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segunda-feira, novembro 21, 2016

Curtas sobre Curtas #04


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 21/11/2016

E eis que ressurge das cinzas a seção "Curtas sobre Curtas"! Apesar de continuar fã de animes e adorar resenhar séries, OVAs e longa-metragens da "Terra do Sol Nascente", me sinto um pouco em dívida com várias obras sensacionais lançadas ao redor do mundo todo. E o mundo dos curtas é perfeito para, de certo modo, "pagar" esta dívida: afinal, curtas-metragens, quer sejam de animação ou "live-action", estão longe de receber a mesma atenção que os longas da Pixar ou do Studio Ghibli, por exemplo.

E com tantas obras incríveis que merecem um reconhecimento maior, continuaremos usando esta seção para atiçar a curiosidade dos leitores e, quem sabe, despertar de vez a paixão pelos curtas de animação.

Hoje temos dois curtas clássicos da China, produzidos no início da década de 80.



THREE MONKS

Este premiado curta de animação do Shanghai Animation Film Studio (Urso de Prata para Curta-Metragem no 32º Festival de Berlim (1982); Melhor Animação no Golden Rooster Awards 1981; Melhor Animação no Huabiao Awards 1980) é baseado num antigo provérbio chinês:

"Um monge carregará dois baldes de água nos ombros, dois monges dividirão a carga, mas coloque um terceiro e ninguém vai querer buscar água."

Nesta obra de traços simples, cenários quase inexistentes, mas personagens expressivos e animação fluida, conhecemos um monge que vive num templo, no alto de uma montanha. Com seu indefectível robe vermelho, ele mantém a mesma rotina dia após dia: confere a água do vaso no altar do templo, desce toda a montanha para buscar dois baldes de água no rio, enche o barril com água para o dia, troca a água do vaso, e medita em frente ao altar até a hora de dormir.

A chegada de um 2º monge ao templo altera um pouco o dia-a-dia do templo. Magro, alto e com um robe azul, este 2º monge divide a carga do trabalho com o 1º monge, ambos tentando manter a rotina do templo intacta, ainda que um ou outro contratempo afete um pouco o andamento das coisas. Mas exceto por um ratinho que teima em aparecer para bagunçar o ambiente, no geral tudo continua fluindo bem.

Mas com a chegada de um 3º monge, baixo, gordo, com roupa alaranjada e que sua horrores debaixo do sol, as coisas tomam um rumo completamente diferente. Apesar de ter uma boa índole, este monge é bem glutão, não trabalha com a intensidade que seria recomendável. A busca da água no rio começa a ser motivo de discussões, a desarmonia e a desordem passam a imperar no templo, assim como a preguiça, a falta de disciplina e o desinteresse. Quanto ao futuro do templo? Só o tempo dirá...

Por se tratar de uma animação sem diálogos, "Three Monks" pode ser assistido sem problemas por pessoas de todos os lugares. Por esta razão, a excelente trilha sonora tipicamente chinesa tem papel fundamental, pois grande parte da emoção e da tensão é passada através dos sons, especialmente porque cada monge é representado por um instrumento específico. É um ótimo exemplo de utlização da música literalmente como uma linguagem universal.

Funcionando como uma sátira à burocracia do sistema, especialmente à ineficiência dos funcionários de repartições públicas, "Three Monks" mostra, de forma simples e eficaz, a importância de um trabalho em equipe eficiente para manter as coisas funcionando de acordo. E foi lançada num momento importante na China, o renascimento da animação chinesa, após o término do terrível período da Revolução Cultural.

PS: Há uma pequena cena após os créditos finais.



MONKEY FISHES THE MOON

Mostrando mais uma vez a versatilidade do Shanghai Animation Film Studio ao criar animações com as mais variadas técnicas, "Monkey Fishes the Moon" é praticamente todo realizado com animação de recortes, exceto em uma ou outra parte, em que a animação tradicional também é utilizada.

