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quinta-feira, janeiro 08, 2015

Short Peace (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/01/2015

Ano: 2013
Diretor: Koji Morimoto, Shuhei Morita, Katsuhiro Otomo, Hiroaki Ando, Hajime Katoki
Estúdio: Sunrise / Shochiku
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 68 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério / Histórico



Mesmo sabendo que o resultado final pode ser decepcionante, sou vidrado nestas antologias de animes que aparecem de tempos em tempos, como "Robot Carnival", "Genius Party" e "Genius Party Beyond". Cheguei a "Short Peace" totalmente sem querer, ao procurar mais informações sobre o curta "Combustible", de Katsuhiro Otomo. "Short Peace" é um projeto multimídia que consiste de quatro curtas animados produzidos pela Sunrise e Shochiku, e um videogame de plataforma (Ranko Tsukigime's Longest Day) criado pelas softhouses Crispy's Inc. e Grasshopper Manufacture para o PS3, com distribuição a cargo da Bandai Namco Games.

O tema central que une todo o projeto é o Japão, com cada OVA abordando uma época específica da história do país. Como a era moderna não foi representada em nenhum dos quatro curtas animados, acabou aparecendo no jogo, cuja criação ficou por conta do malucaço Suda 51, responsável por jogos como "No More Heroes", "Killer is Dead" e "Sine Mora".

A abertura do anime foi criada por Koji Morimoto (Magnetic Rose, Beyond, Dimension Bomb) e possui a mesma aura psicodélica de suas outras animações. Uma menina brinca de esconde-esconde com o irmão, quando um coelho a autoriza a entrar numa esfera esquisitaça, dentro da qual existe um mundo muito louco onde tudo parece possível, com direito a uma trilha sonora eletrônica empolgante e efeitos sonoros criativos. E é com esta animação toda que vamos para o primeiro curta...

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POSSESSIONS (TSUKUMO) - DIREÇÃO DE SHUHEI MORITA

No século XVIII, um viajante solitário enfrenta uma tempestade em meio a uma floresta e busca abrigo da chuva em um pequeno templo abandonado. Sua intenção inicial era apenas passar a noite em segurança naquele templo em ruínas, mas assim que ele coloca os pés lá dentro, o ambiente ganha vida, com sombrinhas malucas e puladoras caindo aos pedaços e papéis de parede voadores reclamando do descaso e do abandono.

Qualquer um provavelmente entraria em pânico naquele local assombrado, mas não o nosso amigo viajante. Armado com sua maleta "1001 utilidades", ele tenta entender toda aquela situação e procura reparar tudo o que está em mau estado de conservação. Mesmo com alguns eventos pra lá de assustadores, o viajante sente-se agradecido pela ajuda dos espíritos que ali habitam e que o acolheram naquele momento difícil.

Shuhei Morita chamou a atenção com seu fabuloso curta "Kakurenbo", tanto que trabalhou ao lado de Katsuhiro Otomo em "Freedom" um pouco depois. Morita utiliza mais uma vez a técnica de 3D com "cell-shading", mas o resultado é muito superior a qualquer de suas obras anteriores. O desenho de personagens de Daisuki Sajiki (Kakurenbo) é expressivo, e as texturas de tecidos e outros objetos beiram a perfeição. E apesar do forte clima de terror que permeia toda a obra, "Possessions" consegue a proeza de ser um anime muito alto-astral. Em "Possessions", é nítida a evolução de Shuhei Morita como narrador e artista visual.

"Possessions" foi indicado a "Melhor Curta de Animação" no Oscar 2014, mas acabou não levando a estatueta, que ficou com a animação francesa "Mr. Hublot". Mas premiado com o Oscar ou não, "Possessions" é um excelente anime, e abre "Short Peace" com chave de ouro.

