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quarta-feira, janeiro 11, 2017

Hal (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/01/2017

Ano: 2013
Diretor: Ryoutarou Makihara
Estúdio: Wit Studio / Production I.G.
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 60 min
Gênero: Drama / Romance



Após perder o namorado Hal tragicamente em um acidente de avião, Kurumi entra num estado de depressão profunda: não come, não sai de casa, não consegue mais nem ao menos chorar a morte do seu amado. O robô humanóide Q-01 é requisitado para tentar salvar a garota deste bloqueio emocional. Assumindo a forma externa de Hal, Q-01 viaja ao encontro de Kurumi, e enquanto faz de tudo para devolver à garota a alegria de viver, vai conhecendo um pouco mais sobre o relacionamento de Hal e Kurumi, além de entender um pouco mais o que é ser humano, o que significa sentir, sofrer, amar.

Q-01, ou o novo Hal, tem sempre à mão um cubo mágico 5x5 desmontado que era do Hal de carne e osso, com várias mensagens escritas à mão pelo rapaz. À medida em que o robô monta uma das faces do cubo, descobre o significado de uma nova mensagem, mostrando coisas que Kurumi gostaria de fazer com Hal. Q-01 procura realizar cada um destes desejos de Kurumi, tentando fazer com que a garota saia de seu casulo emocional e volte a ser a garota energética e feliz de outrora.

Fiquei sabendo da existência deste anime muito por acaso, enquanto pesquisava informações para uma outra resenha, e foram tantos elogios à qualidade da obra, às emoções fortes que ele despertava, que foi difícil resistir à curiosidade. Infelizmente, talvez pela expectativa elevada, "Hal" foi uma grande decepção.

Para começar, "Hal" é uma obra bem curta, com apenas 60 minutos de duração. Desde o início, fica a impressão de que tentaram colocar coisas demais em um espaço de tempo insuficiente. Com isto, a narrativa fica acelerada, prejudicando o desenvolvimento dos eventos que ocorrem em cena. Isto também resulta na criação de personagens pouco convincentes e nem um pouco cativantes, cujas motivações e modificações no comportamento parecem ocorrer apenas porque o roteirista queria que fosse assim.


A transformação de Q-01 em Hal é um exemplo de proposta que não funciona na prática. Se pegarmos uma obra como "Ghost in the Shell", por mais humana que a protagonista pareça, sempre é possível perceber que há uma máquina por baixo daquela aparência. Em "Hal" isto não acontece: desde a transformação inicial, o personagem parece apenas um adolescente meio lerdo, sem traquejo social e um pouco servil demais, sem nenhuma característica que dê a mínima impressão de que ele é, na verdade, um robô.

A mudança de Kurumi ao longo de "Hal" também não convence. Se no início ela parece reticente e, por que não, um pouco curiosa quanto ao sucesso da empreitada de Q-01/Hal, rapidamente seu coração começa a se abrir simplesmente porque aquele robô tão servil tenta realizar os desejos que ela escreveu no cubo mágico.

Com o passar do tempo, "Hal" vai se tornando uma obra cada vez mais previsível, bobinha e pueril, apelando para a pieguice e o dramalhão. Ocorre uma certa reviravolta em determinado momento do anime que, sinceramente, me pareceu apenas uma tentativa forçada de dar uma dimensão ao anime que, no fundo, ele realmente não possui.

Tecnicamente, "Hal" não decepciona, mas também não chega a brilhar. Os cenários são lindos e bem detalhados, e a animação é relativamente simples se comparada a de outros longas-metragens, especialmente se pensarmos que é uma obra da normalmente brilhante Production IG. O desenho de personagens é agradável e expressivo, ainda que o traço do personagem Hal seja meio genérico.



Se "Hal" tivesse uma narrativa mais equilibrada, apelando menos para os clichês e emoções forçadas, o impacto da obra provavelmente seria bem diferente - talvez até mesmo a tal reviravolta funcionasse melhor. No papel, as idéias até pareciam promissoras mas, na prática, o resultado final decepcionou bastante. Uma pena, realmente.


