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sexta-feira, março 01, 2013

Only Yesterday (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2003.

Alternativos: Omohide Poro Poro
Ano: 1991
Diretor: Isao Takahata
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 118 min
Gênero: Drama / Romance


Um dos filmes menos conhecidos do Studio Ghibli, Only Yesterday (Omohide Poro Poro) é também uma de suas mais belas histórias. Realizado em 1991, Only Yesterday é um longa-metragem que transpira simplicidade em todos os momentos, o que nem de longe deve ser encarado como desmerecimento, pois é justamente esta simplicidade que o torna tão encantador.

A história deste belo anime diz respeito à vida de Taeko Okajima, uma mulher de 27 anos e ainda solteira, com um trabalho burocrático num escritório em Tokyo, cidade na qual nasceu e cresceu. Quando criança, Taeko morria de inveja das amigas que podiam ir para o campo e visitar os parentes, no período de férias. Por não possuir parentes no interior, Taeko tinha de permanecer em Tokyo o tempo todo, sonhando com o dia em que, finalmente, poderia realizar seu desejo de conhecer o campo. Verdade seja dita, ela chegou perto de atingir seu objetivo, em uma viagem com sua avó às fontes de Atami, mas alguns imprevistos fizeram com que esta sua primeira experiência no campo não fosse exatamente um evento memorável. ^_^"

Adulta e independente, mas com um emprego que não a completa e ainda sem um marido, Taeko sente que a vida está passando, e resolve finalmente realizar o seu desejo, partindo para uma viagem ao interior, durante suas férias trabalhistas. Ao longo da viagem, Taeko começa a se lembrar do tempo em que ainda era uma garotinha de 10 anos: as dificuldades do amadurecimento, os problemas na escola, a pressão da família, a primeira paixão... Mesmo sem entender a razão pela qual estas lembranças resolveram aparecer de supetão, Taeko embarca de cabeça nesta "viagem" rumo ao seu passado, e vai descobrindo o quanto as pequenas coisas de sua infância ainda influenciam a sua maneira de viver e de pensar.


Only Yesterday é um filme com a cara de seu criador, Isao Takahata. Responsável pela direção e pelo roteiro deste fantástico anime, Isao Takahata dá uma aula de cinema, contando uma história aparentemente simples de uma maneira mágica e única. Assim como havia feito em Grave of the Fireflies, Isao Takahata não apela para os famigerados dramalhões nem para o humor pastelão, e deixa que a força da história e o carisma dos personagens se encarreguem de emocionar ou divertir o espectador, de maneira sutil e profunda.

As obras do Studio Ghibli normalmente possuem uma animação sublime, e Only Yesterday não foge à regra. O interessante é que a riqueza da animação se faz notar com mais intensidade justamente nas cenas mais corriqueiras... uma colheita de flores, uma viagem de carro na chuva ou até mesmo uma simples conversa se tornam obras de arte nas mãos dos geniais membros do Studio Ghibli.

Os ótimos diálogos escritos por Isao Takahata tornam-se ainda melhores quando proferidos pelos excelentes personagens. Taeko é uma protagonista cativante, uma bela mulher de espírito alegre e uma enorme disposição para o trabalho, e que sofreu algumas desilusões durante a infância, justamente em função de seu temperamento... numa sociedade dominada pelo tradicionalismo e pelo preconceito, criatividade e imaginação fértil não eram características muito bem vindas, especialmente em uma menina.

Toshio é outro personagem de destaque na trama. Primo em segundo grau do cunhado de Taeko (!), Toshio é um agricultor bem humorado e de maneiras simples, chegado num cigarrinho e com um carro caindo aos pedaços. ^_^" Toshio e sua família recebem Taeko de braços abertos, e se encantam com a disposição e a boa vontade com que ela encara o duro trabalho no campo. Nos momentos de descanso, Taeko e Toshio conversam bastante, e o encontro de duas mentalidades tão distintas produz diálogos memoráveis.



Com momentos antológicos, como a cena do primeiro abacaxi em família (!) ou a briga de Taeko com a irmã, por causa de uma bolsa, Only Yesterday é mais uma obra-prima irretocável criada por Isao Takahata. Não é um anime indicado para todos, em função de seu ritmo mais lento e de sua temática mais voltada ao público adulto, mas se você se encaixa no perfil do espectador ideal, não deixe de conferir esta magnífica e, até certo ponto, obscura jóia criada pelo Studio Ghibli.


Marcelo Reis


 

Pon Poko (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/10/2003.

Alternativos: Pom Poko, Heisei Tanuki Gassen Ponpoko
Ano: 1994
Diretor: Isao Takahata
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios:1
Duração: 118 min
Gênero: Aventura / Fantasia / Infantil


Também conhecido como "A Guerra dos Guaxinins", Pon Poko é um anime lançado pelo Studio Ghibli em 1994, e focaliza a vida dos "tanukis", mamíferos semelhantes aos guaxinins americanos e existentes apenas no Japão. A história começa quando um grupo de "tanukis" muda-se para uma fazenda abandonada, e passa a levar uma vida maravilhosa, imaginando que ninguém voltaria a morar ali. A destruição desta casa pelos humanos força o retorno dos "tanukis" à floresta, e a escassez cada vez maior de áreas verdes e alimentos faz com que os grupos de "tanukis" entrem em combate freqüentemente, buscando conquistar o território dos rivais.

