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sábado, março 04, 2023

Terror in Resonance (TV)

Alternativos: Zankyō no Terror, Zankyou no Terror
Ano: 2014
Diretor: Shinichiro Watanabe
Estúdio: MAPPA
País: Japão
Episódios: 11
Duração: 23 min
Gênero: Drama, Mistério, Suspense



Shinichiro Watanabe pode se gabar de nunca ter realizado uma obra ruim, pelo menos até o dia em que escrevo esta resenha. Algumas podem não ser tão geniais quanto Cowboy Bebop (e convenhamos, poucas obras realmente podem se comparar a Bebop), mas todas possuem alguma coisa que as distinguem da imensa massa de animes puramente comerciais e sem alma produzidos ano após ano.
A notícia de que Watanabe dirigiria "Terror in Resonance", ou "Zankyou no Terror", obra baseada num conceito original do próprio diretor, deixou os fãs de anime alvoroçados. Por estar programada para ser exibida no noitaminA, bloco da Fuji TV exibido às madrugadas no Japão e voltado ao público adulto, ficava no ar a possibilidade de que seria um anime mais sério e realista. E para aumentar ainda mais as expectativas, foi revelado que os dois protagonistas da série eram nada menos do que terroristas.

Em uma sequência inicial alucinante, uma cápsula de plutônio é roubada de uma Usina de Reprocessamento de Combustível Nuclear na cidade de Aomori, norte da ilha de Honshu, no Japão. Um dos ladrões ainda encontra tempo para pintar de vermelho no chão da usina, em letras garrafais, a palavra "VON".

Seis meses depois, os dois jovens responsáveis por este roubo adotam os nomes falsos Arata Kokonoe e Toji Hisami, e fingem que são estudantes transferidos para Tóquio. Entre si, eles se chamam apenas de Nine e Twelve, respectivamente. Nine é sério, calculista e racional, enquanto Twelve é alegre, efusivo e nada discreto. Não é à toa que Lisa Mishima, uma garota retraída que é salva por Twelve de uma tentativa de "bullying", diz que "seu sorriso parecia o sol num dia quente de verão", enquanto descreve Nine como alguém "com olhos de gelo".

Nine e Twelve planejam um grande atentado em Tóquio, o primeiro de vários, e Nine não entende o motivo pelo qual Twelve resolve se expor e salvar alguém tão comum e sem graça quanto Lisa Mishima. Twelve explica que os olhos de Lisa se parecem com os das crianças da instituição onde viviam. Nine tem pesadelos constantes que mostram algo como um campo de detenção em chamas, completamente destruído, enquanto ele e Twelve tentam fugir daquele inferno. Ambos conseguem escapar, mas uma garota de rosto indefinido infelizmente fica para trás e, aparentemente, morre em meio ao incêndio. Isto assombra Nine por toda a vida, e o comentário de Twelve deixa uma dúvida no ar: seria Lisa aquela criança que não conseguiram salvar?

Nine e Twelve se autodenominam "Sphinx 1" e "Sphinx 2" em vídeos na internet, nos quais avisam quando ocorrerá o próximo atentado. Para que ele não aconteça, é preciso que as autoridades desvendem os enigmas que deixam em cada vídeo e descubram a tempo o local onde foi plantada a bomba.

É quando começa um jogo de gato-e-rato entre os "Sphinx" e Kenjirou Shibazaki, ex-detetive conceituado da polícia metropolitana de Tóquio. Fã de palavras-cruzadas, xadrez e "shōgi" (um tipo de xadrez japonês), ele era conhecido como "Shibazaki Navalha" em função de sua mente afiada e rápida. Shibazaki caiu em desgraça por ter denunciado um esquema de corrupção que atingia diretamente a cúpula da polícia, e por esta razão foi rebaixado ao cargo de arquivista dentro do departamento. Mas Kurahashi, o chefe da polícia metropolitana, percebe que apenas Shibazaki será capaz de resolver os enigmas e, com isto, impedir que os atentados aconteçam.

