Mostrando postagens com marcador Te Wei. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Te Wei. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, março 01, 2013

A Longa História dos Filmes de Animação da China

OBS: Texto publicado originalmente no Animehaus em 30/10/2009


Este artigo é uma tradução de parte da matéria "Creating an Animation ”Dream“ Factory", escrita por Zhang Xueying para o site "China Today". A equipe do "China Today" gentilmente cedeu os direitos do artigo, permitindo que o ANIMEHAUS fizesse uma tradução do texto, desde que fossem citados o nome do autor e do site, além de um link direto para a matéria do "China Today".

==============================


Criando uma Fábrica de Animação "dos Sonhos"
Por ZHANG XUEYING (CHINA TODAY)


A Longa História dos Filmes de Animação da China.

Princess Iron-Fan
A indústria de animação chinesa começou nos anos 20. Em 1940, Wan Laiming criou o primeiro longa-metragem de animação da China, e o segundo criado em todo o mundo: "Princess Iron-Fan" (Tie Shan Gong Zhu). Antes disto, Walt Disney havia criado o primeiro longa-metragem de animação, "Branca de Neve e os Sete Anões" (Snow White and the Seven Dwarfs). "Princess Iron-Fan" influenciou um artista japonês, Osamu Tezuka, pioneiro da animação no Japão e criador do longa-metragem de animação "Astro Boy" (Tetsuwan Atom).

The Conceited General
Quando Osamu Tezuka visitou o Shanghai Animated Film Studio em 1981, seu único pedido foi para conhecer Wan Laiming, recorda-se Zhang Songlin, antigo vice-presidente do estúdio. "Quando perguntei o porquê, ele respondeu: 'Wan Laiming é meu mestre inspirador'". Isto deu grande motivação aos trabalhadores da animação chinesa.

Por causa da guerra, a produção de filmes de animação foi suspensa por algum tempo, até 1949, quando foi fundada a República Popular da China.

"A primeira onda da animação na China ocorreu ao final dos anos 50 e início dos anos 60," disse Jin Guoping, um pioneiro na indústria de animação da China. Animadores de peso começaram a se concentrar no Shanghai Animated Film Studio, incluindo Wan Laiming, pioneiro da animação na China.

Havoc in Heaven
"The Conceited General" (Jiao’ao de Jiangjun), produzido em 1956, é considerado um marco. "A partir deste filme, as animações chinesas começar a ter estilo próprio, diferente daqueles produzidos nos EUA, na ex-União Soviética e no Leste Europeu," disse Jin Guoping.

O filme mostra um general que venceu muitas batalhas e, em função disto, se tornou arrogante. Ela baixa sua guarda e acaba derrotado. Ele reflete um conceito filosófico tradicional chinês: "Orgulho leva à perda, enquanto a modéstia traz o benefício". As pessoas se impressionaram com a novidade de verem personagens usando roupas e maquiagens da Ópera de Pequim.


The Cowherd's Flute
De 1957 a 1962, Wan Laiming e sete outros animadores criaram em conjunto a famosa animação "Havoc in Heaven" (Da Nao Tian Gong). Desde então, a imagem do Rei Macaco (Sun Wukong) tornou-se popular entre o público chinês, assim como aconteceu com Mickey Mouse na América. "Havoc in Heaven" ganhou prêmios no 13o Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na Tchecoslováquia, em 1962, no Festival Internacional de Cinema de Londres, em 1978, e no Festival Internacional de Cinema Infantil de Quito. Em 1983, "Havoc in Heaven" foi exibido em 12 cinemas de Paris. Em um mês, o público chegou a 100 mil espectadores. Jornais franceses chamaram o filme de "uma genuína obra-prima da animação".

Ne Zha Conquers the Dragon King
Neste filme, cinco cores (verde, vermelho, amarelo, branco e preto) são usadas para criar diferentes papéis, como o Rei Macaco, o Imperador de Jade e o Deus da Terra. As imagens são exageradas e com formas bem definidas. "O filme captou o método de expressão dos murais chineses e das pinturas de Ano Novo," disse Zhang Songlin.

