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quarta-feira, janeiro 18, 2017

Curtas sobre Curtas #06

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 18/01/2017

Dando continuidade à série "Curtas sobre Curtas", temos duas animações com temáticas e estilos visuais completamente distintos. Em comum, a excelente qualidade de ambas.


THE BIG SNIT

Muita gente costuma dizer que toda e qualquer coisa é passível de se tornar objeto de humor. Pessoalmente, não concordo muito com isto. Por exemplo, acho de um mau gosto incrível fazer piadas sobre pessoas que acabaram de morrer, independentemente se são pessoas famosas (Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, etc) ou não. Acho falta de respeito não só com quem morreu mas, principalmente, com parentes e amigos de quem faleceu, que além de ter que lidar com a dor da perda, são obrigados a ouvir gracinhas e desrespeitos às custas do ente querido que morreu.

Outro exemplo de humor com um assunto sério que não me agradou: o filme "A Vida É Bela", de Roberto Benigni. À época do lançamento do filme, houve um clima meio de guerra, meio Copa do Mundo, por causa da rivalidade com "Central do Brasil" em função da disputa do Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1998. Mas meu desagrado com o filme não tem a ver com isto, apesar de ainda achar uma injustiça sua premiação em detrimento do belíssimo filme de Walter Salles Jr. Não curti mesmo o fato do filme fazer humor com o Holocausto, gerando situações engraçadinhas em um ambiente que, na vida real, era um verdadeiro inferno na Terra. Muita gente gostou, mas este tipo de humor não é pra mim.

E o que todo este falatório tem a ver com "The Big Snit"? O fato desta animação canadense fazer humor com outro assunto muito sério: a destruição do mundo por uma guerra nuclear. E sabem o que é mais incrível? Eu amei esta animação! Como isto é possível? Continuem lendo pra saber.

Escrito e dirigido por Richard Condie em 1985 e produzido pela National Film Board of Canada, "The Big Snit" foi muito premiado ao redor de todo mundo (Annecy, Genie Award, entre outros), além de ter sido indicado ao Oscar de Curta de Animação em 1986. Numa cidade qualquer, um casal está jogando palavras-cruzadas de tabuleiro. A esposa, com um cabelão "à la" Marge Simpson e olhos que insistem em sair de foco - precisando inclusive ser arrancados da cara e sacudidos pra voltar ao normal - aguarda que seu marido faça a sua jogada, para que ela possa fechar a partida. O marido com dentes de retroescavadeira, por outro lado, encontra-se numa "sinuca de bico", e ainda assim continua tentando uma solução para um problema impossível.

Cansada de esperar, ela resolve ir arrumar a casa neste meio-tempo. O marido aproveita para ver seu programa favorito: "Aprenda a Serrar para Adolescentes", e fica doido pra serrar sofá, mesa e o que mais pintar na frente. Tamanha excitação o faz cair no sono um pouco depois, e em função disto, nem ele nem a esposa, que estava fora da sala, veem um boletim urgente na TV, dizendo que uma guerra nuclear global acabou de ser deflagrada. Tudo começa a entrar em colapso, as pessoas entram em pânico, mas o casal, alheio ao que está acontecendo, tenta voltar ao jogo, começa a discutir por motivos fúteis, sem imaginar que o mundo está em seus momentos finais.

"The Big Snit" possui traços bem cartunescos e simples, com colorido suave, e uma animação de boa qualidade. A dublagem do casal é excelente, especialmente nos momentos em que a briga entre ambos começa a esquentar pra valer. E não dá pra esquecer do hilário gato de estimação dos dois: só ouvindo os gritos dele pra entender.

O diretor Richard Condie conseguiu a proeza de tratar um assunto sério como o holocausto nuclear com humor, sem apelar nem forçar a barra, e mantendo o bom gosto o tempo inteiro. Talvez seu grande mérito tenha sido manter o foco no relacionamento pessoal do casal, mostrando como as pessoas gastam tempo e energia brigando por tolices e futilidades enquanto o mundo está literalmente chegando ao fim do lado de fora. E o fato do casal realmente não ter idéia do que está acontecendo torna tudo muito crível, mesmo com todo o humor exagerado. Por outro lado, o desconhecimento de ambos do que está por vir acaba fazendo com que seus últimos momentos sejam mais plenos e satisfatórios do que para o restante da população. E fica a dúvida: até que ponto o conhecimento sobre algo pode ser melhor que a ignorância, e vice-versa?

Assim como o humor em "A Vida É Bela" não me agradou, pode ser que o humor em "The Big Snit" não agrade a algumas pessoas. Mas se tiverem um tempinho e disposição, deem uma chance a esta animação de apenas 10min. Pode ser que tenham uma agradável surpresa.