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COMBUSTIBLE (HI-NO-YOUJIN) - DIREÇÃO DE KATSUHIRO OTOMO

Em 1657, o grande incêndio de Meireki destruiu praticamente 70% da capital japonesa de Edo, atual Tóquio, durou três dias no total e matou quase 100 mil pessoas. "Combustible" retrata este triste incidente, focando na história de Okawa e Matsuyoshi. Okawa era uma garotinha que levava uma vida solitária na infância, e acabou tornando-se muito amiga de Matsuyoshi, garoto que morava na casa vizinha e que sonhava em se tornar bombeiro.

Anos depois, a vida de Okawa não está nada bem, com os pais fazendo os preparativos finais para seu casamento com alguém que ela nem conhece. Sonhando acordada em ser salva por Matsuyoshi, hoje um membro aguerrido do Corpo de Bombeiros, Okawa inicia um incêndio que começa de forma prosaica, quase imperceptível, mas que logo toma proporções épicas.

"Combustible" começa muito bem, com a cidade de Edo representada à distância num pergaminho. À medida em que o pergaminho se movimenta horizontalmente, o desenho vai se aproximando suavemente, até chegar ao jardim da casa de Okawa em sua infância. E se esta parte tem um aspecto quase artesanal, o restante do anime possui um visual arrebatador, que vai desde os detalhes quase paranóicos em um robe usado por Okawa, até a destruição em escala apocalíptica causada pelo incêndio. O desenho de personagens de feições bem nipônicas é maravilhoso, fugindo da caraterística de olhos grandes que geralmente associamos aos animes.

Infelizmente, "Combustible" decepciona bastante no aspecto emocional. É mais ou menos como aqueles filmes que, em cenas de drama, colocam os artistas chorando e gritando a plenos pulmões para demonstrar seu desespero: no fim das contas, esta overdose de sentimentos anestesia o espectador, que não se importa tanto com o que acontece. Aqui ocorre o mesmo: é tanta destruição, gritaria, correria e pânico, que não formamos uma ligação emocional com a história de Matsuyoshi e Okawa. Vale pelo visual incrível e pela fantástica trilha sonora percussiva sempre num "crescendo" mas, em minha opinião, é o curta mais fraco de "Short Peace".

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GAMBO - DIREÇÃO DE HIROAKI ANDO

Um povoado japonês sofre com a presença de um demônio vermelho que arrasa as construções e rapta uma mulher por noite, com o intuito de usá-las para gerar novos demônios. Os homens rezam a Buda em busca de proteção, mas sua fé não tem adiantado. Para salvar a vida da jovem Kao, a última mulher remanescente, os aldeões pedem ajuda a um samurai ferido e que escapou recentemente de um urso branco misterioso presente na região. Mas talvez seja justamente este urso a última esperança para a pobre Kao.

"Gambo" é interessante em termos técnicos, pois apesar de ter um desenho de personagens mais tradicional (mais um fantástico trabalho de Yoshiyuki Sadamoto), possui um estilo de traço cru, com uma textura granulada, como se fosse colorido a lápis. Uma escolha acertada do diretor de arte Yoshiaki Honma, pois esta estranheza do traço cria uma atmosfera de pesadelo, que se torna quase insuportável quando o demônio vermelho aparece em cena.

E que demônio nojento! Com tetas gigantescas, bunda peluda e verrugas por todo o corpo, é uma das criaturas mais repugnantes e ameaçadoras que já vi em um anime. E "Gambo" é pródigo em cenas impressionantes, com sequências violentíssimas em que o sangue jorra por todos os cantos da tela, ou mostrando uma pobre mulher agonizante com o ventre repleto de novas criaturas. Mesmo já tendo visto animes muito violentos, confesso ter ficado bem impressionado com o nível de "gore" presente em "Gambo". Mas levando-se em conta que o responsável pela história foi o "maluco beleza" Katsuhito Ishii (Redline, The Taste of Tea), isto não é nenhuma surpresa: a mente do cara está em outra dimensão. :)

"Gambo" é definitivamente uma obra intensa, prejudicada apenas pelo papo meio bobo e piegas sobre a necessidade de se ter fé para encontrar a salvação, além de acabar muito de supetão.