Muitos filmes de animação vieram depois, adotando um estilo tradicional chinês, como a série de animação para a TV "Journey to the West" (Hsi Yu Chi / Jornada ao Oeste). Outra importante animação do início dos anos 60 foi "The Cowherd's Flute" (Mu Di). Ele marcou a maturidade da animação chinesa com técnica de aquarela, e depois passou a ser usado como material de ensino nos EUA, tornando-se um filme de demonstração para estudantes americanos. "Eles não compreendem como os artistas chineses conseguiram o efeito de aquarela," disse Jin Guoping.


The Golden King Conquers the Evil
Durante a "Revolução Cultural" (1966-1976), muitos animadores foram forçados a suspender seu trabalho, enquanto a década após 1979 é considerada o segundo renascimento da criação de animações na China. Durante este período, foram criados três longas-metragens de animação, "Ne Zha Conquers the Dragon King" (Ne Zha Nao Hai), "The Golden King Conquers the Evil" (Jin Hou Xiang Yao / Monkey King Conquers the Demon), e "Secrets of the Heavenly Book" (Tian Shu Qi Tan), e foram produzidas as animações com técnicas de aquarela "Deer’s Bell" (Lu Ling), "Snipe-Clam Grapple" (Yu Bang Xiang Zheng) e "Feeling from Mountain and Water" (Shan Shui Qing). Além disto, foram produzidos mais de 200 curtas de animação, representados por "Three Monks" (San Ge He Shang) e "Snow Child" (Xue Hai Zi). "Os trabalhos produzidos neste período eram mais maduros. Houve progresso no desenvolvimento de personagens, organização do enredo e fotografia. Ainda assim, as características chinesas foram mantidas," disse Jin Guoping.

Feeling from Mountain and Water
"Ne Zha Conquers the Dragon King", em particular, é excelente. Neste filme, há mais de 100 tomadas mostrando ondas, todas usando métodos de pintura tradicional chinesa e totalmente diferente do mar mostrado nos filmes de Walt Disney. "Muitos espectadores disseram poder identificar de imediato que as cenas de ondas do mar haviam sido criadas por artistas chineses," disse Jin Guoping. "Muitas pessoas não sabem que 'Ne Zha Conquers the Dragon King' foi o filme da cerimônia de abertura do Festival de Cannes de 1980. Foi a recepção mais cortês já concedida a uma animação chinesa."


Lotus Lantern
Os curtas de animação "Three Monks" e "The Cowherd’s Flute" ganharam prêmios no Festival de Berlim e em Odense, Dinamarca. Estes sucessos internacionais geraram um novo termo: a escola chinesa de animação. "O estilo singular da técnica de papel cortado e pintura de paisagens a diferenciam dos estilos de Hollywood e da Europa," disse Jin Guoping.

No entanto, a situação piorou um pouco desde 1993. A indústria de animação chinesa foi novamente desafiada pelos filmes japoneses e americanos. Um longa-metragem de animação, "Lotus Lantern" (Bao lian deng), de 1999, planejado por Jin Guoping, é a animação chinesa No.1 em termos de bilheteria mas, até o momento, nenhuma animação feita na China conseguiu quebrar o recorde de 25 milhões de yuanes. Por isto, até o momento, o mercado chinês de animação ainda é dominado pelas companhias de animação japonesas e euro-americanas.

(Tradução de Marcelo Reis - webmaster ANIMEHAUS)

Where is Mama? (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/08/2008.

Alternativos: Xiao Ke Dou Zhao Mama; Where´s Mama?
Ano: 1960
Diretor: Te Wei / Qian Jiajun
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 15 min
Gênero: Aventura / Fantasia


Curta-metragem de animação dirigida por Te Wei, um verdadeiro mestre que infelizmente ainda é pouco conhecido em nosso país, "Where is Mama" é uma obra de temática simples, mas que tem importância fundamental na história da animação mundial em função da técnica revolucionária utilizada: criar uma obra animada usando técnicas de desenho com pincel e tintas à base de água, como a aquarela.

