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sexta-feira, março 01, 2013

Perfect Blue (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 19/10/2002.

Ano: 1997
Diretor: Satoshi Kon
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 80 min
Gênero: Drama / Mistério / Violência


Se existe uma coisa que irrita profundamente a todos nós, fãs de animes, é ouvir comentários como "anime é coisa para criança", ou "pra que perder tempo com esta bobagem?"! E não adianta tentar explicar que não é bem assim, que mangás e animes tem uma importância vital na cultura japonesa e são apreciados por pessoas de todas as idades... para os leigos, animes não passam de um ajuntamento de personagens de olhos enormes que só sabem gritar e fazer caretas. Para estas pessoas, a receita infalível é uma só: assistam Perfect Blue e salvem-se da ignorância! ^_^

Perfect Blue é um excepcional anime para adultos, baseado na novela escrita por Yoshikazu Takeuchi. Conta a história de Mima Kirigoe, líder da banda de J-Pop CHAM que abandona a carreira de cantora para se tornar atriz. Apesar dos protestos de sua produtora Rika Hidaka, outrora uma cantora pop como Mima e para quem a conciliação entre as duas carreiras seria o ideal, Mima decide seguir o caminho que, profissionalmente, parece ser o mais adequado... no caso, a carreira de atriz.

Ao tomar conhecimento do site "O Quarto de Mima", ela percebe que alguém sabe DEMAIS sobre sua vida e, ainda pior, vê que a mudança de rumo na carreira não agradou a todo mundo. Não é apenas o futuro profissional de Mima que está em risco... sua vida também está por um fio.



Contando com a direção magnífica de Satoshi Kon, também co-responsável pelo desenho de personagens, e um roteiro brilhante de Sadayuki Murai, Perfect Blue é daqueles animes para ficar na memória por muito tempo. Possui um visual incrível e super realista e uma animação fabulosa, com algumas tomadas de câmera impressionantes, especialmente nas seqüências mais agitadas. A história é muito complexa, e a alternância entre consciência e alucinação é feita com tamanha perfeição que nós mesmos, pobres espectadores, começamos a pirar do lado de cá! ^_^ A trilha sonora aumenta ainda mais a sensação de se estar dentro de um pesadelo.

Mima é uma personagem incrível. Linda e de aparência delicada, Mima precisa lutar para manter a sanidade frente às terríveis situações que tem que enfrentar. A parte psicológica de todos os personagens é muito bem trabalhada neste anime, no qual realidade e fantasia se misturam de forma marcante. Perfect Blue não é recomendado para pessoas muito jovens ou de estômago fraco, pois possui muitas cenas violentíssimas e impressionantes. Além disto a complexidade da história pode afastar um pouco quem procura apenas um anime para distrair a cabeça.



Perfect Blue é um senhor filme, obrigatório para qualquer pessoa que curta uma história bem escrita e com imagens antológicas. Depois de Perfect Blue, quero ver se alguém tem coragem de dizer que anime é uma bobagem! ^_^


Marcelo Reis


 

Tokyo Godfathers (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/08/2004.

Ano: 2003
Diretor: Satoshi Kon
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 92 min
Gênero: Comédia / Drama


Prezado Satoshi Kon, teremos que entrar em um acordo: ou o senhor pára de dirigir animes excepcionais de uma vez por todas, ou minhas "reviews" relacionadas às suas obras perderão a graça. Já vejo a reação dos leitores: "Ahn... é do Satoshi Kon? O "xodó" do Marcelo Reis? Nem preciso ler o texto, a nota vai ser alta mesmo...". Além disto, Kon-san, como o senhor se dá ao luxo de mudar completamente de estilo entre uma obra e outra, sem perder o controle em momento algum? Passou do violento suspense de "Perfect Blue" para a emocionante e nostálgica fantasia de "Sennen Joyu" com a maior naturalidade e, agora, em sua terceira obra, cria uma hilária história de Natal protagonizada por três mendigos e que não apela para a pieguice em nenhum momento. Suspense, fantasia, comédia, tudo realizado com extrema competência... já está na hora de errar a receita do bolo, não acha?

Ironias à parte, o fato é que Satoshi Kon realmente tem se mostrado um profissional muito acima da média, e fico a imaginar se algum dia ele dirigirá um anime ruim, já que, até o momento, sua filmografia tem sido impecável. Responsável pela direção, história original, desenho de personagens (ao lado de Kenichi Konishi) e roteiro (em conjunto com Keiko Nobumoto, criadora de Cowboy Bebop e Wolf's Rain), Satoshi Kon vem provando a cada dia que é, disparado, o mais genial profissional da animação japonesa nos dias atuais (Hayao Miyazaki e Isao Takahata à parte, é claro).

