sábado, 25 de março de 2017

The Boy Who Saw the Wind (Movie)

Alternativos: Kaze o Mita Shonen
Ano: 2000
Diretor: Kazuki Omori
Estúdio: Brain's Base
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 97 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia



Baseado no romance homônimo de C.W. Nicol, um escritor irlandês que vive há décadas no Japão, tendo inclusive a cidadania japonesa, "The Boy Who Saw the Wind" possui muitas características narrativas e visuais que lembram as obras do Studio Ghibli. Mas apesar de alguns momentos de brilhantismo, o resultado geral fica muito aquém do que estamos acostumados a ver nas fantásticas obras do estúdio de Hayao Miyazaki.

Num país fictício que lembra muito a Alemanha Nazista dos anos 30 e 40, o brilhante cientista Fritz e a esposa incendeiam a propriedade onde moravam, e tentam desesperadamente atravessar a fronteira com seu filho Amon. O motivo de tal ato desesperado? Amon possui a capacidade de "brincar com a luz", gerando partículas capazes de curar feridas, mas também de gerar uma quantidade astronômica de energia. Fritz resolve destruir toda a documentação relativa às pesquisas que fez com o filho e fugir, para evitar que o Império da Cobra Dourada use este conhecimento para criar uma arma destruidora. Uma tragédia coloca fim à fuga, e Amon é recapturado pelo maligno Comandante Branik, líder do Exército do Império da Cobra Dourada.

Como último descendente do Povo do Vento, Amon possui outras capacidades únicas, como a habilidade de conversar com os animais. E é numa destas conversas, mais especificamente com uma águia, que o garoto descobre ser capaz de ouvir e ver o vento e, desta maneira, usá-lo a seu favor para voar como os pássaros. Uma série de eventos leva Amon à terra do Povo do Mar, onde pessoas de pele morena vivem da pesca e da tecelagem. A vida com a corpulenta e energética Monika e sua filha Maria trazem um pouco de alegria e esperança à vida de Amon, mas Branik não desistirá tão facilmente de recapturar o garoto, e usar seu poder para semear ainda mais terror e destruição pelo planeta.

Mesmo tendo visto alguns vídeos curtos deste anime, confesso ter ficado impressionadíssimo com sua excelência técnica. Usando uma técnica 100% tradicional, sem qualquer auxílio de CGI, "The Boy Who Saw the Wind" possui cenários muito detalhados, com um colorido repleto de degradês suaves, e a animação propriamente dita é simplesmente espetacular. O estúdio Brain's Base já produziu vários OVAs e séries de TV de qualidade excepcional (Baccano, Durarara, Denpa Teki na Kanojo), mas raramente associamos seu nome a longas-metragens. Ver um filme deste estúdio com uma animação que não deixa nada a dever às grandes obras do Ghibli e Madhouse é realmente uma surpresa das mais agradáveis.

O universo criado por C.W. Nicol em seu livro é rico e interessante, e podemos reconhecer vários povos de nosso planeta em seu mundo fictício: o Povo do Mar lembra muito o pessoal das ilhas do Oceano Pacífico, o Povo da Colina tem tudo a ver com as pessoas que vivem nos Andes, a cidade de Hambel tem todo o jeitão das cidades suíças e austríacas à beira dos Alpes. E os uniformes e a grandiosidade do Império, além do discurso do Comandante Branik para restaurar a antiga glória do Povo da Cobra Dourada, são alusões óbvias ao Terceiro Reich.


Em seus melhores momentos, "The Boy Who Saw the Wind" empolga e emociona demais. Os combates de guerra são brutais, muita gente morre pra valer, há cenas de tortura e crueldade, e a destruição causada pelas armas do Império realmente impressiona. E como a narrativa tem uma pegada ecológica, há belíssimas cenas ligadas à natureza, com lindas paisagens e vôos panorâmicos. O problema é que, na maior parte do tempo, o roteiro de Shuu Narijima não conseguiu um bom equlíbrio entre os temas adultos dominantes e alguns aspectos secundários excessivamente infantis.

Por exemplo, o tal lance de Amon falar com os animais destoa do tom fantástico mais sério da obra. É como se tentassem fazer algo na linha de "Princess Mononoke", mas sem conseguir chegar nem perto do equilíbrio perfeito alcançado por Hayao Miyazaki em sua obra. As cenas com os animais acabam parecendo meio bobas e forçadas, como se eles existissem apenas para poder explicar, de forma expositiva, quem é Amon, de onde ele veio e tudo o mais.

O anime infelizmente cai naquela terrível armadilha do maniqueísmo: todas as pessoas do lado dos heróis são super boazinhas e felizes, enquanto os vilões são impiedosos e matam tudo o que vêm na frente. Amon é uma criança esforçada, luta para se tornar uma pessoa melhor, mas tirando o fato de ele poder voar e ter o tal "poder da luz", não é um protagonista dos mais carismáticos. Maria, por outro lado, é uma garota de gênio forte, que enfrenta os homens de igual pra igual, mas acaba não tendo muito tempo na história para brilhar mais. Não há muito a dizer de Branik, exceto que ele provavelmente mataria a própria mãe pra ficar no poder. E temos a transformação mais "psicótica-frankenstein" de todas na personagem Lucia: a antiga ajudante de Fritz, que trai o antigo mestre, entrega tudo sobre Amon para seu amante Branik, mas parece gostar de verdade do garoto, de repente vira o verdadeiro capeta, com direito até mesmo a risadas demoníacas com a face desfigurada.

O ritmo do anime como um todo é um pouco errático, com certas partes corridas demais e algumas transições muito estranhas, que ao invés de darem uma sensação de continuidade à narrativa, cortam completamente o fluxo. E pode ser que eu tenha me distraído, mas nada na narrativa justifica o "poder da luz" que Amon possui, ao contrário da sua habilidade de voar, que está ligada à sua descendência do Povo do Vento. Há ainda umas ceninhas de humor idiota totalmente desnecessárias: em determinado momento, por exemplo, crianças presas tentam fugir da prisão, tomam uma surra tão grande dos guardas que ficam desfiguradas... e começam a rir de tudo aquilo! Nossa, isto é o que chamo de "humor de qualidade"!

Mas a cereja podre no bolo estragado é, de longe, o final do anime. As cenas iam acontecendo, e eu só ficava me perguntando o porquê de terem terminado o anime daquela forma. São situações forçadas e extremamente piegas, criadas apenas para causar comoção, mas que acabam tendo um efeito inverso, deixando o espectador completamente indiferente e até um pouco irritado.



"The Boy Who Saw the Wind" nem de longe é um anime desprezível. Valeria a pena ver simplesmente pela animação espetacular e por algumas cenas realmente marcantes, como a perseguição a Amon e seus pais, a batalha na terra do Povo do Mar ou a caçada ao peixe-monstro "zabi". Uma pena que a obra como um todo não chegue perto do nível de excelência apresentado em momentos como estes.


Marcelo Reis


 

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