Marcelo Reis


sexta-feira, março 01, 2013

Patlabor Movie 1

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 22/01/2006.

Alternativos: Kidou Keisatsu Patlabor Gekijouban
Ano: 1989
Diretor: Mamoru Oshii
Estúdio: Production I.G. / Studio DEEN
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 99 min
Gênero: Drama / Mecha / Mistério


AVISO: Apesar deste texto não conter nenhum "spoiler" importante, recomendo que leia primeiro a resenha referente aos OVAs de Patlabor, pois isto permitirá um melhor aproveitamento das informações aqui descritas.

A história deste primeiro longa-metragem do universo Patlabor se passa imediatamente após os fatos da primeira série de OVAs. Devido à necessidade urgente de novas terras para os japoneses, o "Babylon Project" continua a todo o vapor, com mais de 3000 Labors trabalhando incessantemente, de modo a acelerar cada vez mais o ritmo das obras. Sem os Labors, pode-se afirmar que o projeto seria absolutamente inviável.

Com mais Labors no mercado, aumentam os riscos de novos e mais violentos "Labor Crimes", e as coisas se tornam mais perigosas com o surgimento do Type-0, um novo modelo criado pelas indústrias Shinohara. O Type-0 possui um visual meio assustador e utiliza um novo sistema operacional que aumenta o desempenho dos Labors em 30%, ainda que a habilidade dos pilotos continue a fazer uma diferença e tanto na hora de entrar em ação.

Nossos velhos conhecidos Noa Izumi e Asuma Shinohara chegam à ARK, local de manutenção do Labors, para investigar se existe algo de errado por trás do projeto do Type-0. Isto porque um protótipo da empresa Shinohara chamado "Heavy Labor" escapou da base por alguma razão obscura e, após ser destruído por um pelotão de Labors, foi verificado que não possuía nenhum piloto em seu interior... e seu sistema operacional era o mesmo dos Type-0.

Labors enlouquecidos e sem pilotos causando destruição e pânico não é exatamente um cenário agradável de se imaginar, daí a razão para se investigar os Type-0 com máxima urgência, especialmente pelo risco nada desprezível deste problema afetar também os Patrol Labors. Mas com tanto dinheiro e interesses envolvidos, será que toda esta investigação chegará a algum lugar? Os interesses empresariais estariam acima de tudo, até mesmo da própria lei? E, em todo este processo, as vidas dos humanos seriam apenas "meros detalhes"?


Apesar de ainda manter o humor presente na série de OVAs, com direito aos ataques possessões de Isao Ohta e à fantástica presença de espírito do Capitão Gotoh, o tom geral deste longa-metragem é bem mais sério e viajante. A equipe por trás da produção é praticamente a mesma, e parece que, desta vez, mais à vontade com o material que tinha em mãos, Mamoru Oshii resolveu dar vazão às suas costumeiras divagações visuais, conseguindo dirigir esta obra de forma mais consistente e homogênea.

Os personagens continuam com o mesmo carisma, mas é meio triste perceber que a ótima dupla Isao Ohta e Miyakasu Shinshi fica meio esquecida na história, a qual é bem mais focada em Noa e Asuma. O relacionamento ambígüo entre Gotoh e a Capitão Nagumo ganha destaque, mostrando um misto de rivalidade e admiração entre dois profissionais tão eficientes e carismáticos. Até mesmo o mecânico Shige ganha um papel de destaque na história... Ohta e Shinshi mereciam melhor sorte, sem sombra de dúvidas.

Não dá para descrever o quanto este longa-metragem é superior tecnicamente quando comparado ao já excepcional trabalho realizado nos OVAs. Inacreditável é pouco para classificar a qualidade da animação e a perfeição dos desenhos mecânicos, especialmente por se tratar de um anime produzido em 1989, quase inteiramente à mão. É preciso tirar o chapéu para o Studio Deen, pois o trabalho de seus profissionais de animação ficou em pé de igualdade com muita coisa boa feita pelo estúdios Ghibli e Madhouse.

