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sexta-feira, março 01, 2013

Curtas sobre Curtas #01


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 19/02/2013

Entre os vários motivos pelos quais resolvi iniciar esta empreitada solo no Glodosbora, um dos principais é a liberdade de poder escrever sem precisar me prender a uma determinada estrutura. No Animehaus até foi possível quebrar isto um pouco, quando começamos a falar de outros tipos de animações fora do universo anime, mas em termos de estruturas de resenhas e artigos, entre outras coisas, não dava muito para sair do formato utilizado. Além disto, por mais que seja legal uma resenha super bem embasada e completa, às vezes é complicado escrever um texto complexo sobre um curta metragem de 3min, por exemplo. Melhor seria um pequeno artigo falando de 2, 3, 4 ou mais obras, só para dar uma idéia geral sobre as mesmas, para que os leitores possam, ao menos, tomar conhecimento de sua existência e, claro, saber se vale a pena ou não assisti-las.

Tendo isto em mente, inauguro hoje a seção "Curtas Sobre Curtas", que consistirá de postagens falando sobre determinados curtas-metragens, de animação ou não, de forma um pouco mais simplificada do que a normalmente utilizada nas resenhas-padrão do Animehaus. Para começar, três "pequenas grandes obras" da animação, provenientes da França, Espanha e Polônia.


REPLAY

Curta de 9min de duração, criado em 2007 por 3 alunos da fantástica ESMA (Ecole Supérieure des Métiers Artistiques), localizada em Montpellier, França, e famosa pelas fantásticas animações de fim de curso de seus alunos, que colocam no bolso grande parte das animações ditas "profissionais" que existem por aí.

"Replay" se passa num local desolado na Rússia, no qual é impossível andar pela superfície sem máscaras contra gás e óculos de proteção, sob pena de morte imediata. É neste ambiente que vivem, em um abrigo subterrâneo devidamente protegido, a jovem Lana e o garoto Theo. Lana sempre sobe à superfície para recolher objetos largados pelas ruas de uma verdadeira "cidade-fantasma", buscando ganhar algum dinheiro com a venda posterior dos mesmos. Théo nasceu neste ambiente mortal e sempre viveu no subterrâneo, nunca tendo conhecido nenhuma outra pessoa além de Lana, e só tem permissão para subir à superfìcie acompanhado pela garota. Por esta razão, sua ansiedade é sempre grande quando Lana volta da superfície, pois fica louco para ver os "tesouros" que ela trará para o subterrâneo.

Certo dia, entre os objetos recolhidos por Lana, encontra-se um gravador contendo sons captados no dia-a-dia normal da cidade (buzinas, conversas), enquanto a vida ainda pulsava por lá. Theo fica encantado ao ouvir a conversa de crianças brincando, quer ficar com o gravador de qualquer maneira, mas Lana diz que venderá o aparelho, pois poderá ganhar um belo dinheiro com o mesmo. Sem conseguir tirar aqueles sons da cabeça, resta saber até que ponto o garoto iria para manter a posse do aparelho e procurar saber um pouco mais sobre a história por trás daqueles sons.

Em termos visuais, "Replay" não é tão impressionante quanto outras obras produzidas na ESMA, apesar de ainda ser muito bem feito. A cidade abandonada, em especial, lembra muito Pripyat, na Ucrânia, evacuada às pressas após o acidente nuclear de Chernobyl em 1985. Mas o mais marcante em "Replay" é a qualidade da narrativa, sendo palpável a sensação de desespero de Theo em querer vivenciar um tipo de existência que a dura realidade simplesmente não permite mais.

Com um final melancólico e, de certo modo, agridoce, "Replay" é uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece as excelentes animações criadas na ESMA.


LA DAMA Y LA MUERTE

Animação espanhola produzida por Antonio Banderas e indicada ao Oscar 2010 como Melhor Curta de Animação, "La Dama y La Muerte" se passa numa fazenda, em um ambiente desolado e sombrio. Ao som de um velho gramofone, uma idosa aguarda ansiosamente a chegada da Morte, para que possa se reencontrar com o falecido marido. Quando tudo parece resolvido e a senhora está prestes a entrar no reino dos mortos, um médico bonitão e que se acha "o cara" acaba trazendo-a de volta à vida. Inicia-se uma luta feroz, hilária e surreal entre a Morte e o médico (acompanhado de suas enfermeiras gostosas) pelo destino da pobre senhora, que é jogada de um lado para o outro como um saco de batatas.

