sábado, 6 de dezembro de 2014

Terror in Resonance (TV)

Alternativos: Zankyō no Terror
Ano: 2014
Diretor: Shinichiro Watanabe
Estúdio: MAPPA
País: Japão
Episódios: 11
Duração: 23 min
Gênero: Drama / Mistério / Suspense


Mesmo nos períodos da minha vida em que assisti menos animes, alguns nomes eu sempre acompanhei. Ghibli, Satoshi Kon e Shinichiro Watanabe são os principais. Ghibli passa por uma crise e seu futuro é incerto, Satoshi Kon morreu em 2010. O Shinichiro Watanabe está vivinho e trabalhando bastante nos últimos tempos, o que prova que não sou eu que estou trazendo azar para este pessoal ^^

A última obra de Shinichiro foi o anime de 11 episódios Zankyou no Terror. O diretor volta à cena com sua parceira de longa data Yoko Kanno (cantora e compositora). Esta dupla já nos rendeu várias obras memoráveis. A mais destacável é Cowboy Bebop, mas também fizeram juntos Wolf’s Rain, Sakamichi no Apollon e Macross Plus, entre outros. Yoko Kanno criou uma trilha sonora divina novamente. Me impressiono em como ela consegue manter o altíssimo padrão de qualidade há tanto tempo. Quando o Shinichiro e ela se juntam, eles têm o costume de colocar uma cena só com uma música de fundo, sem diálogos. Quase como um videoclipe da canção. O resultado é sempre de arrepiar, literalmente.

O character design é muito belo. Foi feito pelo Kazuto Nakazawa, também parceiro de longa data do Shinichiro. Ele foi responsável pelas personagens do jogo Catherine. Se você também sempre achou que o protagonista lembrava o Spike de Cowboy Bebop, agora sabe o motivo. ^^ Fora isso, ele já trabalhou em diversos animes, entre eles Samurai Champloo e El Hazard: The Magnificent World. Me agrada muito o modo como ele desenha os personagens, em especial em relação a idade. Cansei de assistir animes com personagens de 30 e poucos que parecem ter 17. Ou personagens de 17 que parecem ter 12.

Resumindo: a parte técnica é um primor. Tudo que se poderia esperar de Zankyou no Terror neste quesito cumpre as expectativas. Direção, arte visual e som. A dublagem também é muito boa. Há cenas que mesclam 3D e 2D, como é praticamente um padrão hoje em dia. Elas se mesclam bem, mesmo que eu não goste muito do resultado. Opinião pessoal. Sempre acho que tudo em 3D envelhece mal, e eu sempre consigo reparar nos elementos destoantes. De qualquer forma, Zankyou no Terror é um anime que foi exibido no bloco mais maduro noitaminA, então se espera por bem mais do que uma parte técnica bem executada.

 A história foi criada para o anime e segue os ataques terroristas de dois jovens, com codinomes Nine e Twelve. Os adolescentes roubam uma carga de plutônio, deixando a palavra VON pichada na fábrica. A partir daí, eles começam a postar vídeos com enigmas para a polícia, que se resolvidos a tempo evitariam os atentados. Os jovens se autodenominam Sphinx 1 e Sphinx 2, e os enigmas normalmente têm a ver com a história de Édipo Rei. O detetive Shibazaki se mostra o único capaz de resolver estes enigmas. O problema é que ele não é mais bem visto na corporação, tendo sido transferido para a seção de arquivos ao denunciar corrupção no alto escalão.

Tudo parecia ser uma disputa mental entre duas mentes, nos mesmos moldes de Death Note. Mas aí entra a Five. A adolescente com ligações com o passado dos terroristas tem uma necessidade quase infantil de superar Nine. Ela é uma agente do FBI, e a agência tem poder para dar ordens na polícia japonesa. Este poder não se restringe apenas à polícia: políticos e várias empresas parecem estar à mercê dos americanos, e não importa quão sádicas ou ilógicas estas ordens sejam, elas sempre são seguidas.