Para explicar melhor o porquê desta importância, tomo a liberdade de usar algumas informações fornecidas pelo próprio Te Wei em uma entrevista que deu ao site Animation World Magazine. Te Wei comenta que aceitou o desafio de criar uma obra animada usando uma técnica tão desafiadora ao ouvir um comentário do então Vice-Presidente chinês Chen Yi, o qual dizia ter a esperança de que, um dia, as pinturas do famoso artista chinês Qi Baishi pudessem ser animadas.

O resultado alcançado é impressionante. Basta comparar algumas gravuras de Qi Baishi no site China the Beautiful com as imagens animadas de "Where is Mama" para perceber a excelência do trabalho de Te Wei e sua equipe do Shanghai Animation Studio. Só o fato de terem conseguido reproduzir fielmente o estilo visual de Qi Baishi já seria motivo de elogios, mas conseguir adicionar a tudo isto uma animação fluida e cheia de detalhes de degradê e transparência... só mesmo um gênio do calibre de Te Wei para ser bem sucedido em tal façanha.


A história em si é muito, muito simples. Vários girinos nascem justamente quando sua mamãe-rã se ausenta por alguns instantes. Ao verem alguns pintinhos brincando com a mamãe-galinha, os girinos sentem a falta de sua própria mãe e saem nadando pelo rio importunando a todos os animais da região, perguntando se algum deles era a sua mamãe.

Os animais em "Where is Mama" não são antropomorfizados, todos possuem movimentos e comportamentos bem próximos aos animais reais, exceto em alguns momentos nos quais a expressão facial chega a ser um pouco mais cartunesca. Não há diálogos na obra mas, sim, uma narração em mandarim que não apenas conta a história, mas tenta expressar o que os animais parecem dizer. A trilha sonora instrumental é tipicamente chinesa, com destaque para os instrumentos de corda (em especial o Banhu) e sopro (Houguan e Guan Zi), e transmite bem o clima bucólico e leve que permeia toda a obra.

Mas o destaque, sem dúvida, é o estilo de animação. A cada novo animal ou paisagem que aparece na tela, ficamos impressionados não apenas com a beleza do traço e a sutileza das cores mas, principalmente, com a fluidez e a perfeição da animação. Observar um caranguejo cujas oito patas movimentam-se com perfeição, um peixe cuja enorme cauda translúcida se agita suavemente na água, bolhas de água que enriquecem o ambiente, além de vários outros detalhes sutis presentes a todo momento, e pensar que tudo aquilo foi feito usando uma técnica de pintura com aquarela, chega a ser realmente inacreditável. Para se ter uma idéia das dificuldades envolvidas neste tipo de animação, basta dizer que apenas três outras obras animadas foram feitas com a mesma técnica: "The Cowboy´s Flute" e "Feelings from Mountain and Water", ambos do próprio Te Wei, e "The Deer´s Bell", animação dirigida por Wu Qiang e Tang Cheng.



Em função da curta duração e da simplicidade do enredo, "Where is Mama" não tem nada de excepcional em termos narrativos, ainda que seja muito agradável de se ver. Mas esta pequena obra-prima possui um valor histórico evidente, em função de seu estilo único de animação, e merece ser um pouco mais divulgada no Ocidente. Afinal, se não fosse por Te Wei e outros colegas igualmente talentosos do Shanghai Animation Studio, como os irmãos Wan Laiming e Wan Guchan, provavelmente um outro mestre chamado Osamu Tezuka não teria se interessado em trabalhar como artista, o que teria mudado sobremaneira todo o mundo dos mangás e animes da forma como o conhecemos hoje.


Marcelo Reis


 

The Cowboy´s Flute (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/08/2008.