NO ROBOTS

Em algum momento no futuro, robôs fazem parte da vida cotidiana, mas a convivência com os humanos está longe de ser pacífica. Constantemente presos pela polícia e agredidos por uma turba ensandecida que pede o seu banimento, os robôs precisam viver na clandestinidade.

Um comerciante decide colocar uma placa de "Proibido Robôs" na entrada de sua confeitaria. Mesmo parecendo ser uma pessoa instruída, com vários livros em sua estante que criticam a intolerância (O Senhor das Moscas, O Sol É Para Todos, O Jogo do Exterminador), o comerciante parece cego e embarca na onda de ódio irracional da turba contra os autômatos. E quando ele descobre que um robôzinho está roubando leite de sua loja, o cara fica simplesmente possesso, deixando no ar a dúvida: quem é o verdadeiro ser irracional aqui?

Projeto em conjunto do taiwanês Yung-Han Chang e da americana Kimberly Knoll, alunos à época da San José State University Animation/Illustration, "No Robots" possui um estilo visual que lembra muito as obras de Masaaki Yuasa (Mindgame), especialmente na movimentação dos personagens. Os traços são suaves e expressivos, e os cenários, apesar de não serem super detalhados, são bem-feitos e de muito bom gosto, tudo isto em uma palheta também suave, de tons pastéis. A animação é muito bem-feita, e há um ótimo jogo de luz e sombras ao longo da obra. E completando a parte técnica, uma trilha sonora sutil e eficiente à base de percussões e piano, que aparece apenas para completar o efeito desejado nas cenas.

Numa obra sem diálogos, em que cenas nas quais os personagens aparentemente "falam" contém apenas grunhidos ininteligíveis, é de vital importância que a narrativa consiga se desenvolver usando apenas as imagens e sons, e "No Robots" consegue fazer isto muito bem. É uma obra que, de certo modo, retrata algo bem próximo de nós no Brasil de 2016, com toda a intolerância contra quem pensa diferente em termos políticos ou vive de forma considerada torpe ou impura pelos ditos "cidadãos de bem". É preciso tentar entender o outro, compreender suas motivações, buscando uma vida em harmonia.

Emocionante sem ser piegas, "No Robots" mostra uma maturidade narrativa e visual surpreendente, levando-se em conta a juventude e a pouca experiência de seus realizadores. Não é apenas um projeto estudantil de qualidade: é um curta de animação excepcional, com acabamento profissional e um enredo envolvente.

PS: Há uma cena após os créditos.


Marcelo Reis


sexta-feira, dezembro 16, 2016

Curtas sobre Curtas #05

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/12/2016

Mais uma edição da seção "Curta sobre Curtas", desta vez com duas animações memoráveis, mas pesadíssimas, ligadas às bombas nucleares, ao horror da guerra e ao fim do mundo.



PIKADON

"Pikadon" é um neologismo do idioma japonês, surgido à época das explosões nucleares nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, usado por sobreviventes para descrever o que havia causado tamanha destruição. Esta palavra é formada pela junção das palavras "pika" (luz brilhante) e "don" (estrondo). E foi esta palavra que Renzo Kinoshita (produtor e diretor) e sua esposa Sayoko (roteirista) escolheram para dar nome a esta animação produzida em 1978.

"Pikadon" se inicia mostrando um pouco do que parecia ser mais um dia comum na cidade de Hiroshima. Crianças brincando, indo pra escola, fazendo ginástica no pátio. Mães preparando o café-da-manhã pra família. Pais brincando com os filhos ou indo pro trabalho. Operários e operárias trabalhando em fábricas. O desenho de personagens apresenta traços realistas e tipicamente japoneses, e os cenários são detalhados, representando bem a arquitetura da cidade à época. E a animação possui uma qualidade incrível, especialmente por se tratar de uma animação independente, produzida por um pequeno estúdio (Lotus).

Hiroshima era uma das poucas cidades japoneses praticamente intocadas por ataques aéreos americanos. Ao escolher as possíveis cidades-alvo para um ataque com a bomba atômica, os EUA buscaram localidades importantes em relação ao esforço de guerra japonês (fábricas de munição, portos, refinarias de petróleo, etc) mas, também, que tivessem uma área urbana de tamanho considerável e que tivessem sofrido poucos danos ao longo da guerra. Tudo isto para que a explosão arrasadora causasse também um enorme impacto psicológico nos japoneses.

Justamente por quase não ter sentido na pele o efeito de ataques aéreos, a população de Hiroshima não se assustava com a presença de bombardeiros americanos sobre a cidade, já que quase sempre estavam em missão de reconhecimento. Muitos até mesmo acenavam pros aviões, rindo e se divertindo com tudo aquilo. Infelizmente, às 8h15 do dia 06 de agosto de 1945, o horror supremo se abate sobre a cidade, com a detonação de Little Boy, uma bomba atômica à base de urânio com potência estimada em 16 quilotons de TNT.