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A FAREWELL TO WEAPONS (BUKI YO SARABA) - DIREÇÃO DE HAJIME KATOKI

Num futuro pós-apocalíptico, um grupo de soldados coleta armas em depósitos nas cidades destruídas. Quando estão se aproximando de uma determinada cidade, são recebidos de forma nada amistosa por um sentinela-robô muito poderoso.

Visualmente, acredito que este seja o curta com mais cara do Katsuhiro Otomo - por sinal, é baseado em uma história original de sua autoria. Toda a parte de desenho mecânico, construções e desenho de personagens tem aquele nível de detalhe quase doentio que Otomo aplica às suas obras, sem contar a animação insanamente fluida. E isto é extremamente bem-vindo, pois estamos falando de um anime com ação ininterrupta, repleto de tiros e explosões, e com tomadas de câmera dinâmicas e inventivas.

Hajime Katoki, mais conhecido por seu trabalho como desenhista mecânico em vários animes do universo Gundam, assume pela primeira vez a cadeira de diretor, e exerce muito bem a nova função. "A Farewell to Weapons" tem uma narrativa rápida, e mesmo não tendo muito tempo para apresentar os personagens com calma, ficamos com os nervos à flor da pele durante os combates contra o sentinela-robô, torcendo para que todos sobrevivam ao final. E apesar do perigo constante, há muitos diálogos espirituosos para quebrar a tensão, que não passam aquela sensação de piadinhas idiotas tão comum em alguns "blockbusters" americanos.

A motivação dos caras para realizar o serviço é que ficou meio no ar: não deu para saber direito se trabalham para alguém, se pegam as armas por dinheiro ou para uso próprio. E o final, ainda que interessante, parece um pouco besta, com um humor que definitivamente não combina com o que acontecera minutos antes. Mas nada disto estraga a experiência de assistir a este excelente anime de ação, com cenas que não sairão de sua cabeça tão cedo.

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"Possessions" é, disparado, a melhor e mais completa obra em "Short Peace". "Gambo" e "A Farewell to Weapons" são muito bons, e apenas "Combustible" decepciona um pouco. Uma excelente antologia de curtas, que cresce na memória com o passar do tempo.


Marcelo Reis


segunda-feira, outubro 20, 2014

Norageki (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 20/10/2014

Alternativos: Five Numbers!
Ano: 2011
Diretor: Yoshiki Yamakawa
Estúdio: Sunrise
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 25 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério / Sci-Fi


Anime estranho este tal de "Norageki". Apesar de contar com um time de pesos-pesados como o diretor Hiroaki Ando (Princess Arete) e o roteirista Dai Sato (Ergo Proxy, GITS-SAC), além da produção da toda poderosa Sunrise, "Norageki" tem toda a pinta de um anime independente. Seu estilo visual, por exemplo, nos remete imediatamente a "Kakurenbo" e "Freedom", duas obras de Shuhei Morita feitas em animação 3D usando cell-shading. E este tipo de estranheza permeia o anime o tempo todo, como se ele não soubesse que caminho seguir: uma produção intrincada da Sunrise, ou uma obra de um pequeno estúdio tentando tirar leite de pedra?

Uma queda de energia numa prisão isolada de segurança máxima causa a abertura de todas as celas. Apesar do tamanho grandioso das instalações, quatro pessoas e um gato preto aparentam ser seus únicos habitantes. Estes prisioneiros tão diferentes entre si vão se conhecendo aos poucos, enquanto tentam descobrir o que causou o blecaute inesperado e o motivo pelo qual não existem outras pessoas no local. Mas o tempo é curto, e questões ligadas à sobrevivência de cada um deles acabam se tornando mais urgentes.

Os personagens são tão formulaicos que nem nome eles possuem. Temos o jovem caladão e misterioso que parece saber mais do que aparenta; o homem de meia-idade com alguma possível ligação com aquela prisão; a loura gostosona que tenta usar o corpo para se dar bem; e uma nerd de óculos e cabelos azuis que confia mais nos números do que nas pessoas.