Alternativos: Mu Di; The Cowherd´s Flute; The Buffalo Boy and his Flute
Ano: 1963
Diretor: Te Wei / Qian Jiajun
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 20 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia


Lançado três anos após "Where Is Mama?" e utilizando a mesma técnica de animação, "The Cowboy´s Flute" mostra uma grande evolução em termos técnicos e narrativos por parte de Te Wei e sua equipe. De acordo com a ficha técnica do DVD "Chinese Classical Animation - Te Wei Collection", ao invés de utilizar as pinturas de Qi Baishi como inspiração nesta obra, Te Wei homenageou o estilo de Li Keran, pintor contemporâneo famoso por retratar a região campestre ao sul do rio Yangtze.

Em "The Cowboy´s Flute", um garoto guia seu búfalo pelos pastos, rios e montanhas da região onde vivem. Um verdadeiro prodígio ao tocar sua flauta de bambu (Dizi), o garoto se aproveita da música que produz para orientar seu búfalo com maior facilidade, uma vez que o animal não o obedece sem a ajuda da melodia. De certa forma, isto é culpa do garoto, pois ao invés de tentar se harmonizar com o animal e com a natureza ao redor, ele tenta se impor através do controle físico e de seu incrível talento musical

Certo dia, ao adormecer no alto de uma árvore, o garoto começa a sonhar e percebe que, sem sua flauta, ele não consegue se comunicar nem dominar o búfalo. Seria possível algum tipo de comunicação entre ambos sem o auxílio do instrumento? Talvez uma relação baseada na harmonia, e não na imposição?

Obviamente, por se tratar de uma animação protagonizada por um flautista, este instrumento de sopro predomina na trilha sonora, ainda que auxiliado por uma base tipicamente chinesa com instrumentos de cordas. "The Cowboy´s Flute" ainda é beneficiado pelo uso inteligente dos efeitos sonoros, pois como a natureza é quase um personagem adicional na história, nada mais justo do que marcar sua presença através do sons do vento, cachoeiras, entre outras coisas.


Nesta obra, Te Wei atuou como roteirista e diretor, dividindo esta última função com Qian Jiajun, e apesar de não usar nenhum tipo de diálogo ou narrativa, "The Cowboy´s Flute" tem um enredo perfeitamente compreensível. A história é bem simples, e como na maioria das animações produzidas na China nesta mesma época, pode ser vista como um tipo de alegoria que remete à política de Mao-Tsé Tung e de todo o Partido Comunista naquele período, pregando a humildade por parte de quem está no poder e a união de todos em busca de um bem comum. Mas com um artista como Te Wei no comando, uma obra que poderia se tornar panfletária se transforma numa verdadeira poesia visual e musical.

Logicamente, o estilo visual ainda é o grande destaque. Se a técnica de aquarela usada em "Where Is Mama?" já impressionava, aqui as coisas atingem um patamar muito mais elevado. A começar pelos cenários, quase inexistentes em "Where Is Mama?" e que aqui são desenhados e animados com uma tremenda riqueza de detalhes. Nuvens translúcidas que envolvem as montanhas, folhas e bambus balançando ao vento, rios que correm pelos campos e formam cachoeiras tão impressionantes que só vendo para crer.

Mas não é apenas o cenário que merece destaque em termos visuais. Os personagens, humanos ou não, possuem movimentos e expressões faciais cheios de detalhes e sutilezas, e neste aspecto o búfalo é o elemento mais interessante, pois possui uma expressão tranqüila e curiosa que combina perfeitamente com seu comportamento "viajandão". O fato do garoto possuir feições chinesas dá um maior clima de autenticidade à obra, como se a história realmente se passasse às margens do rio Yangtze. Esta sensação de autenticidade é auxiliada por detalhes que mostram um pouco do dia-a-dia na vida dos chineses que vivem no campo: os pastos e campos de plantio de arroz, trabalhadores braçais caminhando nas estradas de terra, crianças brincando à beira dos lagos...



Obra simples, mas muito poética e tecnicamente irrepreensível, "The Cowboy´s Flute" é mais uma demonstração de que é possível criar verdadeiras obras-primas da animação a partir de desenhos feitos à base de pincel e aquarela. E com um mestre como Te Wei controlando o timão, só mesmo um acidente poderia impedir "The Cowboy´s Flute" de ser a maravilha que é.