Mas de que adiantaria tamanho apuro técnico sem um conteúdo que valesse a pena? O enredo deste longa-metragem expande as interessantes idéias presentes nos OVAs e, por usar o humor de forma mais comedida, consegue passar o recado para o espectador de forma mais efetiva. A história por trás das Indústrias Shinohara reflete bem a situação atual do Japão, com mega-empresas que atuam em praticamente todos os campos da economia, e com uma grande preocupação em aumentar cada vez mais as exportações de todas as formas. E, mesmo sendo um anime da era "pré-internet", Patlabor Movie já antecipava os riscos do terrorismo cibernético, criticando a tendência cada vez mais difundida nos dias atuais de que "o passado não presta, o que interessa é o futuro". A experiência de vida dos idosos é considerada obsoleta quando comparada à energia e ao vigor dos jovens, e quanto mais tecnologia estiver à disposição, melhor. Mas toda esta evolução tecnológica é realmente necessária para a evolução da humanidade como um todo? Até que ponto a ânsia de ultrapassar limites tecnológicos não pode, ela mesma, estar passando dos limites?



Com um excelente final, tenso e sem rodeios, Patlabor Movie não comete os poucos erros presentes na primeira série de OVAs e, por isto, se torna uma obra mais completa como um todo. Mais um excelente anime desta franquia que, comendo pelas beiradas, tem grandes chances de se consolidar de vez como um clássico absoluto nos anos que virão.


Marcelo Reis


 

Shinesman (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 22/01/2006.

Alternativos: The Special Duty Combat Unit Shinesman, Tokumu Sentai Shinesman
Ano: 1996
Diretor: Shinya Sadamitsu
Estúdio: ANIMATE / Production I.G.
País: Japão
Episódios: 2
Duração: 25 min
Gênero: Comédia / Sci-Fi


Apesar de ser um fã de "tokusatsus" e "sentais", especialmente de séries clássicas como Spectreman e Ultra Seven, não dá para negar que obras destes gêneros são um prato cheio para os satíricos de plantão. Atores canastrões, roupas desusadas, lutas ridículas, coreografias e diálogos ensaiadinhos antes de algum ataque fulminante, maquetes toscas e fantasias de borracha... tudo é muito divertido, mas como resistir à tentação de dar aquela escrachada em um gênero tão "kitsch"? Séries de "sentais" e "tokusatsus" parecem clamar aos céus para serem detonadas sem dó nem piedade.

Baseada no mangá de Kaimu Tachibana, Shinesman é uma série curtinha (apenas 2 OVAs de 25 minutos) que realiza muito bem esta função detonante e ainda aproveita para dar uma bela cutucada em outra característica bem típica do "Japanese Way of Life", que é a devoção quase espiritual dos funcionários às empresas onde trabalham.

Em uma grande cidade japonesa, um monstro gigantesco começa a roubar prédios (!!). Tudo isto é obra de alienígenas vindos do Planeta Voice, ansiosos para roubarem os recursos naturais da Terra. Para atingir este intento, os invasores não apenas criaram monstros destruidores de empresas da Terra (!!!) mas, ainda, se disfarçaram de trabalhadores terráqueos com a intenção de obter o controle da exploração destes recursos naturais.

Para proteger a Terra da ação destes assustadores meliantes, entra em ação o Esquadrão Shinesman! Também conhecido como "Special Duty Combat Unit", o Esquadrão Shinesman é formado por funcionários de carreira de uma determinada empresa, os quais se tornaram membros do grupo para tirarem uma graninha extra no final do mês. Os 5 membros do Shinesman são controlados por Kyoko Sakakibara, chefe de Recursos Humanos e que parece ter alguns parafusos a menos na cabeça. Resta saber como todo este confronto acontecerá ao longo do tempo, já que, em termos de parafusos a menos, os alienígenas também estão muito bem servidos, a começar pela realeza do Planeta Voice e o monstrão Karamool. Terráqueos, podem começar a rezar, pois o futuro não parece nada promissor!


