sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Nodame Cantabile (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/12/2009

Ano: 2007
Diretor: Kenichi Kasai
Estúdio: J.C. Staff
País: Japão
Episódios: 23
Duração: 23 min
Gênero: Comédia / Musical / Drama



”Às vezes as memórias limitam nossas mentes. Mas a mente pode ser libertada com novos encontros. E agora eles abrem suas asas para o futuro.“

Chiaki Shinichi é um rapaz de família rica e um talentoso estudante da Momogaoka College of Music. Ele anda inconformado com todos os alunos e professores fracos que fazem parte da sua faculdade de música, e sente muita vontade de estudar na Europa com seu antigo professor Sebastiano Vieira, mas é impedido por não poder viajar de avião ou barco por causa do seu trauma. Porém, ele conhece uma garota pianista na faculdade que mudaria sua vida estranhamente.

Noda Megumi (Nodame) é uma garota vivaz, extremamente talentosa e de modos estranhos, além de ter um estilo de menina boba. Seu modo de tocar piano em estilo cantábile cativa Chiaki, embora ela não consiga ler bem partituras, preferindo ouvir e tocar piano à sua maneira. Tirando o seu talento, Nodame é completamente desleixada (seu quarto é quase um lixão), além de fazer um biquinho estranho enquanto toca e de gritar coisas como ”gyabo“ e ”mukya“ enquanto fala. Estranhamente, ela não pretende seguir a carreira musical, preferindo ser professora de jardim de infância.

Os dois acabam se conhecendo por acidente na porta do apartamento de Chiaki, que estava dormindo de bêbado. Nodame de cara se apaixona (uma paixão muito estranha, por sinal) e o leva para sua casa. Chiaki, ao acordar, percebe que ela é sua vizinha e, na faculdade, ele vê agora que Nodame é sua colega de classe. Aos poucos, ambos vão se aproximando: Nodame, por ”amor“, e Chiaki, apenas por gostar do estilo e talento da outra. Um enredo que parece simples, mas carregado de acontecimentos e lições por trás.

De cara, no primeiro episódio, a sensação é de que este anime parece algo novo e muito promissor. E de fato é. Primeiramente, a relação de Chiaki e Nodame é algo muito diferente. São muito distintos um do outro. Chiaki tem um jeito de certo modo arrogante, perfeccionista e completamente certo de que a música tem que ser daquele jeito. Se alguém discordar... bom, é grito no ouvido. Sobre Nodame, a primeira impressão é que ela é doida, além de como já foi dito, ser boba. A história vai sendo desenvolvida a partir de Chiaki, principalmente, mas Nodame não faz parte do título do anime à toa, e logo se percebe que os acontecimentos rolam pelo fato dela estar lá.


Certamente os personagens são notórios. Todos são muito bem desenvolvidos, e preenchem a trama de uma forma tal que a faz ser agradável e divertida de se assistir. Lógico que trata-se de uma comédia (e das melhores) e, por isso, haverá personagens esquisitos e hilários, mas sem nenhum apelo ou clichês drásticos. Mine, Masumi e Stresemann são personagens que aparecem logo no início e dão o tom, que logo será acompanhado por diversos outros personagens cativantes que farão parte da obra, todos com diálogos bem feitos e um excelente senso de humor. A progressão técnica e emocional dos personagens também é algo interessante a se observar, em relação ao desenvolvimento dos mesmos.

O anime, apesar de ter o estilo josei, possui um tema excelente que agrada a todos os públicos. Público este que vai apreciar bastante a sonoridade das obras de Rachmaninoff, Bach, Beethoven, Mozart, Schubert e outros grandes gênios da música erudita. Afinal, este é um anime com tema musical clássico. Mesmo aqueles que não sentem afinidade por este tipo de música assistirão sem nenhum problema, já que a forma como a música é transmitida é dinâmica com a história, sem nenhuma monotonia ou irritação.

Há um grande destaque para o fato de como foi transmitida a essência do anime. Tudo foi colocado em um plano perfeito, unindo essencialmente comédia e música e, suavemente, drama/romance. Além, é claro, das apresentações das orquestras e peças, muito bem aplicadas aos diálogos, às cenas e aos movimentos. Percebe-se que foi feito um estudo aprofundado para a realização do anime e uma dedicação (sem gastos elevados) para a arte. A J.C. Staff, bastante conhecida por realizar animes com belos cenários e cores, não decepcionou e trabalhou bem nas cores e na movimentação dos dedos e mãos dos personagens enquanto tocam seus instrumentos, aplicando efeitos tridimensionais ”revestidos“ por cores bidimensionais (cel-shading). A sincronização está boa, embora seja difícil fazer algo realmente isento de defeitos com baixo investimento em um anime com tema musical, e por isso há algumas poucas falhas simples de sincronia. A direção ficou por conta do mesmo diretor do aclamado Honey and Clover, também do mesmo estúdio, mostrando que Nodame Cantabile tem tudo para ser um anime bem-conceituado. A J.C. Staff trabalhou em conjunto com os estúdios GENCO, mais uma vez resultando numa parceria excelente, como visto no igualmente bem-conceituado Azumanga Daioh. Os dubladores também merecem muitos aplausos pelo ótimo trabalho, caracterizando emocionalmente os personagens de maneira impecável.

É difícil odiar o anime. Não há razões para isso, e a história ajuda a pensar dessa forma. Os personagens possuem razões e motivações muito peculiares e que se encaixam perfeitamente no desenrolar da história. Muitos podem ficar achando que a série não se desenrolará tanto devido às inúmeras piadas, mas o que se sabe é que a história possui um fundo sentimental muito bom e agradável. Não há qualquer tipo de melodrama ou tristeza, nem amores irracionais e surreais. Foi mostrada muita sutileza nesse aspecto. Interessantemente, também não há nenhum antagonista, vilão ou nomes do tipo, sendo o principal ”vilão“ o trauma de Chiaki. As músicas bem trabalhadas de abertura e encerramento (que não são clássicas) ajudam ainda mais a deixar o clima tão agradável quanto é: uma abertura mais feliz e um encerramento mais expressivo, que vem acompanhando os segundos finais dos episódios. Esse tipo de enceramento geralmente causa nas pessoas uma sensação de querer ver o próximo episódio.



Nodame Cantabile possui um final justo, agradável e, possivelmente, dos mais originais e menos melosos já vistos em um anime do tipo, além de não causar uma sensação de vazio. É uma obra altamente inovadora e muito balanceada em todos os aspectos. E mesmo aqueles que acreditam que deveria haver mais acontecimentos após o final, saibam que há mais duas séries que continuam o enredo: ”Nodame Cantabile: Paris-Hen“ e ”Nodame Cantabile: Finale“, as quais, mesmo assim, não desprezam o final conclusivo que a primeira série teve. Feito para todos aqueles que querem rir e sentir, e também para aqueles que querem alguma motivação para se dedicar a algo, esquecer alguns traumas e seguir a vida sentindo-se mais feliz, Nodame Cantabile é o anime perfeito. Memorável.

NOTA: A personagem principal foi inspirada em uma pessoa de mesmo nome e que possui um quarto tão bagunçado quanto no anime. Foi consultada pela autora Tomoko Ninomiya sobre detalhes musicais e é professora de piano em Fukuoka, além de ter escrito juntamente com Ninomiya a música que Nodame toca no primeiro episódio.


Marcos França


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