Marcelo Reis


 

The Conceited General (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/10/2008.

Alternativos: The Proud General; Jiao’ao de Jiangjun
Ano: 1956
Diretor: Te Wei
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 23 min
Gênero: Comédia / Fantasia


"The Conceited General" é uma produção realizada pelo Shanghai Animation Studio em 1956, com roteiro de Hua Junwu e direção de Te Wei. Este curta-metragem marcou o início de um rico período da animação chinesa, com obras inovadoras do ponto de vista técnico e narrativo e com características que as diferenciavam sobremaneira das animações produzidas em outras partes do mundo.

Como diz o próprio título da obra, acompanhamos nesta animação as peripécias de um rei convencido e rodeado por bajuladores. Considerado o soldado mais forte e o melhor atirador existente, e tendo recebido o título de "Herói Nº1 da China" em função de suas várias vitórias no campo de batalha, este rei agora só quer saber de receber elogios, exibir sua força e seus talentos, além de comer, beber e curtir os louros das vitórias. Sem aceitar qualquer tipo de questionamento, o rei fanfarrão só se importa com si próprio e não se preocupa com o sucesso prolongado de suas campanhas: para ele, só interessa o que acontece aqui e agora. Se a paz parece ser duradoura, por que se preocupar com uma guerra que pode não chegar nunca? Resta saber o que poderá acontecer com este reino no futuro, pois guiado por um comilão preguiçoso e contando com um exército sem qualquer tipo de comando, as perspectivas não são nem um pouco animadoras.


A primeira coisa que chama a atenção em "The Conceited General" é o estilo artístico visual e musical. Muitas coisas foram inspiradas na Ópera de Pequim, como a pintura usada no rosto do general, os cenários e objetos em cena, e a trilha sonora tipicamente chinesa, repleta de tambores, pratos e flautas. Por outro lado, o desenho de personagens, a movimentação dos mesmos e a estrutura narrativa possui uma certa semelhança com algumas obras de Walt Disney. Os movimentos e expressões usados, assim como a dublagem, indicam bem o caráter dos personagens (dissimulados e escorregadios, ou humildes e comedidos). Uma informação interessante contida na "Chinese Classical Animation: Te Wei Collection DVD" diz respeito a algumas mulheres que aparecem dançando: elas não possuem detalhes faciais, e toda a ênfase acabou sendo colocada na movimentação de seus lenços de seda, no fundo o que realmente importa na seqüência em questão.

A animação em si é um primor, extremamente fluida em todos os momentos, inclusive nos cenários e personagens de fundo. Usando a tradicional técnica de animação em acetato, a equipe do Shanghai Animation Studio não deixou de adicionar detalhes minuciosos como transparência nos tecidos e brilho nos objetos metálicos.

Em termos históricos, houve um grande incentivo às artes na China após a Revolução de 1949, para que pudessem ser usadas como propaganda comunista. "The Conceited General" era visto à época como uma demonstração de que a vontade coletiva era mais importante que a individual, e que ninguém deveria se julgar excessivamente superior às demais pessoas.



O enredo é relativamente simples e a narrativa se arrasta um pouco em determinados momentos mas, no geral, "The Conceited General" é mais um belo exemplo desta fase de ouro da animação chinesa. Uma época que poderia ter durado muito mais tempo, não fossem os tristes eventos causados pela infame "Revolução Cultural" iniciada em 1966, que praticamente acabou com a produção artística chinesa por vários e vários anos.


Marcelo Reis


 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Feeling from Mountain and Water (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/10/2008.

Alternativos: Shan Shui Qing; Love of Mountain and River; Feelings of Mountains and Waters
Ano: 1988
Diretor: Te Wei
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 19 min
Gênero: Drama



Apesar do nome, a Revolução Cultural que se realizou na China entre 1966 e 1976 acabou com toda a estrutura cultural e artística do país durante o período em que esteve em vigor. No caso da animação, por exemplo, a China havia assombrado o mundo em 1961 e 1964, com o longa-metragem dividido em duas partes "Uproar in Heaven", inspirado no famoso livro "Hsi Yu Chi", também conhecido como "Saiyuki" ou "Journey to the West". Infelizmente, a Revolução Cultural colocou um freio nesta contínua evolução da animação dentro do país, a qual somente voltou a viver tempos áureos com o término da dita "Revolução".