Tecnicamente, "La Dama y La Muerte" é impecável, uma animação em CGI de excelente qualidade e com personagens muito expressivos e cartunescos. O ritmo da animação é alucinante, lembrando um pouco as peripécias exageradas de Scrat nos longas-metragens de "A Era do Gelo". Não há nenhum diálogo inteligível, apenas gritos e grunhidos de satisfação e raiva, de acordo com o andamento da disputa ferrenha entre a "morte gulosa" e o "Dr. Queixudo".

"La Dama y La Muerte" não traz super questionamentos filosóficos nem nada do tipo. É uma obra divertida e de excelente qualidade técnica, que passa voando e ainda conta com um final sensacional.


PATHS OF HATE

Claro que não dava para iniciar a seção de curtas sem falar do Platige, hehehe. "Paths of Hate" começou a chamar a atenção assim que pintou seu primeiro trailer, mostrando dois aviões em combate em sequências animadas de tirar o fôlego, com um visual semelhante a "comics" num ambiente 3D. Restava saber se a obra completa faria jus ao "hype" tremendo causado pelo trailer em questão.

Dirigida por Damian Nenow (The Great Escape), "Paths of Hate" já começa em meio a uma ensandecida batalha aérea na II Guerra Mundial entre um piloto inglês em seu Spitfire, e outro alemão num Messerschmitt, que usam de todos os recursos possíveis para matar o seu oponente. Pequenos fragmentos de imagens mostram que a religião, a pátria e os entes queridos são motivações por trás da fúria bestial que move os dois homens. Com olhares sangrentos e sedentos de morte, os homens vão perdendo completamente sua humanidade, única forma pela qual poderão encerrar, de alguma maneira, esta batalha feroz. E neste processo, vão deixando os tais "caminhos de ódio" para trás, caminhos estes que remontam aos primórdios da história e sempre resultam em horror, morte e destruição.

Se o trailer de "Paths of Hate" já impressionava, a obra completa é de cair o queixo. Usando cores chapadas e com traços de sombreamento imitando histórias em quadrinhos, a animação usa na maior parte do tempo uma câmera nervosa e irregular, como se fosse controlada por um ser humano, aumentando ainda mais o realismo das batalhas. A sensação de profundidade no ambiente impressiona, especialmente em meio às nuvens, e a movimentação corporal e facial dos pilotos é algo de outro mundo. Podem acreditar quando eu digo que vocês nunca viram nada parecido com "Paths of Hate": o estilo é realmente único.

"Paths of Hate" é um obra do Platige um pouco mais conhecida em nosso país, por ter sido eleita a Melhor Animação no Anima Mundi 2011 pelo júri profissional. Vencedora ainda de vários outros prêmios ao redor do mundo (Annecy, Comic-Con, SIGGRAPH), "Paths of Hate" tornou-se minha animação preferida do Platige, gerando ainda uma ansiedade prazerosa para ver como será a próxima obra dirigida por Damian Nenow, "Another Day of Life". Baseada no livro de Ryszard Kapuscinski, autor do excelente "Império", "Another Day of Life" será um mistura de animação e documentário e, muito provavelmente, o primeiro longa-metragem produzido pelo Platige.


Marcelo Reis


 

Moloch (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 20/01/2012.

Ano: 2006
Diretor: Marcin Pazera
Estúdio: Platige
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 8 min
Gênero: Ação / Violência


Vencedor do prêmio máximo no festival Animago 2006 (Alemanha), "Moloch" talvez seja o mais sombrio dos curtas de animação do Platige Image. Dirigido por Marcin Pazera, "Moloch" se torna ainda mais impressionante ao sabermos que o projeto foi originalmente concebido como o trabalho de graduação do diretor na Academia de Belas Artes de Cracóvia.