Num roteiro bem trabalhado, até personagens tão rasos poderiam dar um caldo, mas o conteúdo de "Norageki" não empolga em momento algum. Abusando pra valer de diálogos expositivos constrangedores e deslocados, além de conceitos filosóficos pueris sobre humanidade, "Norageki" ainda "esconde" um suposto segredo sobre a tal prisão que chega a ser risível de tão óbvio.


"Norageki" não possui nem uma parte técnica deslumbrante para compensar este imenso vazio de substância. As primeiras cenas até passam uma boa impressão, com uma prisão de visual asséptico e impessoal, mas quando os personagens se tornam o centro das atenções, vemos a falta que faz uma pessoa como Shuhei Morita na produção. Se o uso do 3D com cell-shading foi crucial para tornar "Kakurenbo" e "Freedom" tão impressionantes em termos visuais, em "Norageki" a técnica causa um efeito contrário, sugando a energia do que acontece na tela, deixando a obra ainda mais sem vida.

Um detalhe bem interessante neste anime é a música de encerramento, "Volevo Un Gatto Nero" (Eu Quero um Gato Preto), uma cantiga infantil italiana cantada no idioma original e que tem tudo a ver com o que acontece no final do anime. Final que teria tudo para ser marcante, mas que não causa emoção alguma justamente em função da narrativa frouxa.


"Norageki" é um anime curto, apenas 25min, e assisti-lo não causará a sensação de ter jogado seu tempo fora. Mas se quiserem usar este tempo em algo melhor, assistam "Kakurenbo" ou "Pale Cocoon" e me agradeçam depois. ^_~


Marcelo Reis


 

sábado, março 02, 2013

Freedom (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/03/2013

Ano: 2006
Diretor: Shuhei Morita
Estúdio: Sunrise
País: Japão
Episódios: 07
Duração: 6 x 25 min e 1 x 48 min
Gênero: Aventura / Romance / Sci-Fi


Série de OVAs produzida pela Sunrise e contando com a colaboração de Katsuhiro Otomo e Shuhei Morita, "Freedom" é o tipo de obra que, pelo menos no papel, tinha tudo para ser um anime memorável. Afinal, Shuhei Morita foi o responsável por "Kakurenbo", utilizando uma técnica de "cell-shading" que deu uma qualidade técnica notável a uma animação totalmente caseira. Katsuhiro Otomo dispensa comentários: basta assistir a "Akira" para ver do que ele é capaz, especialmente no tocante a projetos mecânicos detalhados e animação impecável. Juntar dois estilos tão distintos e ainda contar com a produção da Sunrise, notória por simplesmente arrebentar em animes baseados em mechas, espaço sideral e afins... realmente difícil segurar o entusiasmo!

Uma base lunar foi construída com o intuito de ser um ponto de partida para a futura colonização de Marte. Mas a queda de uma estação espacial na Terra levou à deterioração irreversível do meio-ambiente, e a guerra por recursos acabou ocasionando o fim da civilização: a Terra virou um planeta morto. A base lunar se transformou em colônia, de modo a garantir a sobrevivência da humanidade, e recebeu o nome de Projeto Éden.

100 anos depois, os humanos vivem dentro de seis imensos domos na Lua, numa utopia altamente controlada, de modo a manter os humanos sempre supervisionados, levando suas vidinhas calmas e estáveis de sempre. As pessoas devem se recolher aos seus dormitórios em horários pré-determinados, todos usam pulseiras eletrônicas que servem ao mesmo tempo como intercomunicadores e rastreadores, e câmeras de vigilância controlam cada cantinho da colônia.

É neste ambiente que vive Takeru, jovem de personalidade forte que, para fugir do tédio reinante em Éden, participa de corridas clandestinas de motos semelhantes a "hovercrafts". Acompanhado pelos amigos Kazuma e Bismarck, responsáveis também por darem os ajustes necessários à sua moto antes das corridas, Takeru usa sempre uma jaqueta branca de astronauta com o emblema do Projeto Apolo, sem imaginar que este projeto havia sido responsável por levar os pioneiros à superfície lunar, praticamente 300 anos antes.