Um grupo de macacos vive numa floresta, sempre se divertindo, pegando frutas nas árvores, roubando comida uns dos outros... em outras palavras, fazendo "macaquices" sem parar. Certo dia, um dos macacos repara na bela lua cheia que surge entre as montanhas, e outro macaco acha que seria o máximo pegar aquele objeto redondo e reluzente. O grupo, então, abusa da curiosidade, criatividade e força de vontade para superar dificuldades e realizar o impossível.

Um detalhe que chama a atenção de cara é a trilha sonora: ao contrário da maioria das animações chineses produzidas antigamente, que utilizavam como fundo musical trilhas sonoras tipicamente chinesas, "Monkey Fishes the Moon" tem uma trilha com um climão de filmes americanos das décadas de 40 e 50, com uma forte presença de saxofone. E assim como "Three Monks", "Monkey Fishes the Moon" não contém diálogos, e a música tem efeito fundamental para complementar as emoções retratadas na tela.

Em termos visuais, esta obra é simplesmente primorosa. Os personagens são incrivelmente expressivos, a animação é super fluida e dinâmica, há uma atenção brutal aos detalhes dos movimentos corporais, sem contar o cuidado assombroso no uso de luz, sombras e cores. Mesmo se a narrativa em si não empolgasse, valeria a pena assistir a "Monkey Fishes the Moon" apenas para admirar a excelência técnica da obra.

Felizmente, o enredo é cativante, e a narrativa possui um ótimo ritmo, gerando uma tensão surpreendente para uma animação tão curta e teoricamente voltada mais para o público infantil. Sem passar a impressão de querer dar algum tipo de sermão, a obra mostra a importância do trabalho em conjunto, buscando o bem da sociedade como um todo. Quando o individualismo começa a imperar, com cada um pensando apenas no próprio bem-estar e querendo a todo custo uma posição de destaque no grupo, as coisas podem desandar de vez.

Mesmo com apenas 10 minutos, "Monkey Fishes the Moon" pode ser considerado uma das melhores animações do Shanghai Animation Film Studio, o que, convenhamos, não é pouca coisa.


Marcelo Reis


terça-feira, dezembro 16, 2014

The Tibetan Dog (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/12/2014

Alternativos: Tibet Inu Monogatari: Kin'iro no Dao Jie
Ano: 2011
Diretor: Masayuki Kojima
Estúdio: Madhouse
País: China / Japão
Episódios: 1
Duração: 90 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério



Baseado no livro "Zàng'áo" (Tibetan Mastiff), best-seller chinês de autoria de Yang Zhi Jun, "The Tibetan Dog" é uma co-produção entre China e Japão. Sendo mais específico, o financiamento foi todo chinês (China Film Group Corporation), mas a produção propriamente dita é inteiramente japonesa, cortesia de nossa velha conhecida Madhouse. Os diálogos originais foram gravados em mandarim, o que dá um pouco mais de autenticidade à obra, uma vez que ela se passa no Tibete. Convenhamos, teria sido muito mais interessante se os diálogos fossem em tibetano, mas seria pedir demais, ainda mais sendo uma obra financiada pela China.

A história é narrada por um senhor de meia-idade, Tenzing, que conta fatos ocorridos em sua própria infância. Tenzing saiu da cidade de Xi'an aos 10 anos de idade, após o falecimento de sua mãe chinesa, e foi procurar seu pai, Lhakpa, no Tibete. Lhakpa é de origem tibetana, conheceu a mãe de Tenzing na Faculdade de Medicina, e após se formarem como médicos e se casarem, foram morar no Tibete, pois ele queria usar seus conhecimentos médicos para ajudar a população carente da região - por atendê-los de graça, Lhakpa ganha a vida como pastor de ovelhas. Mas a mãe de Tenzing não se adaptou ao ambiente e ao estilo de vida tibetano, e acabou indo embora e levando o garoto ainda bebê consigo. Por esta razão, Tenzing mal conheceu o pai.

Tenzing não tem motivos para comemorar. Perdeu a mãe que tanto amava, o pai recebeu-o em sua tenda de forma fria e distante, a adaptação aos costumes e ao ambiente tão diferentes não tem sido nada fácil e, pra piorar, os garotos da região praticam "bullying" com ele. Ainda que Sonam, amigo de seu pai, e o cãozinho Wala tentem ajudá-lo a se adaptar e curtir a nova vida, Tenzing sofre com a distância do pai, do qual guarda rancor por ele não ter ficado ao lado da mãe quando ela mais precisava de apoio. Mas a entrada em cena de um belo e desconhecido mastim tibetano, de pelagem espessa e dourada, pode mudar completamente a vida do garoto e, por tabela, de todos os habitantes da região.