Os "tanukis" percebem que esta guerra não tem sentido algum, já que tanto a Floresta Takaga (refúgio do Exército Vermelho) quanto a Floresta Suzuka (refúgio do Exército Branco) estão fadadas à destruição, em função da contínua invasão destes territórios pelos humanos. Para evitar que as florestas desapareçam de vez, os "tanukis" tomam uma decisão drástica: declarar guerra aberta aos humanos!

O que poderia ser apenas um anime bonitinho e comportado, repleto de mensagens edificantes, se torna uma viagem lisérgica e divertidíssima, nas mãos do fantástico Isao Takahata. É fácil perceber que Pon Poko não é uma animação comum quando vemos o primeiro combate entre os exércitos de "tanukis": os animais perfeitamente desenhados dão lugar a personagens cartunescos, vestidos como samurais, beberrões e chegados numa pancadaria! ^__^ Fato perfeitamente "normal", se levarmos em conta que os "tanukis" andam sobre 2 pés quando a noite cai... desde que não existam humanos por perto, é claro. ^__^" Além disto, os "tanukis" são mestres na arte da transformação, podendo assumir a forma de panelas, estátuas, humanos.... qualquer coisa! ^^" É fácil perceber que, com inimigos assim, os humanos estarão em maus lençóis!


À primeira vista, pode parecer que a história segue o batido padrão Disney, com animais bonitinhos e falantes, e que o bem vencerá a todo custo o mal reinante. Felizmente, isto não acontece: basta dizer que os "heróis" da história, os "tanukis", são normalmente preguiçosos, preocupando-se apenas em se divertir, e costumam quebrar o pau por qualquer razão. Vale notar, também, que os antagonistas (no caso, os humanos) não são retratados como seres malignos e anti-ecológicos, como provavelmente aconteceria em uma obra maniqueísta. Detalhe importante: apesar do bom humor e do alto-astral presente ao longo do anime, os personagens morrem de verdade, quando necessário... afinal, estamos falando de guerra, certo?

Falar qualquer coisa sobre o desenrolar da guerra entre humanos e "tanukis" estragaria o prazer de se assistir a este excelente anime. No caso, vale a pena enfatizar um aspecto que causou um certo furor nos Estados Unidos, à época do lançamento de Pon Poko em terras americanas: os "tanukis" não são assexuados! Os machos possuem "baguinhos" bem visíveis, as fêmeas têm seios bem grandes e evidentes, e o clima entre eles costuma ficar bem quente! ^__^ Se acham isto pouco, esperem até ver a forma de ataque dos "tanukis" machos: eles inflam os próprios testículos, que ficam GIGANTESCOS, e usam os mesmos como instrumento de ataque!!! ^___^



Público e crítica aprovaram a originalidade revolucionária de Pon Poko, maior bilheteria japonesa em 1994 e considerado o melhor filme japonês neste mesmo ano. O ritmo errático faz com que a história perca um pouco da força e do interesse, mas não o suficiente para estragar o conjunto da obra. Com uma mensagem ecológica forte e repleto de referências tipicamente japonesas, Pon Poko é recomendado para pessoas de todas as idades, e comprova mais uma vez a capacidade inigualável do Studio Ghibli em produzir animes memoráveis.


Marcelo Reis


 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Grave of the Fireflies (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/06/2003.

Alternativos: Hotaru no Haka
Ano: 1988
Diretor: Isao Takahata
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 88 min
Gênero: Drama / Guerra / Histórico



A brilhante trajetória do Studio Ghibli mistura-se à genialidade de seus dois fundadores, Hayao Miyazaki e Isao Takahata. Grandes amigos, Miyazaki e Takahata foram companheiros de trabalho no famoso Nippon Animation, estúdio responsável por alguns clássicos da animação japonesa, como Heidi, Mirai Shonen Conan e Lupin III. O surgimento do Studio Ghibli coincide com o lançamento de Kaze no Tani no Nausicaa, em 1984 - que, na verdade, é do estúdio Topcraft, mas é considerado o embrião do que viria a ser o Ghibli - e desde então, o público tem sido brindado com obras fantásticas, tais como Laputa, Mononoke Hime e Sen to Chihiro no Kamikakushi.

Normalmente os animes do Studio Ghibli possuem temáticas voltadas à fantasia e são dirigidos pelo incrível Hayao Miyazaki, mas quis o destino que sua obra mais pungente, realista e autoral não fosse conduzida por Miyazaki mas, sim, por seu companheiro de jornada, Isao Takahata.

