sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Mundo dos Pequeninos (Movie)

Alternativos: Karigurashi no Arrietty, The Secret World of Arrietty, The Borrower Arrietty
Ano: 2010
Diretor: Hiromasa Yonebayashi
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 95 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia



Hiromasa Yonebayashi faz parte da equipe do Studio Ghibli desde 1997, quando atuou como intervalador em "Princesa Mononoke". Após vários anos exercendo as funções de intervalador, animador e diretor de animação em várias obras do Ghibli, Yonebayashi foi informado de que assumiria a cadeira de diretor em "Karigurashi no Arrietty". Além de ter sido o primeiro animador do Ghibli a exercer a função de diretor, Yonebayashi tornou-se a pessoa mais jovem a dirigir um anime do estúdio. Responsabilidade pouca é bobagem. :)

"Karigurashi no Arrietty", chamado no Brasil de "O Mundo dos Pequeninos", é baseado no livro "The Borrowers", da autora inglesa de livros infantis Mary Norton. Para quem quiser conferir o livro, ele foi lançado no Brasil pela Martins Editora com o nome "Os Pequeninos Borrowers".

Sho, um garoto de 12 anos, vai passar alguns dias na bucólica casa da tia-avó Sadako, pois encontra-se debilitado devido a uma doença crônica e precisa de alguns momentos de descanso em um local sossegado. Ao chegar, enquanto vagava pelos jardins da casa, Sho tem a nítida impressão de ter visto uma minúscula garotinha correndo no meio das plantas. Seria aquilo uma alucinação, ou realmente seria possível a existência de pessoas de proporções tão minúsculas?

A vista de Sho não lhe pregou nenhuma peça: ele realmente vira Arrietty, uma garota de 14 anos que mora com os pais Pod e Homily no subsolo da casa de Sadako. Eles fazem parte de uma raça chamada de "Colhedores", seres minúsculos que moram escondidos nas casas de seres humanos e pegam "emprestado" os utensílios e suprimentos de que precisam para sobreviver. Uma das principais regras de vida dos Colhedores diz que eles nunca podem ser vistos por um humano: caso isto aconteça, para sua própria segurança, devem procurar imediatamente uma nova casa.

Arrietty não percebeu que o garoto a notara, pois estava mais preocupada em voltar para casa em segurança enquanto fugia de Niya, o gato da tia-avó de Sho. Por esta razão, nenhum sinal de alerta chegou a ser ligado entre a família da garota. Mas com a curiosidade de Sho em tentar descobrir se os pequeninos existem mesmo, aliada à tentação de Arrietty em saber um pouco mais sobre aquele humano xereta, é apenas questão de tempo até que a situação comece a se complicar para todos os envolvidos. E quando se tem em casa alguém como Haru, uma empregada um tanto insólita, a história pode tomar rumos totalmente imprevisíveis.

Acredito que muitos que estão lendo esta resenha já tenham assistido a "O Mundo dos Pequeninos" mas, ainda assim, preferi descrever o desenrolar dos fatos de forma meio vaga para evitar "spoilers". Mas como acredito que não tenham entrado nesta página para ler apenas uma sinopse, chega de falatório e vamos à resenha! :)

Não li o livro de Mary Norton, então realmente não tenho como dizer se o roteiro de Hayao Miyazaki e Keiko Niwa foi fiel à obra original. Algumas mudanças óbvias dizem respeito ao local onde ocorre a história - o livro se passa na Inglaterra, enquanto o anime se passa no Japão -, além de vários personagens que existem no livro mas que sequer são mencionados no anime. Mas sendo fiel ao livro ou não, o roteiro é enxuto sem ser apressado, permitindo que o anime tenha uma narrativa ao mesmo tempo empolgante e coesa. Confesso ter achado estranho algumas resenhas reclamando do ritmo arrastado de "O Mundo dos Pequeninos"... será que vimos o mesmo anime?


Como acontece em praticamente todas as obras do Ghibli, as personagens femininas são fortes e lutam por aquilo em que acreditam. Arrietty respeita os pais, preocupa-se em não causar nenhum problema à segurança da família, mas sente aquela pulsão irresistível de explorar o desconhecido por conta própria, mesmo que para isto precise se expor a riscos. Sadako, a tia-avó de Sho, tem um jeito calmo de falar, mas desde o início demonstra claramente estar disposta a ajudar o sobrinho-neto, tão carente de atenção em casa, após a separação dos pais que quase só pensam em trabalho. Homily, a mãe de Arrietty, tenta oferecer uma boa qualidade de vida à filha e ao marido Pod, mas tem alguns arroubos de pânico aqui e ali, preocupada com a segurança de todos. E Haru, do seu jeito maluco e meio psicopata, também tem uma tenacidade admirável em sua luta para provar que a casa está infestada com certos "pestinhas" de formato humano.