"The Tibetan Dog" poderia ter se tornado uma animação melodramática ou excessivamente edificante mas, felizmente, há um ótimo equilíbrio entre drama, ação e até um pouco de suspense. A relação que surge entre Tenzing e o mastim dourado evolui com naturalidade, já que ambos são forasteiros naquela aldeia; os problemas de relacionamento entre pai e filho são retratados de forma realista - Tenzing quer aproximar-se e saber mais sobre seu passado, enquanto Lhakpa mantém distância, pois quer que o filho seja forte e independente; a dor de Tenzing neste duro processo de adaptação à nova realidade em meio ao luto pela morte da mãe é palpável e convincente, e a flauta que recebeu de presente da mãe aparece em um momento particularmente tocante do filme, representando muito bem o amor e compreensão que havia entre ambos.


Ainda que exista uma certa aura Disney aqui e ali no tocante à amizade entre Tenzing e o mastim tibetano, chamado pelo garoto de Doogee (ou Do-khyi em tibetano), e também em relação ao cãozinho Wala, que serve como alívio cômico em várias partes da animação, "The Tibetan Dog" possui um clima mais pesado e adulto. Pessoas e animais começam a aparecer mortos pela ação de um assassino misterioso, que parece matar pelo simples prazer de fazê-lo. Estas mortes levam a boatos sobre a existência de um demônio assassino, e como o mastim dourado surgiu na região mais ou menos no mesmo período, as suspeitas começam a cair sobre ele.

Além de Tenzing, Lhakpa e Doogee, outros personagens importantes são Medhram, bela aprendiz de Lhakpa que quer pegar as melhores características existentes nas medicinas ocidental e chinesa, atua como importante apoio emocional a Tenzing; Amala, uma velha trambiqueira que vende poções inúteis aos aldeões, se acha a dona de pedaço mas morre de medo de Lhakpa; Norbu, neto de Amala, nutre grande curiosidade por Tenzing desde sua chegada, participa a contragosto de uma sessão de "bullying" contra o garoto mas acaba tornando-se seu amigo; Gyalo, o implacável líder de um bando de ladrões da região, possui um trato de não-agressão mútua com os habitantes da aldeia, mas começa a perder a sanidade quando sente de perto a dor causada pelo "demônio assassino"; e Tering, ancião e líder espiritual da aldeia, possui grande ascendência moral sobre todos na região, inclusive sobre a gangue de Gyalo.

Ainda que Doogee seja o principal mastim tibetano nesta animação, a raça como um todo é fundamental na narrativa. Os mastins tibetanos são cães desconfiados, que custam a se abrir para outras pessoas. Fortíssimos, defendem rebanhos e pessoas, mas os machos disputam fortemente o território com embates violentos e sangrentos. Para sobreviver numa região tão inóspita, com ar rarefeito e mudanças climáticas radicais, só mesmo uma raça tão especial quanto esta. E a Madhouse fez um trabalho de animação brilhante para representá-la à altura, tendo inclusive um diretor de animação específico para os animais: um ótimo trabalho de Kazutaka Ozaki.

Se alguém notar semelhanças entre o desenho de personagens em "The Tibetan Dog" e obras como "Monster" e "Master Keaton", não é mera coincidência, ja que Naoki Urasawa é responsável por esta função nesta animação, ao lado de Shigeru Fujita, também presente nos animes de "Monster" e "Master Keaton". E as ligações com estas duas obras não param por aqui, já que o diretor Masayuki Kojima também dirigiu os dois animes supracitados. 