Em um mundo arrasado e degenerado, numa fábrica que já teve seus dias de glória no passado mas que, no presente, é apenas um gigantesco espaço vazio e frio, vive uma máquina descontrolada chamada Moloch. De tempos em tempos, Moloch desperta de seu estado letárgico e sai para uma verdadeira orgia de carnificinas no mundo exterior. Um robô com instintos assassinos, como os humanos.


Tudo em "Moloch" é utilizado no sentido de criar um ambiente triste, deprimente, opressivo. Para começar, não há nenhuma trilha musical neste curta-metragem, apenas efeitos sonoros distorcidos e incômodos de objetos mecânicos, ranger de engrenagens e coisas afins. A fotografia enevoada em tons de cinza e com muito jogo de luzes e sombras aumenta o clima de desolação, dando uma sensação muito palpável de um verdadeiro pesadelo na vida real.

Para quem não se cansa da minha "babação de ovo" em relação à perfeição técnica das obras do Platige Image, aí vai mais uma, então. "Moloch" talvez seja a obra mais impressionante do estúdio em termos visuais. A modelagem dos objetos e, especialmente, as texturas e filtros utilizados dão uma sensação de realismo quase absoluto. Ajuda ainda o estilo de "filmagem", digamos assim, uma vez que a câmera não fica apenas dando "travellings" impecáveis e sem tremedeiras. Pelo contrário: em grande parte dos momentos, a sensação é de que a câmera está ali dentro, no campo de batalha, várias vezes assumindo uma visão em 1a pessoa do que acontece.



"Moloch" é uma animação que deve ser vista mais de uma vez, não apenas para admirar com calma todos os detalhes visuais mas, principalmente, para entender bem o que acontece ao longo da narrativa. A primeira vez pode deixar o espectador meio perdido, mas depois de passado o choque inicial, dá para pegar bem melhor o fio da meada e, com isto, a obra cresce substancialmente na memória.


Marcelo Reis


 

Mantis (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 18/02/2011.

Ano: 2000
Diretor: Grzegorz Jonkajtys
Estúdio: Platige Image
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 6 min
Gênero: Drama / Sci-Fi


"Mantis" é o primeiro curta-metragem de animação do Platige Image e, ainda, o filme de estréia do diretor Grzegorz Jonkajtys, que realizaria depois o fabuloso "Ark". Apesar de bem feito e de ter uma história interessante, "Mantis" fica bem aquém das animações posteriores do Platige Image, tanto em termos de técnica quanto de conteúdo.

Em sua busca desesperada para ter uma companheira, um robô solitário acaba dando uma de Dr. Frankenstein e tenta criar vida a partir de carcaças de robô jogadas no lixo. Mesmo tendo um fracasso após o outro, o protagonista não desiste, mesmo sem saber se sua empreitada tem alguma chance de sucesso.


De cara, é fácil perceber como a qualidade técnica das obras do Platige deu um salto entre "Mantis", feito em 2000, e "The Cathedral", feito em 2002. Os modelos e as texturas em geral, apesar de bem-feitos, ainda têm um quê de amadorismo. O personagem principal possui uma movimentação corporal muito travada, suas expressões faciais são meio imprecisas, e os olhos parecem meio vazios e desfocados. Este problema de falta de expressividade dos olhos aparece um pouco também em "The Cathedral", mas já em "Fallen Art", de 2004, é coisa totalmente do passado.

Um detalhe interessante ainda diz respeito à aparência do robô, que me lembrava um pouco o personagem principal Z, de "Formiguinhaz", lançado dois anos antes. Eu sempre ficava esperando que o robô começaria a falar a qualquer momento com a voz do Woody Allen, mas isto, é claro, não aconteceu.



Enfim, não dá para dizer que "Mantis" seja ruim, mas em função de sua animação bem mediana, mesmo para a época em que foi feito, e sua história relativamente simples, acaba sendo uma obra apenas interessante, nada mais que isto. E com um final bem legal, ainda que meio previsível.


Marcelo Reis


 

Undo (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/03/2012.