Mas, afinal, do que se trata "Tokyo Godfathers"? O título leva a crer que o anime possa ter algo a ver com "gângsters", com a Máfia ou mesmo a Yakuza, mas não é nada disto. A história, conforme os comentários iniciais, gira em torno da vida de três mendigos, Gin, Miyuki e Hana, os quais vivem nas ruas de Tóquio e formam um grupo inusitado. Gin é um barbudão que vive como mendigo há anos, gosta de tomar uns goles caprichados e não é muito chegado a assumir compromissos. Nervosão, Gin costuma quebrar o pau com Miyuki, uma jovem e rebelde garota que fugiu de casa. Totalmente desbocada, Miyuki não mede as palavras na hora de soltar impropérios aos companheiros de infortúnio. Finalmente, temos Hana, uma engraçadíssima ex-"drag-queen" que assume o papel de verdadeira "mãezona" dos inconseqüentes Gin e Miyuki. Delicada e emotiva, Hana sonha em ter um filho mas, por motivos óbvios, não tem condições de realizar o seu desejo.


Após assistirem, na noite de Natal, a uma montagem teatral sobre o nascimento de Jesus, Gin e Hana resolvem fazer uma busca nos depósitos de lixo de Tóquio, tentando encontrar um presentinho interessante para a jovem Miyuki. No meio do bate-boca tradicional que sempre acontece entre os três, ouve-se um choro ao longe... Em meio a vários sacos de lixo, os três mendigos, horrorizados, encontram uma criança recém-nascida, aos prantos, e um bilhete: "Cuide desta criança". Hana quer levá-la para casa e cuidar dela como se fosse sua filha, mas Gin e Miyuki conseguem convencê-la de que isto é loucura e que precisam entregar a criança à polícia. Hana aceita em termos: prefere procurar pela verdadeira mãe da criança, para saber a razão pela qual cometeu um ato tão abominável. Tendo apenas uma chave como ponto de partida, o trio de mendigos sai pelas ruas de Tóquio em busca da mãe da Kiyoko (nome que deram à criança). Neste processo, uma seqüência de eventos milagrosos e coincidências fazem com que Gin, Miyuki e Hana reflitam sobre o próprio passado e os eventos que os levaram a esta situação de mendicância e, por que não, de infelicidade.

Tecnicamente, "Tokyo Godfathers" é o mais bem acabado anime de Satoshi Kon. A cada dia que passa, torna-se mais difícil comentar sobre a animação realizada pela Madhouse sem cair em lugares-comuns. Os cenários, baseados em paisagens reais de Tóquio, são deslumbrantes, parecendo verdadeiras fotografias em alguns momentos. As tomadas de câmera continuam impecáveis, com os mesmos efeitos inventivos e realistas utilizados em "Perfect Blue" e "Sennen Joyu". Personagens, carros, tudo é animado com uma fluidez e perfeição notáveis. Merece destaque o cuidado utilizado nas expressões faciais dos personagens, com uma sutil mistura entre traços tradicionais e exageros na linha "SD - Super Deform", assim como a sutileza nos movimentos corporais, que se adaptam com perfeição à personalidade de cada integrante da história. Não dá para deixar de citar a impagável e lisérgica seqüência "A História do Diabo Vermelho", momento inspiradíssimo de Kon & Cia.

O roteiro de Satoshi Kon e Keiko Nobumoto é primoroso: evita cair no dramalhão e na pieguice mesmo nas horas mais dramáticas, imprime um ritmo vigoroso sem acelerar o andamento da história e ainda provoca gargalhadas convulsivas no espectador. Os personagens principais são carismáticos e nada estereotipados, e possuem qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Estas características mais realistas de suas personalidades fazem com que o público se identifique com seus problemas e conflitos com mais facilidade. Dá vontade de pegar um avião para Tóquio e convidar os três para tomar um "sakezinho" e jogar conversa fora! É impossível não rir ou se emocionar com os dramas de Hana, os resmungos de Miyuki ou as caretas impagáveis de Gin. Méritos também dos "seiyuus" responsáveis pela dublagem destes personagens, os quais realizam um trabalho, no mínimo, brilhante.

O único ponto levemente negativo de "Tokyo Godfathers" diz respeito ao excesso de coincidências que acontecem ao longo do anime. Tudo bem que se trata de uma obra relacionada ao Natal e aos milagres que podem acontecer nesta época, e realmente tudo parece conspirar divinamente a favor de nossos amigos, mas uma quantidade menor de "eventos milagrosos" teria sido muito benéfica ao anime como um todo.



Quem dera se todo filme "de Natal" tivesse metade do carisma e do encanto de "Tokyo Godfathers"! Sem apelar para mensagens edificantes vazias ou coisas do gênero, "Tokyo Godfathers" é a prova inconteste de que o talento de Satoshi Kon não é algo passageiro. Com 3 espetaculares longa-metragens no currículo, não dá para dizer que todo o sucesso deste talentoso diretor seja apenas mera obra do acaso. "Tokyo Godfathers" pode não ser um anime tão revolucionário quanto as obras anteriores de Kon, mas é, de longe, o mais divertido deles. Entretenimento de primeira!


Marcelo Reis


 

Millennium Actress (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/03/2004.