Apesar de ser uma série de apenas 11 episódios, "Terror in Resonance" possui um enredo muito intrincado, com uma imensa riqueza de detalhes nos aspectos técnicos. As explicações sobre o modo de ação dos terroristas são convincentes, os atentados são muito bem planejados e, ao longo da história, há uma justificativa plausível para o fato de duas pessoas tão jovens serem tão inteligentes e bem preparadas. Ainda assim, o nível de preparação e conhecimento deles sobre tantos assuntos me parece bem exagerado.

O visual da série é incrível, em especial os cenários de fundo, muito realistas. As cenas após o primeiro atentado nos remetem imediatamente à queda do World Trade Center, e os detalhes mostrando toda a destruição impressionam. As cenas de ação possuem uma qualidade de animação impressionante, com uma ótima mescla entre 2D e 3D.

O desenho de personagens de Kazuto Nakazawa (El Hazard, Samurai Champloo) não só é muito expressivo mas, também, extremamente variado. Cada personagem, mesmo sendo apenas secundário, possui traços bem individualizados. Só é uma pena que, em alguns momentos, a qualidade do traço caia bastante. No episódio 3 em especial, há momentos em que o "chara" muda tanto que os personagens nem parecem mais os mesmos do início da série.


A trilha sonora, mais uma vez a cargo da fantástica Yoko Kanno (Cowboy Bebop, GITS-SAC), é um caso interessante. Sou fã de trilhas sonoras, e geralmente é uma das coisas que mais me chamam a atenção numa obra audiovisual. Mas em "Terror in Resonance", a trilha sonora é extremamente discreta, servindo como pano de fundo bem suave para as cenas. Aparentemente, Yoko Kanno se inspirou na banda islandesa de pós-rock Sigur Rós, cujo som busca mais a criação de sonoridades incomuns usando instrumentos típicos do rock. E verdade seja dita, a trilha funciona muito bem, sem ser invasiva mas dando o tom adequado ao que acontece na tela.

Além dos personagens principais já citados, temos ainda Mukasa, um arquivista rechonchudo e divertido que, acreditem se quiser, não aparece apenas como alívio cômico. Shibazaki tem um afeto e respeito sinceros por ele, e sempre aparece de surpresa na seção de arquivos, para ver se a memória prodigiosa de Mukasa pode lhe dar alguma dica para avançar no caso. Temos ainda Five, uma garota de olhos violetas que trabalha para o governo dos EUA e entra em cena quando o governo norte-americano resolve intervir no caso, temendo que o plutônio roubado possa ser usado em algum artefato nuclear. Five é como uma versão feminina de Nine, extremamente inteligente e calculista, mas com um quê de arrogância e desprezo pela vida alheia - definitivamente uma adversária à altura dos "Sphinx".

O embate entre os "Sphinx" e Shibazaki gira em torno do mito grego de Édipo Rei, que matou o rei Laio da cidade de Tebas sem saber que ele era seu pai, conseguiu resolver os enigmas da Esfinge que atacava a cidade e acabou se casando com Jocasta, viúva do antigo rei, sem saber que ela era sua mãe. Como o nome deixa bem claro, os "Sphinx" obviamente representam a Esfinge com seus enigmas, enquanto Shibazaki representa a figura de Édipo ao solucionar estes enigmas.

Muito do que acontece em "Terror in Resonance" está ligado a extremos. Nine e Twelve, por exemplo, são praticamente como Yin/Yang em relação ao comportamento mas, apesar disto, possuem um relacionamento muito legal de respeito e confiança totais. A questão do frio e do calor, tanto em relação à temperatura quanto ao afeto, também está muito presente. Nine e Twelve viveram numa instituição nas quais as crianças não tinham nomes, eram chamadas apenas por números, para não despertar nelas qualquer ideia ligada ao amor. Lisa foi abandonada pelo pai e é sufocada emocionalmente pela mãe, totalmente paranoica com a ideia de que a filha também possa abandoná-la. Shibazaki nasceu em Hiroshima, é um "hibakunisha", da 2ª geração dos filhos da bomba atômica, e adorava a companhia da avó quando criança, mas odiava o calor pois, com isto, os idosos sumiam das ruas e ele não podia mais desfrutar do afeto dela.

