segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ponyo - Uma Amizade Que Veio do Mar (Movie)

Alternativos: Gake no Ue no Ponyo, Ponyo on the Cliff by the Sea
Ano: 2008
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 101 min
Gênero: Aventura / Magia / Fantasia



Após a recepção morna de público e crítica ao longa-metragem "Gedo Senki", com o qual seu filho Gorô Miyazaki estreou como diretor, Hayao Miyazaki voltou à ativa com este delicioso "Ponyo", provavelmente o longa-metragem mais infantil produzido pelo Studio Ghibli. Ainda que levemente inspirado no conto "A Pequena Sereia", de Hans Christian Andersen, "Ponyo" é uma criação original de Hayao Miyazaki, que assumiu ainda as funções de roteirista e diretor na produção deste anime. E como acontece com quase toda animação produzida pelo Studio Ghibli, "Ponyo" foi um sucesso arrasador nas bilheterias japonesas, além de ter vencido em várias categorias no Tokyo Anime Awards 2009 e no 32º Japan Academy Prize Association.

Uma peixinha dourada com cara de gente vive numa pequena redoma submarina ao lado do pai, um cientista-mago chamado Fujimoto, e suas várias irmãzinhas mais jovens e minúsculas. Brunhilde, a tal peixinha, adora dar umas escapadinhas da tal redoma e, montada nas costas de alguma água-viva, subir até a superfície para tomar um delicioso banho de sol.

Numa destas escapadelas, alguns acontecimentos acabam levando Brunhilde até a beira de um penhasco, no alto do qual moram o garoto Sousuke e sua mãe Lisa. Ao descer até a beira do mar para brincar na água com seu barquinho de brinquedo, Sousuke vê aquela manchinha avermelhada e aparentemente desmaiada na água... e deste encontro casual surge uma bela amizade entre o garoto e aquela peixinha um tanto estranha, agora chamada de Ponyo por Sousuke.

Em "A Pequena Sereia", a personagem-título quer se transformar em humana para poder viver ao lado de seu grande amor, mesmo correndo o risco de morrer no processo. Em "Ponyo" acontece mais ou menos o mesmo, ainda que o amor aqui seja algo mais pueril. No afã de se tornar humana para poder curtir a vida ao máximo ao lado de seu amigo Sousuke, Ponyo está disposta a tudo, mesmo que os efeitos decorrentes deste ato possam ser literalmente catastróficos.



Um anime do Ghibli é sempre garantia de deixar o espectador de queixo caído com o visual arrebatador, e "Ponyo" não é uma exceção. A sequência de abertura dura aproximadamente 5 minutos, e sem uma única linha de diálogo, mostra toda a riqueza e abundância de vida submarina; a redoma em que moram Fujimoto, Brunhilde e suas irmãs; a cumplicidade que reina entre elas; e a satisfação de Brunhilde ao sentir os primeiros raios de sol. Tudo isto, claro, com aquela perfeição e complexidade visual que se tornaram marcas registradas do Ghibli.

Mas não é apenas nas imagens grandiosas que o Studio Ghibli impressiona - e grandiosidade é o que o não falta neste anime, em especial durante certos eventos ligados a tempestades. Pessoalmente, o que mais me marca nas animações do Ghibli é a atenção aos detalhes mais sutis. Por exemplo, quando Sousuke se encontra pela 1ª vez com Brunhilde/Ponyo, toda a movimentação do garoto é sublime: da expressão facial de curiosidade à retirada delicada dos sapatos dos pés antes de entrar na água, é tudo tão incrível que dá vontade de ver e rever a cena por várias vezes, só para pegar as sutilezas em cada detalhe. Um outro momento ocorre durante uma fortíssima tempestade (mais um show de animação, por sinal), e Lisa e Sousuke estão pegando o carro para voltar para casa. Na hora em que a chuva cai nos vidros, a animação, os efeitos sonoros... é tudo tão incrível que até sentimos o peso da água sobre o carro. Senti meus olhos brilhando na hora, o queixo caindo, a baba escorrendo e aquele "uau..." saindo quase num sussurro. :)

Hayao Miyazaki conta com seus habituais parceiros do Ghibli nesta produção. Joe Hisaishi cria mais uma excelente trilha sonora, alternando temas mais fortes e sombrios com outros mais alegres e festivos, inclusive prestando uma homenagem à "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner - o nome Brunhilde sendo uma clara alusão à sua ópera "O Anel dos Nibelungos". Katsuya Kondo fica mais uma vez a cargo do desenho de personagens com aquelas características tipicamente "Ghiblianas", que passam a impressão de já termos visto aqueles traços anteriormente, mas com cada personagem possuindo algum detalhe que o diferencia claramente dos demais. Katsuya Kondo é ainda diretor de animação e, convenhamos, em se tratando do Studio Ghibli, desnecessário falar alguma coisa a mais, né?

Como em outras obras de Miyazaki, não há um vilão de verdade em "Ponyo". Há algumas mensagens espalhadas aqui e ali sobre a humanidade estar colocando em risco o planeta com a poluição e a sujeira, e até a intenção de determinado personagem de limpar o planeta dos seres humanos, para que a natureza possa tomar conta e devolver a Terra a seu esplendor de outrora. Mas nada de personagens que representem o mal supremo e que queiram destruir a Terra apenas por prazer e satisfação pessoais. E chega a ser engraçado ver a tranquilidade com que as pessoas encaram certos eventos cataclísmicos ao longo do anime: se trata de um anime infantil com elementos fantásticos, claro, mas é preciso ligar a "suspensão da descrença" em modo máximo em alguns momentos, pois é realmente muito difícil imaginar um comportamento tão calmo e ordeiro da população perante a situação em que se encontram.

Méritos ainda para Miyazaki por criar um roteiro que não apenas cativa o espectador desde o início mas, ainda, possui personagens carismáticos com os quais nos preocupamos de verdade. Os relacionamentos são sinceros e convincentes, e isto é vital para que "Ponyo" não caia na armadilha tão comum a vários longas-metragens de animação, que abusam do deslumbre visual e sonoro para ocultar defeitos claros no que mais importa, que é a história.



"Ponyo" é mais uma excelente obra do Studio Ghibli, ainda que, pessoalmente, eu o coloque um degrauzinho abaixo de outros animes infantis do estúdio, como "Kiki's Delivery Service" e "Meu Vizinho Totoro". Mas por se tratar do Ghibli, não é preciso pensar demais para saber que mesmo um anime, digamos, "imperfeito" do estúdio ainda é superior a praticamente 99% do que é produzido por aí.


Marcelo Reis


 

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