Do lado masculino, Pod tem um jeito calmo e de autoridade, transmitindo uma sensação de segurança de alguém que já passou por muita coisa para garantir a sobrevivência da família. Apesar de mais caladão, é palpável o amor e preocupação sinceros que sente pela esposa e pela filha. Quanto a Sho, apesar de doente e enfraquecido, não fica se lamentando pelos cantos pelo triste destino que talvez o aguarde, e descobre um novo fascínio pela vida com a possibilidade de confirmar a existência dos pequeninos.

Por estar suficientemente ocupado com as funções de diretor e criador de "storyboards", Hiromasa Yonebayashi não se envolveu com a animação propriamente dita - pelo menos não de forma oficial, já que aparentemente ele também atuou como intervalador e animador nesta obra. De toda maneira, desta vez a direção de animação ficou por conta de Megumi Kagawa - envolvida com Miyazaki e Isao Takahata desde os tempos do estúdio Topcast, quando foi produzido "Nausicaä" - , e Akihiko Yamashita, que também cuidou do desenho de personagens em "Arrietty", e participou no passado de obras tão díspares quanto "You're Under Arrest" e "A Lenda do Demônio". O trabalho de ambos é sensacional, como seria de se esperar em uma obra do Studio Ghibli, mas me arrisco a dizer que "Arrietty" talvez seja um dos animes mais belos do estúdio em relação ao visual, com uma atenção quase doentia aos detalhes de animação, especialmente quando o macrouniverso dos humanos se choca com o microuniverso dos Colhedores. Méritos também da direção de arte de Noboru Yoshida e Youji Takeshige, com a criação de cenários detalhados e criativos, em que cada rachadura na madeira ou prego na parede pode ser útil para o trabalho dos Colhedores. E o que dizer da magnífica casa de bonecas, com um nível assombroso de detalhes em cada incrustação na parede ou nos objetos de decoração? "Arrietty" é daquelas animações que dá vontade de ver e rever, só para curtir cada um destes momentos sublimes que o Ghibli adora nos proporcionar.

"Arriety" também se destaca no catálogo do Ghibli por ter sido o primeiro anime do estúdio cuja trilha sonora não foi composta por um artista nipônico. Cécile Corbel, uma cantora, harpista e compositora francesa, é fã de longa data do Studio Ghibli, e quando resolveu mandar seu álbum "SongBook vol. 2" para algumas pessoas que admirava, enviou uma cópia para o Ghibli junto a uma carta manuscrita. Por coincidência, o produtor Toshio Suzuki procurava uma trilha sonora com texturas celtas para usar em "Arrietty", e aquele CD acompanhado de uma carta manuscrita chamou sua atenção. Cécile deveria fazer apenas a canção-tema do anime mas, no fim das contas, acabou compondo toda a trilha sonora. Mais uma vez sou obrigado a discordar de algumas resenhas que criticaram a trilha de Cécile Corbel, dizendo que ela destoa do que se passa na tela. As emocionantes melodias celtas e orientais, aliadas à belíssima voz de Cécile, fugiram um pouco das trilhas mais grandiosas e orquestrais de Joe Hisaishi, combinando perfeitamente com o ambiente bucólico aqui representado.



"O Mundo dos Pequeninos" foi um imenso sucesso de público e crítica, se tornando a maior bilheteria no Japão em 2010, além de ser agraciado com o prêmio de "Animação do Ano" no 34º Japan Academy Prize Association. Hiromasa Yonebayashi correspondeu positivamente à expectativa nele depositada por Hayao Miyazaki, e voltou à cadeira de diretor em 2014 com "Omoide no Marnie". Mas voltando a "O Mundo dos Pequeninos", é mais um excelente anime no currículo invejável do Studio Ghibli, recomendado para adultos e crianças que nao cansam de se encantar com as obras fantásticas deste estúdio simplesmente genial.


Marcelo Reis


 

2 comentários:

  1. Adorei o filme e fui amarradona comprar o livro... Acho que no final das contas não li nem um 1/5 dele... O anime, para mim, ficou muito superior... :)

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    1. Sério mesmo? Que surpresa: é tão difícil uma obra audiovisual ser superior ao livro. :)

      Este anime me surpreendeu positivamente, já que obras do Ghibli de outros diretores que não sejam Miyazaki e Takahata costumam ser uma incógnita: alguns são excelentes, mas outros chegam a ser decepcionantes pela expectativa gerada.

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