Grave of the Fireflies (Hotaru no Haka) foi lançado em 1988, juntamente com Tonari no Totoro (chamado de "Meu Amigo Totoro" no Brasil), e quase não saiu da prancheta de projetos. Poucas pessoas tinham confiança que um anime sério, de fortíssima carga dramática e com um orçamento tão elevado pudesse ser bem sucedido. As dificuldades para o financiamento de sua produção foram evidentes mas, felizmente, Grave of the Fireflies se tornou realidade... do contrário, teríamos sido privados de uma obra-prima incontestável, não só em relação ao mundo da animação mas, também, ao universo cinematográfico como um todo.

Hotaru no Haka é baseado no livro semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, sobrevivente da II Guerra Mundial, cuja irmã morreu de fome durante o conflito. Amargurado pela culpa, pois acreditava ter sobrevivido às custas da fome da irmã, Akiyuki Nosaka escreveu este livro como uma espécie de expiação por seus pecados, além de ser um tributo à memória de sua irmã e seus familiares.

A história gira em torno da vida do jovem Seita e sua irmã mais nova, Setsuko. Enquanto seu pai combate os americanos em alto-mar, Seita e Setsuko vivem com a mãe, sempre às voltas com os constantes alertas de ataques aéreos. Após perderem a mãe num intenso bombardeio, Seita e Setsuko são obrigados a amadurecer rapidamente e enfrentar situações difíceis e penosas... ainda assim, fazem de tudo para encontrar alegria e satisfação nas menores coisas, como um banho de mar ou observando vagalumes à noite. Mas a fome crescente, as doenças e a insensibilidade dos adultos tornam a vida de ambos cada vez mais dura, e as perspectivas para o futuro ficam cada vez mais sombrias...


No tocante à animação, é impressionante a atenção dedicada aos menores detalhes em Grave of the Fireflies, desde o perfeito movimento dos personagens numa simples troca de roupas até os impressionantes bombardeios feitos pelos americanos às cidades japonesas. O fato de Grave of the Fireflies ter sido feito inteiramente em acetato, sem nenhum efeito de computação gráfica, valoriza ainda mais o excepcional trabalho da equipe de animação.

(Curiosidade: um dos principais animadores em Hotaru no Haka foi ninguém menos que o brilhante Yasuomi Umetsu, mais conhecido por suas polêmicas obras Kite e Mezzo Forte, animes com doses nada homeopáticas de violência e sexo explícito).

Outro fator digno de nota diz respeito ao cuidado na criação dos personagens, não só em relação ao tipo de linguagem utilizada mas, principalmente, em relação ao comportamento realista dos mesmos. Tomemos como exemplo a tia de Seita e Setsuko, que à primeira vista parece uma megera materialista e sem compaixão... se levarmos em consideração as dificuldades presentes em tempos de guerra, ficamos a nos perguntar se não nos comportaríamos exatamente da mesma maneira, se estivéssemos em tal situação.

Seita e Setsuko são personagens memoráveis! É nítida a afinidade perfeita entre os irmãos e o esforço que cada um faz pelo bem-estar do outro. Para manter Setsuko alheia aos horrores da guerra e, com isto, preservar sua inocência, Seita procura manter o bom humor em todos os momentos, buscando enxergar algo de positivo mesmo nas piores situações. Setsuko, por outro lado, pode ser considerada a mais bem caracterizada personagem infantil da história da animação, não só pela perfeição e sutileza de seus movimentos mas, principalmente, em função do excelente trabalho de dublagem feito por Ayano Shiraishi. Normalmente as dublagens de personagens infantis são feitas por "seiyuus" adultos que tentam imitar os maneirismos infantis, o que costuma gerar certas incoerências em relação ao tipo de vocabulário usado por uma criança. No caso de Hotaru no Haka isto não acontece, pois Ayano Shiraishi tinha apenas 5 anos de idade quando participou desta obra... a autenticidade na maneira com que expressa os sentimentos de Setsuko é tocante!

Nas mãos de um diretor incapaz, Grave of the Fireflies teria facilmente descambado para o choro fácil e para a pieguice. Felizmente, Isao Takahata não é um diretor qualquer, e conseguiu o equilíbrio necessário para retratar a triste história de Seita e Setsuko, sem apelar para situações piegas uma vez sequer. É interessante notar que, na primeira cena, já sabemos que Seita está morto, mas isto não reduz em nada o tremendo impacto emocional causado por Grave of the Fireflies. A história é contada em "flashback", através das lembranças de Seita, durante sua jornada ao descanso final. Enquanto as imagens das lembranças são retratadas em cores vivas, as imagens do além são mostradas em tom sépia.



Grave of the Fireflies é, indubitavelmente, uma das obras máximas dentro do universo dos animes. Com passagens memoráveis, como a famosa cena dos vagalumes dentro do abrigo, Grave of the Fireflies deve ser assistido com cautela por pessoas mais sensíveis, pois a força dramática deste anime é capaz de arrancar lágrimas de uma pedra. Enfim, palavras não são suficientes para descrever a maravilha que é este anime. Obrigatório e imperdível!

"Por que os vagalumes morrem tão rápido?" - Setsuko


Marcelo Reis