É interessante também avaliar a questão das cores em "Terror in Resonance". Se pegarmos as cores dos olhos dos personagens principais, por exemplo, veremos que tanto Nine quanto Shibazaki possuem olhos acinzentados tendendo ao preto. Enquanto o cinza está ligado à maturidade, sentimentos sombrios e à sensação de vazio, o preto representa a objetividade e remete ao luto e ao mistério. Twelve possui olhos castanho-claros, e apesar do marrom estar ligado a sensações desagradáveis, à preguiça e à decomposição, também é considerada a cor da segurança e do aconchego. Five possui olhos violetas, cor considerada rara e associada ao poder, à vaidade, à magia e à sexualidade pecaminosa.

Ainda em relação a este assunto, vale lembrar que Twelve tem sinestesia e vê cores nos sons. Em determinado momento, ele diz a Nine que a voz de Lisa é amarela, e que é raro ver um tom de voz com esta cor. O amarelo é a cor da alegria, do otimismo e, também, da falta de discernimento. Talvez isto explique o motivo de uma pessoa tão desastrada e com personalidade tão apagada quanto Lisa despertar alguma coisa em alguém tão fora de série quanto Twelve, que pode ter visto nela o potencial para se transformar em alguém especial e capaz de fazer do mundo um lugar melhor.

(Para mais detalhes sobre psicologia das cores: https://chiefofdesign.com.br/psicologia-das-cores/)

Tanto o roubo do plutônio quanto o passado das "crianças sem nome" estão diretamente ligados a um assunto abordado em "Terror in Resonance" que ganha cada vez mais força dentro do Japão: a insatisfação de grande parte da população e dos poderosos com a submissão e dependência do país em relação aos EUA após a rendição aos Aliados no final da 2ª Guerra Mundial. Muitos anseiam pela volta aos tempos de glória do passado, quando o Japão era uma potência militar temida por todos. Quando a personagem Five entra na história, representando os EUA que, teoricamente, vieram para "ajudar", esta dinâmica desbalanceada entre os dois países fica bem clara. Como a superpotência que é, os EUA mandam e desmandam, e estão se lixando para quaisquer danos e perdas humanas causados por suas ações, desde que consigam atingir seus objetivos. Não deixa de ser interessante comparar esta postura com as de Nine e Twelve que, apesar de terroristas, tomam todo o cuidado para causar muitos danos materiais em seus atentados, mas sem gerar nenhuma morte.

Ainda que seja uma série excepcional, "Terror in Resonance" possui alguns problemas. Como foi dito anteriormente, a capacidade quase sobrehumana de Nine e Twelve de realizarem coisas complexas e perigosas, ainda mais sendo tão jovens, destoa um pouco do realismo presente em toda a série. E a coisa fica ainda pior em relação a Five, que parece um computador humano ambulante e onisciente, observando mil coisas ao mesmo tempo e não perdendo um único detalhe de nada. E para quem dizia o tempo todo que não queria apenas derrotar Nine mas, sim, humilhá-lo, Five revela em seu ato final uma motivação pífia e implausível para tudo o que havia feito até então. A série ainda cai na armadilha de retratar toda a polícia quase como um bando de idiotas, em especial no início da trama, de modo a destacar ainda mais a honestidade e a capacidade também exagerada de Shibazaki em solucionar os enigmas dos "Sphinx". E o que dizer da partida de xadrez dentro do aeroporto? A ideia talvez tenha parecido brilhante no papel mas, sinceramente, eu não conseguia parar de pensar no quanto tudo aquilo era ridículo.




