada para se transformar em animes, mas podemos notar que, se olharmos pelo lado de Watsuki e sua obra Rurouni Kenshin, teremos os Restauradores Meiji como heróis, mesmo durante uma época sangrenta, como são retratados nos OVAs. Mas se olharmos pelo lado do criador de Peacemaker Kurogane, Nanae Chrono, teremos claramente a visão dos que defendiam o poder absoluto na mão do Xogum. Duas versões para a mesma história.



Suzumu (Peace Maker Kurogane)



Oniwabanshuu (RK Tsuioku Hen)





Este período também foi marcado por terríveis perseguições, conhecido como o tempo do ”problema cristão“. Até mesmo nos dias atuais, a religião japonesa predominante é o Xintoísmo (originalmente japonesa) e o Budismo. Outras religiões atualmente são bem aceitas mas, ainda assim, com um certo ceticismo por parte dos japoneses tradicionais. E naquela época, nada mais comum que o cristianismo ter sido praticamente extinto e sua prática ser considerada quase um sacrilégio digno de fogueira.

Seguindo: a abertura dos portos e a imigração européia acabaram criando muitos adeptos ao cristianismo e o Xogum não via com bons olhos esse crescimento acentuado de pessoas desvirtuadas do Xintoísmo. E em 1616 começaram as punições e perseguições, resultando em milhares de mortes de cristãos, culminando em 1629, quando foi decretado que nenhum japonês poderia viajar para fora do país e, se saísse, não poderia voltar, tamanha a pressão feita pelo Xogum. E finalmente, em 1650, o cristianismo foi praticamente erradicado do Japão.

Onde será que já vimos isso? O belíssimo e enigmático Kai Doh Maru trata muito desse assunto, mesmo não 

sendo muito abrangente. A perseguição aos cristãos é levada a um banho de sangue em Ninja Ressurection... convenhamos, um anime que merecia ser esquecido nos confins de alguma prateleira mas que, para amenizar, nunca foi acabado devido a tamanha falta de criatividade e imagens beirando ao grotesco, transformando um anime inicialmente promissor num desastre total. As punições aos cristãos também são tratadas em forma de perseguição no anime Samurai Champloo, literalmente um anime de um nível superior, não só em design mas em enredo também. A história do samurai com cheiro de girassóis é extremamente cativante.


Hijikata Toushizo (Shiro no Kiseki)


Ninja Resurrection)


Sanosuke (RK Seisou Hen)























Mas o Xogunato estava fadado a desaparecer como uma locomotiva sem freios que pede passagem. E ela veio na figura do Comodoro da marinha americana Matthew C. Perry e sua armada conhecida como os ”Navios Negros“. O aumento da população dificultou o controle, e mesmo com o Xogum favorecendo a descentralização e controle da riqueza, houve grandes períodos de secas e fome. Isso deixou o povo muito insatisfeito, protestos começaram a tornar-se constantes. Em 1830 ocorreu a crise geral: fome, desastres naturais, tudo conspirava contra o Xogum, a modernização era algo que nem mesmo as barreiras mercantis e punições severas conseguiriam segurar. Tentar manter o poder estava extremamente difícil. Muitos apoiavam uma doutrina política chamada de ”sonno joi“ (Honra ao Imperador, Expulse os Bárbaros), a visão pró-imperialista aflorava, a restituição imperial era iminente. 

Relutantemente, Keiki (Tokugawa Yoshinobu) liderou a família Tokugawa e, finalmente, tornou-se Xogum, mas abdicou em 1867 para, assim, iniciar a Restauração Meiji. O imperador passou a possuir atributos quase divinos, terminando assim com 200 anos do domínio Tokugawa sobre o Japão. Logo no primeiro ano da Era Meiji, as mudanças começaram a conturbar a todos, o Shinsengunmi foi consumido por uma avalanche de fatos que culminou com a captura de seu líder Isami Kondou. 

Hijikata Toushizo, o demônio retratado em vários animes como um dos líderes do Shinsengunmi, foi morto no ano seguinte durante uma batalha, retratada em um anime autobiográfico chamado " Hijikata Toushizo: Shiro no Kiseki", que vale a pena ser visto se você curte história japonesa.

Na segunda parte de OVAs de Rurouni Kenshin, ver Sanosuke parado ao lado de um dos gigantescos navios mercantes é como estar vendo um futuro previsível. É belíssimo notar a insignificância das pessoas frente à modernização. Como o Japão sobreviveu a isso sem perder suas raízes? Isso é uma outra história.



Notas da autora:

O texto é baseado nos animes citados e em um pouco de história japonesa, que foi pesquisada por mim. Sei que posso ter cometido algumas gafes, e se alguém tiver fontes mais seguras, esteja à vontade para mandar-me e-mails para que este artigo seja o mais fiel possível à cultura japonesa, tão adorada por todos os freqüentadores do site.

Possivelmente estarei fazendo 3 textos sobre história japonesa e animação, comentando sobre períodos históricos retratando o Japão desde a sua era feudal até a moderna, pelo menos são meus planos. Concretizar-se-ão?? (putz, palavrão!) Não sei. Mas vou tentar.

Abraços!

Cátia Nunes

7 comentários:

  1. O que aprendi com animês, aprendi com resenhas e artigos do animehaus; parabéns, pena que o tempo não dê pra manter o ritmo antigo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Mauro! Fico feliz em saber disto. :) E realmente, o dia-a-dia tem deixado pouco tempo para mexermos no Animehaus como gostaríamos, mas vamos levando... quem sabe as coisas não melhorem um pouco no futuro? ;)

      Excluir
    2. Muito bom mesmo Mauro, concordo com tudo.

      Excluir
  2. Estou ansioso pelos vol. 2 e 3 do artigo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. DÊ um puxão de orelha na Cátia lá na comunidade do Animehaus no Facebook: como é ela quem gerencia a bagaça, com certeza vai ler a mensagem. :D

      Excluir
  3. Aprendi tudo que sei sobre animes e os melhores que assisti foi por causa da vossa resenha.
    Muito Grato.
    E sempre que poderem vão nos atualizando.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ficamos felizes em saber disto, Cláudio: valeu demais! Pelo menos para os próximos meses, tem um monte de resenhas a caminho. ;)

      Excluir