Como todo bom "sentai", Shinesman possui todas aquelas características desusadas e, por isto mesmo, adoradas deste gênero tão cultuado, a começar pelo tema de abertura "Shine / Shinesman", cantado pelo rei dos "tokusatsus" e "sentais", Hironobu Kageyama. Uniformes com cores tão "inspiradoras" quanto cinza e rosa-salmão, uma super-transformação de cair o queixo e, para completar, imagens paradas de apresentação de cada membro do grupo, com direito a poses ridículas e buquês de rosas ao fundo! Sentai-maníacos, regozijai-vos!!

Os perfis dos membros do grupo seguem fórmulas batidas, desde o chefe de família e bom marido (Shotaro Ono) até o bonitão carismático e gostosão (Ryoichi Hayami), passando pelo tradicional "possessão desesperado" (Shogo Yamadera), o "Sr. Normal" que caiu de gaiato no meio do esquadrão (Hiroya Matsumoto) e chegando à única mulher do grupo (Riko Hidaka), super energética e que odeia ser tratada como um bibelô. Mas, afinal, quem disse que "sentais" são amados em função de personagens originais ou histórias incríveis? O que interessa mesmo é ver os heróis descendo a lenha nos invasores, e pancadaria-pastelão é o que não falta em Shinesman, com direito a armas incrivelmente inúteis como os cartões de crédito cortantes e os clipes-bomba. Sentai-maníacos, regozijai-vos "again"!!

O lado dos invasores não é muito melhor, ou alguém acredita que um monstro acéfalo chamado Karamool possa realmente causar algum perigo? E se o Príncipe Sakaki, líder do Planeta Voice na Terra, e seu ajudante Sekito ainda transmitem uma certa sensação de segurança, tudo vai por água abaixo com a chegada da Princesa Shina, prima de Sakaki. Ansiosa para destruir os Shinesman de todas as formas, Shina consegue, com seu QI de vácuo, ser ainda mais inepta que Karamool... uma proeza e tanto.

Tecnicamente, não há do que reclamar. Shinesman possui uma animação tradicional de boa qualidade, que dá conta do recado com folga, especialmente se levarmos em conta que o anime foi produzido em 1996. O desenho de personagens de Akiharu Ishii (Prince of Tennis) é muito agradável, assim como o trabalho de arte de Hiroshi Kato (Neon Genesis Evangelion, Pet Shop of Horrors). Na parte narrativa, o roteiro de Hideki Sonoda dá uma boa fluidez à história, com algumas seqüências realmente hilariantes. Além disto, Sonoda ainda adicionou alguns toques interessantes na disputa entre os alienígenas e os terráqueos, os quais lutam entre si não apenas em combates mas, também, em disputas empresariais envolvendo ações, dinheiro, etc.


Shinesman é um anime simples, capaz de agradar a praticamente qualquer pessoa, mas que será melhor apreciado por aqueles familiarizados com o universo dos "sentais" e "tokusatsus". Uma pena que, assim como aconteceu com Dragon Half, Shinesman acaba totalmente no ar, dando a nítida impressão de que episódios adicionais deveriam ter sido produzidos mas que, talvez por falta de verbas, ficaram apenas no planejamento. Uma pena.


Marcelo Reis


 

Video Girl Ai (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/03/2004.

Alternativos: Den'ei Shoujo
Ano: 1992
Diretor: Hiroshi Watanabe / Mizuho Nishikubo
Estúdio: Production I.G.
País: Japão
Episódios: 6
Duração: 29 min
Gênero: Comédia / Drama / Romance


Com freqüência somos apresentados a animes nos quais um garoto não consegue se relacionar com as mulheres, mas acaba recebendo aquela ajuda do destino para mudar a situação: deusas podem aparecer em sua vida (Ah! My Goddess), drogas podem transformá-lo em um irresístível "Mega-Playboy" (DNA2), ou este pobre coitado pode, simplesmente, se tornar responsável por uma pensão repleta de mulheres (Love Hina). Como a Providência é bondosa no mundo dos animes! ^_^

As coisas não são muito diferentes em Video Girl Ai. Yota Moteuchi é o personagem principal, famoso entre os amigos pela assombrosa inabilidade em lidar com as mulheres! Ele é apaixonado pela colega Moemi Hayakawa, a qual, infelizmente, enxerga Yota apenas como um grande amigo. Por não perceber os reais sentimentos de Yota, Moemi acaba partindo o coração do pobre rapaz, ao confessar a ele que está apaixonada por Takashi Niimai, melhor amigo de Yota.