Mas são problemas menores em relação ao conjunto da obra. Com um episódio final tenso e extremamente corajoso, que fecha a história com brilhantismo, "Terror in Resonance" é mais uma obra de alto nível de Shinichiro Watanabe, ainda com um currículo irretocável. Que continue assim por muito tempo.

sábado, março 11, 2017

Japan, Our Homeland (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/03/2017

Alternativos: Furusato Japan
Ano: 2007
Diretor: Akio Nishizawa
Estúdio: WAO! Corporation
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 96 min
Gênero: Drama



Não sei quanto a vocês, mas é sempre um momento especial quando, do nada, encontro por acaso algum artista, estúdio, videogame... sei lá, qualquer coisa de qualidade que, por algum motivo, fica escondido num cantinho, como se esperasse que alguém mais curioso ou enxerido cavucasse ali por perto para encontrá-lo (momento drama "off").

Enfim, todo este papo furado foi para explicar um pouco a satisfação que tive ao resenhar "Nitaboh" há alguns anos. Primeiro, pela chance de conhecer o WAO! World Corporation, um estúdio de animação voltado para a criação de obras de entretenimento, mas com um caráter educativo forte. Segundo, porque isto também me deu a chance de conhecer o trabalho de Akio Nishizawa, presidente do estúdio e que também roteiriza e dirige as obras do WAO. Ainda que seu trabalho em "Nitaboh" tivesse algumas arestas a serem aparadas (cortes estranhos, transições bruscas, etc.), era possível perceber sua sensibilidade para contar uma história mais séria, adulta, sem descambar pra narrativa maçante ou piegas.

Desde então, procuro ficar antenado nas novas obras do WAO. Por ser um estúdio pequeno, o WAO não lança produções próprias com muita frequência, atuando na maior parte do tempo como mão-de-obra terceirizada em animações de estúdios maiores como o AIC, Studio 4°C, Production IG e Bones. Por isto, a expectativa era grande para o 2º longa-metragem do estúdio, "Japan, Our Homeland".

1956, ano 31 da Era Showa. 10 anos após a II Guerra Mundial, o Japão não é mais um país arrasado pela guerra. Em 1951, o Japão deu seu 1º passo para sair da pobreza pós-guerra. As vidas dos japoneses estava mudando rapidamente com a tecnologia inovadora. Aparelhos de TV começam a surgir nas lojas, tornando-se uma verdadeira atração pra população. A história se passa em Tóquio, mais especificamente em Kiba, subúrbio da cidade, no momento de uma transição econômica. O país já conta com uma boa estrutura, mas ainda sem muita riqueza.

Akira Yanagizawa é um aluno exemplar da Escola Elementar Kiba. Estudioso, ótimo corredor e representante de sua turma no colégio, Akira está num momento agitado na escola. Primeiro, com a chegada de Rieko Sakamoto, sua nova professora. Formada em Música, Rieko poderia ser cantora profissional, mas prefere educar alunos e treiná-los para competições de coral. E a agitação aumenta com a presença de uma nova aluna em sala, Shizu Miyanaga, que tem um sotaque engraçado da região de Kobe, toca piano, canta muito bem e ainda é ótima jogadora de beisebol. Akira e Shizu, ambos excelentes alunos, esportistas e muito inteligentes, nutrem uma admiração mútua, e um certo clima de paixonite vai surgindo aos poucos.

Akira possui uma família muito bem estruturada, descendente de uma linhagem de samurais, e que está prosperando mesmo em meio à recessão do pós-guerra. Seu pai, Genji, possui uma marcenaria e é extremamente talentoso e caprichoso no que faz, o que o torna um profissional muito requisitado. Mas justamente por este excesso de zelo, arca com mais compromissos que aguenta e costuma atrasar as entregas, o que não é nada bom numa cidade cheia de marcenarias brigando pelo mesmo mercado. A família de Akira ainda conta com sua mãe, Fukuko, sempre ocupada com as tarefas domésticas e a criação dos filhos; a irmã mais velha, Kazuko, estudando muito para o vestibular; e a irmã caçula, Reiko, um verdadeiro "docinho de côco".