O anime lida com temas bem delicados. Não apenas tem terroristas como protagonistas, como lida com corrupção, belicismo, subserviência a outras nações, liberdade de expressão, entre outros. Shibazaki morava em Hiroshima e a tragédia da bomba atômica é abordada de uma maneira direta e sincera. Todas estas polêmicas ganham mais impacto graças à situação política atual no Japão.

O Japão passa nos últimos anos por sérias discussões. O primeiro ministro Shinzo Abe é fortemente favorável à militarização. É complicado discutir um assunto tão complexo em uma parte de uma resenha, ainda mais de um ponto de vista tão distante, mas é algo que vem refletindo na indústria de animação de várias maneiras. O primeiro ministro negou crimes de guerra do país durante a Segunda Guerra Mundial, criticou obras que abordavam o tema ou que eram pacifistas. Sobrou até para diretores famosos. O discurso dele tem ganhando mais e mais popularidade graças, em parte, à hostilidade do Japão com a China que aumenta a cada dia.

Sem contar muitos "spoilers", a militarização do país está no cerne do anime. Imagino como deve ter sido a recepção de ambos os lados. A relação com os Estados Unidos também tem uma importância vital, assim como a maneira de lidar com crimes, mas dar mais detalhes seria cometer "spoilers" imensos. Só peço a quem assistir que preste atenção em cada personagem principal. Na sua capacidade intelectual, em como eles lidam com problemas e nos objetivos de cada um. Há muitas alegorias poderosas.

Fiquei impressionado com como o anime lida com hackers ou com as bombas. Os personagens usam linhas de comando e TOR. Usam celulares como detonadores. Usam explosivos termite em vigas. É uma atenção aos detalhes rara. Há exageros, claro, mas fica mais dentro da realidade. Cansei de ver hackers usando interfaces lindinhas ou bombas pretas que parecem funcionar por mágica. Infelizmente, o mesmo cuidado com o realismo não foi tomado na hora de definir a moralidade dos personagens. Nine e Twelve dos primeiros episódios são totalmente diferentes dos outros episódios. Um erro bobo, provavelmente feito para dar mais destaque para eles no começo. Mas que os dilui como personagens no todo.

E tem uma personagem chamada Lisa. Ela não é uma personagem de todo ruim, e o passado dela em aberto dá margem a algumas interpretações. Mas ela parece tão deslocada em meio a todo mundo que ficou difícil até incluí-la nesta resenha. Talvez seus problemas sejam sérios demais para mostrar no anime, e por isso seus dramas não pareçam tão importantes. Talvez seus problemas sejam tão leves em comparação com os dos outros que ela fica desfocada. O fato é que ela e sua apatia não combinam com o resto do anime.



Felizmente, o final é muito bom. Não apenas pelo que acontece, mas pelo modo como tudo transcorre. Tomara que gere uma obra derivada no futuro. Com tantas releituras de animes antigos acontecendo, eu adoraria ver pelo menos mais histórias de um dos personagens. É um anime intenso, em parte por ter só onze episódios, e que vale muito a pena assistir. Não por ser perfeito ou algo próximo disso, mas por ser ousado.

Heider Carlos


2 comentários:

  1. Um dos melhores finais que eu já vi...
    Monster, apesar de ser um ótimo enredo, decepciona e muito no final.
    Adorei a resenha, sobretudo a parte de Lisa.

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    1. Concordo com Monster. Acho que ele vai perdendo momento. Você assiste, assiste, e as coisas começam a não importar tanto com a história e os personagens. Rendeu demais. Pra mim é um problema bem característico do autor - não consegui ler 20 Century Boys até o final.

      Já no final de Terror On Ressonance eu fiquei boquiaberto. Sou da época que raros eram os animes que tinham mais que uma temporada, então o matando os personagens me deu até nostalgia. Muita coragem dos criadores :)

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