O traço de Urasawa, como sempre, é excepcional, com personagens de feições muito diferentes entre si e uma expressividade impressionante no olhar. Mas se alguém merece muito crédito pelo visual estonteante de "The Tibetan Dog", esta pessoa é Yuji Ikeda. O diretor de arte em obras visualmente incríveis como "Fushigi Yuugi" e "The Heroic Legend of Arslan" conseguiu retratar o Tibete em todo o seu esplendor, tanto nas cenas ensolaradas em meio às pradarias quanto nos momentos agoniantes entre os grandiosos picos do Himalaia. Tudo isto, aliado à bela trilha sonora de Shusei Murai (Silver Spoon 1 e 2) repleta de temas orquestrais e percussões típicas tibetanas, torna "The Tibetan Dog" um verdadeiro banquete sensorial.



Sinto uma certa tristeza ao saber que "The Tibetan Dog" foi um fracasso terrível de bilheteria na China - com um custo de aproximadamente US$9 milhões, mal arrecadou US$200 mil nos cinemas chineses. É uma animação de excelente qualidade técnica, com uma narrativa empolgante e nada piegas sobre amizade e amadurecimento, personagens realistas e bem desenvolvidos e um ótimo equilíbrio entre ação e drama.


Marcelo Reis


 

sexta-feira, março 01, 2013

A Longa História dos Filmes de Animação da China

OBS: Texto publicado originalmente no Animehaus em 30/10/2009


Este artigo é uma tradução de parte da matéria "Creating an Animation ”Dream“ Factory", escrita por Zhang Xueying para o site "China Today". A equipe do "China Today" gentilmente cedeu os direitos do artigo, permitindo que o ANIMEHAUS fizesse uma tradução do texto, desde que fossem citados o nome do autor e do site, além de um link direto para a matéria do "China Today".

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Criando uma Fábrica de Animação "dos Sonhos"
Por ZHANG XUEYING (CHINA TODAY)


A Longa História dos Filmes de Animação da China.

Princess Iron-Fan
A indústria de animação chinesa começou nos anos 20. Em 1940, Wan Laiming criou o primeiro longa-metragem de animação da China, e o segundo criado em todo o mundo: "Princess Iron-Fan" (Tie Shan Gong Zhu). Antes disto, Walt Disney havia criado o primeiro longa-metragem de animação, "Branca de Neve e os Sete Anões" (Snow White and the Seven Dwarfs). "Princess Iron-Fan" influenciou um artista japonês, Osamu Tezuka, pioneiro da animação no Japão e criador do longa-metragem de animação "Astro Boy" (Tetsuwan Atom).

The Conceited General
Quando Osamu Tezuka visitou o Shanghai Animated Film Studio em 1981, seu único pedido foi para conhecer Wan Laiming, recorda-se Zhang Songlin, antigo vice-presidente do estúdio. "Quando perguntei o porquê, ele respondeu: 'Wan Laiming é meu mestre inspirador'". Isto deu grande motivação aos trabalhadores da animação chinesa.

Por causa da guerra, a produção de filmes de animação foi suspensa por algum tempo, até 1949, quando foi fundada a República Popular da China.

"A primeira onda da animação na China ocorreu ao final dos anos 50 e início dos anos 60," disse Jin Guoping, um pioneiro na indústria de animação da China. Animadores de peso começaram a se concentrar no Shanghai Animated Film Studio, incluindo Wan Laiming, pioneiro da animação na China.

Havoc in Heaven
"The Conceited General" (Jiao’ao de Jiangjun), produzido em 1956, é considerado um marco. "A partir deste filme, as animações chinesas começar a ter estilo próprio, diferente daqueles produzidos nos EUA, na ex-União Soviética e no Leste Europeu," disse Jin Guoping.

O filme mostra um general que venceu muitas batalhas e, em função disto, se tornou arrogante. Ela baixa sua guarda e acaba derrotado. Ele reflete um conceito filosófico tradicional chinês: "Orgulho leva à perda, enquanto a modéstia traz o benefício". As pessoas se impressionaram com a novidade de verem personagens usando roupas e maquiagens da Ópera de Pequim.


