domingo, 25 de março de 2018

B: The Beginning (TV)

Alternativos: Perfect Bones
Ano: 2018
Estudio: Production I.G
Diretor: Kazuto Nakazawa/Yoshiki Yamakawa
País: Japão
Episódios: 12
Duração: 26 min
Gênero: Drama/Policial/Ação


No começo de 2016, a Netflix anunciou que começaria a investir mais agressivamente na indústria de animes, e desde então a gigante do mercado de streaming tem competido com outros serviços especializados em streaming de animes, como Crunchyroll e Funimation, através da compra de licenças dos animes da temporada. Isso significa que a Netflix entrou no “leilão” oferecendo muito dinheiro por títulos que a empresa considerava como sendo aqueles que fariam mais sucesso, e muitos destes vieram para o ocidente como exclusivos da plataforma e com o slogan de “uma série original Netflix”. Contudo, isso não é bem verdade, já que tudo o que a Netflix fez nesses casos foi adquirir os direitos exclusivos de streaming para as séries que foram veiculadas normalmente na TV japonesa, sem de fato participar da produção de nenhuma.

Isso mudou com “B: The Beginning”. Anunciado em Fevereiro de 2016 sob o título temporário de “Perfect Bones”, B é a primeira série animada japonesa realmente produzida pela Netflix em parceria com o renomado estúdio Production I.G. (FLCL, Blood: The Last Vampire, Attack on Titan). O alto pedigree dos envolvidos certamente criou uma grande expectativa no público, além da esperança de popularização do gênero em um mercado de animes que se encontra em crise no Japão.

No arquipélago ficcional e monárquico de Cremona, uma série de assassinatos assola a nação. As vítimas são sempre figuras políticas corruptas, e o culpado sempre escreve a letra “B” em sangue na cena do crime. O Serviço de Investigação Real (Royal Investigation Service, “RIS”) trabalha a todo o vapor para tentar solucionar o caso sem muito sucesso, quando o lendário e excêntrico investigador Keith Flick ressurge de um longo período sabático para ajudá-los na empreitada. Enquanto isso, o jovem Koku trabalha como artesão em uma loja de violinos, mas parece esconder algum objetivo misterioso por trás de sua fachada simples e inofensiva.

Enquanto a onda de crimes apenas cresce, as histórias de Keith e Koku se entrelaçam em uma história que é metade “drama criminal” e “ação sobrenatural”. E é justamente esse o maior problema da série.

A princípio, tal dualidade é, na verdade, um dos pontos fortes de “B: The Beginning”. O início do anime é cuidadosamente dirigido de maneira a reter um alto grau de suspense, fazendo com que ambas as histórias de Keith e Flick pareçam interessantes e bem construídas em paralelo. Apesar de as transições entre um mistério policial realista e espetaculares cenas de ação com super-poderes parecerem algo brusco e que não combina, a série consegue manter o interesse através de vários mistérios que são revelados aos poucos e instigam o telespectador a mergulhar nesta trama surreal. Quais seriam os motivos por trás de tudo e como dois elementos tão incompatíveis se relacionam no contexto geral? O que vai acontecer quando os dois protagonistas finalmente se encontrarem? Enquanto não temos as respostas, B é um anime fenomenal e realmente muito interessante, criando aquele fenômeno de “só mais um episódio” tão comum em narrativas seriadas bem construídas.

O problema é que, quando tudo é revelado no meio da série, perde-se a graça. O episódio 6 empurra uma série de explicações sobre o universo de B de maneira expositiva e didática, e essas explicações simplesmente não são interessantes. Um punhado de clichês e explicações pseudocientíficas meia-boca acabam com quase todo o clima de mistério e tensão construído até o momento, resultando numa divisão quase que completa de suas duas partes, já que na verdade elas mal se relacionam. Depois deste momento, fica evidente como a história de Keith e a de Koku não se complementam da maneira esperada, e ambas poderiam ser animes completamente independentes sem que fossem necessárias grandes revisões. Quase como se o projeto tivesse se iniciado com um plano diferente em mente, apenas para ter todo um gênero novo enfiado no meio durante a produção por algum motivo.

Naturalmente, isso faz com que exista um notável abismo de qualidade entre as duas tramas paralelas. No caso, o lado de “suspense policial” de Keith é mil vezes mais interessante que as “lutas sobrenaturais” de Koku. Todo o elenco da RIS, apesar de seguirem arquétipos bem comuns deste tipo de história (a hacker inteligente e sarcástica, o veterano “paizão”, o musculoso irritado, e assim vai), se mostram como sendo carismáticos o suficiente para sustentar a trama de maneira a nos importarmos com seus destinos. Destaca-se aqui a relação entre Keith e Lily, uma policial novata que, apesar de aparentar ingenuidade e impulsividade infantil, é rápida de raciocínio e um grande complemento para o arco pessoal de Keith. A revelação sobre quem está realmente por trás de tudo é deveras óbvia, contanto muito interessante no quesito de motivação criminal. Ainda assim, o clímax da trama peca ao contar e descrever demais os personagens e sua relação através de longos diálogos expositivos, o que tira um pouco do impacto da coisa.

Já o lado de Koku conta uma história bem genérica e sem graça sobre um super-humano em busca de sua amiga de infância lutando contra uma organização misteriosa. Nenhum dos vilões é particularmente memorável ou bem trabalhado, e a trama tenta desesperadamente se justificar através de dramalhões manjados e pseudo-intelectualismo raso cheio de temas e ideias mal trabalhadas que estão sempre tentando soar mais profundas do que realmente são. Pelo menos as cenas de luta são realmente incríveis, com uma animação fluida e detalhada.

O anime em si é realmente muito bonito e dá para ver que não economizaram nada na parte técnica. O design de personagens é ótimo e expressivo, acertando em cheio um meio-termo entre realismo e estilização. A trilha sonora é também muito bem empregada, amplificando os momentos de suspense e tensão juntamente aos de ação desacerbada.

Meu único problema com a direção de arte é, na verdade, a inconsistência de seu universo, algo que talvez tenha a ver com a natureza esquizofrênica da história. Apesar de a tecnologia aparentar ser muito mais avançada do que o mundo atual, o reino de Cremona é uma mistureba de estilos arquitetônicos antigos juntamente a carros que parecem ter um design dos anos 50 ou 60. Isso sem falar que, aparentemente, estamos falando de uma nação monárquica. Não que isso seja particularmente errado ou nada do tipo, mas o anime nunca nem ao menos toca no assunto ou explora devidamente esse país ficcional tão excêntrico, o que me faz questionar o porque de ter se dado ao trabalho de cria-lo ao invés de decidir situar a história em qualquer outro lugar do mundo real.



Mas enfim, vale a pena assistir B: The Beginning? Eu diria que sim. Sua metade focada em um drama policial é competente e interessante o suficiente para justificar aguentar uma outra trama deficiente e manjada. Mesmo em seus piores momentos, as cenas de lutas são também um ótimo entretenimento apenas pela sua qualidade de animação e exagero. No entanto, isso não muda o fato de que essa história poderia ter sido muitíssimo melhor caso houvesse um cuidado maior em combinar ambas as partes ou pelo menos se o anime decidisse se focar apenas em uma. Do jeito que está, é uma série boa que se perde ao longo do caminho apesar de uma boa direção e pacote técnico impecável. Não só isso, mas o último episódio acaba com uma cena pós-créditos que indica a possibilidade de uma continuação... Vai entender.


Lucas Funchal


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