Prestes a tornarem-se cidadãos plenos, os jovens precisam escolher uma carreira para toda a vida. E a cada pequeno delito cometido, como as tais corridas de moto, devem realizar "trabalhos voluntários" pelo bem da colônia, geralmente envolvendo a manutenção externa dos domos. E é numa destas missões externas que Takeru recebe uma mensagem inesperada, gerando milhares de indagações na mente do jovem sobre a verdade por trás das origens de Éden e da destruição da Terra.


"Freedom", como era de se esperar, usa a mesma técnica de "Kakurenbo" mas, desta vez, aliada ao excelente desenho de personagens e projetos mecânicos ultradetalhados de Katsuhiro Otomo. Muita coisa em "Freedom" lembra demais alguns aspectos de "Akira", como as corridas de motos entre gangues rivais, os cenários futuristas das cidades, os ambientes subterrâneos, e até mesmo algumas partes da trilha sonora, com percussões similares à utilizada por Geinoh Yamashirogumi na animação de 1988. Os efeitos sonoros são impressionantes, bem mixados e dão muita força ao que se passa em cena, em especial nas cenas de ação. Mesmo não tendo um orçamento tão alto quanto o de um longa-metragem, "Freedom" faz bonito nos aspectos técnicos.

Infelizmente, "Freedom" nao alcança a mesma excelência em termos de conteúdo. O início é promissor, a amizade entre o rebelde Takeru, o ponderado Kazuma e o medroso mas inteligente Bismarck é sincera e convincente, e dá para compreender perfeitamente a necessidade dos jovens de fugirem do tédio e do marasmo, e correrem atrás de seus sonhos. Mas o que começa com um pé na realidade logo se torna uma história totalmente implausível e manipuladora, com um excesso de altruísmo e melodrama, um roteiro repleto de inconsistências e diálogos expositivos, além de um péssimo equilíbrio entre dramalhão, comédia pastelão e ação exagerada.

Exagero? Bom, o que dizer de um jovem que resolve viajar da Lua para a Terra porque se apaixonou por uma garota que viu em uma foto? Ou de uma sociedade super controladora, capaz de monitorar toda a superfície da Terra a milhares de quilômetros de distância, mas que não sabe da existência de gigantescos foguetes escondidos dentro da "Freedom", uma corporação particular que seria a encarregada da colonização de Marte? Ou dos heróis que caem nas "ciladas" mais toscas da história, incapazes de enganar até mesmo um moleque babão? Ou a possibilidade de um rebelde e ex-detento se tornar, em menos de 3 anos, um membro da mais alta hierarquia e merecedor de confiança irrestrita dentro de uma sociedade dita "científica" e "inteligente"? Ou frases como: "Estamos levando a amizade, o amor e o espírito!" e "Todos que escaparam do tédio, morreram"?

Ainda daria para me alongar bastante nisto, mas prefiro ir logo ao que, disparado, é o fator mais irritante em "Freedom": A GRITARIA!!! Imaginem pessoas que GRITAM E GRITAM E GRITAM SEM PARAR por qualquer coisa! Se estão fugindo, GRITAM PRA FUGIR MAIS RÁPIDO! Se estão animados, GRITAM PARA DEMONSTRAR ANIMAÇÃO! Se estão apaixonados, GRITAM PARA DEMONSTRAR O SEU AMOR! Se estas palavras em maiúsculas te incomodaram, imagine o que é ouvir esta gritaria durante quase 4h de série? Isto, sim, dá vontade de pular pela janela, gritando SOCORRO!!!!!




