sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Tengen Toppa Gurren-Lagann (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/08/2009

Alternativos: Gurren-Lagann
Ano: 2007
Diretor: Hiroyuki Imaishi
Estúdio: Gainax
País: Japão
Episódios: 27
Duração: 25 min
Gênero: Ação / Comédia / Sci-Fi



Quando uma das maiores corporações japonesas se junta a um dos mais aclamados estúdios de animação e um importante canal de comunicação, o que pode dar errado?

Produzido em 2007 por Gainax, Konami e Aniplex, Tengen Toppa Gurren Lagann é um anime projetado pela Konami para ser mais uma das dezenas de franquias super lucrativas a fim de produzir jogos (eletrônicos e físicos) e uma linha completa de produtos fabricados pela empresa. Em conjunto com a Aniplex e a Gainax (que ficou encarregada de produzir o anime), Gurren Lagann levou cerca de 5 anos para que seu planejamento ficasse pronto, desde criação de personagens até previsão de demanda de mercado de produtos de consumo relacionados.

Isto já é bastante comum na indústria da animação, visto que ao invés dos fabricantes ficarem procurando um anime com promessa de sucesso para fabricar produtos de consumo relacionados (e gastar milhões com direitos autorais, e ainda torcer para que o estúdio de animação que o projetou não leve seu anime por água abaixo), agora são as indústrias de consumo que planejam e criam seus próprios ”sucessos“ e os ”licenciam“ para os estúdios produzirem. Além da Konami, outras grandes corporações como Bandai e Sega já tem grande experiência neste tipo de prática mercadológica.

Mas, voltemos ao anime... =)

Tengen Toppa Gurren Lagann é um daqueles animes que logo nos primeiros capítulos o espectador mais atento já fica imaginando quantos ”milhões“ cada capítulo deve ter custado, pois a qualidade técnica é (quase...) impecável. Cores vibrantes com efeitos de sombra, iluminação e transparência bem resolvidos, muitos quadros de animação por segundo; design estilístico chamativo e com bom acabamento geral; rico detalhamento tanto de elementos principais como de cenários e personagens coadjuvantes; ângulos de câmera bastante ousados e que serão poucas vezes ”reciclados“ mais tarde (fato a ser retomado mais adiante); E, principalmente, muita velocidade! As cenas de Gurren Lagann são dignas de um OVA, tamanha a eficácia de sua produção. A trilha sonora não foge à regra, e possui uma qualidade e variedade incrível, com ritmos que vão desde o Acid Jazz ao Nu Metal, aplicados de forma muito precisa e combinando fielmente com o momento retratado, além dos ótimos efeitos especiais e dubladores utilizados na produção.

Tengen Toppa Gurren Lagann conta a história dos irmãos Simon e Kamina. Simon é um cavador de túneis que vive em um povoado subterrâneo cujo objetivo de vida a longo prazo é... cavar mais túneis (!). Os antigos líderes vivem contando das ”coisas terríveis“ que existem na superfície e punem severamente aqueles que são contrários a essa filosofia. Um dos principais ”rebeldes“ dessa história é justamente seu irmão mais velho Kamina, que vive tentando das formas mais inusitadas chegar até a superfície a fim de conhecê-la, especialmente depois que seus pais morreram em um dos milhares de terremotos que acontecem a todo o momento, durante os quais várias pessoas do vilarejo normalmente morrem. Durante uma escavação, Simon encontra uma estranha mini-broca que brilha sozinha, e ele nem imagina para quê ela serve...

Algo que chama bastante a atenção neste anime certamente é a velocidade. Em um único capítulo, dezenas de reviravoltas e fatos importantes acontecem sob um enredo super sucinto, como se os roteiristas tivessem resumido algo com 3 páginas em apenas 1. Perder um único capítulo de Gurren Lagann é fatal para a compreensão da história, devido a tantas mudanças cruciais que acontecem a todo momento. O ponto forte é que, mesmo com tanta ”pressa“, a história não perde o sentido e acaba agradando bem mais o espectador, visto que, dessa forma, só é mostrado aquilo que realmente importa, sem perder tempo com histórias paralelas, situações ”que não mudam nada“ ou eventos que se arrastam por vários capítulos para acontecer. Outro dado importante é a duração do contexto. Além da enredo retratado quase de forma frenética, a história costuma mudar completamente a cada 9 ou 10 capítulos em média, como se pegassem todas as temporadas subseqüentes e as inserissem em apenas uma. O resultado é excelente, dando ainda mais agilidade ao anime.

