domingo, 21 de junho de 2015

Death Parade (TV)

Ano: 2015
Diretor: Yuzuru Tachikawa
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 12
Duração: 23 min
Gênero: Drama / Mistério / Psicológico




Imagine que você morre. No mesmo instante em que outra pessoa morre. Vocês acordam em um bar, sem memória de como faleceram. E são convidados por um bartender enigmático a participar de um jogo. Pode ser um jogo de cartas, de dardos, de bilhar... O tipo de jogo é sorteado. Você contra a outra pessoa. E o jogo define para onde irão suas almas.

Esta era a premissa de Death Billiards, um curta da Madhouse para o Anime Mirai 2013. Para quem não conhece o Anime Mirai vale muito a pena dar uma olhada. São curtas feitos através do projeto Young Animator Training Project, que o governo japonês instituiu para treinar animadores no país (muitas obras do mundo todo têm sua animação terceirizada em países onde a mão-de-obra é mais barata, como Coréia do Norte).

Death Billiards é um curta bom, que foca mais em montar bons mistérios do que em dar respostas. Tem várias ideias que são incomuns e uma boa ambientação. Provavelmente teve uma boa recepção, já que a Madhouse decidiu transformá-lo em um anime de 12 episódios.

Ficaram o bartender Decim e a atendente de cabelo preto, de nome Chiyuki. A ambientação é interessante, e mesmo que uma parte considerável do anime se passe dentro de um cenário só, o clima não esfria. Conforme os episódios vão passando, as cenas repetidas (como apresentações de regras, cumprimentos, etc) vão sendo encurtadas e a parte interessante começa mais rápido. Ah, o curta pode ser considerado um episódio. As pessoas mais atentas vão notar um fanservice em relação a ele mais pra frente.

O anime se divide claramente em dois blocos. Sobre qual é melhor há controvérsias. Os julgamentos, que são os jogos que acontecem entre os mortos. Ou a parte que envolve os Árbitros, grupo do qual Decim faz parte, e suas interações. Fica claro desde o começo que eles não são simples humanos. Mas o que são eles?


Bem, eu gostei muito do julgamento dos humanos. Eles são levados a extremos para que mostrem o pior de si. É cruel, mas faz a narrativa ficar empolgante. E há todo o mistério de quem são eles, o que fizeram, se se conheciam ou não, o que estão escondendo e o que não lembram... Esta parte é como assistir a um episódio de Além da Imaginação. Não saber o que esperar (e ser surpreendido) é parte da graça. Outro aspecto interessante: os humanos são bem variados. Sexo, idade, trabalhos... Há combinações que dificilmente são vistas em animes, e isto é mais um ponto positivo.

Um adendo: a vida não é justa, então não há motivo para a morte ser. Há muita imoralidade e amoralidade neste anime. É parte fundamental dele, e é o que mais gera reflexões sobre a ética de tudo. Death Parade toca em temas pesados. Normalmente não parte para o gore, não precisa disso para fazer valer seus pontos, mas há muitos temas delicados aqui que vão abalar as pessoas mais sensíveis.

E temos a parte dos Árbitros. Bem, sendo franco, mesmo sendo poucos personagens, eles são mal desenvolvidos. Não sabemos muito bem de suas motivações. Os mistérios deles não empolgam tanto, e comparados com os humanos se entregando ao máximo aos jogos, os Árbitros ficam até tediosos. As explicações sobre como funciona o julgamento são interessantes e chegam a dar margem a pensamentos legais. Além de análises posteriores dos julgamentos dos humanos. Mas as interações entre os árbitros têm a superficialidade que se espera de uma conversa de bar com um desconhecido ou alguém que se conhece há tanto tempo que não há mais segredos. Pelo menos os poderes deles são variados. Não aguento mais carinha-com-poder-de-fogo e carinha-com-poder-de-gelo.

A animação de Death Billiards era muito boa. A de Death Parade é barata. Funciona, mas não encanta os olhos. Os personagens são bem animados em suas expressões corporais e movimentos, mas há várias cenas repetidas. A Madhouse é um companhia estranha, que produz extremos que vão de animações com qualidade técnica sensacional a verdadeiras porcarias. Provavelmente Death Parade não teve um orçamento tão elevado, o que garantiu que ele fique no meio do caminho. A abertura, em compensação, é muito legal. Cheia de cores piscando, danças, alegre e empolgante... É o contrário que eu esperaria da abertura deste anime, e talvez por isto mesmo seja tão boa. Já o encerramento tem mais a ver com o clima geral da série. Destaque também para o ótimo trabalho de dublagem. Um trabalho inferior teria tirado muito da graça e perdido muito do impacto.

Ah, poucas vezes vi um final tão morno. Não é de todo previsível, mas também não surpreende. Nem parece um final de verdade, só uma pausa para respirar ou descansar. Não sei se eles esperavam uma segunda temporada, ou só quiseram algo mais simples. Mas quem espera um grande clímax vai se decepcionar.



Minha conclusão? Embora eu não ache Death Parade uma perda de tempo, ele está longe de ser um clássico. Death Billiards, o curta que o precedeu, é muito melhor como obra isolada. E Death Parade conta a resposta para alguns de seus mistérios que foram deixados em aberto. Um mistério abre tantas possibilidades, pode ser tanta coisa ao mesmo tempo. Uma resposta o limita a algo definido. Vale a pena estragar um ótimo mistério com uma resposta? Bem, isto varia de pessoa pra pessoa. Eu prefiro um bom mistério, algo que o curta cumpre bem, mas o anime tem bem menos deles do que eu gostaria. Eu recomendo Death Billiards de coração aberto. Se quem o assistir vai partir pra Death Parade, vai depender apenas de sua curiosidade.


Heider Carlos


2 comentários:

  1. Eu vi Death Billiards, achei muito bom. Um dos poucos desse projeto de novos animadores que gostei de verdade. Tinha uma ideia bastante original e a cumpriu bem seu papel como episódio isolado.

    Vi depois Death Parade e gostei muito também. Pra mim, mostrou como o ser humano é multi-facetado. A parte dos árbitros é curiosa também, se fazer uma analogia com o judiciário. É humano julgar sem entender motivações para os atos? E a exposição à pressão para julgar, não cria um falso julgamento?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muitas obras sobre julgamentos são sobre robôs - até quando podemos ir até que seja imoral dar ordens para eles, quando será considerado escravidão, etc. Eu gosto muito deste tipo de scifi, de dilemas morais. Já histórias mágicas ou fantásticas normalmente são derrotar o mal - de preferência com uma espada mágica. Gosto delas também, mas não vou negar que foi refrescante ver o místico usado de maneira tão reflexiva que nem este anime.

      É um anime onde eu posso não concordar com as decisões tomadas, mas entendo porque elas foram tomadas. Isso faz muita diferença. E fico feliz que um tema tão diferente tenha começado com um curta - há sempre muitos animes bons, mas animes reflexivos são raros e costumam se esconder na lista de lançamentos. Pra mim quanto mais deles, melhor ^^ Recomendo que assista, se ainda não viu, Kino no Tabi. É espetacular.

      Excluir