terça-feira, 22 de novembro de 2016

Higashi no Eden (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 28/01/2011

Alternativos: Eden of the East
Ano: 2009
Diretor: Kenji Kamiyama
Estúdio: Production I.G.
País: Japão
Episódios: 11
Duração: 22 min
Gênero: Ação / Comédia / Mistério



Taxi Driver? Trilogia Bourne? Antes que Akira, protagonista de Higashi no Eden, emitisse suas primeiras frustrações acerca de sua identidade em forma de clássicos do cinema, este que vos escreve já havia percebido que certas semelhanças não eram mera coincidência.

Clichê hollywoodiano de espionagem adaptado para uma animação japonesa? Não. Temática “à la” ocidente como em Gunslinger Girl e Speed Grapher, com estilo animesco, com meninas andróides sem sentimento inseridas numa organização secreta de extermínio, ou um fotógrafo espião que descobre uma organização de ricaços e mafiosos e adquire a habilidade de fotografar e explodir tudo? Não também. Higashi no Eden é diferente. Higashi no Eden vai além… Muito além… Sem tirar o pé do chão.

Talvez eu nem precisasse me estender a tantos elogios. Só o simples fato do anime ter sido escrito e dirigido por Kenji Kamiyama já levaria muitos espectadores exigentes a levantarem suas sobrancelhas. Para quem não conhece Kenji Kamiyama, ele simplesmente roteirizou e dirigiu Ghost in the Shell: Stand Alone Complex e ainda participou como diretor de animação e roteirista nos longas Jin-Roh e Blood: The Last Vampire, respectivamente. Decerto, Higashi no Eden não é um anime qualquer.

Na primeira cena do anime, Akira aparece pelado com um revolver na mão e um celular noutra. Para tornar essa cena ainda mais cômica do que já é, Akira não lembra quem é, e nem por que está lá em frente à Casa Branca, nos Estados Unidos. Bom, só com essa abertura percebemos que, mais perdido que Akira, fica o espectador ao ver a cena. Diferentemente dos animes tradicionais, em que a enredo vem de forma didática em seus primeiros capítulos, Higashi no Eden vem confuso, mas não complexo. Até porque, se estamos confusos juntos com Akira, logo temos a segurança de que, em algum momento, entenderemos juntos com ele.


Para que não sejam revelados os diversos segredos do anime, só dá para dizer que Akira não se lembra quem é, mas descobre que possivelmente pode ser um espião, ou algo assim. Tem um celular esquisito, com o símbolo semelhante ao da justiça gravado nele, e pelo qual pode chamar uma espécie de secretária de nome Juiz, e nada mais, nada menos do que 8.262.307.719 ienes em sua conta.

Outro aspecto que me parece ser a questão chave do anime, e seu diferencial, que dificilmente vi sendo lembrado em outras resenhas e críticas, é como o anime tenta dialogar com nossa realidade atual, e consegue ser tão contemporâneo. Não sei se por falta de conhecimento da minha parte, ou pelo fato de nós, brasileiros, vivermos outra realidade social e política, mas vemos o anime abordar o tempo todo acerca dos NEET´S, o que a primeira vista me pareceram ser nerds, mas na verdade a sigla significa "Not currently engaged in Employment, Education or Training", ou seja, pessoas que não se encontram trabalhando, estudando ou em estágio. Pessoas que, na verdade, não alimentam o Estado. Assim, o que parece ocorrer no Japão é que estas pessoas de 15 à 34 anos são discriminadas, algo como vagabundos. Mas o que é interessante observar é como o anime tenta mostrar como estes, na verdade, não são vagabundos e, sim, pessoas que não se veem motivadas, ou não encontram possibilidade de engajar-se em algo em benefício de seu país, como é caso de Saki e seus amigos. Assim a genialidade e o ânimo dessas pessoas são sempre destacados pela animação, e também como o problema não se encontra neles, e sim na sociedade, ou no estado que parece inchar e fortalecer essa discriminação.

Não há como deixar de lado, também, o romance de Saki e Akira. A abertura do primeiro episódio já indica o romance, mas é impressionante como nem o romance engole o resto da história, nem o resto da história engole o romance: ambos caminham juntos, numa harmonia até mágica. Diferentemente de grande parte dos outros animes, Higashi no Eden não apela, consegue ser muito “pé no chão” inclusive neste aspecto, sem chororôs, nem “eu te amo(s)” dramáticos. Assim também, houve diversos outros momentos que me surpreenderam, momentos de extrema delicadeza quando, por exemplo, Akira se vê tentando lembrar do passado com a ajuda de Saki e, ao receber uma moeda dela, lembra-se de certa vez em que sua mãe lhe dera dinheiro para comprar o que quisesse, juntamente com uma frase que parece ressoar sobre todo o anime: “com dinheiro, não importa se você é adulto ou criança”.

Assim, Higashi no Eden é original e cabeça. A animação é fantástica, os personagens não são nada clichês, a trilha sonora é muito bem escolhida e atual, a história é criativa e cativante. Mas quais, então, seriam os problemas de Higashi no Eden? Poderia dizer que nenhum mas, na verdade, para não ser tão pouco rigoroso, acredito que o anime peca em seu desfecho. Por todo o anime, vemos os personagens tentando descobrir os segredos de Akira, juntamente com o próprio, mas de repente, sem qualquer clímax, tudo se responde de uma vez só. Até mesmo quem está assistindo precisa voltar algumas vezes o anime para entender tantas informações caindo de pára-quedas, mas não sei se pra piorar ou não, todas as respostas não são dadas.



O anime possui mais outros dois filmes que o complementam, e que obviamente não foram feitos de última hora, mas de “caso pensado”, e acredito conterem neles as diversas respostas para as questões deixadas no anime. Mas é triste acompanhar todo esse anime fantástico com cautela, buscando compreender a série, e depois de tanta atenção, perceber que são poucas as respostas para tantas as perguntas propostas pela série, e eu diria, as mais cruciais.

PS: Preferi não assistir aos filmes, mesmo que eles já tenham sido lançados. Acredito que isto preserva um pouco a qualidade da resenha, pois só está sendo analisada a série.


Vinícius Chamiço


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