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sexta-feira, março 01, 2013

The Cat Piano (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 14/09/2011.

Ano: 2009
Diretor: Ari Gibson, Eddie White
Estúdio: The People´s Republic of Animation
País: Austrália
Episódios: 1
Duração: 8 min
Gênero: Fantasia / Terror


Excelente curta-metragem do "The People´s Republic of Animation", estúdio de animação localizado em Adelaide, Austrália, "The Cat Piano" chegou a entrar na "shortlist" de 10 possíveis indicados ao Oscar 2010, mas acabou não conseguindo ficar entre os cinco finalistas. De toda forma, apesar de "The Cat Piano" ter vencido vários prêmios de animação (Sydney Film Festival, Melbourne International Film Festival, entre outros), não podemos levar em conta a qualidade de uma obra apenas pelo fato de ter sido ou não premiada em algum festival. Importa, sim, é a qualidade intrínseca da obra como um todo e, neste aspecto, "The Cat Piano" é uma animação excepcional.

A história é narrada por um gato-escritor que, ao escrever um poema chamado "The Cat Piano", expõe um caso teoricamente real presenciado por ele mesmo. Numa cidade felina altamente boêmia, repleta de cantores, instrumentistas e prostitutas, toda a população vive num permanente estado de alegria, numa filosofia de vida totalmente hedonista. Tudo leva a crer que um excelente futuro está reservado não apenas para a cidade mas, também, para o narrador da história, apaixonado por uma gata branca que é a grande estrela do local e canta como um anjo.

De repente, os gatos da cidade começam a sumir por obra de um humano misterioso e sombrio, que pretende usar os pobres felinos na execução de uma tétrica sinfonia chamada "The Cat Piano". Cada vez mais silenciosa e triste, a cidade passa a ser dominada pelo caos e pelo frio. É preciso que alguém tome a frente e aja o quanto antes, ou a outrora pacífica e alegre cidade dos gatos cairá de vez num estado de absoluta selvageria.


Usando um estilo de animação 2D de excelente qualidade, "The Cat Piano" tem um clima de filme "noir" do início ao fim, com um colorido chapado e um forte contraste de luzes e sombras. Na maior parte do tempo, o colorido predominante é o azul-marinho, de vez em quando pintando alguns lampejos de verde ou vermelho. A trilha sonora original de Benjamin Speed é excelente, sombria e supreendentemente variada, levando-se em conta que a animação dura apenas 8 minutos.

Mas o pulo do gato (com o perdão do trocadilho) é realmente a narração de Nick Cave, compositor, cantor, roteirista e poeta australiano que fez muito sucesso na década de 80, com a banda "Nick Cave and the Bad Seeds". Nick Cave sempre teve participação ativa no universo cinematográfico, seja como ator (em "Johnny Suede"), compositor ("A Proposta", "A Estrada") e roteirista (também em "A Proposta"). Em "The Cat Piano", Nick Cave foi um dos produtores-executivos e ainda emprestou sua voz grave e expressiva ao narrador-poeta, e grande parte do clima cativante da obra como um todo se deve ao seu excelente trabalho nesta função.



Baseado num poema de Eddie White, um dos fundadores e chefes do "The People´s Republic of Animation", e co-dirigido pelo próprio White e Ari Gibson, "The Cat Piano" é mais uma grande obra produzida por animadores australianos, cujo grande nome na atualidade talvez seja realmente Adam Elliot, vencedor do Oscar de Curta de Animação com "Harvey Krumpet" e indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação com "Mary & Max". Uma pena que "The Cat Piano" não ficou entre os cinco finalistas do Oscar: merecia não apenas estar neste grupo seleto, mas até mesmo conquistar o prêmio máximo da Academia.


Marcelo Reis


 

Curtas sobre Curtas #02


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 21/02/2013

Dando sequência à recém-criada seção "Curtas sobre Curtas", três pequenos textos sobre curtas-metragens de animação da Dinamarca, Austrália e EUA.


THE SAGA OF BIORN

Excelente animação em CGI criada por alunos da escola dinamarquesa The Animation Workshop. Assim como na ESMA Montpellier (França), os alunos do último ano do curso de animação da "TAW" produzem curtas que, na maioria das vezes, possuem um nível de profissionalismo assombroso. em todos os aspectos.

Biorn é um velho viking com um passado cheio de glórias, fazendo sua derradeira jornada em busca de um oponente de valor, para que possa encontrar sua morte de uma forma digna. Só assim ele poderá entrar em Valhalla, salão dos deuses nórdicos e o lar perfeito para um verdadeiro guerreiro. Do contrário, viverá no tédio eterno de Helheim, reino daqueles que morreram sem glória, doentes ou velhos. Mas à medida em que o tempo passa, esta missão aparentemente simples vai se complicando cada vez mais. Estaria o velho Biorn condenado a uma morte inglória?

Com cenários de cores mais chapadas e personagens de traços angulares e cartunescos, "The Saga of Bjorn" apresenta uma quantidade enorme de mortes hilárias numa narrativa fluida, coesa e bem humorada, que vai se encaminhando para um final inesperado e, por isto mesmo, impecável.

(Obrigado ao Heider Carlos pela sugestão desta obra)


THE PASSENGER

Chris Jones passou seis anos criando, sozinho, esta obra de clima simultaneamente sombrio e engraçado. "The Passenger" acompanha um homem absorto na leitura de um livro, enquanto caminha pela rua em meio a uma ventania que anuncia a tempestade que se aproxima. Tenso, sentindo que há algo à espreita, o homem acaba pegando um ônibus assim que a chuva começa, mas mal poderia imaginar que um simples peixinho dourado viraria o seu dia de cabeça para baixo.

Impressionante perceber que esta animação foi inteiramente feita por uma só pessoa, já que toda a parte sonora e visual possui um acabamento muito profissional. A ambientação sombria e acinzentada é verdadeiramente aterrorizante, e os personagens trêmulos, de olhos expressivos e arregalados, aumentam ainda mais a sensação palpável de tensão no ar.

Com um clima que lembra muito alguns episódios da série "Além da Imaginação", "The Passenger" possui uma história simples, mas o visual ameaçador que permeia toda a obra e a reviravolta rumo ao final são motivos mais do que suficientes para recomendar esta animação a todos. Uma pena que, desde o lançamento de "The Passenger" em 2006, o australiano Chris Jones não lançou nenhuma nova obra de sua autoria.


ONE RAT SHORT

Ratos lutam pela sobrevivência no metrô de NY. Em meio a esta confusão em busca de alimentos, um pacote quase vazio de Cheetos sai voando por entre os vagões e cai um pouco afastado da estação. O cheiro desperta um rato negro que, quase hipnotizado pelo aroma, vai atrás do pacote e se envolve em situações que não apenas colocam sua vida em risco mas, ainda, fazem-no vivenciar um tipo de sentimento até então inédito em sua vida.

De cara, chama a atenção a excelência técnica desta animação dirigida por Alex Weil e premiada no SIGGRAPH 2006. Os ratos são muito realistas, desde a movimentação até os detalhes dos pêlos e da respiração, e ainda que apresentem comportamentos levemente antropomorfizados em alguns momentos, no geral parecem ratos de verdade tentando sobreviver em meio a perigosas ameaças.

Com situações que remetem aos campos de concentração nazistas, incluindo uma analogia entre código de barras e tatuagens de identificação, "One Rat Short" possui um certo clima melancólico do início ao fim. É uma excelente obra, mas que deixa o espectador com um aperto no coração.


Marcelo Reis