terça-feira, 2 de dezembro de 2014

The Plague Dogs (Movie)

Alternativos: Die Hunde sind los
Ano: 1982
Diretor: Martin Rosen
Estúdio: Nepenthe Productions
País: Reino Unido / EUA
Episódios: 1
Duração: 103 min
Gênero: Aventura / Drama



Ao pesquisar dados para a resenha de "Chirin no Suzu", caí por acaso em um site que comentava sobre outras animações capazes de jogar o espectador num lamaçal de tristezas. Entre as obras citadas, apareceu uma animação britânica que, confesso, eu desconhecia completamente: "The Plague Dogs", baseada no livro homônimo de Richard Adams e dirigida por Martin Rosen, que já havia adaptado anteriormente outra obra de Adams para o universo da animação, "Watership Down", que no Brasil chamou-se "Uma Grande Aventura".

Num laboratório de pesquisas financiado pelo Governo Britânico, animais sofrem todos os tipos de crueldade por parte dos "Jalecos Brancos", alcunha dada pelas próprias cobaias aos seus algozes. Macacos, coelhos, ratos, cães, todos vivem em condições degradantes - se é que isto pode ser chamado de vida.

Rowf é um cão mestiço, meio labrador e meio retriever, de pelagem negra e compleição forte, que é submetido a desesperadores testes de resistência para verificar por quanto tempo consegue se debater na água antes de se afogar. A cada nova bateria de testes, Rowf é levado ao limite extremo, sendo praticamente ressuscitado ao final destas sessões de terror. Cansado da vida, Rowf torce para que sua existência termine logo, acabando de vez com todo este sofrimento.

Seu vizinho no canil é Snitter, um fox terrier que fora submetido recentemente a uma cirurgia no cérebro, para que houvesse uma dissociação entre realidade e fantasia em sua mente. Por esta razão, o pobre Snitter sofre de constantes alucinações, zumbidos no ouvido, amnésia e cegueira temporária. Mas mesmo com a mente em frangalhos, Snitter percebe uma chance de salvação, quando o cuidador do canil deixa aberta a cela de Rowf. Aproveitando uma pequena brecha na grade entre sua cela e a de seu amigo, Snitter se esgueira até lá e consegue convencer o desanimado Rowf a acompanhá-lo nesta jornada rumo à liberdade.

"The Plague Dogs" possui um estilo visual bem peculiar, com cenários de fundo bem detalhados e realistas, mas com um colorido provavelmente feito com lápis-de-cor, com predominância de tons pastéis. Há uma atenção impressionante aos detalhes, especialmente no uso de luz e sombras para gerar contraste, e fiquei boquiaberto com a beleza e perfeição das cenas com água corrente. Hoje em dia, com a facilidade de se criar texturas fotorrealistas em 3D, talvez as pessoas não se impressionem tanto com o que estou dizendo, mas precisamos ter em mente que "The Plague Dogs" foi criado em 1982. Conseguir um visual tão incrível com tão poucos recursos em mãos, em uma animação tradicional feita integralmente em células de acetato, é de se tirar o chapéu.

Mas falei tanto da água que me esqueci de falar dos personagens. A mesma atenção foi dedicada à animação de pessoas e animais, cada um com movimentos e expressões faciais bem individualizados e com uma abordagem muito realista. E isto é importante para dar mais força à história, já que os cães falam com um sotaque tipicamente britânico. Se eles andassem em pé como pessoas e conversassem com animais de outras raças, haveria a chance de "The Plague Dogs" ser considerado simplesmente uma fábula. Mas o inteligente roteiro de Martin Rosen é cuidadoso o suficiente para mostrar que os cães dialogam apenas entre si, além de se comportarem como animais do mundo real, derrubando latas de lixo em busca de comida, rosnando para humanos e sempre pensando sob um ponto de vista canino. Com isto, o espectador não tem dúvidas de que tudo aquilo que se passa na tela poderia perfeitamente estar acontecendo aqui e agora.

A relação sincera de amizade entre Rowf e Snitter é imprescindível para que nos interessemos por sua história e, claro, torçamos do início ao fim pelo sucesso de sua empreitada. Snitter já teve um dono no passado, sabe como é a vida tendo alguém que o ame, mas se culpa pela morte de seu dono, e acha que todos os problemas que enfrenta são uma punição pelo que fez. Rowf, por outro lado, nunca teve um dono e, por esta razão, não confia em humanos de jeito nenhum. É mais velho, teve sempre uma vida dura, está sempre cansado e desconfia de tudo e de todos. E tudo fica ainda mais interessante depois que a dupla conhece Tor, uma raposa astuta e com um fortíssimo sotaque do norte da Inglaterra. Tor é um personagem fascinante, pois é difícil saber quais são suas verdadeiras intenções: ele quer realmente ajudar Rowf e Snitter, ou apenas se aproveitar dos dois para conseguir comida com mais facilidade?

Desde o início, com a abertura mostrando o sofrimento de Rowf no tanque de água, a sombria trilha sonora à base de tímpanos e acordes melancólicos e dissonantes, o ambiente assustador do laboratório, temos a nítida sensação de que tudo aquilo não acabará bem. A cada nova tentativa de encontrar um novo dono, Rowf e Snitter fazem uma besteira atrás da outra, e a necessidade de sobrevivência leva os dois cães a cometerem atos que dificilmente fariam em situações normais. Tudo isto, aliado ao risco real dos cães serem vetores de uma doença mortal, leva a uma situação cada vez mais claustrofóbica e desesperançosa.



Por esta razão, nada de exibir "The Plague Dogs" para crianças e pessoas sensíveis, pois além do clima pesado e opressivo, ainda há algumas cenas fortes em termos visuais, com exposição de vísceras e membros arrancados. E se você gosta de animais, eleve o aviso anterior à décima potência, porque o negócio aqui é arrasador mesmo. Ainda assim, não posso deixar de recomendar fortemente esta sensacional animação britânica, um verdadeiro "soco no estômago" que permanecerá em sua mente por vários dias.


Marcelo Reis


 

6 comentários:

  1. Faço parte de grupos de proteção aos animais e só de ler a resenha estou/estava segurando as lágrimas. Infelizmente, não é para mim. Mas se as pessoas conhecessem seria bom para ter uma pequena ideia do que estes animais sofrem. Às vezes dá uma vergonha tão grande de ser um ser humano...

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    1. Também adoro animais e me senti super mal com o filme - mas concordo com você, seria bom que mais pessoas o assistissem, para se conscientizarem um pouco mais sobre o sofrimento destes animais.

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  2. Cara, o livro é tão bom quanto o filme... Recomendo

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  3. O mesmo autor, escreveu outro somente sobre coelhos que ficou conhecido tanto quando esse. Eu acabei achando em um sebo. E como por sorte, foi traduzido para nossa língua. O livro se chama "A longa jornada" e assim como the Plage Dog, também tem sua animação.
    Vale a pena os livros do Autor, ele é realmente bom.
    Luz genthy lindha.
    Smile Delacoeur

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    1. Obrigado pelo comentário, Smile Delacoeur! :)

      Vou procurar os dois livros, sim, e sobre a animação "A Longa Jornada", ela já estava na minha lista de resenhas a fazer. Preciso organizar minha vida para arrumar um tempinho pras resenhas novamente: tanta coisa legal para ser divulgada!

      Um grande abraço!

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