Não digo que "Freedom" seja uma porcaria como "Sin, the Movie" ou "Nazca", longe disto. A história tem momentos interessantes e até emocionantes que, infelizmente, são estragados pelos defeitos citados acima. Vale a pena assistir a esta série pelo menos pelo visual, que é realmente impressionante, mas tendo em mente que o resultado final em termos mais abrangentes decepciona bastante. Ah, claro: usem protetores de ouvido quando forem assistir, para evitar surdez precoce com toda a gritaria.


Marcelo Reis


 

sexta-feira, março 01, 2013

Outlaw Star (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2005.

Alternativos: Seihou Bukyou Outlaw Star
Ano: 1998
Diretor: Mitsuru Hongo
Estúdio: Sunrise / XEBEC
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 30 min
Gênero: Aventura / Comédia / Drama


Quem acompanha a indústria cinematográfica sabe que existe um problema sério relacionado à mania dos produtores em apostar em fórmulas bem sucedidas, imaginando que apenas a repetição de coisas que já deram certo no passado são garantia de novos sucessos no futuro. Se um filme-catástrofe como "Independence Day" faz sucesso, é hora de criar zilhões de novos filmes com muita destruição; se "Homem Aranha" arrebentou nas bilheterias, por que não criar mais e mais filmes baseados nos universos Marvel e DC? O problema é que para cada "O Dia Depois do Amanhã" ou "Homem Aranha 2" criados, pintam dezenas de "obras-primas" nos moldes de "O Núcleo" ou "Demolidor"... depois reclamam das quedas nas bilheterias.

Outlaw Star é um ótimo exemplo desta tendência em apostar em fórmulas consagradas dentro do universo dos animes. Com o sucesso absoluto de "Cowboy Bebop", nada mais natural do que a Sunrise embarcar novamente em terreno seguro. Outlaw Star suga tanto de Cowboy Bebop que uma acusação de plágio só não procede em função dos criadores de ambas as séries serem os mesmos (Hajime Yatate). Protagonistas sempre em apuros com as finanças caçam malfeitores por todo o espaço em busca de recompensas ou, no caso de Outlaw Star, um grande tesouro. Infelizmente, comparando com os filmes de heróis, Outlaw Star está mais para "Elektra" do que para "Batman Begins".

O anime começa bem demais, com uma animação fantástica embalando a introdução da história. O anime se passa na Idade de Exploração, época em que a criação de uma tecnologia chamada Drive Munchhausen permitiu a exploração do espaço, resultando na disseminação de maus elementos, ladrões e piratas. No planeta Sentinel III, local muito parecido com a Hong Kong dos dias de hoje, vive Gene Starwind, um cara desbocado e taradão com uma tatuagem de estrela no braço e que sonha em ir para o espaço e se tornar um Outlaw. Estes Outlaws são exploradores espaciais livres que não se submetem às leis das Forças Espaciais e vivem do dinheiro obtido com os resultados das explorações e com a captura dos piratas, membros do "Pirate Guild" e maus da cabeça aos pés.

O problema é que Gene passa mal toda vez que vai para o espaço, pois sempre se lembra da morte do próprio pai ocorrida neste ambiente, durante um ataque, e isto se torna um empecilho para que a realização de seu sonho ocorra rapidamente. Ainda assim, Gene trabalha em terra ao lado de seu amigo e sócio Jim Hawking para que, um dia, possam pilotar a sua própria Grappler Ship (nave com braços) e trabalhar como Outlaws no espaço.

Claro que uma trama complexa tem que aparecer para dar uma sacudida nas coisas. Uma mulher chamada Melfina ressuscita totalmente sem memória e passa a ser perseguida por meio universo, pois parece ser de importância fundamental para se descobrir a localização do Galactic Leyline, região onde aparentemente existe um grande tesouro. Claro que Melfina cai do céu nas mãos de Gene e Jim, e a entrada na história do Mega-Império Ctarl-Ctarl, cujos membros parecem uma mistura de tigres e humanos e são mais assustadores que os piratas, só vêm trazer mais problemas aos nossos pobres amigos.


