domingo, 27 de setembro de 2015

When the Wind Blows (Movie)

Alternativos: Quando o Vento Sopra
Ano: 1986
Diretor: Jimmy Murakami
Estúdio: Meltdown Productions / TVC London
País: Reino Unido
Episódios: 1
Duração: 80 min
Gênero: Drama / Psicológico




Muitas obras de animação me deixam indagando, após assisti-las: como diabos isso foi produzido? São obras que fogem tanto do que se espera de uma animação comercial que é um verdadeiro milagre que elas existam. E muitas destas animações são voltadas para adultos, um mercado até hoje bem pequeno. E, coroando tudo, há a dificuldade na produção. Nunca foi exatamente fácil criar uma animação. Mas antes - sem o auxílio de computadores com boas  capacidades gráficas e equipamentos específicos - quanto mais limitados os recursos, mais artesanal era o processo.

E é de se admirar as pérolas que surgiam destas situações. E do pessoal que eles conseguiam reunir, em especial para trilha sonora. "When The Wind Blows" tem a canção-tema composta e cantada pelo David Bowie. O resto da trilha sonora foi escrita e executada por Roger Waters (do Pink Floyd), com algumas poucas exceções. A simples presença destes dois artistas já me convenceria a assistir qualquer coisa. Licenciar músicas deles hoje em dia provavelmente teria um custo absurdo. Colocar eles para compor como fizeram então é sonhar alto demais.

"When The Wind Blows" foi lançado em 1986, adaptação de uma história em quadrinhos de mesmo nome produzida em 1982. Quem adaptou o roteiro foi o próprio escritor, Raymond Briggs, no qual conta a história de James e Hilda Bloggs, um casal de velhinhos ingleses vivendo durante a guerra fria. A tensão dessa guerra iminente afetou até a vida deles, moradores de uma bucólica casinha rural.

James usa os folhetins do governo (muitas vezes contraditórios) para tentar construir um abrigo para protegê-los das bombas nucleares. São um casal bem fofinho e carinhoso, vivendo em um mundo que se tornou um lugar muito mais complicado do que aquele em que cresceram. Eles se lembram dos tempos durante a Segunda Guerra Mundial, quando eram crianças, com saudades. Tem uma cena linda deles se lembrando dos abrigos antibombas, que começa como animação e depois passa para filmagens reais de crianças durante aquela época. Elas sorriem e brincam: em suma, são crianças.

A mesma inocência que os protegia antes os protege agora. A diferença vem de sua fonte. Se eles eram pequenos demais para  entender os perigos da guerra quando crianças, hoje uma mistura de desinformação e ignorância faz com que não entendam a gravidade da situação. A fé de James no governo é absoluta, mesmo que ele nem saiba exatamente quem está por trás do governo, ou dos inimigos, nem o que são computadores, confunda frequentemente russos com alemães, etc. Em suma, por mais que tente se informar, ele está tão perdido agora quanto quando criança.


Enquanto James constrói seu abrigo, Hilda continua com seus afazeres domésticos. Boa parte do filme é apenas diálogos entre os dois dentro da casa. James tira as portas para usar no abrigo, ou pinta as janelas de branco, coisas assim. Os folhetins utilizados são baseados nos folhetins de verdade da época. O casal foi inspirado nos pais do roteirista. É uma história bem calcada na realidade, e que poderia ter acontecido com muitos velhinhos, adultos e jovens em vários países.

Até que a bomba cai.

James e Hilda sobrevivem ao impacto dos ventos e do calor dentro de seu abrigo. E de repente estão sozinhos em um mundo devastado. Não sabem ao certo o que é radiação nem seus efeitos. E passam a encarar o presente com esperança (ou estariam em processo de negação?) que tudo vai ficar bem.

Os efeitos da guerra são mostrados não por quem está batalhando nela ou pelas pessoas que se veem no meio de um campo de batalha. É mostrado em pessoas comuns, completamente inofensivas, que nem ao menos sabem direito o que se passa, e são grandes vítimas de decisões feitas por pessoas totalmente alheias a elas. É uma mensagem poderosíssima contra a insanidade da guerra

A técnica por trás de tal filme é interessante. Os protagonistas parecem personagens de livros infantis. Isto de certa forma dá mais destaque a inocência e amor de ambos, e mais impacto nas mudanças pelas quais eles passam. Os personagens foram animados, mas os cenários são maquetes. Isso definitivamente não é novo – já houve animações interagindo com pessoas ou cenários reais desde antes de animações terem cores ou sons – mas há um detalhe interessante aqui. Os curtas utilizados para mandar mensagens para a população sobre o que fazer na guerra e como se preparar, os famosos "Protect and Survive", usavam o mesmo estilo. Para quem viveu esta época na Inglaterra, o estilo deve ter ainda mais impacto. Para nós, que tivemos a sorte de não passar por isso, o estilo é agradável aos olhos. Muito bem feito e cheio de detalhes (como o jornal, que hora é animado, hora real, dependendo se os personagens vão interagir ou não com ele) se mesclando bem. E isto obviamente tornou o filme mais barato do que se fosse todo de animação.

Há cenas todas reais e todas de animação também, aqui e ali. As cenas reais são normalmente sobre a guerra. Cumprem seu papel. Já as de animação pura são fantásticas, e a integração com a música do Roger Waters deixa tudo melhor. A cena da bomba caindo é de partir o coração. Os sonhos de Hilda e James – com um estilo mais surreal e traços mais desleixados e inacabados - são lindos e tocantes e dão uma nova dimensão aos personagens.




"When the Wind Blows" poderia ser um filme live action? Sim, ele é todo calcado na realidade. Mas assim ele perderia muito do impacto que ser uma animação lhe deu. Está na mídia (ou no meio das mídias) perfeita para ele. É um filme memorável, e um ótimo remédio para a dose de violência idealizada que vemos no dia-a-dia.


Heider Carlos


2 comentários:

  1. É engraçado como algumas historias nascem pra determinado tipo de mídia, é exatamente o que você disse, poderia ser um live? poderia sim. Porém o contraponto de ser uma história tão pesada ilustrada em uma forma "infantil", dá magia em toda a série.
    Ótima review. Não desistam das postagens, eu entro toda semana pra ver se tem algo novo.

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    1. Olá, Pablo.

      Exatamente, é mais ou menos o que acontece com "Gen - Pés Descalços": um "live-action" poderia ser impactante, sim, mas o fator mangá/anime tornou a obra muito mais impactante, talvez justamente pelo fato de uma mídia usualmente associada a obras infantis ter sido usada para narrar algo tão chocante.

      Muito obrigado pela mensagem, e pode deixar que não desistiremos das postagens: o dia-a-dia tem sido muito corrido para todos, mas vamos manter o site vivo e ativo, custe o que custar. :)

      Grande abraço,

      Marcelo Reis

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