Ano: 2003
Diretor: Marcin Wasko
Estúdio: Platige
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 3 min
Gênero: Drama / Sci-Fi


Curta-metragem de animação que realmente faz jus ao termo "curta", uma vez que tem apenas 2m45 de duração, "Undo" é uma obra do Platige Image dirigida e roteirizada por Marcin Wasko. Mas apesar de ser uma obra extremamente breve, "Undo" passa a sua mensagem de forma impactante, sem que fosse preciso criar algo extremamente complexo em termos de enredo ou narrativa.

Um galpão contém várias estantes repletas de livros, cada um sendo um registro completo da vida de determinada pessoa, contendo na capa e na lateral um símbolo indicando o seu sexo, além da data de nascimento e morte. Um homem, preso a uma cadeira de rodas, vai lendo a sua história de vida, especialmente os momentos que o levaram a sofrer o acidente que o deixou paraplégico. E fica a dúvida: se ele arrancasse uma página do livro, haveria alguma possibilidade de sua história ser reescrita?

Assim como ocorreu em "Moloch", "Undo" não contém nenhuma trilha musical, mas apenas efeitos sonoros como pano de fundo. Decisão acertada, pois estes efeitos são parte crucial da narrativa, especialmente quando o protagonista revive os eventos do acidente, e uma trilha musical poderia atrapalhar o efeito dramático.


Apesar de realizado em 2003, "Undo" é talvez a obra do Platige com o melhor trabalho de CGI na criação e animação de um ser humano. O personagem principal é muito realista, até mesmo no "calcanhar de Aquiles" neste tipo de animação, que é a expressão facial, especialmente em tudo que diz respeito aos olhos. E isto é particularmente importante na já citada cena em que o protagonista relembra seu acidente: sem um bom trabalho de CGI nas expressões faciais, a cena não teria o mesmo impacto.

É impressionante ainda ver a atenção dada aos detalhes das mãos do protagonista quando passa as páginas de seu livro de vida, a movimentação suave de cada dedo, sem parecer um robô ou um boneco de plástico. Sem contar a atenção nas demais texturas, como as usadas nas capas dos livros, na jaqueta de couro do protagonista e tudo o mais. Por se tratar de uma obra mais sombria e melancólica, foi usada uma fotografia mais desbotada e puxando para tonalidades azuis, quase chegando a algo em preto-e-branco.



Vencedor do prêmio principal no Animago 2003 na categoria "Melhor Curta de Animação/Profissional", "Undo" só peca um pouco em relação à curtíssima duração. O recado é muito bem dado ao final, verdade seja dita, mas um pouco mais de tempo para nos identificarmos mais com o dilema do protagonista teria sido muito bem-vindo. É quase como aquela frase "vai ser bom, não foi?", só que bem melhor. ^_^"


Marcelo Reis


 

The Great Escape (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/09/2011.

Ano: 2006
Diretor: Damian Nenow
Estúdio: Platige
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 6 min
Gênero: Comédia / Ação



Previsão do tempo na TV é um negócio meio enfadonho, sempre alguém parado ao lado de um mapa com uma varetinha na mão e dizendo tempo nublado aqui, pancadas de chuva acolá, máxima de tantos graus em tal lugar, mínima de tantos graus em outro canto. Se a coisa já é meio chata para quem assiste, mesmo durando apenas 1 minuto, imagine para um pobre solzinho semi-encoberto por uma nuvem que aparece dia após dia no mesmo mapa, ouvindo o mesmo "blablabla" sem parar.

Cansado desta vida monótona, e vendo do lado de dentro da tela o que ocorre no mundo real, o solzinho resolve se mexer e tentar escapar daquela verdadeira prisão. Sempre agarrado à sua nuvenzinha, que parece um "frufru" de bailarina, ele só não imaginaria que seria tão difícil escapar do incomum sistema de segurança de uma simples TV.