Corpos desintegrados, despedaçados. Olhos que saltam pra fora da órbita. Pele e carne se desprendendo dos ossos. Todas aquelas pessoas, outrora cheias de vida, agora estavam mortas ou literalmente em pedaços. E horror dos horrores: praticamente 70% dos quase 70 mil mortos eram civis.

As cenas criadas por Renzo Kinoshita e sua equipe são impressionantes, e o uso de algumas imagens reais misturadas às animações aumentam ainda mais o impacto para o espectador, talvez por nos lembrar que todo aquele horror realmente aconteceu, não sendo apenas obra da imaginação de um artista.

Algumas cenas de "Gen - Pés Descalços", como a mãe que tenta proteger o bebê, parecem ter sido inspiradas por "Pikadon". Pessoalmente, apesar de adorar o mangá e o anime de "Gen - Pés Descalços", considero "Pikadon" uma obra mais marcante e impressionante. Com personagens de traços mais realistas, narrativa que não apela pra pieguice e imagens terríveis, "Pikadon" é um dos mais fortes manifestos audiovisuais contra a abominação que são as armas nucleares. Doloroso, triste, revoltante e obrigatório.



A SHORT VISION

Quem não viveu a tensão do período da Guerra Fria talvez não entenda o impacto que esta animação britânica produzida em 1956 causou à época de seu lançamento. Eu peguei a reta final deste período de relações tensas entre EUA e URSS, em que o mundo ficava à beira de um ataque de nervos, imaginando que uma guerra nuclear poderia estourar a qualquer momento. Se este período da década de 80 já era infernalmente tenso, imaginem para quem viveu no período logo após a II Guerra Mundial, assim que a URSS de Stalin desenvolveu sua própria bomba atômica em 1949 e, depois, com o surgimento das apocalípticas bombas termonucleares (EUA em 1952, URSS em 1953). Pela 1ª vez na história, o fim do mundo não apenas era realmente possível, mas até mesmo provável.

Foi neste ambiente turbulento e de muito medo que Peter Foldes, húngaro radicado na Grã-Bretanha, e sua esposa Joan, britânica de nascimento, produziram "A Short Vision", numa tentativa de alertar o mundo para os riscos reais de aniquilação completa da vida na Terra.

Com uma narrativa em "off" presente o tempo todo que mais parece alguém contando uma história infantil, somos informados da existência de um objeto voador grande e indefinido, vindo de bem longe em direção a uma grande cidade. Animais que vivem num bosque próximo, tanto predadores quanto presas, sentem o perigo que se aproxima e procuram abrigo. A população civil dorme, ignorando totalmente o que está por vir. Os líderes estão acordados, mas percebem o que vai acontecer quando já é tarde demais.

Em termos técnicos, "A Short Vision" possui traços bem simples e animação idem, mas ambos são extremamente eficientes em passar a atmosfera de pânico e horror a que a obra se propõe. Os cenários não são muito detalhados, os animais parecem ter sido feitos com recortes e possuem aparência mais cartunesca. As pessoas, por outro lado, foram desenhadas com realismo, o que aumenta o impacto das cenas, pois nos identificamos com elas, e percebemos com clareza que aquilo poderia acontecer a qualquer um de nós.

E "A Short Vision" é uma animação que impressiona, e muito. O horror não poupa ninguém, e o destino cruel de todos é mostrado em detalhes, com rostos que vão se desfigurando e se desfazendo, deixando apenas os ossos. Interessante é perceber que, em nenhum momento, é feita qualquer alusão direta a um ataque nuclear nas palavras do narrador, mas não é preciso ser gênio para saber do que se trata.

"A Short Vision" foi exibido em horário nobre nos EUA, no programa de Ed Sullivan, gerando uma repercussão tão grande que muitos comparam seu efeito ao pânico gerado por Orson Welles em sua narração radiofônica de "Guerra dos Mundos" em 1938. No programa de 27 de maio de 1956, Ed Sullivan explicou do que se tratava, pediu aos pais que tirassem as crianças da sala, devido ao tema sombrio e imagens chocantes da animação. Muitas crianças não saíram, e ficaram traumatizadas por anos com o que viram. Houve muitas queixas contra Ed Sullivan de pessoas que acharam um absurdo a exibição de algo como aquilo na TV, mas o efeito da obra foi tão forte que duas semanas depois, em 10 de junho de 1956, "A Short Vision" foi exibido novamente por Ed Sullivan.