Como em "Nitaboh", Akio Nishizawa opta por uma abordagem extremamente realista e pé-no-chão em "Japan, Our Homeland", talvez ainda mais realista nesta segunda obra, pois ela retrata o período e o local em que o próprio Nishizawa viveu. Mostra um momento do Japão em que as mulheres começam a buscar mais presença na sociedade e no mercado de trabalho. Um ano emblemático, no qual o Japão voltou a ser aceito na ONU e a ser respeitado pelos outros países. Há um desejo geral por um novo Japão, avançado, que defende a paz e os valores positivos.

Isto aparece também nos questionamentos em relação a como os jovens devem ser educados. Akira, por exemplo, quer continuar estudando numa escola local, mas os pais querem que ele vá para uma escola de nível nacional. Num momento de transição como este, os jovens não sabem se vale a pena continuar estudando para serem alguém na vida, ou se seria melhor ceder à vida fácil de pequenos roubos e satisfação instantânea. E isto é particularmente complicado na juventude, quando a influência dos amigos costuma ser maior que a da família. É necessário algum tipo de controle sobre os jovens, para que não desandem a fazer besteira, mas qual seria a melhor abordagem? Punir, ou conscientizar?

Isto é muito bem demonstrado através do personagem Gon, o melhor amigo de Akira. Gon é um grandão valentão, que rouba objetos da loja de uma senhora idosa, e incita os colegas a fazer o mesmo. Gon não é uma pessoa ruim, ajuda o seu pai na taverna, mas após perder a mãe na guerra, sente-se perdido na vida: ele quer fazer o bem, mas não sabe como.

Espero que isto não seja considerado um "spoiler", mas a ocorrência de um evento chocante afeta profundamente todos os alunos, fazendo com que os jovens desenvolvam um novo senso de responsabilidade e união. Este processo dá a oportunidade para que outro elemento importante nesta obra, a música, brilhe com força, mostrando a importância da educação musical na formação dos jovens. As competições de coral são de canções infantis tradicionais japonesas chamadas Doyo - músicas sentimentais, emocionantes, que exaltam os valores positivos do país, a natureza, o estilo de vida e a sensibilidade, ajudando a moldar o espírito da criança.

Akio Nishizawa demonstra uma evolução considerável como diretor e roteirista nesta obra. Se ainda há alguns problemas com cortes de cena estranhos, a narrativa é envolvente, sem escorregar para o caminho fácil da pieguice ou do ufanismo. A animação tradicional é simples e eficiente, não se comparando ao nível dos longas-metragens da Madhouse, por exemplo, estando mais ao nível do que vemos em séries de TV. Já o uso de CGI é bem decepcionante, dando uma impressão totalmente falsa e deslocada à animação. Mas é preciso elogiar muito a atenção dada à animação dos movimentos labiais e das mãos tocando piano durante os números musicais: um trabalho realmente fenomenal. Pena que o desenho de personagens seja genérico e meio apagadão, deixando quase todos em cena com "cara de paisagem".

E voltando à parte musical, além das ótimas canções típicas cantadas pelas crianças, há a belíssima trilha sonora instrumental e orquestral de Makoto Kuriya, com lindos temas baseados em cordas e que, assim como a narrativa, não descamba para o exagero ou a pieguice em nenhum momento. E para completar, "Utau Hito", tema de encerramento com bela letra e melodia, composto e cantado pela fenomenal KOKIA, cantora cuja voz maravilhosa parece vir de outra dimensão.



Vencedor de dois prêmios no 12th Festival du Film Asiatique de Lyon em 2006 ("Prêmio do Júri Jovem" e "Escolha do Público como Melhor Filme de Animação"), "Japan, Our Homeland" é mais uma ótima animação do WAO! World Corporation, indicada para quem procura uma obra mais realista, adulta e que não apela para emoções fáceis ou clichês.