"The Great Escape" pode ser considerado o extremo oposto de "Moloch" em termos de atmosfera, já que é, de longe, a animação mais alegrinha e alto astral do Platige Image. Dirigido por Damian Nenow, que realizou no final de 2010 o curta de guerra "Paths of Hate" (que, a julgar pelo trailer, é impressionante), "The Great Escape" mostra exatamente o que diz o título, uma "grande" fuga de um pobre solzinho entediado, perseguido por uma "horda" de soldados um tanto quanto peculiares. Só que, ao invés de ter um clima pesado como "Moloch", "The Great Escape" parece até um joguinho de plataforma infantil super colorido, com uma trilha sonora super feliz e animada. Nem mesmo o ambiente interno da TV, simulando uma penitenciária, é algo assustador demais.

Alguém ainda dúvida que eu elogiarei a parte visual desta animação? Mas, gente, o que é que eu posso fazer? Se a equipe do Platige é realmente fora de série no tocante a animações em CGI, não dá para ficar procurando pêlo em ovo só para encontrar defeitos. Detalhes sutis como a textura de um tapete ou todo o circuito interno de uma TV antiga mostram a atenção dedicada pelos animadores aos menores detalhes. O próprio solzinho, que dentro do mapa era aquela coisa chôcha e chapada, acaba ganhando volume tridimensional durante sua fuga, chegando até mesmo a iluminar todos os locais por onde passa, como se fosse... bem, um solzinho de verdade.



Com um final muito legal e inesperado, "The Great Escape" é uma animação muito leve e divertida, que impressiona ainda mais ao sabermos que Damian Nenow criou esta animação quando estava ainda no 2º ano na Universidade Nacional de Filme, Televisão e Teatro em Lodz. E a julgar pela excelência técnica demonstrada no trailer de "Paths of Hate", o cara vai longe.


Marcelo Reis


 

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Fallen Art (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 09/02/2011.

Alternativos: Sztuka spadania
Ano: 2004
Diretor: Tomasz Baginski
Estúdio: Platige Image
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 6 min
Gênero: Comédia


Tomasz Baginski, diretor de criação do fantástico estúdio de animação polonês Platige Image, tornou-se mundialmente conhecido quando seu curta-metragem "The Cathedral" foi indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 2003. Logicamente, eram grandes a curiosidade e a expectativa por sua obra seguinte, "Fallen Art", na qual exerceu as funções de diretor, produtor e roteirista.

Com um estilo visual e narrativo totalmente diferente do contemplativo "The Cathedral", "Fallen Art" se passa numa base militar caindo aos pedaços no Oceano Pacífico. Reunidos no topo de uma torre altíssima feita de tábuas mal pregadas, soldados são condecorados por um sargento seboso e enviados a uma derradeira e "honrosa" missão, sacrificando-se em nome da "arte" e da satisfação de seu obeso general.


Em se tratando de uma obra do Platige Image, é óbvio que "Fallen Art" é um deslumbre nos aspectos técnicos. Com um estilo mais cartunesco que o usado em "The Cathedral", "Fallen Art" consegue a proeza de ser ainda mais impressionante nos detalhes das paisagens, dos objetos e, principalmente, dos seres humanos. É sempre grande a dificuldade de se criar personagens vivos em 3D que não pareçam falsos demais, com movimentos mais realistas e um olhar que não pareça vazio, desfocado. Tomasz Baginski conseguiu tal feito, chegando ao ponto de conseguir transmitir uma emoção genuína pelo olhar do general, um ser de aparência grotesca cujos atos combinam perfeitamente com seu visual.

Como em todas as obras do Platige até o momento, não há nenhum diálogo em "Fallen Art", exceto uma pseudo-conversa entre o sargento e um soldado que se resume literalmente a um "blablabla" ininteligível. E ao contrário do hermetismo de "The Cathedral", "Fallen Art" é uma obra mais direta, uma comédia macabra que demonstra como os soldados sempre serão "buchas-de-canhão", seguindo ordens de oficiais com poderes supremos de vida ou morte. Não importa o quão estúpida ou inútil seja a missão, só lhes resta baixar a cabeça e cumprir à risca o que lhes é ordenado. E que jogada de mestre usar a animada música "Asfalt Tango", da banda romena Fanfare Ciorcalia, para retratar algo ao mesmo tempo artístico e brutal.