Interessante que uma animação tecnicamente simples, de pouco mais de 5min, tenha sido capaz de causar mais impacto na opinião pública americana do que todas as notícias e imagens reais sobre o assunto exibidas até então. Mas basta assistir uma única vez a esta incrível animação para entender o motivo de tudo isto. Clássico absoluto.


Marcelo Reis


segunda-feira, novembro 21, 2016

Curtas sobre Curtas #04


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 21/11/2016

E eis que ressurge das cinzas a seção "Curtas sobre Curtas"! Apesar de continuar fã de animes e adorar resenhar séries, OVAs e longa-metragens da "Terra do Sol Nascente", me sinto um pouco em dívida com várias obras sensacionais lançadas ao redor do mundo todo. E o mundo dos curtas é perfeito para, de certo modo, "pagar" esta dívida: afinal, curtas-metragens, quer sejam de animação ou "live-action", estão longe de receber a mesma atenção que os longas da Pixar ou do Studio Ghibli, por exemplo.

E com tantas obras incríveis que merecem um reconhecimento maior, continuaremos usando esta seção para atiçar a curiosidade dos leitores e, quem sabe, despertar de vez a paixão pelos curtas de animação.

Hoje temos dois curtas clássicos da China, produzidos no início da década de 80.



THREE MONKS

Este premiado curta de animação do Shanghai Animation Film Studio (Urso de Prata para Curta-Metragem no 32º Festival de Berlim (1982); Melhor Animação no Golden Rooster Awards 1981; Melhor Animação no Huabiao Awards 1980) é baseado num antigo provérbio chinês:

"Um monge carregará dois baldes de água nos ombros, dois monges dividirão a carga, mas coloque um terceiro e ninguém vai querer buscar água."

Nesta obra de traços simples, cenários quase inexistentes, mas personagens expressivos e animação fluida, conhecemos um monge que vive num templo, no alto de uma montanha. Com seu indefectível robe vermelho, ele mantém a mesma rotina dia após dia: confere a água do vaso no altar do templo, desce toda a montanha para buscar dois baldes de água no rio, enche o barril com água para o dia, troca a água do vaso, e medita em frente ao altar até a hora de dormir.

A chegada de um 2º monge ao templo altera um pouco o dia-a-dia do templo. Magro, alto e com um robe azul, este 2º monge divide a carga do trabalho com o 1º monge, ambos tentando manter a rotina do templo intacta, ainda que um ou outro contratempo afete um pouco o andamento das coisas. Mas exceto por um ratinho que teima em aparecer para bagunçar o ambiente, no geral tudo continua fluindo bem.

Mas com a chegada de um 3º monge, baixo, gordo, com roupa alaranjada e que sua horrores debaixo do sol, as coisas tomam um rumo completamente diferente. Apesar de ter uma boa índole, este monge é bem glutão, não trabalha com a intensidade que seria recomendável. A busca da água no rio começa a ser motivo de discussões, a desarmonia e a desordem passam a imperar no templo, assim como a preguiça, a falta de disciplina e o desinteresse. Quanto ao futuro do templo? Só o tempo dirá...

Por se tratar de uma animação sem diálogos, "Three Monks" pode ser assistido sem problemas por pessoas de todos os lugares. Por esta razão, a excelente trilha sonora tipicamente chinesa tem papel fundamental, pois grande parte da emoção e da tensão é passada através dos sons, especialmente porque cada monge é representado por um instrumento específico. É um ótimo exemplo de utlização da música literalmente como uma linguagem universal.

Funcionando como uma sátira à burocracia do sistema, especialmente à ineficiência dos funcionários de repartições públicas, "Three Monks" mostra, de forma simples e eficaz, a importância de um trabalho em equipe eficiente para manter as coisas funcionando de acordo. E foi lançada num momento importante na China, o renascimento da animação chinesa, após o término do terrível período da Revolução Cultural.

PS: Há uma pequena cena após os créditos finais.



MONKEY FISHES THE MOON

Mostrando mais uma vez a versatilidade do Shanghai Animation Film Studio ao criar animações com as mais variadas técnicas, "Monkey Fishes the Moon" é praticamente todo realizado com animação de recortes, exceto em uma ou outra parte, em que a animação tradicional também é utilizada.

Um grupo de macacos vive numa floresta, sempre se divertindo, pegando frutas nas árvores, roubando comida uns dos outros... em outras palavras, fazendo "macaquices" sem parar. Certo dia, um dos macacos repara na bela lua cheia que surge entre as montanhas, e outro macaco acha que seria o máximo pegar aquele objeto redondo e reluzente. O grupo, então, abusa da curiosidade, criatividade e força de vontade para superar dificuldades e realizar o impossível.

