quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

The King of Pigs (Movie)

Alternativos: Dwae-ji-ui wang
Ano: 2011
Diretor: Sang-ho Yeon
Estúdio: Studio Dadashow
País: Coréia do Sul
Episódios: 1
Duração: 97 min
Gênero: Drama / Suspense / Psicológico



Quem acompanha filmes coreanos ou k-dramas certamente já assistiu pelo menos uma produção que mostra o problema do "bullying" nas escolas da Coréia do Sul. E basta uma pesquisa rápida no Google para ter acesso a várias matérias e estudos sobre este assunto tão sério e que afeta profundamente a sociedade sul-coreana. Mas acho difícil que alguma obra tenha cutucado a ferida com tanta precisão e impacto quanto "The King of Pigs", animação produzida com um orçamento de apenas US$150 mil.

Enquanto sua esposa jaz sobre a mesa, com uma evidente marca de estrangulamento por corda, Kyung-min Hwang toma um banho de chuveiro, como se quisesse lavar o peso do ato terrível que acabou de cometer. Kyung-min relembra um antigo colega de escola, que dizia que os pobres são as pessoas fracas das quais os ricos se alimentam, e que se tornam valiosas depois de mortas e dilaceradas. Em outras palavras, são como porcos, que engordam e acham que aquela gordura toda é pra eles, quando na verdade servem apenas de comida para os outros.

Kyung-min entra em contato por telefone com outro antigo colega de escola, Jong-suk Jung, mas não comenta nada sobre a morte da esposa: diz apenas que gostaria de conversar com o amigo. Ambos se encontram em um restaurante, onde relembram fatos marcantes ocorridos 15 anos antes na vida dos dois, durante o Ensino Médio, e como isto afetou profundamente a existência de ambos. Em especial, a conversa girou em torno de Chul Kim, um garoto pobre de sua turma, ignorado por todos, mas cuja recusa em ser apenas mais um porco na sociedade causa um verdadeiro furacão na escola, ameaçando todo o "status quo" mantido há décadas e que ninguém ousava contestar.

Primeiramente, é preciso dizer que "The King of Pigs" dificilmente será lembrado como uma animação visualmente impressionante, especialmente por possuir um desenho de personagens feio, tendendo ao realista mas com um quê de grotesco, que até lembra em certos momentos o estilo do clássico ero-guro "Midori", de Hiroshi Harada. "The King of Pigs" utiliza uma animação com técnica de "cell-shading" não muito elaborada, em função do orçamento baixo. Foi uma decisão acertada, pois a movimentaçao é eficiente e até mesmo fluida, o que seria praticamente impossível de conseguir se utilizassem técnicas mais tradicionais, tendo tão pouco dinheiro em caixa.

Mas é no conteúdo que "The King of Pigs" brilha, mostrando com detalhes o peso da hierarquia em toda a sociedade coreana. Há quase um sistema informal de castas, em que os mais ricos mandam e desmandam, enquanto os mais fracos praticamente não têm chance de ascensão social. Patrões humilham empregados que, em contrapartida, espancam as esposas em casa. Alunos de turmas mais avançadas abusam dos estudantes novatos, e os líderes destas turmas de novatos descontam nos colegas mais fracos. É um ciclo eterno de abuso dos mais fortes sobre os mais fracos, gerando uma situação absurda em que apanhar dos poderosos é considerado algo normal e até esperado.


Por isto é que alguém como Chul Kim é considerado uma ameaça: como entender que uma pessoa pobre, cujo pai fugiu de casa após sua empresa falir, e cuja mãe trabalha como prostituta pra sustentar a si mesma e ao filho, tenha a petulância de enfrentar os alunos ricos e dominantes, surrar os valentões até quase matá-los, sem nunca baixar a cabeça para quem quer que seja? Em sua lógica, apenas tornando-se realmente maus, verdadeiros monstros, é que os mais fracos têm uma chance mínima de encontrar um lugar ao sol numa sociedade como esta.

O trio de personagens principais é fenomenal. Kyung-min, chamado de "bebê chorão" na escola e um dos alvos principais de "bullying" na escola, tinha uma personalidade volúvel, mudando de lado de acordo com a direção do vento. Ainda assim, no fundo ele sentia que Chul Kim talvez fosse a única esperança de redenção para alguém fraco como ele. Já adulto, Kyung-min tornou-se diretor de uma empresa de informática, mas segundo seu próprio relato, vivia mais de aparência do que tudo, tendo que lidar com dívidas cada vez maiores.

Jong-suk tinha uma personalidade complexa nos tempos de colégio: parecia prestes a tomar alguma atitude para enfrentar os valentões mas, na hora H, quase sempre recuava. Jong-suk também se apegou imediatamente a Chul Kim, enxergando-o como seu salvador, mas ao contrário de Kyung-min, sua vida pessoal e profissional não tomou um rumo dos mais promissores. Seu sonho era escrever um livro de sucesso, mas para pagar as contas, precisava submeter-se a uma rotina entediante e humilhante como "ghost writer", escrevendo biografias estúpidas de pessoas vazias, mas com muito dinheiro - e num mundo como este, quem é rico manda, e quem é pobre obedece.

Obviamente, a alma de "The King of Pigs" é o próprio "rei dos porcos", ninguém menos que Chul Kim. Desde sua primeira aparição em cena, é evidente que o garoto é uma força da natureza, com muita dor represada dentro de si após tantas desgraças, e que é indomável quando explode com a força de um furacão. As cenas mais marcantes desta animação giram em torno dele, como uma sequência muito cruel envolvendo violência contra um animal, e outra em que ele e os amigos entram em transe após usarem drogas. Por mais que diga que é preciso tornar-se um monstro para ser alguém na vida, Chul Kim talvez seja o personagem mais humano em "The King of Pigs", aquele que é mais fiel aos seus sentimentos e quem, no fundo, mais deseja fazer algo concreto para melhorar sua vida e da pessoa mais importante em sua vida, que é sua mãe.

Infelizmente, como acontece em vários filmes coreanos, a coisa desanda muito rumo ao final, com uma overdose de gritos histéricos, choradeiras e dramas tão exagerados que acabam tirando totalmente a força de cenas que, naturalmente, já seriam impactantes o suficiente. Pra piorar, após litros de lágrimas saindo aos jorros e berros capazes de arrebentar tímpanos, "The King of Pigs" acaba de uma vez, com uma frasezinha de efeito de 5ª categoria que dá vontade de chorar, mas de raiva.



De toda maneira, é um ótimo filme, vencedor de 3 prêmios no 16th Busan International Film Festival, em 2011, e que inverte uma tendência comum entre animações coreanas, que costumam ser brilhantes tecnicamente, mas muitas vezes deixam a dever em relação ao conteúdo. É uma obra marcante, que nos faz imaginar como é possível esperar que adultos equilibrados surjam de um ambiente doentio e viciado como este. E são estes mesmos adultos que tomarão as rédeas da sociedade, repetindo este mesmo ciclo geração após geração... uma visão verdadeiramente distópica.


Marcelo Reis


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