Marcelo Reis


sexta-feira, dezembro 16, 2016

Curtas sobre Curtas #05

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/12/2016

Mais uma edição da seção "Curta sobre Curtas", desta vez com duas animações memoráveis, mas pesadíssimas, ligadas às bombas nucleares, ao horror da guerra e ao fim do mundo.



PIKADON

"Pikadon" é um neologismo do idioma japonês, surgido à época das explosões nucleares nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, usado por sobreviventes para descrever o que havia causado tamanha destruição. Esta palavra é formada pela junção das palavras "pika" (luz brilhante) e "don" (estrondo). E foi esta palavra que Renzo Kinoshita (produtor e diretor) e sua esposa Sayoko (roteirista) escolheram para dar nome a esta animação produzida em 1978.

"Pikadon" se inicia mostrando um pouco do que parecia ser mais um dia comum na cidade de Hiroshima. Crianças brincando, indo pra escola, fazendo ginástica no pátio. Mães preparando o café-da-manhã pra família. Pais brincando com os filhos ou indo pro trabalho. Operários e operárias trabalhando em fábricas. O desenho de personagens apresenta traços realistas e tipicamente japoneses, e os cenários são detalhados, representando bem a arquitetura da cidade à época. E a animação possui uma qualidade incrível, especialmente por se tratar de uma animação independente, produzida por um pequeno estúdio (Lotus).

Hiroshima era uma das poucas cidades japoneses praticamente intocadas por ataques aéreos americanos. Ao escolher as possíveis cidades-alvo para um ataque com a bomba atômica, os EUA buscaram localidades importantes em relação ao esforço de guerra japonês (fábricas de munição, portos, refinarias de petróleo, etc) mas, também, que tivessem uma área urbana de tamanho considerável e que tivessem sofrido poucos danos ao longo da guerra. Tudo isto para que a explosão arrasadora causasse também um enorme impacto psicológico nos japoneses.

Justamente por quase não ter sentido na pele o efeito de ataques aéreos, a população de Hiroshima não se assustava com a presença de bombardeiros americanos sobre a cidade, já que quase sempre estavam em missão de reconhecimento. Muitos até mesmo acenavam pros aviões, rindo e se divertindo com tudo aquilo. Infelizmente, às 8h15 do dia 06 de agosto de 1945, o horror supremo se abate sobre a cidade, com a detonação de Little Boy, uma bomba atômica à base de urânio com potência estimada em 16 quilotons de TNT.

Corpos desintegrados, despedaçados. Olhos que saltam pra fora da órbita. Pele e carne se desprendendo dos ossos. Todas aquelas pessoas, outrora cheias de vida, agora estavam mortas ou literalmente em pedaços. E horror dos horrores: praticamente 70% dos quase 70 mil mortos eram civis.

As cenas criadas por Renzo Kinoshita e sua equipe são impressionantes, e o uso de algumas imagens reais misturadas às animações aumentam ainda mais o impacto para o espectador, talvez por nos lembrar que todo aquele horror realmente aconteceu, não sendo apenas obra da imaginação de um artista.

Algumas cenas de "Gen - Pés Descalços", como a mãe que tenta proteger o bebê, parecem ter sido inspiradas por "Pikadon". Pessoalmente, apesar de adorar o mangá e o anime de "Gen - Pés Descalços", considero "Pikadon" uma obra mais marcante e impressionante. Com personagens de traços mais realistas, narrativa que não apela pra pieguice e imagens terríveis, "Pikadon" é um dos mais fortes manifestos audiovisuais contra a abominação que são as armas nucleares. Doloroso, triste, revoltante e obrigatório.



A SHORT VISION

Quem não viveu a tensão do período da Guerra Fria talvez não entenda o impacto que esta animação britânica produzida em 1956 causou à época de seu lançamento. Eu peguei a reta final deste período de relações tensas entre EUA e URSS, em que o mundo ficava à beira de um ataque de nervos, imaginando que uma guerra nuclear poderia estourar a qualquer momento. Se este período da década de 80 já era infernalmente tenso, imaginem para quem viveu no período logo após a II Guerra Mundial, assim que a URSS de Stalin desenvolveu sua própria bomba atômica em 1949 e, depois, com o surgimento das apocalípticas bombas termonucleares (EUA em 1952, URSS em 1953). Pela 1ª vez na história, o fim do mundo não apenas era realmente possível, mas até mesmo provável.