Um detalhe que chama a atenção de cara é a trilha sonora: ao contrário da maioria das animações chineses produzidas antigamente, que utilizavam como fundo musical trilhas sonoras tipicamente chinesas, "Monkey Fishes the Moon" tem uma trilha com um climão de filmes americanos das décadas de 40 e 50, com uma forte presença de saxofone. E assim como "Three Monks", "Monkey Fishes the Moon" não contém diálogos, e a música tem efeito fundamental para complementar as emoções retratadas na tela.

Em termos visuais, esta obra é simplesmente primorosa. Os personagens são incrivelmente expressivos, a animação é super fluida e dinâmica, há uma atenção brutal aos detalhes dos movimentos corporais, sem contar o cuidado assombroso no uso de luz, sombras e cores. Mesmo se a narrativa em si não empolgasse, valeria a pena assistir a "Monkey Fishes the Moon" apenas para admirar a excelência técnica da obra.

Felizmente, o enredo é cativante, e a narrativa possui um ótimo ritmo, gerando uma tensão surpreendente para uma animação tão curta e teoricamente voltada mais para o público infantil. Sem passar a impressão de querer dar algum tipo de sermão, a obra mostra a importância do trabalho em conjunto, buscando o bem da sociedade como um todo. Quando o individualismo começa a imperar, com cada um pensando apenas no próprio bem-estar e querendo a todo custo uma posição de destaque no grupo, as coisas podem desandar de vez.

Mesmo com apenas 10 minutos, "Monkey Fishes the Moon" pode ser considerado uma das melhores animações do Shanghai Animation Film Studio, o que, convenhamos, não é pouca coisa.


Marcelo Reis


sexta-feira, março 01, 2013

Curtas sobre Curtas #01


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 19/02/2013

Entre os vários motivos pelos quais resolvi iniciar esta empreitada solo no Glodosbora, um dos principais é a liberdade de poder escrever sem precisar me prender a uma determinada estrutura. No Animehaus até foi possível quebrar isto um pouco, quando começamos a falar de outros tipos de animações fora do universo anime, mas em termos de estruturas de resenhas e artigos, entre outras coisas, não dava muito para sair do formato utilizado. Além disto, por mais que seja legal uma resenha super bem embasada e completa, às vezes é complicado escrever um texto complexo sobre um curta metragem de 3min, por exemplo. Melhor seria um pequeno artigo falando de 2, 3, 4 ou mais obras, só para dar uma idéia geral sobre as mesmas, para que os leitores possam, ao menos, tomar conhecimento de sua existência e, claro, saber se vale a pena ou não assisti-las.

Tendo isto em mente, inauguro hoje a seção "Curtas Sobre Curtas", que consistirá de postagens falando sobre determinados curtas-metragens, de animação ou não, de forma um pouco mais simplificada do que a normalmente utilizada nas resenhas-padrão do Animehaus. Para começar, três "pequenas grandes obras" da animação, provenientes da França, Espanha e Polônia.


REPLAY

Curta de 9min de duração, criado em 2007 por 3 alunos da fantástica ESMA (Ecole Supérieure des Métiers Artistiques), localizada em Montpellier, França, e famosa pelas fantásticas animações de fim de curso de seus alunos, que colocam no bolso grande parte das animações ditas "profissionais" que existem por aí.

"Replay" se passa num local desolado na Rússia, no qual é impossível andar pela superfície sem máscaras contra gás e óculos de proteção, sob pena de morte imediata. É neste ambiente que vivem, em um abrigo subterrâneo devidamente protegido, a jovem Lana e o garoto Theo. Lana sempre sobe à superfície para recolher objetos largados pelas ruas de uma verdadeira "cidade-fantasma", buscando ganhar algum dinheiro com a venda posterior dos mesmos. Théo nasceu neste ambiente mortal e sempre viveu no subterrâneo, nunca tendo conhecido nenhuma outra pessoa além de Lana, e só tem permissão para subir à superfìcie acompanhado pela garota. Por esta razão, sua ansiedade é sempre grande quando Lana volta da superfície, pois fica louco para ver os "tesouros" que ela trará para o subterrâneo.

Certo dia, entre os objetos recolhidos por Lana, encontra-se um gravador contendo sons captados no dia-a-dia normal da cidade (buzinas, conversas), enquanto a vida ainda pulsava por lá. Theo fica encantado ao ouvir a conversa de crianças brincando, quer ficar com o gravador de qualquer maneira, mas Lana diz que venderá o aparelho, pois poderá ganhar um belo dinheiro com o mesmo. Sem conseguir tirar aqueles sons da cabeça, resta saber até que ponto o garoto iria para manter a posse do aparelho e procurar saber um pouco mais sobre a história por trás daqueles sons.