Vencedor do BAFTA 2006 (Reino Unido) como Melhor Curta-Metragem de Animação e do Golden Horse 2005 (Taiwan) como Melhor Curta Digital, "Fallen Art" continua sendo a obra suprema do Platige Image, pelo menos até que este resenhista possa colocar os olhos nos curtas "The Kinematograph" (2009) e "Paths of Hate" (2010) e, principalmente, no longa-metragem "HARDKOR 44", a ser lançado em 2012. Como este estúdio ainda não conseguiu lançar nenhuma obra de baixa qualidade, o risco de que tais animações sejam ruins é quase nulo. Até lá, fica a recomendação que é quase uma intimação: não deixem de ver "Fallen Art"!


Marcelo Reis


 

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ark (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 18/02/2011.

Alternativos: Arka
Ano: 2007
Diretor: Grzegorz Jonkajtys
Estúdio: Platige Image
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 8 min
Gênero: Drama / Sci-Fi



Segunda obra do diretor Grzegorz Jonkajtys ("Mantis"), "Ark" foi indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2007 como Melhor Curta, além de ser escolhido o melhor curta no Fantasporto 2008 e ganhar o prêmio principal no SIGGRAPH Computer Animation Festival, entre outras premiações.

Usando a sinopse do próprio estúdio Platige Image, um vírus desconhecido destrói quase toda a humanidade. Sem saber a verdadeira natureza da doença, sobreviventes fogem para o mar e, em grandes navios, saem em busca de terras desabitadas. E assim começa o êxodo, liderado por um homem...

Falar do Platige Image e elogiar os aspectos técnicos de suas obras é chover no molhado. Usando uma fotografia escura e com predominância de tons azulados e esverdeados, aliada à trilha sonora instrumental soturna, "Ark" possui o tempo inteiro um clima de desolação e falta de esperança, e a perfeição dos modelos 3D e das texturas ajudaram sobremaneira nesta tarefa. Tudo é feito com uma atenção extrema aos detalhes, e a sensação de opressão aumenta com o gigantismo do cenário, que parece uma favela dentro de um navio.


O personagem principal, aparentemente um cientista que busca a cura para a tal doença misteriosa, tem uma aparência que lembra demais o personagem Spock, de "Star Trek". Mais uma vez, há uma atenção extrema para os detalhes nas texturas de pele, nos pelos faciais, ainda que a movimentação dos personagens continue meio dura. Talvez esta seja uma deficiência do diretor Jonkajtys, uma vez que outros diretores do Platige, como Tomasz Bagiński ("Fallen Art") e Marcin Waśko ("Undo") já haviam criado personagens humanos com animação bem mais sutil.

Mas falar de "Ark" não se resume apenas à parte técnica. Mesmo com apenas 8 minutos de duração, "Ark" consegue demonstrar bem o desespero frente a uma situação insolúvel. A doença evolui sem parar, não há previsão de cura... o suicídio seria a saída adequada para evitar uma morte lenta e sofrida?



"Ark" é mais uma excepcional animação deste estúdio genial localizado em Varsóvia, na Polônia. Contemplativo e com um ótimo final, "Ark" mostra que, no final das contas, a liberdade é o verdadeiro objetivo, não importando os meios necessários para atingir tal meta.


Marcelo Reis


Animated History of Poland (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/02/2011

Alternativos: Animowana historia Polski
Ano: 2010
Diretor: Tomasz Bagiński
Estúdio: Platige Image
País: Polônia
Episódios: 1
Duração: 8 min
Gênero: Histórico


Apresentação educacional produzida pelo Platige Image para o Pavilhão da Polônia na EXPO 2010, em Shanghai, "Animated History of Poland" é um curta-metragem de animação que narra os 1000 anos de história da Polônia em apenas 8 minutos, se focando em vários momentos-chave deste período. Contando mais uma vez com a direção de Tomasz Bagiński (também conhecido por seu apelido, Tomek), a equipe do Platige Image se superou nos aspectos técnicos, e esta obra só não recebe a nota máxima em função de dois pequenos problemas, que serão citados mais à frente.