Desde o início é fácil perceber que Outlaw Star não é muito original e sobrevive às custas de milhares de idéias recicladas. O enredo se parece com o de Cowboy Bebop, Gene é uma mistura de Vash com Spike Spiegel, Jim não se diferencia muito de geniozinhos presentes em outras obras, Aisha Clan-Clan e quase uma cópia turbinada da menina-gato Merle (Escaflowne), e por aí vai. Mas, justiça seja feita, uma cópia bem feita não machuca ninguém, e os primeiros episódios de Outlaw Star são extremamente promissores. A mistura de humor, ação e drama é impecável, a animação da Sunrise está melhor do que nunca... tudo funciona tão bem que nem a sensação de clonagem em relação a Cowboy Bebop incomoda muito.

Já assisti a muitos animes em minha vida e posso dizer, tranqüilamente, que não me lembro de outra série com um início tão bom e um desenrolar dos fatos tão decepcionante. As coisas fluem muito bem até a explicação sobre as guerras do passado com os "Grappler Arms" e a entrada na história da nave Gilliam II, do comerciante Fred Luo e da assassina Suzuka. A partir daí, infelizmente, a queda na qualidade é rápida e ininterrupta.

Do lado positivo, além do excelente início, vale a pena destacar a qualidade técnica do anime como um todo, assim como personagens como o comerciante Fred Luo, amigo de Gene que é uma verdadeira raposa em pele de cordeiro, ou a nave Gilliam II, pertencente à classe XGP e construída com a inteligência dos piratas e a tecnologia da Força Espacial. Gilliam II é tão importante no enredo quanto o computador HAL 9000 em "2001 - Uma Odisséia no Espaço", só que com uma personalidade menos ameaçadora e muito engraçada, dono de uma "boca solta" que não hesita em falar sempre a verdade, doa a quem doer. Jim Hawking também é um ótimo personagem, o verdadeiro cérebro por trás de todas as ações de Gene Starwind. Musicalmente a série não tem nada de excepcional, apesar do tema de abertura, "Through the Night", ser muito bom. O universo onde se desenrola o anime é muito louco e original, e é uma pena que a história não faça jus a este rico ambiente.

Gene Starwind começa como um cativante protagonista que, aos poucos, se torna um chato imaturo que foge dos problemas e resolve tudo no grito, no entusiasmo ou na porrada. Nada no enredo explica a razão pela qual Gene é tão fodônico e quase indestrutível. Aisha Clan-Clan é insuportável e ponto final. Melfina é tão apagada e lenta que fica difícil imaginar como algo tão insosso possa ser tão imprescindível à história. Mas a pior coisa é perceber que toda a inteligência usada para criar algo instigante no início da série deu lugar a uma sucessão absurda de obviedades, explicações ridículas e soluções imbecis, com diálogos mais constrangedores do que ficar tonto em uma festa de gala e "tirar a água do joelho" na piscina, na frente de todo mundo.



Por razões inexplicáveis, Outlaw Star se tornou uma febre nos Estados Unidos, com o surgimento de milhares de fansites e ótimos índices de venda dos DVDs da série. Tamanho sucesso motivou até mesmo a criação de um "spin-off" da série chamado Angel Links. E fico a me perguntar: por que criar um "spin-off" para um anime tão comum enquanto milhões de fãs de Berserk ficam chupando dedo, aguardando uma segunda temporada? O mundo às vezes é tão injusto...


Marcelo Reis


 

Witch Hunter Robin (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 10/05/2003.

Ano: 2002
Diretor: Shukou Murase
Estúdio: Sunrise
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 24 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério


Fruto de mais uma associação entre Sunrise e Bandai Visual, Witch Hunter Robin foi uma das séries mais cultuadas em 2002, ano em que foi produzida e exibida na TV japonesa. Além de possuir um estilo visual único, bem mais realista que a maioria das séries de TV, Witch Hunter Robin conta com uma trama muito interessante, no estilo das intrincadas histórias escritas por Tom Clancy, mas com toques mágicos e elementos paranormais.