Em termos visuais, "Replay" não é tão impressionante quanto outras obras produzidas na ESMA, apesar de ainda ser muito bem feito. A cidade abandonada, em especial, lembra muito Pripyat, na Ucrânia, evacuada às pressas após o acidente nuclear de Chernobyl em 1985. Mas o mais marcante em "Replay" é a qualidade da narrativa, sendo palpável a sensação de desespero de Theo em querer vivenciar um tipo de existência que a dura realidade simplesmente não permite mais.

Com um final melancólico e, de certo modo, agridoce, "Replay" é uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece as excelentes animações criadas na ESMA.


LA DAMA Y LA MUERTE

Animação espanhola produzida por Antonio Banderas e indicada ao Oscar 2010 como Melhor Curta de Animação, "La Dama y La Muerte" se passa numa fazenda, em um ambiente desolado e sombrio. Ao som de um velho gramofone, uma idosa aguarda ansiosamente a chegada da Morte, para que possa se reencontrar com o falecido marido. Quando tudo parece resolvido e a senhora está prestes a entrar no reino dos mortos, um médico bonitão e que se acha "o cara" acaba trazendo-a de volta à vida. Inicia-se uma luta feroz, hilária e surreal entre a Morte e o médico (acompanhado de suas enfermeiras gostosas) pelo destino da pobre senhora, que é jogada de um lado para o outro como um saco de batatas.

Tecnicamente, "La Dama y La Muerte" é impecável, uma animação em CGI de excelente qualidade e com personagens muito expressivos e cartunescos. O ritmo da animação é alucinante, lembrando um pouco as peripécias exageradas de Scrat nos longas-metragens de "A Era do Gelo". Não há nenhum diálogo inteligível, apenas gritos e grunhidos de satisfação e raiva, de acordo com o andamento da disputa ferrenha entre a "morte gulosa" e o "Dr. Queixudo".

"La Dama y La Muerte" não traz super questionamentos filosóficos nem nada do tipo. É uma obra divertida e de excelente qualidade técnica, que passa voando e ainda conta com um final sensacional.


PATHS OF HATE

Claro que não dava para iniciar a seção de curtas sem falar do Platige, hehehe. "Paths of Hate" começou a chamar a atenção assim que pintou seu primeiro trailer, mostrando dois aviões em combate em sequências animadas de tirar o fôlego, com um visual semelhante a "comics" num ambiente 3D. Restava saber se a obra completa faria jus ao "hype" tremendo causado pelo trailer em questão.

Dirigida por Damian Nenow (The Great Escape), "Paths of Hate" já começa em meio a uma ensandecida batalha aérea na II Guerra Mundial entre um piloto inglês em seu Spitfire, e outro alemão num Messerschmitt, que usam de todos os recursos possíveis para matar o seu oponente. Pequenos fragmentos de imagens mostram que a religião, a pátria e os entes queridos são motivações por trás da fúria bestial que move os dois homens. Com olhares sangrentos e sedentos de morte, os homens vão perdendo completamente sua humanidade, única forma pela qual poderão encerrar, de alguma maneira, esta batalha feroz. E neste processo, vão deixando os tais "caminhos de ódio" para trás, caminhos estes que remontam aos primórdios da história e sempre resultam em horror, morte e destruição.

Se o trailer de "Paths of Hate" já impressionava, a obra completa é de cair o queixo. Usando cores chapadas e com traços de sombreamento imitando histórias em quadrinhos, a animação usa na maior parte do tempo uma câmera nervosa e irregular, como se fosse controlada por um ser humano, aumentando ainda mais o realismo das batalhas. A sensação de profundidade no ambiente impressiona, especialmente em meio às nuvens, e a movimentação corporal e facial dos pilotos é algo de outro mundo. Podem acreditar quando eu digo que vocês nunca viram nada parecido com "Paths of Hate": o estilo é realmente único.

"Paths of Hate" é um obra do Platige um pouco mais conhecida em nosso país, por ter sido eleita a Melhor Animação no Anima Mundi 2011 pelo júri profissional. Vencedora ainda de vários outros prêmios ao redor do mundo (Annecy, Comic-Con, SIGGRAPH), "Paths of Hate" tornou-se minha animação preferida do Platige, gerando ainda uma ansiedade prazerosa para ver como será a próxima obra dirigida por Damian Nenow, "Another Day of Life". Baseada no livro de Ryszard Kapuscinski, autor do excelente "Império", "Another Day of Life" será um mistura de animação e documentário e, muito provavelmente, o primeiro longa-metragem produzido pelo Platige.


Marcelo Reis


 

Curtas sobre Curtas #03


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 26/02/2013

Enquanto retorno aos poucos ao universo dos animes e preparo novas resenhas com calma, segue abaixo mais um post da série "Curtas sobre Curtas".