The Cowherd's Flute
De 1957 a 1962, Wan Laiming e sete outros animadores criaram em conjunto a famosa animação "Havoc in Heaven" (Da Nao Tian Gong). Desde então, a imagem do Rei Macaco (Sun Wukong) tornou-se popular entre o público chinês, assim como aconteceu com Mickey Mouse na América. "Havoc in Heaven" ganhou prêmios no 13o Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na Tchecoslováquia, em 1962, no Festival Internacional de Cinema de Londres, em 1978, e no Festival Internacional de Cinema Infantil de Quito. Em 1983, "Havoc in Heaven" foi exibido em 12 cinemas de Paris. Em um mês, o público chegou a 100 mil espectadores. Jornais franceses chamaram o filme de "uma genuína obra-prima da animação".

Ne Zha Conquers the Dragon King
Neste filme, cinco cores (verde, vermelho, amarelo, branco e preto) são usadas para criar diferentes papéis, como o Rei Macaco, o Imperador de Jade e o Deus da Terra. As imagens são exageradas e com formas bem definidas. "O filme captou o método de expressão dos murais chineses e das pinturas de Ano Novo," disse Zhang Songlin.

Muitos filmes de animação vieram depois, adotando um estilo tradicional chinês, como a série de animação para a TV "Journey to the West" (Hsi Yu Chi / Jornada ao Oeste). Outra importante animação do início dos anos 60 foi "The Cowherd's Flute" (Mu Di). Ele marcou a maturidade da animação chinesa com técnica de aquarela, e depois passou a ser usado como material de ensino nos EUA, tornando-se um filme de demonstração para estudantes americanos. "Eles não compreendem como os artistas chineses conseguiram o efeito de aquarela," disse Jin Guoping.


The Golden King Conquers the Evil
Durante a "Revolução Cultural" (1966-1976), muitos animadores foram forçados a suspender seu trabalho, enquanto a década após 1979 é considerada o segundo renascimento da criação de animações na China. Durante este período, foram criados três longas-metragens de animação, "Ne Zha Conquers the Dragon King" (Ne Zha Nao Hai), "The Golden King Conquers the Evil" (Jin Hou Xiang Yao / Monkey King Conquers the Demon), e "Secrets of the Heavenly Book" (Tian Shu Qi Tan), e foram produzidas as animações com técnicas de aquarela "Deer’s Bell" (Lu Ling), "Snipe-Clam Grapple" (Yu Bang Xiang Zheng) e "Feeling from Mountain and Water" (Shan Shui Qing). Além disto, foram produzidos mais de 200 curtas de animação, representados por "Three Monks" (San Ge He Shang) e "Snow Child" (Xue Hai Zi). "Os trabalhos produzidos neste período eram mais maduros. Houve progresso no desenvolvimento de personagens, organização do enredo e fotografia. Ainda assim, as características chinesas foram mantidas," disse Jin Guoping.

Feeling from Mountain and Water
"Ne Zha Conquers the Dragon King", em particular, é excelente. Neste filme, há mais de 100 tomadas mostrando ondas, todas usando métodos de pintura tradicional chinesa e totalmente diferente do mar mostrado nos filmes de Walt Disney. "Muitos espectadores disseram poder identificar de imediato que as cenas de ondas do mar haviam sido criadas por artistas chineses," disse Jin Guoping. "Muitas pessoas não sabem que 'Ne Zha Conquers the Dragon King' foi o filme da cerimônia de abertura do Festival de Cannes de 1980. Foi a recepção mais cortês já concedida a uma animação chinesa."


Lotus Lantern
Os curtas de animação "Three Monks" e "The Cowherd’s Flute" ganharam prêmios no Festival de Berlim e em Odense, Dinamarca. Estes sucessos internacionais geraram um novo termo: a escola chinesa de animação. "O estilo singular da técnica de papel cortado e pintura de paisagens a diferenciam dos estilos de Hollywood e da Europa," disse Jin Guoping.

No entanto, a situação piorou um pouco desde 1993. A indústria de animação chinesa foi novamente desafiada pelos filmes japoneses e americanos. Um longa-metragem de animação, "Lotus Lantern" (Bao lian deng), de 1999, planejado por Jin Guoping, é a animação chinesa No.1 em termos de bilheteria mas, até o momento, nenhuma animação feita na China conseguiu quebrar o recorde de 25 milhões de yuanes. Por isto, até o momento, o mercado chinês de animação ainda é dominado pelas companhias de animação japonesas e euro-americanas.