Te Wei sentiu na pele os cruéis efeitos da Revolução Cultural. Diretor do Shanghai Animation Studio de 1950 a 1964, Te Wei foi torturado e passou um ano em prisão domiciliar, sendo exilado em seguida para trabalhar no campo, no interior da China. Após a Revolução Cultural, Te Wei reassumiu a direção do Shanghai Animation Studio de 1976 até 1984, e só voltou a dirigir uma animação em 1988, 25 anos após ter realizado o maravilhoso "The Cowboy´s Flute". Aos 73 anos de idade, o mestre provou que o tempo manteve seu talento intacto, e realizou sua grande obra-prima com este maravilhoso "Feeling from Mountain and Water".

Mais uma das raras obras de animação que utilizam a técnica da aquarela, "Feeling..." acompanha a trajetória de um senhor que, sempre carregando um pacote comprido, atravessa um rio com o auxílio de uma jovem barqueira, a qual toca uma melodia alegre em sua flautinha o tempo todo. Após passar mal e ser acudido pela garota, o senhor toca com maestria um instrumento de cordas chamado "guqin". Percebendo o interesse da jovem pelo mesmo, resolve retribuir a calorosa acolhida que teve, ensinando a garota a tocar o instrumento.

Assim como "The Cowboy´s Flute", "Feeling..." não possui um único diálogo, o que facilita a apreciação da obra por pessoas de todo o mundo. Toda a parte sonora se compõe dos efeitos do ambiente e das músicas tipicamente chinesas tocadas pelo senhor e pela jovem no "guqin".


Visualmente, "Feeling..." é não menos que assombroso. Desta vez, a equipe responsável buscou replicar o estilo de pintura "Shan Shui", basicamente caracterizado pela representação de paisagens naturais, como rios, montanhas e desfiladeiros. O próprio nome em chinês desta animação, "Shan Shui Qing", já reflete o estilo utilizado. É claro que os personagens têm importância fundamental na obra, mas a paisagem é tão ou mais importante que os mesmos, tanto que as próprias músicas tendem a acompanhar o que se passa no ambiente.

Se as obras anteriores de Te Wei já impressionavam em termos visuais, "Feeling..." resolve jogar o queixo do espectador no chão de uma vez. A animação dos rios é de uma perfeição singular, e os personagens com traços bem orientais possuem uma riqueza ímpar de expressões faciais e corporais, tudo bem condizente com a idade e o comportamento de cada um.

"Feeling..." trabalha muito com a questão do "antigo" e do "novo". O senhor parece seguir rumo ao ocaso e ao descanso, enquanto a jovem, com sede de aprender, tem toda a vida ainda pela frente. O adulto, calmo e sereno, assume o papel de mestre, para ajudar a pessoa mais jovem a ganhar asas e seguir seu caminho sozinha. O interessante é que mesmo sem uma linha de diálogo, percebe-se nitidamente o afeto sincero que surge entre o senhor e a jovem, algo importante para que o desfecho da história funcione da forma desejada.



"Feeling from Mountain and Water" tem um clima mais melancólico que as demais obras de Te Wei, talvez por influência dos tempos difíceis vividos por ele durante a Revolução Cultural. Vencedor de alguns prêmios de animação em Montreal (Canadá) e Shanghai (China), é tecnicamente irrepreensível, conta uma sensível história sobre o amadurecimento e a separação e, apesar do ritmo contemplativo, passa num piscar de olhos. É uma obra imprescindível para qualquer pessoa que curta uma animação mais adulta e de altíssima qualidade, e que queira conhecer mais um pouco sobre o rico universo das animações chinesas.


Marcelo Reis