A GENTLEMEN'S DUEL

Animação norte americana produzida em 2006 pelo Blur Studio, um estúdio geralmente mais envolvido em efeitos visuais para filmes (Scott Pilgrim, Battleship, Avatar) e sequências cinemáticas para videogames (Marvel: Ultimate Alliance, Dark Souls II). Ainda assim, o Blur Studio de vez enquando se arrisca nos curtas, inclusive tendo sido indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação em 2004 com "Gopher Broke".

Mas o assunto agora é "A Gentlemen's Duel". Nesta hilária e surreal obra, um cavalheiro inglês e outro francês, que se acham lindos e maravilhosos, disputam a atenção de uma bela aristocrata. A coitadinha acaba "pagando o pato" e sofrendo os efeitos colaterais desta verdadeira briga de pavões. A coisa vai ficando cada vez mais séria, se encaminhando para um duelo final inesperado e de proporções inimagináveis.

Tecnicamente, "A Gentlemen's Duel" é um primor. Desde o início é possível perceber que o Blur Studio sabe muito bem o que faz, pela riqueza de detalhes nos cenários, personagens bem modelados e animação super fluida. O enredo apresenta situações cada vez mais absurdas, e as ótimas dublagens tornam as cenas em si ainda mais cômicas, especialmente porque há uma troca constante de xingamentos e imprópérios entre os dois homens ao longo do confronto.

"A Gentlemen's Duel" não muda a vida de ninguém, mas é muito engraçado e possui cenas que impressionam demais pela qualidade técnica, especialmente durante o tal duelo.


DUM SPIRO

Com um título baseado no dito latino "Dum spiro, spero" (algo como "enquanto eu respirar, há esperança"), "Dum Spiro" é uma das seis animações da turma de formandos da ESMA no ano de 2012. O logotipo da escola surge bem no início, em meio a círculos que lembram muito a abertura dos desenhos antigos dos "Looney Tunes". Até a música e os efeitos sonoros nos remetem imediatamente às obras enlouquecidas de Chuck Jones e Robert McKinnon, produzidas para a Warner, que são a inspiração óbvia para este curta-metragem ensandecido.

No período do Império Romano, um soldado deve levar uma mensagem importantíssima de César a uma tribo de bárbaros, acampada do outro lado da floresta. A mensagem poderá mudar todo o curso da batalha, e deve ser entregue custe o que custar. Mas um urso de avental e apaixonado por flores será um obstáculo quase intransponível para o pobre soldado.

"Dum Spiro" utiliza a técnica de "cell-shading" para dar um tom de animação 2D ao ambiente 3D. Tudo nesta obra é exageradíssimo, os personagens são super expressivos, e a cada momento pintam situações e engenhocas mais e mais bizarras em cena, tudo para que a mensagem seja entregue de qualquer maneira. "Dum Spiro" lembra demais os desenhos em que o Coiote tenta roubar ovelhas, mas toma muita pancada do cão pastor... dá até dó do mensageiro, coitado!

Com escolas de qualidade como a ESMA, Gobelins e Supinfocom, a França está realmente em estado de graça no tocante a animações. Dá uma satisfação muito grande ver a qualidade incrível das obras dos alunos destas escolas mas, também, uma certa tristeza em ver que, no Brasil, a animação ainda não é encarada com a mesma seriedade que na Europa.

Enfim, divagações à parte, "Dum Spiro" é um curta muito divertido, e uma bela homenagem às antigas animações de Chuck Jones e companhia.


FATHER AND DAUGHTER

Se os dois primeiros curtas analisados nesta postagem são uma diversão despretensiosa, a coisa muda de figura com "Father & Daughter", belíssimo drama escrito e dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit. Uma co-produção entre Holanda e Grã-Bretanha, "Father and Daughter" foi o vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação em 2001, além de várias outras premiações importantes como o Anima Mundi (Brasil), BAFTA (Grã-Bretanha) e Annecy (França).

Um pai se despede da filhinha à beira de um cais, sai remando em um pequeno bote, mas nunca mais reaparece. O tempo segue, as estações do ano vão e vêm, e a garotinha vai tocando a vida. Ela cresce e passa por todas aquelas situações comuns na existência da maioria das pessoas (amizades, namoros, casamento, etc), mas a saudade do pai permanece em todos os momentos. Sempre andando de bicicleta, volta e meia ela retorna ao local de onde seu pai zarpou, na esperança de reencontrá-lo novamente.

"Father and Daughter" utiliza uma técnica de aquarela inspirada nas artes chinesa e japonesa, lembrando um pouco o trabalho visual de várias obras de Te Wei. Usando constantemente um jogo de luz e sombras para causar um forte contraste entre os objetos, "Father and Daughter" possui uma animação sutil, detalhada e muito bem feita, na qual até mesmo os reflexos em poças d'água são realizados com perfeição. Não há nenhum diálogo ao longo de toda a obra, que tem como pano de fundo musical uma trilha instrumental melancólica, apenas com acordeon e piano.