Alternativos: Chiyoko Millennial Actress, Sennen Joyu
Ano: 2001
Diretor: Satoshi Kon
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 87 min
Gênero: Drama / Comédia / Fantasia



Satoshi Kon e Sadayuki Murai abalaram o universo dos animes em 1997, com a criação de Perfect Blue. Com uma trama intrincada, animação de primeira e doses cavalares de violência, Perfect Blue é, ainda hoje, um dos melhores animes direcionados para o público adulto. Impressiona ainda o fato de Perfect Blue ter sido o primeiro anime dirigido por Satoshi Kon... um estreante com tamanho domínio na arte de direção, além de brilhar como roterista e desenhista de personagens, certamente daria muito o que falar. E Millennium Actress veio comprovar não apenas o talento irretocável de Satoshi Kon na direção mas, ainda, a maestria de Sadayuki Murai na construção de roteiros envolventes (com o auxílio de Kon, mais uma vez).

Fujiwara Chiyoko é uma bela senhora de 70 anos. Outrora uma atriz famosa e, sem dúvida, a grande estrela do Estúdio Ginei, Chiyoko vive escondida em uma casa, no centro de um belo bosque, evitando qualquer tipo de agitação, entrevistas ou contato com o grande público. Uma equipe de TV do Estúdio Lotus começa a gravação de um documentário sobre o agora defunto Estúdio Ginei, o qual se encontra em processo de demolição. Falar sobre o Ginei sem mencionar sua estrela maior seria uma heresia e, para alegria do repórter Tachibana Genya e seu câmera Kyoji, Chiyoko aceita ser entrevistada. Em meio a pequenos terremotos que teimam em aparecer o tempo todo, o ansioso e emocionado Tachibana entrega algo para Chiyoko. A expressão da velha atriz mostra claramente como aquele pequeno objeto era importante para ela, e a emoção resultante desencadeia uma série de lembranças de seu passado, nas quais realidade e fantasia se misturam de forma mágica. Tachibana e Kyoji, assim como os espectadores, vivenciam cada experiência de Chiyoko como se estivessem, literalmente, dentro de cada uma delas.

É difícil não se emocionar com este maravilhoso anime, uma das experiências cinematográficas mais inesquecíveis dos últimos anos. É de se admirar a mudança radical no estilo de Satoshi Kon, pulando de um violentíssimo e cerebral Perfect Blue para o mundo mágico e surreal de Millennium Actress. Os 4 anos que separam os dois animes mostram como Satoshi Kon evoluiu como diretor, mesclando realidade e ficção com uma naturalidade impressionante, sem forçar a barra em nenhum momento. Claro que grande parte do mérito se deve ao criativo roteiro, que adiciona toques humorísticos nos momentos certos (as reações de Tachibana e Kyoji às situações surreais são impagáveis) e não deixa nenhuma amarra solta no enredo.


As cenas dos filmes nos quais Chiyoko trabalhou, assim como os eventos marcantes em sua vida, juntam-se aos poucos para contar sua maravilhosa estória. Apesar de idosa, Chiyoko ainda possui aquela aura jovial que, não por acaso, a tornara tão requisitada quando jovem. Sonhadora, Chiyoko adorava tirar fotos, mas a mãe repressora não gostava da idéia de ter uma filha-atriz: para ela, Chiyoko deveria levar uma vida quadradinha, com marido, filhos e cuidando da casa. Desnecessário dizer que as coisas tomaram um rumo completamente diferente. ^_^ Chiyoko era capaz de amar, mas uma pessoa tão especial não poderia viver um amor qualquer mas, sim, algo tão forte que se tornasse a força-motriz por trás de sua existência.

Ainda sobre os personagens, Tachibana Genya é um cara hilário, e parece ter uma participação importante no passado de Chiyoko. Não é à toa que ele se envolve de corpo e alma nas vívidas lembranças de Chiyoko, deixando o pobre câmera Kyoji com cara de interrogação o tempo todo.

E como falar de Millennium Actress sem mencionar a excelência nos aspectos técnicos? A animação, mais uma vez a cargo da incrível Madhouse, é fantástica, desde a perfeita movimentação dos personagens até as criativas tomadas de câmera. Todo o ambiente é retratado em cores suaves, com cenários caprichados mas sem excesso de detalhes. O desenho de personagens é maravilhoso, e a jovem Chiyoko é uma das mais belas personagens femininas já criadas em um anime. Não podemos nos esquecer da ótima trilha sonora de Susumu Hirasawa (Berserk), um trabalho repleto de nuanças eletrônicas e belas melodias, e que lembra, em alguns momentos, as trilhas minimalistas de Philip Glass.



Muito tem sido dito sobre o talento de Satoshi Kon, dizendo que ele pode se tornar o "novo Miyazaki". Os estilos de ambos são completamente diferentes, e talvez ainda seja cedo para se fazer uma comparação entre eles, mas é inegável que o talento de Satoshi Kon é algo fora do normal. Com Millennium Actress, seu segundo filme, ele atingiu um grau de maturidade que muitos profissionais sequer imaginam alcançar ao longo de toda a carreira, dando mostras de que será um diretor para ser lembrado por muitas gerações. Satoshi Kon brinda os fãs com uma obra-prima irretocável, uma fantástica estória de amor para ficar gravada na memória. Imperdível!


Marcelo Reis