(Tradução de Marcelo Reis - webmaster ANIMEHAUS)

Where is Mama? (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/08/2008.

Alternativos: Xiao Ke Dou Zhao Mama; Where´s Mama?
Ano: 1960
Diretor: Te Wei / Qian Jiajun
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 15 min
Gênero: Aventura / Fantasia


Curta-metragem de animação dirigida por Te Wei, um verdadeiro mestre que infelizmente ainda é pouco conhecido em nosso país, "Where is Mama" é uma obra de temática simples, mas que tem importância fundamental na história da animação mundial em função da técnica revolucionária utilizada: criar uma obra animada usando técnicas de desenho com pincel e tintas à base de água, como a aquarela.

Para explicar melhor o porquê desta importância, tomo a liberdade de usar algumas informações fornecidas pelo próprio Te Wei em uma entrevista que deu ao site Animation World Magazine. Te Wei comenta que aceitou o desafio de criar uma obra animada usando uma técnica tão desafiadora ao ouvir um comentário do então Vice-Presidente chinês Chen Yi, o qual dizia ter a esperança de que, um dia, as pinturas do famoso artista chinês Qi Baishi pudessem ser animadas.

O resultado alcançado é impressionante. Basta comparar algumas gravuras de Qi Baishi no site China the Beautiful com as imagens animadas de "Where is Mama" para perceber a excelência do trabalho de Te Wei e sua equipe do Shanghai Animation Studio. Só o fato de terem conseguido reproduzir fielmente o estilo visual de Qi Baishi já seria motivo de elogios, mas conseguir adicionar a tudo isto uma animação fluida e cheia de detalhes de degradê e transparência... só mesmo um gênio do calibre de Te Wei para ser bem sucedido em tal façanha.


A história em si é muito, muito simples. Vários girinos nascem justamente quando sua mamãe-rã se ausenta por alguns instantes. Ao verem alguns pintinhos brincando com a mamãe-galinha, os girinos sentem a falta de sua própria mãe e saem nadando pelo rio importunando a todos os animais da região, perguntando se algum deles era a sua mamãe.

Os animais em "Where is Mama" não são antropomorfizados, todos possuem movimentos e comportamentos bem próximos aos animais reais, exceto em alguns momentos nos quais a expressão facial chega a ser um pouco mais cartunesca. Não há diálogos na obra mas, sim, uma narração em mandarim que não apenas conta a história, mas tenta expressar o que os animais parecem dizer. A trilha sonora instrumental é tipicamente chinesa, com destaque para os instrumentos de corda (em especial o Banhu) e sopro (Houguan e Guan Zi), e transmite bem o clima bucólico e leve que permeia toda a obra.

Mas o destaque, sem dúvida, é o estilo de animação. A cada novo animal ou paisagem que aparece na tela, ficamos impressionados não apenas com a beleza do traço e a sutileza das cores mas, principalmente, com a fluidez e a perfeição da animação. Observar um caranguejo cujas oito patas movimentam-se com perfeição, um peixe cuja enorme cauda translúcida se agita suavemente na água, bolhas de água que enriquecem o ambiente, além de vários outros detalhes sutis presentes a todo momento, e pensar que tudo aquilo foi feito usando uma técnica de pintura com aquarela, chega a ser realmente inacreditável. Para se ter uma idéia das dificuldades envolvidas neste tipo de animação, basta dizer que apenas três outras obras animadas foram feitas com a mesma técnica: "The Cowboy´s Flute" e "Feelings from Mountain and Water", ambos do próprio Te Wei, e "The Deer´s Bell", animação dirigida por Wu Qiang e Tang Cheng.



Em função da curta duração e da simplicidade do enredo, "Where is Mama" não tem nada de excepcional em termos narrativos, ainda que seja muito agradável de se ver. Mas esta pequena obra-prima possui um valor histórico evidente, em função de seu estilo único de animação, e merece ser um pouco mais divulgada no Ocidente. Afinal, se não fosse por Te Wei e outros colegas igualmente talentosos do Shanghai Animation Studio, como os irmãos Wan Laiming e Wan Guchan, provavelmente um outro mestre chamado Osamu Tezuka não teria se interessado em trabalhar como artista, o que teria mudado sobremaneira todo o mundo dos mangás e animes da forma como o conhecemos hoje.