Logicamente que, em função da curtíssima duração, é praticamente uma obrigação que a narrativa tenha um ritmo alucinante. Usando como orientação apenas as datas dos eventos-chave, "Animated History of Poland" surpreende pela fluidez das transições entre um evento e outro. Ainda que um conhecimento prévio da história da Polônia ajude sobremaneira na identificação de todos os fatos descritos, os leigos também poderão curtir esta fenomenal obra de arte, já que as animações são tão bem-feitas e idealizadas que, na maior parte do tempo, não deixam muita margem para dúvidas.

A narrativa começa pelo início da existência da Polônia como país no ano 900, passando pela chegada do Cristianismo ao país e o consequente fim das religiões pagãs; as guerras contra vizinhos eslavos; a Batalha de Grunwald contra os Cavaleiros Teutônicos; a união com a Lituânia, formando a República das Duas Nações; a contribuição do país à Ciência e à Música com Copérnico e Chopin, a modernização e a chegada da indústria e do cinema; até chegar a eventos dolorosos como o período de 100 anos em que a Polônia deixou de existir como país, o início da II Guerra Mundial, o Pacto Germano-Soviético, os campos de concentração, o Levante do Gueto de Varsóvia. Mas aos poucos a Polônia se reergue, se livrando do jugo soviético com a ação decisiva do sindicato "Solidariedade" nos anos 80, se torna uma nação moderna e com liberdade de expressão, culminando na adesão do país à Comunidade Econômica Européia em 2004.



Claro que não dá para considerar o parágrafo acima como "spoiler", uma vez que se tratam de fatos históricos amplamente conhecidos e divulgados. A intenção de citar alguns eventos na resenha tem apenas o intuito de dar uma certa orientação àqueles que queiram apreciar esta magnífica obra com mais conhecimento de causa.

Mais uma vez, o que dizer do apuro técnico de mais uma obra do Platige Image? Simplesmente não há como colocar defeitos nas incríveis animações em 3D, tudo auxiliado por cenários belíssimos e muito bem modelados. O interessante é que, apesar do extremo bom gosto, não houve a preocupação em tentar criar algo extremamente próximo à realidade. Há um certo clima "cartunesco", digamos assim, que ajuda muito na dramaticidade e nas transições de imagem, não prejudicando em nada o impacto da obra. A emoção aumenta ainda mais com a trilha sonora imponente e arrepiante de Adam Skorupa e Krzysztof Wierzynkiewicz, com todos os temas se casando perfeitamente com as imagens e fatos exibidos.

Afinal, existe algum ponto negativo nesta animação? Conforme o comentado no início, na verdade existem dois. O primeiro é que, apesar da capacidade de síntese de Tomasz Bagiński, que merece aplausos por conseguir compilar 1000 anos de história em 8 minutos de forma coerente e agradável, a narrativa é excessivamente acelerada em alguns momentos. A inauguração da ferrovia ligando Varsóvia a Viena, por exemplo, é apresentada tão rapidamente que se o espectador piscar, literalmente não saberá o que aconteceu ali. E o segundo problema é o nacionalismo exacerbado da obra. Não dá para negar que a Polônia teve uma história sofrida, mas esta animação dá a impressão de que o país sempre foi a vítima em seus 1000 anos de História e quis apenas se defender o tempo todo. Infelizmente, sabemos que no mundo real as coisas não são bem assim. Basta relembrar o que a aliança Brasil-Argentina-Uruguai fez com o Paraguai para vermos que nós também não somos tão bonzinhos assim. De toda forma, não dava para esperar outro tipo de abordagem, uma vez que este filme foi patrocinado pelo governo polonês: é óbvio que os políticos nunca dariam um tiro no próprio pé.




Enfim, mesmo com estes pequenos reveses, "Animated History of Poland" é um primor em todos os aspectos. Vendo esta e outras obras do Platige, fica sempre a expectativa de que estes talentosos artistas poloneses consigam se tornar um pouco mais conhecidos ao redor do mundo, pelo menos entre o grande público. Talento e capacidade eles têm de sobra.


Marcelo Reis