segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Aoi Bungaku (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/02/2011


Ano: 2009
Diretor: Vários
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 12
Duração: 23 min
Gênero: Drama / Adulto / Histórico



Aoi Bungaku (Literatura Azul, em japonês) trata-se de um ambicioso projeto do estúdio Madhouse (Death Note, Black Lagoon), reunindo seis das maiores obras da literatura japonesa e adaptando-as para o anime. Cada “arco” é dirigido por uma pessoa diferente, o que torna Aoi Bungaku uma série que constantemente se reinventa, com diferentes perspectivas e técnicas de narração para cada conto. Além disso, a série conta com um design de personagens por conta de conhecidos artistas da Shounen Jump. Nessa resenha, cada história será avaliada isoladamente, sendo a nota acima uma média da série inteira.

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Desqualificado como Humano
(direção de Morio Asaka - 4 episódios)


Aoi Bungaku já começa com o pé direito, abrindo a série com essa magnífica obra, escrita originalmente por Osamu Dazai e com Takeshi Obata (Death Note) no cargo de design de personagens.

Oba Yozo é um jovem muito problemático. Traumatizado desde a infância devido a abusos sexuais por parte das empregadas e do autoritarismo e falta de carinho por parte de seu rigoroso pai, Oba tem muita dificuldade em se relacionar com outras pessoas e se considera um lixo da sociedade. Após sair de casa para se tornar um artista contra a vontade de seu pai, Oba conhece Horiki, um “amigo” e companheiro de golpes que realizam para extorquir dinheiro de pessoas inocentes, geralmente envolvendo alguma espécie de enganação teatral. Um dia, com a polícia em seu encalço, Oba conhece uma mulher que mudaria sua vida drasticamente, não necessariamente no bom sentido.

"Desqualificado com Humano" não é a segunda obra literária mais vendida no Japão à toa. É uma história extremamente psicológica e depressiva. Quando achamos que nosso protagonista finalmente se livra de uma angústia, outra logo chega para que ele continue se “autodestruindo”.

É um ótimo começo para a série, porém algumas coisas são muito subjetivas e até certo ponto mal explicadas, algo que com certeza é devido às dificuldades de se adaptar um material literário complexo para a tela.

A animação, como sempre no caso da Madhouse, está excelente, e o desenho realista dos personagens por parte de Obata combina muito com o clima melancólico proposto (apesar de o personagem principal ser muito parecido com Light Yagami, de Death Note). As músicas em geral são compostas de melodias que condizem com a época em que a história se passa, mas não são muito chamativas.

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Na Floresta Sob as Cerejeiras a Desabrochar
(direção de Tetsuro Araki - 2 episódios)


De longe a obra mais ousada, estranha e bizarra, “Na Floresta Sob as Cerejeiras a Desabrochar” é baseado no livro de Sakaguchi Ango e conta com o design de Tite Kubo (Bleach).

Shigemaru é um bandido boa pinta que tem como principal frase, “Eu posso ser um bandido, mas sou um bandido legal”, e faz suas vítimas tirarem as roupas para que possa roubá-las. Ele vive em uma pequena cabana nas montanhas com várias mulheres e diz ser o dono de todas essas terras. Mas tem uma coisa que o apavora completamente: árvores de cerejeiras.

Um dia, enquanto caminhava pela montanha, encontra dois homens andando ao lado de uma mulher. A beleza dessa moça imediatamente hipnotiza Shigemaru, que mata seus acompanhantes e a leva para sua casa. Mal imaginava o bandido que estaria prestes a acolher uma mulher, no mínimo, “peculiar” em sua moradia.

“Na Floresta Sob as Cerejeiras ao Desabrochar” consegue combinar elementos de comédia, drama, violência e viagens psicodélicas em uma única história de uma maneira absurdamente interessante. Desde javalis falantes até cenas lindas e, ao mesmo tempo, perturbadoras, essa obra está mergulhada em um enorme subjetivismo, chegando a parecer quase “artística” por assim dizer, com algumas técnicas narrativas muito diferentes do habitual. Ler isso pode parecer meio bizarro (o que de fato é), mas é só assistindo pra entender do que estou falando.