STN-J é o nome de uma organização encarregada de caçar e capturar os bruxos ("Witches") que vivem misturados aos humanos, dentro do Japão. Crimes inexplicáveis, que desafiam a lógica, são normalmente associados aos Witches. Buscando interromper a ação dos Witches, entram em ação os "Hunters", membros da STN-J com habilidades físicas muito especiais. Para evitar a morte imediata nos confrontos com os Witches, os Hunters utilizam uma droga chamada Orbo, que anula os efeitos dos ataques mágicos e enfraquece os bruxos. Vale lembrar que as atividades da STN-J ocorrem debaixo dos panos, para não despertar o pânico na população.

É neste cenário que surge Sena Robin, uma bela garota de 15 anos que usa um vestidão preto e desusado. Robin também é uma "Hunter", e possui uma característica que a distingue dos demais membros da STN-J: ela é uma "craft-user"... em outras palavras, tem a capacidade de utilizar técnicas antigas de combate e magia. Isto faz com ela sofra uma certa discriminação por parte dos colegas de trabalho, que não entendem como pode existir uma "Hunter" com habilidades tão semelhantes às dos "Witches".

A STN-J é subordinada a um Quartel-General (Solomon HQ), e existe uma certa dissonância na linha de pensamento de ambas. Enquanto a STN-J procura capturar os Witches e mantê-los vivos, o HQ preconiza a sua execução sumária. A razão por trás destas diferenças vai sendo revelada aos poucos, assim como as respostas para várias perguntas: o que é o Orbo, afinal? O que é a Factory, local mencionado com um certo medo pelos "Hunters"? Seriam os "Witches" realmente maus? E quem é, afinal, Sena Robin? Apenas um ser humano com poderes especiais, ou uma bruxa fugindo de sua verdadeira condição?


A primeira coisa que chama a atenção em Witch Hunter Robin é o incrível visual criado pelos artistas da Sunrise. Ambientes sombrios, excelente uso de luz e sombras, computação gráfica usada com inteligência, animação fluida e um desenho de personagens fantástico... tudo contribui para tornar Witch Hunter Robin uma série extremamente agradável aos olhos. Nem mesmo os pequenos escorregões em alguns episódios, nos quais a qualidade da animação despenca, prejudica a impressão positiva causada por Witch Hunter Robin.

Na parte sonora, Witch Hunter Robin também faz bonito. As músicas de abertura e encerramento (Shell e Half Pain) são excelentes, com letras que expressam muito bem o que ocorre ao longo dos episódios. Os temas instrumentais utilizados como música de fundo, repletos de efeitos eletrônicos, são muito bons, e se adaptam com perfeição ao clima de pesadelo e estranheza da série.

Os personagens são interessantes e passam longe das representações caricatas, tão comuns na maioria dos animes. Seus dramas são convincentes, e a maneira como se comportam e reagem frente aos desafios são bem realistas. Sena Robin é uma protagonista cativante e de personalidade forte, assim como os demais membros da STN-J. Merecem destaque Amon, o mais forte dos Hunters e que não sorri de jeito nenhum, e Michael, "hacker" capaz de burlar qualquer sistema eletrônico de segurança.

É na história e no ritmo que Witch Hunter Robin perde um pouco do encanto. A trama é muito boa, mas custa a engrenar. Grande parte da série é extremamente episódica, com os Hunters pesquisando crimes e caçando bruxos, e segue a velha e batida fórmula do "monstro do dia". Mas, justiça seja feita, quando a história engrena de vez, não dá para desgrudar da tela! ^_^ O episódio 15, em especial, é um divisor de águas... a partir daí, o bicho pega para valer. As cenas de combate entre os Hunters e os Witches são de cair o queixo!



Mesmo com alguns problemas comuns a tantos animes (soluções simplistas, conclusões óbvias, final meia-boca), Witch Hunter Robin é uma série muito acima da média, recomendada para quem gosta de uma boa história recheada de ação e magia.


Marcelo Reis