O desenvolvimento de personagens segue o mesmo nível de qualidade, onde os fatores psicológicos e interações sociais são muito bem explorados. Depois de um tempo, Gurren Lagann acaba por ganhar uma enxurrada de personagens coadjuvantes, sendo reciclados, modificados ou substituídos a cada nova ”temporada“, mas que estão sempre presentes e fazem (realmente) a diferença no decorrer da história, além de serem bem diferentes psicologicamente entre si e, felizmente, não se descaracterizarem ao longo do anime. Vários momentos de forte sentimento aparecem de vez em quando, sempre com a dose certa de comover o espectador sem exageros.


E como se trata de um anime Gainax, há muito fan-service para todos os gostos! - Sim você não leu errado, todos os gostos. Pois há também alguns poucos (bem poucos mesmo) momentos com tendência homossexual. Estes, no caso, são bastante leves em comparação às ”situações hetero“, visto que o objetivo destas cenas são claramente de serem cômicas ao invés de eróticas ou subliminares, como o fan-service normalmente sugere. Além do mais, estas se limitam apenas aos primeiros capítulos.

Até aqui tudo parece perfeito... mas não é. xD

Logo quando Gurren Lagann foi lançado, ocorreu um terrível escândalo envolvendo uma funcionária da Gainax (seu nome não foi revelado) e o produtor Akai Takami em um dos fóruns de anime mais fortes do Japão, o 2CH, e isto acabou por ”queimar“ a imagem do anime e da própria Gainax frente ao público. No ocorrido, Akai Takami e a tal funcionária ofenderam os visitantes do fórum após lerem críticas sobre o anime feitas por alguns usuários. Resultado? Akai Takami foi ”convidado“ a se demitir da Gainax, deixando uma nota sobre desligamento no site da empresa e com menos de 5 capítulos produzidos, e a Gainax com o inconveniente de ter um produto (caríssimo) contando com a ”repulsa“ de seu público alvo... e o pior, tudo feito com o dinheiro da Konami. Esse forte abalo trouxe conseqüências negativas que podem ser sentidas freqüentemente na série.

Com os problemas de audiência iniciais, os produtores (substitutos) decidiram colocar alguns capítulos ”recordar é viver“, recontando todo o começo da série por vezes e reciclando alguns dos principais momentos dos mesmos, com o intuito de atrair novos fãs conforme eles fossem ”esfriando“ os ânimos e passassem a acompanhar a série, quebrando irreparavelmente todo o dinamismo e estragando completamente capítulos inteiros... O pior é que, quando se menos se espera, aparece algum capítulo deste tipo ”perdido“ no meio do caminho. Outro problema, de menor grandeza, é a ”sutil“ utilização de alguns elementos de outras produções como DieBuster/Top wo Nerae 2! e Evangelion, mas nada que chegue a chocar...

Outro detalhe negativo é um certo hábito de reciclar determinadas cenas no decorrer de certos capítulos (além dos flashbacks), algo que, apesar de já esperado numa série televisiva, cria um clima de ”dèja vu“. Outro problema é uma certa invencibilidade de Gurren Lagann em determinados momentos, o que acaba por infantilizar demasiadamente o enredo.

Se não fosse por estes ”pequenos“ deslizes, Gurren Lagann não teria levado o grande tombo que levou e provavelmente teria se consolidado rapidamente como uma série de extremo sucesso, o que inicialmente não aconteceu. Mais tarde Gurren Lagann acabou sendo ”perdoado“ pelos fãs japoneses e conseguiu alcançar seu tão merecido sucesso por lá e por mais onde passou, especialmente na Europa.



Passado o apuro e os (dispensáveis) momentos de flashbacks, Gurren Lagann é um anime que definitivamente merece ser conhecido, pois do início até o fim é capaz de prender a atenção do espectador, especialmente pelo seu enredo cirurgicamente editado e uma história cheia de reviravoltas e detalhes interessantes. Mas também, é mais um exemplo de que um pequeno tropeço pode destruir grandes monumentos.


Emanuel Silva Sena


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