Marcelo Reis


 

The Cowboy´s Flute (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 30/08/2008.

Alternativos: Mu Di; The Cowherd´s Flute; The Buffalo Boy and his Flute
Ano: 1963
Diretor: Te Wei / Qian Jiajun
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 20 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia


Lançado três anos após "Where Is Mama?" e utilizando a mesma técnica de animação, "The Cowboy´s Flute" mostra uma grande evolução em termos técnicos e narrativos por parte de Te Wei e sua equipe. De acordo com a ficha técnica do DVD "Chinese Classical Animation - Te Wei Collection", ao invés de utilizar as pinturas de Qi Baishi como inspiração nesta obra, Te Wei homenageou o estilo de Li Keran, pintor contemporâneo famoso por retratar a região campestre ao sul do rio Yangtze.

Em "The Cowboy´s Flute", um garoto guia seu búfalo pelos pastos, rios e montanhas da região onde vivem. Um verdadeiro prodígio ao tocar sua flauta de bambu (Dizi), o garoto se aproveita da música que produz para orientar seu búfalo com maior facilidade, uma vez que o animal não o obedece sem a ajuda da melodia. De certa forma, isto é culpa do garoto, pois ao invés de tentar se harmonizar com o animal e com a natureza ao redor, ele tenta se impor através do controle físico e de seu incrível talento musical

Certo dia, ao adormecer no alto de uma árvore, o garoto começa a sonhar e percebe que, sem sua flauta, ele não consegue se comunicar nem dominar o búfalo. Seria possível algum tipo de comunicação entre ambos sem o auxílio do instrumento? Talvez uma relação baseada na harmonia, e não na imposição?

Obviamente, por se tratar de uma animação protagonizada por um flautista, este instrumento de sopro predomina na trilha sonora, ainda que auxiliado por uma base tipicamente chinesa com instrumentos de cordas. "The Cowboy´s Flute" ainda é beneficiado pelo uso inteligente dos efeitos sonoros, pois como a natureza é quase um personagem adicional na história, nada mais justo do que marcar sua presença através do sons do vento, cachoeiras, entre outras coisas.


Nesta obra, Te Wei atuou como roteirista e diretor, dividindo esta última função com Qian Jiajun, e apesar de não usar nenhum tipo de diálogo ou narrativa, "The Cowboy´s Flute" tem um enredo perfeitamente compreensível. A história é bem simples, e como na maioria das animações produzidas na China nesta mesma época, pode ser vista como um tipo de alegoria que remete à política de Mao-Tsé Tung e de todo o Partido Comunista naquele período, pregando a humildade por parte de quem está no poder e a união de todos em busca de um bem comum. Mas com um artista como Te Wei no comando, uma obra que poderia se tornar panfletária se transforma numa verdadeira poesia visual e musical.

Logicamente, o estilo visual ainda é o grande destaque. Se a técnica de aquarela usada em "Where Is Mama?" já impressionava, aqui as coisas atingem um patamar muito mais elevado. A começar pelos cenários, quase inexistentes em "Where Is Mama?" e que aqui são desenhados e animados com uma tremenda riqueza de detalhes. Nuvens translúcidas que envolvem as montanhas, folhas e bambus balançando ao vento, rios que correm pelos campos e formam cachoeiras tão impressionantes que só vendo para crer.

Mas não é apenas o cenário que merece destaque em termos visuais. Os personagens, humanos ou não, possuem movimentos e expressões faciais cheios de detalhes e sutilezas, e neste aspecto o búfalo é o elemento mais interessante, pois possui uma expressão tranqüila e curiosa que combina perfeitamente com seu comportamento "viajandão". O fato do garoto possuir feições chinesas dá um maior clima de autenticidade à obra, como se a história realmente se passasse às margens do rio Yangtze. Esta sensação de autenticidade é auxiliada por detalhes que mostram um pouco do dia-a-dia na vida dos chineses que vivem no campo: os pastos e campos de plantio de arroz, trabalhadores braçais caminhando nas estradas de terra, crianças brincando à beira dos lagos...