Foi neste ambiente turbulento e de muito medo que Peter Foldes, húngaro radicado na Grã-Bretanha, e sua esposa Joan, britânica de nascimento, produziram "A Short Vision", numa tentativa de alertar o mundo para os riscos reais de aniquilação completa da vida na Terra.

Com uma narrativa em "off" presente o tempo todo que mais parece alguém contando uma história infantil, somos informados da existência de um objeto voador grande e indefinido, vindo de bem longe em direção a uma grande cidade. Animais que vivem num bosque próximo, tanto predadores quanto presas, sentem o perigo que se aproxima e procuram abrigo. A população civil dorme, ignorando totalmente o que está por vir. Os líderes estão acordados, mas percebem o que vai acontecer quando já é tarde demais.

Em termos técnicos, "A Short Vision" possui traços bem simples e animação idem, mas ambos são extremamente eficientes em passar a atmosfera de pânico e horror a que a obra se propõe. Os cenários não são muito detalhados, os animais parecem ter sido feitos com recortes e possuem aparência mais cartunesca. As pessoas, por outro lado, foram desenhadas com realismo, o que aumenta o impacto das cenas, pois nos identificamos com elas, e percebemos com clareza que aquilo poderia acontecer a qualquer um de nós.

E "A Short Vision" é uma animação que impressiona, e muito. O horror não poupa ninguém, e o destino cruel de todos é mostrado em detalhes, com rostos que vão se desfigurando e se desfazendo, deixando apenas os ossos. Interessante é perceber que, em nenhum momento, é feita qualquer alusão direta a um ataque nuclear nas palavras do narrador, mas não é preciso ser gênio para saber do que se trata.

"A Short Vision" foi exibido em horário nobre nos EUA, no programa de Ed Sullivan, gerando uma repercussão tão grande que muitos comparam seu efeito ao pânico gerado por Orson Welles em sua narração radiofônica de "Guerra dos Mundos" em 1938. No programa de 27 de maio de 1956, Ed Sullivan explicou do que se tratava, pediu aos pais que tirassem as crianças da sala, devido ao tema sombrio e imagens chocantes da animação. Muitas crianças não saíram, e ficaram traumatizadas por anos com o que viram. Houve muitas queixas contra Ed Sullivan de pessoas que acharam um absurdo a exibição de algo como aquilo na TV, mas o efeito da obra foi tão forte que duas semanas depois, em 10 de junho de 1956, "A Short Vision" foi exibido novamente por Ed Sullivan.

Interessante que uma animação tecnicamente simples, de pouco mais de 5min, tenha sido capaz de causar mais impacto na opinião pública americana do que todas as notícias e imagens reais sobre o assunto exibidas até então. Mas basta assistir uma única vez a esta incrível animação para entender o motivo de tudo isto. Clássico absoluto.


Marcelo Reis


domingo, novembro 06, 2016

As Memórias de Marnie (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 06/11/2016

Alternativos: Omoide no Marnie, When Marnie Was There
Ano: 2014
Diretor: Hiromasa Yonebayashi
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 102 min
Gênero: Drama / Psicológico



Quem já brincou de "telefone sem fio", de preferência com várias pessoas ao mesmo tempo, sabe que a mensagem que chega ao final da corrente muitas vezes não tem absolutamente nada a ver com a mensagem original. De certa forma, foi mais ou menos a mesma coisa que aconteceu no início de agosto de 2014, no Japão, aproximadamente um ano depois de Hayao Miyazaki anunciar sua aposentadoria, desta vez definitiva. Quando Toshio Suzuki, ex-presidente do Ghibli, anunciou que o estúdio faria uma pausa temporária na produção de longas-metragens de animação, para reavaliar as diretrizes do estúdio após a aposentadoria de Miyazaki, o caos se instalou: em questão de minutos, como um vírus, espalhou-se pelo mundo a notícia apocalíptica de que o Studio Ghibli nunca mais produziria um filme. E por algum tempo, "As Memórias de Marnie", lançado em meados de julho de 2014, foi considerado o último filme a ser produzido pelo Studio Ghibli em todos os tempos.