Arrasado, Yota vai curtindo uma tremenda fossa, quando enxerga uma locadora muito estranha chamada Gokuraku, a qual não existia anteriormente naquele lugar. De acordo com o proprietário da mesma, a Gokuraku era uma loja especial, que aparecia apenas para as pessoas com o coração partido. Ele entrega uma fita especial a um espantado Yota, que corre para casa, curioso para saber o que havia naquele vídeo.

E que surpresa o aguardava! A fita especial mostrava uma garota chamada Ai Amano, de 16 anos, dizendo que estava ali "apenas por causa dele". Yota quase tem um ataque cardíaco quando a belíssima e taradona Ai sai do aparelho de TV e se materializa em seu quarto! Ai explica a Yota, entre abraços e carícias (hmmmm...), que tem a missão de transformá-lo em um garanhão, no prazo de um mês, exatamente o tempo de duração da fita. Se o vídeo for desligado antes deste prazo, ela desaparecerá, e o mesmo ocorrerá, logicamente, quando a fita chegar ao final.


Baseado no mangá de Masakazu Katsura, autor de DNA2 e I´s, Video Girl Ai é uma produção da IG Tatsunoko e Shueisha realizada em 1992, e possui um total de 6 OVA´s. Chama a atenção, logo de cara, a qualidade impecável da animação, assim como o belíssimo desenho de personagens criado por Takayuki Goto, que reproduz bem o maravilhoso traço original do mangá de Katsura. Claro que, em se tratando de Masakazu Katsura, não poderiam faltar os abundantes "fan-services", com uma fartura de seios, calcinhas e belíssimos corpos, sem, contudo, apelar para a baixaria. Bom gosto, aliás, é algo que permeia toda a série, desde os cenários até as roupas, passando pelos próprios personagens.

Video Girl Ai merece ser analisado por dois aspectos distintos. O lado cômico deste anime é excepcional, com seqüências de matar de rir, especialmente quando o VCR estragado de Yota cisma em dar problemas, alterando completamente o físico e o humor de Ai! Os conflitos entre a personalidade meio lerda de Yota com a piradíssima mente de Ai oferecem momentos memoráveis para o espectador. A interação entre ambos, por sinal, é o ponto alto da série. E os "omakes", que aparecem ao final de cada OVA, também merecem destaque especial. Engraçadíssimos, tem como único defeito a curta duração: fica sempre aquele gostinho de "quero mais".

O lado romântico da série, infelizmente, não se compara ao lado cômico. Algumas partes mais emotivas são sensacionais e dão aquele nó na garganta, especialmente quando Yota sofre com a dor da rejeição. O grande problema é que, na maior parte do tempo, principalmente na segunda metade da série, Video Girl Ai retrata o amor e o romance de forma extremamente estereotipada: a mulher gentil que fica na cozinha o tempo todo, apenas para agradar ao homem; os encontros forçados e as coincidências, bem no estilão "novela das oito"; as reações exageradas dos personagens, as quais não condizem de forma alguma com os fatos que se desenvolvem na tela. Além disto, a série se concentra na luta de Yota para conquistar o coração de Moemi, e é difícil se empolgar com tudo isto, já que ambos definitivamente não combinam como casal romântico.

Mas estes problemas são pequenos, minúsculos até, se comparados ao principal ponto negativo da série: o seu horrível final! Assim como aconteceu na versão animada de DNA2, o final de Video Girl Ai é uma das coisas mais constrangedoras já criadas, um exagerado show de pieguice que estraga tudo o que aconteceu de positivo nos outros OVA´s.



Dizer que Video Girl Ai é ruim apenas em função de seu péssimo final seria uma tremenda injustiça. Apesar de não ser tão bom como Ah! My Goddess, Video Girl Ai possui muitas qualidades e merece ser conferido. Mas não espere nenhuma obra-prima. É super-romântico, muito engraçado, mas pára por aí.


