sexta-feira, 8 de junho de 2018

Violet Evergarden (TV)

Ano: 2018
Estúdio: Kyoto Animation
Diretor: Haruka Fujita, Taichi Ishidate
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 23 min
Gênero: Drama / Fantasia / Sci-Fi


Há mais de dois anos, me mandaram um pequeno teaser no Youtube. Começava mostrando uma moça com mãos metálicas digitando em máquina de escrever que se desmanchava. As letras se espalham enquanto o vídeo mostra várias cenas lindíssimas, e depois a moça aparece novamente de frente para a máquina de escrever, e olha para cima em meio a uma chuva de cartas. É deslumbrante.

Eu tenho certeza que para fazer este teaser de meros 46 segundos foi gasto mais tempo e trabalho do que a maioria dos episódios completos dos animes atuais. Eu não sabia o que seria, mas esperava algo nível Ghibli ou Makoto Shinkai.

De vez em quando alguma pessoa me mandava novamente este teaser e todo o deslumbramento voltava. Até que me avisaram que havia estreado. E era uma série, não um filme. E meu queixo caiu mais uma vez.

Séries de animes são feitas para serem baratas. O mais baratas possível. Por isso tantos animes envelheceram tão mal. Já os filmes e OVAs costumam ter um valor de produção maior, e consequentemente maior qualidade técnica. Violet Evergarden tem uma animação incrível em vários momentos (os chamados “sakuga”). E em outros usa vários “truques” para parecer ter uma animação melhor – brilhos, câmeras que deslizam, etc. O resultado final é excelente. Alguns episódios são, claro, muito mais bem-acabados que outros. Mas isso não muda o fato que mesmo quando Violet Evergarden está nos seus piores momentos, ainda está muito acima da média.

Além disso, Violet tem algo mais difícil de quantificar: bom gosto. As escolhas de cores, o design dos personagens e cenários, a ambientação, detalhes como o funcionamento dos braços dela... Tudo é coeso e bem pensado, tudo passa a impressão que quer passar. Não há dinheiro que consiga superar bom gosto, e isto o anime tem de sobra.

Isto é o que aquele pequeno teaser promete e cumpre. Mas o que me manteve até o final foi exatamente o que ele não é, e eu achava que seria. Violet não é um robô, apesar do que o trailer pode sugerir. E, apesar dela ter excelentes habilidades de combate, há pouquíssima ação. Violet é uma personagem que fala pouco e interage pouco. É uma pessoa distante e reservada. Mas ela não é assim por questão de estilo, ela é uma pessoa emocionalmente destruída. Não é legal ser alguém que não expressa seus sentimentos. É sufocante.

Violet Evergarden não é um anime sobre a guerra. É sobre o que acontece depois, e como a guerra deixa suas marcas sobre todos, até sobre o lado que venceu.

O anime se passa após uma guerra que aconteceu entre países muito inspirados pela Europa central. Violet Evergarden era uma soldado que lutou no lado vencedor e que agora tem que seguir com sua vida. Ela era considerada uma arma poderosa, não demonstra muitos sentimentos e perdeu seus dois braços na última batalha. Mais importante: ela não sabe o que aconteceu com seu superior, o Major Gilbert, que se encontrava muito ferido nos últimos momentos dos dois juntos, e lhe disse que lhe amava.

As palavras do Major Gilbert a deixam perdidas. Para uma pessoa sem familiaridade com afetos, elas caíram como uma bomba. E sem saber o que fazer da sua vida, ela é indicada por um superior para trabalhar como Auto Memory Doll. Auto Memory Doll são moças que trabalham escrevendo cartas para pessoas que não conseguem escrever ou tem dificuldades em se expressar, como no filme Central do Brasil. E a partir daí, Violet vai tendo contato com histórias, na sua maioria tristes, que derivam da guerra.

O episódio 10 em particular me deixou desolado. Desde o começo é fácil de previr o que vai acontecer, mas quando acontece, o impacto ainda ressoa. E, um episódio por vez, o anime vai te conquistando. Quem desenvolve não é muito a história, mas a própria Violet. Talvez não tenha sobrado muito espaço para os outros personagens recorrentes, mas eu gosto de como tudo foi montado e tudo aconteceu. Me lembra das próprias dificuldades da Violet em se conectar.



Mesmo se o resto do anime fosse ruim, eu provavelmente assistiria pela parte técnica. Mas, tirando ela, o que sobra? Um excelente anime que parece brincar de subverter as expectativas, trata a guerra de um jeito incomum e tem uma personagem pacifista de verdade. Não li as "light novels" que o inspiraram, escritas por Kana Akatsuki e ilustradas por Akiko Takase. Mas vi por acaso um comentário comparando os finais de ambas, e são opostos em um ponto crucial para a trama. Eu adorei o final do anime. É uma obra muito fácil de recomendar – tem no Netflix, é muito bem produzido e foi até dublado. É fácil de recomendar até para quem não gosta dos clichês tradicionais dos animes, e tem preconceitos com a mídia. Tem uma integridade a seus temas meio difícil de se encontrar.


Heider Carlos


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