A idéia do ciclo da vida como um eterno retorno está presente em alguns detalhes, como as bicicletas onipresentes e suas rodas que não param nunca de girar. Há ainda a variação de idade das pessoas que se cruzam de bicicleta em caminhos opostos. No início, a garotinha cruza com uma senhora, a coisa vai se invertendo aos poucos rumo ao final, quando ocorre praticamente o inverso do início, como se os idosos partissem para dar lugar aos jovens, que também envelhecem... e o ciclo se repete "ad infinitum".

Uma obra-prima incontestável, com um lindo final que permanece na memória.


Marcelo Reis


 

Curtas sobre Curtas #02


OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 21/02/2013

Dando sequência à recém-criada seção "Curtas sobre Curtas", três pequenos textos sobre curtas-metragens de animação da Dinamarca, Austrália e EUA.


THE SAGA OF BIORN

Excelente animação em CGI criada por alunos da escola dinamarquesa The Animation Workshop. Assim como na ESMA Montpellier (França), os alunos do último ano do curso de animação da "TAW" produzem curtas que, na maioria das vezes, possuem um nível de profissionalismo assombroso. em todos os aspectos.

Biorn é um velho viking com um passado cheio de glórias, fazendo sua derradeira jornada em busca de um oponente de valor, para que possa encontrar sua morte de uma forma digna. Só assim ele poderá entrar em Valhalla, salão dos deuses nórdicos e o lar perfeito para um verdadeiro guerreiro. Do contrário, viverá no tédio eterno de Helheim, reino daqueles que morreram sem glória, doentes ou velhos. Mas à medida em que o tempo passa, esta missão aparentemente simples vai se complicando cada vez mais. Estaria o velho Biorn condenado a uma morte inglória?

Com cenários de cores mais chapadas e personagens de traços angulares e cartunescos, "The Saga of Bjorn" apresenta uma quantidade enorme de mortes hilárias numa narrativa fluida, coesa e bem humorada, que vai se encaminhando para um final inesperado e, por isto mesmo, impecável.

(Obrigado ao Heider Carlos pela sugestão desta obra)


THE PASSENGER

Chris Jones passou seis anos criando, sozinho, esta obra de clima simultaneamente sombrio e engraçado. "The Passenger" acompanha um homem absorto na leitura de um livro, enquanto caminha pela rua em meio a uma ventania que anuncia a tempestade que se aproxima. Tenso, sentindo que há algo à espreita, o homem acaba pegando um ônibus assim que a chuva começa, mas mal poderia imaginar que um simples peixinho dourado viraria o seu dia de cabeça para baixo.

Impressionante perceber que esta animação foi inteiramente feita por uma só pessoa, já que toda a parte sonora e visual possui um acabamento muito profissional. A ambientação sombria e acinzentada é verdadeiramente aterrorizante, e os personagens trêmulos, de olhos expressivos e arregalados, aumentam ainda mais a sensação palpável de tensão no ar.

Com um clima que lembra muito alguns episódios da série "Além da Imaginação", "The Passenger" possui uma história simples, mas o visual ameaçador que permeia toda a obra e a reviravolta rumo ao final são motivos mais do que suficientes para recomendar esta animação a todos. Uma pena que, desde o lançamento de "The Passenger" em 2006, o australiano Chris Jones não lançou nenhuma nova obra de sua autoria.


ONE RAT SHORT

Ratos lutam pela sobrevivência no metrô de NY. Em meio a esta confusão em busca de alimentos, um pacote quase vazio de Cheetos sai voando por entre os vagões e cai um pouco afastado da estação. O cheiro desperta um rato negro que, quase hipnotizado pelo aroma, vai atrás do pacote e se envolve em situações que não apenas colocam sua vida em risco mas, ainda, fazem-no vivenciar um tipo de sentimento até então inédito em sua vida.

De cara, chama a atenção a excelência técnica desta animação dirigida por Alex Weil e premiada no SIGGRAPH 2006. Os ratos são muito realistas, desde a movimentação até os detalhes dos pêlos e da respiração, e ainda que apresentem comportamentos levemente antropomorfizados em alguns momentos, no geral parecem ratos de verdade tentando sobreviver em meio a perigosas ameaças.

Com situações que remetem aos campos de concentração nazistas, incluindo uma analogia entre código de barras e tatuagens de identificação, "One Rat Short" possui um certo clima melancólico do início ao fim. É uma excelente obra, mas que deixa o espectador com um aperto no coração.


Marcelo Reis