Marcelo Reis


 

Ninja Ressurection (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 05/07/2004.

Alternativos: Makai Tenshou
Ano: 1998
Diretor: Yasunori Urata
Estúdio: Phoenix Entertainment / Production I.G. / Studio DEEN
País: Japão
Episódios: 2
Duração: 30 min
Gênero: Violência / Adulto / Histórico


Que tal começarmos o texto com uma pequena historinha? Pois bem, vamos exercitar a mente e colocar a imaginação para funcionar. Pensem em uma criança insuportavelmente chata, o protótipo do diabinho infantil, um pedacinho de gente que não respeita ninguém, não pára de gritar, briga com todo mundo e não tem a mínima noção de educação. Imaginem, agora, em meio a uma movimentada festa infantil, um momento sublime no qual você tenha a chance de passar apenas alguns segundinhos a sós com este pestinha, longe da vista das outras pessoas. Nesta hora, algum "espírito ninja zombeteiro" subitamente se apossa de seu corpo e, "sem perceber" (ironia, ironia...), você consegue derrubar o copo de refrigerante do "anjinho", dar-lhe aquele sutil puxão de cabelo, uma leve "dedada" no olho e, para completar, uma bela e cinematográfica rasteira. Claro que, após a evasão do "espírito ninja zombeteiro" de seu corpo, você vira cinicamente para a gentil criancinha (agora em prantos) e, com uma expressão de assombro, diz, com naturalidade: "Querido, me desculpe! Foi sem querer! Você se machucou?". Sua alma certamente se encontra num estado de êxtase indescritível... que beleza!

Já sei, já sei: "Mas que diabos esta história ridícula tem a ver com Ninja Resurrection??". Muito simples: assim como o "detonador de pestinhas" da historinha acima, não vou negar que estou sentindo um prazer quase orgásmico antes de escrever este texto, ante a possibilidade de destruir sem dó nem piedade este anime horroroso, uma das maiores abominações já criadas no mundo da animação. De vez em quando, é bom exercitar o lado mais obscuro e sacana de nossas almas, e este texto é a oportunidade perfeita!

Antes de continuar, um aviso para os mais incautos: ao contrário do que é constantemente alardeado por aí, Ninja Resurrection (Makai Tenshou) não é a continuação do ótimo longa-metragem "Ninja Scroll". Na verdade, Makai Tenshou não tem nada, mas absolutamente NADA a ver com "Ninja Scroll", exceto o nome semelhante de seus protagonistas (Jubei Kibagami, em Ninja Scroll, e o lendário samurai Jubei Yagyu, em Ninja Resurrection).

O lado mais triste em relação a Ninja Resurrection é que ele tinha tudo para ser um anime muito interessante, pois trata de um aspecto da história japonesa pouco conhecido entre a maioria das pessoas: a presença do Cristianismo no Japão. O enredo é inicialmente apresentado de forma muito realista, explicando as mudanças drásticas ocorridas no Japão após a batalha de Sekigahara, vencida por Tokugawa Ieyasu, e que resultou na unificação do país, consolidando o sistema do Xogunato. Com poder irrestrito e absoluto, Tokugawa sancionou leis que, entre outras coisas, proibiam a prática do Cristianismo no país. Os praticantes passaram a ser perseguidos, exilados e, muitas vezes, impiedosamente massacrados. O início de Ninja Resurrection mostra como as Cruzadas e as Guerras Santas sempre foram realizadas pelos motivos errados, deixando, em nome da religião, um rastro assustador de mortes e destruição.


Impressionante como um assunto tão rico e interessante se tranformou neste lixo em forma de anime, uma verdadeira "obra-prima" em termos de apelação e mau gosto. Não reclamo da decisão dos responsáveis por Makai Tenshou em apresentar o anime em uma atmosfera fantástica, repleta de lutas exageradíssimas e dispositivos ultra-modernos em uma época pré-Revolução Industrial. Isto atrapalha a força da história, sem dúvida, mas não incomoda a ponto de querermos parar de assistir à série imediatamente. Pena que o mesmo não possa ser dito do restante do anime.