De novo, certas coisas parecem ficar muito pouco claras, mas dessa vez parece ser mais intencional, deixando ao espectador a responsabilidade de tirar suas próprias conclusões sobre o porquê de tantas coisas absurdas como existirem animais falantes e cidadãos do Japão antigo usando celulares.

A animação é simplesmente linda, especialmente em cenas que envolvem sangue ou longas sequências psicodélicas. A trilha sonora em geral combina perfeitamente com o clima de “loucura séria” da história, com uma “música tema” que gruda na cabeça.

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Coração
(direção de Shigeyuki Miya - 2 episódios)


Baseado na obra literária mais vendida e conhecida no Japão, “Coração” é de autoria de Natsume Souseki, e os personagens são mais uma vez desenhados por Obata.

“Coração” conta a história da relação entre dois personagens, Professor e K (seus nomes reais não são ditos). Professor, um estudante na faculdade vivendo sob os cuidados de uma Senhora e sua filha, convida K, um ex-monge que desistiu de seus estudos de religião, para morar e estudar com ele, numa tentativa de ajudá-lo. Porém, logo fica claro que a convivência entre eles vai se tornando turbulenta, quando parece que ambos estão interessados na filha da dona da casa, a qual chamam de “Senhorita”.

Uma história interessante, de fato, porém passa a sensação de ser meio vazia. Pelo jeito, esses dois episódios só cobrem uma parte do livro, o passado de Professor. A obra original contava a história originalmente da perspectiva de um aluno na faculdade que o conheceu.

Os dois episódios, na verdade, contam a mesma história, só que de perspectivas diferentes. Isso sim é o verdadeiro trunfo de “Coração”, pois a idéia é mostrar que o ponto de vista de cada um não é necessariamente verdade, sendo este afetado muitas vezes pelas emoções e ideais de cada um, o que causa exageros por parte de ambos. Enquanto no primeiro episódio K é visto como uma pessoa rude e perigosa pelo Professor, no segundo episódio o Professor é visto como alguém frio, insensível e mentiroso por K. Porém certas coisas simplesmente não fazem muito sentido. Na perspectiva do Professor, a história se passa no verão, e na de K, no inverno. Alguns erros quase que gritantes de continuidade são feitos entre ambas as versões (talvez intencionais) e, pelo amor de Deus, se alguém souber o que aquele pacote brilhante no segundo episódio significa, por favor, me avisem.

O visual e a trilha sonora são ótimos e mudam de acordo com a perspectiva, um toque muito bem vindo. Enquanto as cores são fortes, claras e vibrantes no primeiro episódio para simbolizar o verão, no segundo temos tons mais escuros e melancólicos no inverno. Até a roupa da senhorita, mais uma vez não sei por que, muda de cor, sendo azul no primeiro episódio e vermelha no segundo.

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Corra, Melos!
(direção de Ryosuke Nakamura - 2 episódios)


Em um contraste completo com “Desqualificado como Humano”, “Corra, Melos” também foi escrito por Osamu Dazai e é uma emocionante história que toca em um tema simples, porém muito fácil para qualquer um se identificar: Amizade.

Um escritor chamado Takada recebe um pedido para escrever o roteiro para uma peça de teatro com base em um antigo conto grego, sobre um jovem chamado Melos, que tenta assassinar o rei tirano que governa seu povo, por este matar muitas pessoas sob o pretexto de que nenhuma delas é digna de confiança. Naturalmente, o jovem falha e é capturado pelo rei, que sentencia Melos à pena de morte. Porém, sua irmã irá se casar em breve e, aproveitando esta oportunidade para também provar ao rei que pessoas merecem confiança, pede para que seja liberado apenas por um dia para comparecer ao casamento. O rei concede esse favor sob uma condição: o melhor amigo de Melos, Selinuntius, deve ficar preso durante sua ausência e, caso o jovem não volte até o por do sol, Selinuntius morrerá em seu lugar.