Obra simples, mas muito poética e tecnicamente irrepreensível, "The Cowboy´s Flute" é mais uma demonstração de que é possível criar verdadeiras obras-primas da animação a partir de desenhos feitos à base de pincel e aquarela. E com um mestre como Te Wei controlando o timão, só mesmo um acidente poderia impedir "The Cowboy´s Flute" de ser a maravilha que é.


Marcelo Reis


 

The Conceited General (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/10/2008.

Alternativos: The Proud General; Jiao’ao de Jiangjun
Ano: 1956
Diretor: Te Wei
Estúdio: Shanghai Animation
País: China
Episódios: 1
Duração: 23 min
Gênero: Comédia / Fantasia


"The Conceited General" é uma produção realizada pelo Shanghai Animation Studio em 1956, com roteiro de Hua Junwu e direção de Te Wei. Este curta-metragem marcou o início de um rico período da animação chinesa, com obras inovadoras do ponto de vista técnico e narrativo e com características que as diferenciavam sobremaneira das animações produzidas em outras partes do mundo.

Como diz o próprio título da obra, acompanhamos nesta animação as peripécias de um rei convencido e rodeado por bajuladores. Considerado o soldado mais forte e o melhor atirador existente, e tendo recebido o título de "Herói Nº1 da China" em função de suas várias vitórias no campo de batalha, este rei agora só quer saber de receber elogios, exibir sua força e seus talentos, além de comer, beber e curtir os louros das vitórias. Sem aceitar qualquer tipo de questionamento, o rei fanfarrão só se importa com si próprio e não se preocupa com o sucesso prolongado de suas campanhas: para ele, só interessa o que acontece aqui e agora. Se a paz parece ser duradoura, por que se preocupar com uma guerra que pode não chegar nunca? Resta saber o que poderá acontecer com este reino no futuro, pois guiado por um comilão preguiçoso e contando com um exército sem qualquer tipo de comando, as perspectivas não são nem um pouco animadoras.


A primeira coisa que chama a atenção em "The Conceited General" é o estilo artístico visual e musical. Muitas coisas foram inspiradas na Ópera de Pequim, como a pintura usada no rosto do general, os cenários e objetos em cena, e a trilha sonora tipicamente chinesa, repleta de tambores, pratos e flautas. Por outro lado, o desenho de personagens, a movimentação dos mesmos e a estrutura narrativa possui uma certa semelhança com algumas obras de Walt Disney. Os movimentos e expressões usados, assim como a dublagem, indicam bem o caráter dos personagens (dissimulados e escorregadios, ou humildes e comedidos). Uma informação interessante contida na "Chinese Classical Animation: Te Wei Collection DVD" diz respeito a algumas mulheres que aparecem dançando: elas não possuem detalhes faciais, e toda a ênfase acabou sendo colocada na movimentação de seus lenços de seda, no fundo o que realmente importa na seqüência em questão.

A animação em si é um primor, extremamente fluida em todos os momentos, inclusive nos cenários e personagens de fundo. Usando a tradicional técnica de animação em acetato, a equipe do Shanghai Animation Studio não deixou de adicionar detalhes minuciosos como transparência nos tecidos e brilho nos objetos metálicos.

Em termos históricos, houve um grande incentivo às artes na China após a Revolução de 1949, para que pudessem ser usadas como propaganda comunista. "The Conceited General" era visto à época como uma demonstração de que a vontade coletiva era mais importante que a individual, e que ninguém deveria se julgar excessivamente superior às demais pessoas.



O enredo é relativamente simples e a narrativa se arrasta um pouco em determinados momentos mas, no geral, "The Conceited General" é mais um belo exemplo desta fase de ouro da animação chinesa. Uma época que poderia ter durado muito mais tempo, não fossem os tristes eventos causados pela infame "Revolução Cultural" iniciada em 1966, que praticamente acabou com a produção artística chinesa por vários e vários anos.


Marcelo Reis