Apesar de inicialmente falar sobre o Cristianismo no Japão, a história muda completamente de rumo, fazendo com que, de uma hora para outra, todas as pessoas em cena pareçam um bando de loucos interessados apenas em sangue e morte. Qualquer assunto ou conversa é razão para mais e mais seqüências de violência gratuita, impressionantes a ponto de transformar um anime como Berserk em um "conto da carochinha". Crianças são decapitadas, vísceras voam por todos os lados, e a história central torna-se apenas um mero detalhe.

A apelação desenfreada e o mau gosto completo, contudo, ainda não atingiram o ápice. É difícil imaginar como os familiares de famosos espadachins como Miyamoto Musashi, Mataemon Araki, Inshun Houzoin e Botaro Tamiya devem ter se sentido ao ver seus parentes famosos e, por tabela, o nome de suas famílias, intimamente ligados a uma obra que apela para cenas de necrofilia, estupros violentíssimos e, pasmem, até mesmo uma luta onde um dos combatentes ataca o oponente com o próprio intestino!!

A reação da opinião pública japonesa em relação a este anime deve ter sido violenta, pois Ninja Resurrection não chegou a ser finalizado. Apenas 2 dos 3 OVAs originalmente planejados foram lançados, e a história fica completamente no ar, ao final do segundo OVA. Não que isto faça realmente muita diferença, no final das contas.

Ninja Resurrection só não leva um belo e rotundo ZERO porque, justiça seja feita, possui (poucas) qualidades. Além da interessante premissa inicial, Ninja Resurrection possui uma animação excelente (Studio Deen e Production IG), algumas cenas de luta muito boas e uma trilha sonora excepcional, composta por Masamichi Amano. Neste aspecto em especial, é realmente muito triste ver uma trilha tão bela e grandiosa desperdiçada em um anime tão abominável.




Minha boa ação perante os fãs de animes está feita. Se quiserem assistir a este espetáculo megalomaníaco de profundo mau gosto, fiquem à vontade, mas não digam que não foram avisados.


Marcelo Reis


 

Neon Genesis Evangelion (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 27/10/2002.

Alternativos: Shin Seiki Evangelion
Ano: 1995
Diretor: Hideaki Anno
Estúdio: Gainax / Production I.G
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 25 min
Gênero: Drama / Mecha / Sci-Fi


Evangelions, ou simplesmente EVA´s, são enormes mechas utilizados para proteger a Terra da invasão dos Anjos, gigantescos seres mecânicos com características orgânicas, capazes de evoluir e se regenerar. 15 anos antes, um Anjo foi o responsável pela ocorrência do Segundo Impacto, um evento catastrófico que transformou a Antártida num inferno e causou um número incalculável de mortes ao redor do planeta. Os EVA´s foram criados pela organização NERV com o intuito de evitar uma nova invasão dos Anjos e a conseqüente ocorrência de um apocalíptico Terceiro Impacto, que acabaria com toda e qualquer forma de vida na Terra.

Os EVA´s podem ser pilotados apenas por jovens de 14 anos, nascidos imediatamente após o Segundo Impacto e com algumas características especiais. Estes jovens, que possuem uma sincronia ímpar com os EVA´s, são:

- Rei Ayanami, uma garota sem passado, fria e sem emoções, que cumpre todas as ordens que recebe sem pestanejar.
- Asuka Langley Soryuu, garota alemã com excelente habilidades de luta mas extremamente convencida de sua força.
- Shinji Ikari, um garoto fechado e sem amigos, filho do líder da NERV, Gendo Ikari, com quem tem um relacionamento distante e impessoal.

À medida em que os confrontos entre EVA´s e Anjos ficam mais acirrados, torna-se mais claro que não é apenas o futuro da Terra que está em jogo mas, também, a existência da humanidade na forma em que conhecemos, não importando o lado vencedor. E diversas questões começam a aparecer: o que são, na verdade, os EVA´s? Qual a relação entre os EVA´s e os Anjos? O que foi o Segundo Impacto? O que é o Projeto paralelo coordenado por Gendo Ikari, a verdadeira razão por trás da existência da NERV? Seriam os Anjos e humanos realmente diferentes?

