sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Flowers of Evil (TV)

Alternativos: Aku no Hana, The Flowers of Evil
Ano: 2013
Diretor: Hiroshi Nagahama
Estúdio: ZEXCS
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 24 min
Gênero: Drama / Psicológico / Romance



Para quem é fã radical de animações de qualidade, a palavra "rotoscopia" costuma dar arrepios. Esta técnica, criada por Max Fleischer em 1915, consiste em filmar pessoas e cenários reais para, depois, desenhar e colorir por cima. Por esta razão, é considerada por muitos como uma solução simplista, preguiçosa e pouco artística, ainda que tenha sido usada extensivamente em grandes obras como "Branca de Neve e os Sete Anões", de Walt Disney, "A Ratinha Valente", de Don Bluth, e os jogos "Karateka" e "Prince of Persia", de Jordan Mechner.

"Flowers of Evil", baseado no mangá "Aku no Hana", de Shuuzou Oshimi, é considerado o 1º anime realizado exclusivamente com a técnica de rotoscopia. Muita gente provavelmente torcerá o nariz para este anime em função disto, mas quem estiver disposto a dar uma chance e assistir à série, será brindado com uma das obras mais impactantes dos últimos anos: um brilhante estudo de personagens e um mergulho profundo nas áreas mais ocultas da psique humana.

Takao Kasuga é um aluno mediano e caladão do Ensino Médio. Ao contrário dos colegas, ele não é muito fã de games, preferindo devorar livros e mais livros, os quais pega emprestado do pai ou compra num sebo da pequena cidade de Kiryu, onde mora. Takao tem predileção por escritores do surrealismo, especialmente pelo francês Charles Baudelaire, cuja imagem ele mantém num porta-retrato em posição de destaque em seu quarto. Takao anda obcecado por "Flores do Mal", de Baudelaire, dizendo inclusive que o livro mudou completamente sua vida e sua forma de ver o mundo.

Mas Baudelaire não é o único ídolo de Takao: o rapaz também venera a bela colega Nanako Saeki, a melhor aluna de sua turma. Takao considera Nanako a sua musa inspiradora, sonha em ter alguma chance de um relacionamento com a garota, mas nunca tem coragem de partir para a ação. Mas um determinado evento leva o rapaz a um ato impulsivo, embrenhando-o em uma rede de chantagens e desafios impostos por Sawa Nakamura, colega considerada totalmente louca, com um olhar demoníaco e que não respeita a autoridade de ninguém. É um caminho sem volta: a vida de Takao nunca mais será a mesma.

Indo direto à parte técnica, o visual da série causa um pouco de estranhamento no início. Estamos acostumados a ver animes com visual estilizado, traços característicos e tudo o mais. Ver um anime praticamente com aparência de um J-Drama é um negócio bem diferente mas, verdade seja dita, foi a escolha perfeita para esta obra. A palheta de cores dessaturada passa uma impressão de um ambiente meio irreal, e o uso de cores mais chapadas gera contrastes marcantes - temos as imagens de um mundo real com um tratamento gráfico que "desumaniza" o ambiente, e o efeito é desconcertante. E ainda há momentos com animação tradicional pura que dão um toque todo especial às cenas: as "flores do mal" propriamente ditas, o "inferno" que surge ao fundo num dos episódios finais, entre outros


"Flowers of Evil" possui personagens complexos e bem desenvolvidos. Takao Kasuga, com seu andar encurvado, parece querer se fechar, como se buscasse esconder do mundo suas verdadeiras intenções, e seu olhar triste indica ao mesmo tempo desespero e vazio emocional. Nanako Saeki é bela e admirada por todos, mas esconde seus medos e anseios para que ninguém saiba o quanto é vulnerável, e apesar de ter praticamente tudo o que alguém almeja, ela também aparenta buscar algo além daquela vida comum e rotineira.

Mas "Flowers of Evil" não seria nada sem Sawa Nakamura. A garota chega a parecer um verdadeiro demônio em algumas partes - não é à toa que possui um cabelo avermelhado, totalmente diferente das demais pessoas - e seu comportamento totalmente imprevisível e explosivo em relação a Takao nos deixa tão tensos quanto o rapaz, na expectativa de que o pior possa acontecer a qualquer momento. Ao mesmo tempo, Nakamura simplesmente odeia tudo o que é comum ou chato, e ela enxerga em Takao, no pequeno desvio de conduta do rapaz, a centelha de alguém tão "pervertido" quanto ela. Nada a fará desistir de sua missão de "derrubar os muros" ao redor de Takao, para que ele finalmente mostre o que se esconde debaixo daquela aparente normalidade.

Um detalhe muito interessante nesta série: ela possui 4 temas de abertura diferentes, e cinco versões diferentes do tema de encerramento. Vale a pena prestar atenção em todos, pois eles dizem muito a respeito de cada um dos personagens principais. As músicas em si não são agradáveis de se ouvir, talvez para mostrar que o interior de cada um deles não é totalmente equilibrado. As cores das folhas das flores indicam claramente de quem se trata cada tema de abertura: verde para Takao, rosa para Sawa, azul para Nanako e as três cores juntas, logicamente, para os três. E o tema de encerramento, "Hana - A Last Flower", e um negócio estranhíssimo, cantada por uma voz sintetizada distorcida (provavelmente usando Vocaloid ou Chipspeech) e numa cadência toda errática. As versões variam de acordo com o que acontece no episódio: são diferenças sutis, mas que potencializam o efeito do que o espectador acabou de ver.

Em "O Mal-Estar na Civilização", Sigmund Freud diz que a cultura domina e subjuga o animal que existe dentro de nós, para que seja possível a vida em sociedade. Isto reprime e inibe a pulsão sexual que existe em cada um, e toda esta energia acaba canalizada para o trabalho e outras atividades pouco prazerosas, resultando em uma multidão de pessoas infelizes e insatisfeitas. Sawa Nakamura luta justamente para que Takao tire esta máscara de homem culto e civilizado e mostre sua verdadeira face. Para ela, um homem e uma mulher não buscam valores elevados um no outro: o que os atrai é puramente sexo, e todo o resto é bobagem e perda de tempo.



"Flowers of Evil" não é uma série fácil de se ver. A viagem de Takao, Sawa e Nanako é pesada, extenuante, nos faz refletir sobre nossas próprias vidas e sobre até que ponto jogamos fora nosso precioso tempo, presos a convenções e tarefas impostas pelo sistema. Tirando alguns pequenos tropeços narrativos em pontos esparsos, é uma série imperdível, dirigida com precisão cirúrgica por Hiroshi Nagahama (Mushishi, Detroit Metal City), com enquadramentos perfeitamente calculados, efeitos sonoros que dão um clima de pesadelo, personagens inesquecíveis e um impacto emocional que custa a sair da mente.


Marcelo Reis


 

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