Takada logo começa a ter dificuldade para adaptar a história, já que ironicamente ela se encaixa quase que perfeitamente em sua vida, como se cada personagem representasse algo para ele, lembrando-o de rancores e frustrações há muito guardados no fundo do peito.

O design de personagens muito realista e agradável aos olhos é cortesia de Takeshi Konomi (The Prince of Tennis), enquanto a animação continua de qualidade e muito detalhada. A trilha sonora combina perfeitamente com a mensagem do anime, e o enredo em si é muito bem apresentado, com alternâncias entre a peça teatral de Melos e a vida de Takada para estabelecer relações entre ambas e tornar a história mais interessante e legal de se assistir. O único defeito é no finalzinho, em que uma cena é retratada de uma forma um tanto melodramática, culminando em uma ligeira pieguice.

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Teia de Aranha
(direção de Atsuko Ishizuka - 1 episódio)


Em uma espécie de “Japão antigo super estilizado”, está ocorrendo um grande festival em homenagem ao imperador, e nas sombras de toda a comoção se encontra Kandata, um criminoso sádico e sem escrúpulos, que se diverte invadindo casas e assassinando moradores inocentes. A brincadeira se complica quando ele resolve causar confusão com o próprio imperador.
Como nunca pode deixar de ter pelo menos uma história absurdamente pior que as demais nesse tipo de série, Teia de Aranha está aqui para cumprir essa cota. Escrito originalmente por Ryunosuke Akutagawa e com o design de personagens mais uma vez nas mãos de Kubo, Teia de Aranha conta uma história simples e que não empolga em muita coisa. O único personagem explorado é Kandata, que não tem nenhuma espécie de personalidade convincente e não cativa o espectador em nada. Ele até tem um momento de “glória” durante uma pequena sequência do episódio, em que faz um discurso interessante, mas fora isso, nada de mais. Pelo menos a direção de arte está de parabéns, os cenários e cores usadas passam um clima legal, apesar de a qualidade de animação decair muito se comparada ao resto da série. A representação do inferno, em especial, é muito interessante.

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Visão do Inferno
(direção de Atsuko Ishizuka - 1 episódio)


Apesar de ser mais uma pequena história do mesmo autor de Teia de Aranha, Visão do Inferno é um conto muito superior e com certeza fecha Aoi Bungaku com chave de ouro.

No mesmo universo de Teia de Aranha, o imperador pede para que Yoshihide, considerado o melhor pintor do país, se encarregue de fazer uma grande e épica pintura em seu mausoléu recém construído, onde será colocado após a morte. A tarefa de Yoshihide é retratar toda a majestosa beleza do país. Porém, o imperador não passa de um andrógino megalomaníaco que causa terríveis sofrimentos ao seu povo, e o cansado e renomado pintor decide que deve mostrar essa realidade infernal ao invés de fantasias.

Com um enredo curto, porém pesado e altamente perturbador, Visão do Inferno consegue envolver o espectador em singelos 22 minutos de duração, provando que não há nada que a maestria na arte de contar histórias e ótima direção não consiga fazer.

A qualidade de animação é igual ao episódio anterior, com algumas poucas sequências melhor produzidas, com destaque para as chamas e representações do inferno nas cenas finais.




Aoi Bungaku é uma iniciativa interessante por parte da Madhouse e com certeza vale a pena uma conferida. Por se tratar de uma série que conta histórias clássicas do Japão (de vez em quando de um modo nada convencional, ainda por cima), talvez não seja um anime para todos, mas isso não muda um fato que foi uma boa idéia muito bem executada no geral. Se você tem interesses pela cultura japonesa que vão além do que se encontra em eventos de anime, Aoi Bungaku é uma boa pedida.


Lucas Funchal


 

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