Já deu para perceber que complexidade é o que não falta a esta famosa série. Para quem viveu em Plutão nos últimos anos e está por fora das notícias, Neon Genesis Evangelion é, talvez, o anime mais famoso e cultuado de todos os tempos, com uma enorme legião de fãs espalhados por todo o mundo. Evangelion é uma obra do estúdio Gainax, conduzida com mão-de-ferro por Hideaki Anno, responsável pela direção e desenho dos mechas, e mistura cenas de ação incríveis com situações dramáticas e muitos questionamentos filosóficos.


Evangelion é uma das séries de TV mais impressionantes nos aspectos técnicos. Além da trilha sonora arrepiante, Evangelion possui uma qualidade de animação poucas vezes vista em séries de TV produzidas na época pré-CGI. Levando-se em conta que Evangelion é uma série mais longa, de 26 episódios, é de se admirar a capacidade de superação da Gainax, já que, aparentemente, o orçamento destinado à produção da série não foi dos mais expressivos. Ainda assim, apesar da reutilização de seqüências animadas aqui e ali e da queda brusca na qualidade da animação a partir do episódio 18, quando houve um corte de verbas por parte da SEGA, é impressionante o nível de excelência na animação na maior parte dos episódios. As cenas em que os EVA´s entram em ação, por si só, já valeriam a série.

Evangelion torna-se cada vez melhor à medida em que a história se desenvolve. Perguntas vão sendo deixadas em aberto, aumentando a curiosidade e a expectativa para o que vem em seguida, e os efeitos são marcantes, à medida em que a verdade vai aparecendo. Cheio de referências religiosas, Evangelion levanta questionamentos sobre a existência e a vontade do ser humano em se equiparar a Deus a todo custo, trazendo o conceito de animes com temas sérios para um patamar nunca antes imaginado.

Mas isto não quer dizer, nem de longe, que Evangelion seja um anime perfeito. Apesar de toda a complexidade do tema central, a primeira metade da série é extremamente simplista e irritante em algumas partes, com algumas situações forçadas ou cenas de combate tão exageradas que chegam a ser cômicas. Basta lembrar dos combates nos porta-aviões ou do ataque sincronizado feito por Asuka e Shinji... não dá para engolir. Em relação aos personagens, o caso é um pouco mais sério. Se existem personagens adoráveis e realistas como Misato Katsuragi, comandante super bem humorada e chegada numa cerveja, ou Ritsuko Akagi, cientista devotada ao trabalho mas bastante emotiva, o mesmo não pode ser dito dos pilotos dos EVA´s. Não digo muito de Rei Ayanami, já que existem razões para o seu comportamento distante, mas Shinji e Asuka são puro clichê. Shinji não sabe fazer outra coisa a não ser reclamar da vida, se fazer de vítima e fugir dos problemas, enquanto Asuka tem lugar cativo entre os maiores "malas-sem-alça" do mundo dos animes, sempre se achando a melhor, a superior, a mais gostosa.

Mas o grande problema de Evangelion é, disparado, o seu final. A série tem um ritmo excepcional até o episódio 24, mas os dois últimos são um caso sério, com um andamento arrastado e confuso e que tem a intenção um tanto pretensiosa de explicar o porquê do vazio existente na alma dos seres humanos. Prefiro não dar detalhes sobre o que acontece nestes episódios, mas basta dizer que a reação do público foi tão negativa que a Gainax acabou realizando o longa-metragem End of Evangelion, que apresenta um final alternativo e mais aceitável.



Neon Genesis Evangelion é uma série realmente muito boa, mas que acaba sendo prejudicada pela pretensão da Gainax em criar uma obra audiovisual complexa o suficiente para mudar o mundo, tão complexa que, ao invés de trazer respostas, deixa o espectador com mais dúvidas na cabeça.


Marcelo Reis