"As Memórias de Marnie" é baseado no livro "When Marnie Was There", da autora inglesa Joan G. Robinson, escrito em 1967. No livro, a protagonista vive em Norfolk, Inglaterra, enquanto no anime ela reside na cidade de Sapporo, em Hokkaido. Mas pelo que conferi em alguns textos, apesar da mudança de ambientação da Inglaterra para o Japão, a essência do enredo foi mantida intacta.

Anna Sasaki é uma garota que, em suas próprias palavras, faz parte daqueles que vivem "fora do círculo": não tem amigos, tem dificuldades para se enturmar, e praticamente só encontra felicidade nos momentos em que pode se dedicar à sua grande paixão, que é desenhar. Anna perdeu os pais e a avó quando jovem e foi mandada a um orfanato, sendo adotada por um casal que a ama de verdade. Anna era uma criança alegre e interativa mas, por algum motivo, passou a ficar taciturna, distante e triste, e a ansiedade resultante disto passou a desencadear crises cada vez mais fortes de asma. Por esta razão, Yoriko, sua mãe adotiva, resolve mandá-la pra casa de parentes que vivem à beira-mar, na expectativa de que o ar puro e a calma do interior melhorem sua ansiedade e, por tabela, sua tristeza e sua asma.


Anna passa os dias convivendo educadamente com seus divertidos e compreensivos anfitriões, mas ansiosa para poder sair e desenhar as belas paisagens da região. Certo dia, um casarão abandonado e com fama de mal-assombrado, localizado à beira do pântano, chama sua atenção. Tudo parece morto e sem vida, mas Anna tem a impressão de ter visto luzes e pessoas por ali. O desenrolar dos fatos leva Anna a conhecer Marnie, uma garota linda e cheia de vida, e imediatamente surge uma atração forte entre as duas. Mas como Marnie poderia viver naquele casarão vazio e sem vida? E por que razão o local parecia renascer à noite? Seria Marnie apenas fruto da imaginação de Anna, ou algo aparentemente inexplicável estaria acontecendo?

Elogiar a qualidade técnica de um anime do Ghibli chega a ser redundância, mas o estúdio consegue novamente entregar uma obra absolutamente irrepreensível visualmente. Eu adoro animações produzidas em CGI, sou fã de carteirinha da Pixar, mas existe um algo a mais em animações tradicionais que é difícil de explicar. E a equipe do Ghibli é mestre em criar momentos que dão arrepios na gente: na perfeição dos movimentos quando Anna toma um tombaço enquanto corre; nas sutis mudanças de expressão facial da garota, mostrando o verdadeiro turbilhão de emoções que se encontram dentro dela; nos detalhes em cada personagem em cena durante um baile de gala no casarão.

O diretor Hiromasa Yonebayashi, que já havia feito um trabalho soberbo em seu filme de estréia, "O Mundo dos Pequeninos" (Karigurashi no Arrietty), repete a dose em "As Memórias de Marnie". Yonebayashi também cuidou do roteiro, ao lado de Keiko Niwa - responsável pelo roteiro de quase todas as obras mais recentes do Ghibli - e de Masashi Ando, este último acumulando ainda as funções nada desprezíveis de desenhista de personagens e diretor de animação. Não deve ter sido tarefa fácil adaptar uma obra ambientada na Inglaterra e com protagonistas inglesas para um país totalmente diferente como o Japão, sem deixar a narrativa vazia ou forçada, mas os três roteiristas adicionaram detalhes sutis (Anna com olhos que parecem de estrangeira, casarão que recebia estrangeiros no passado) que tornam a adaptação natural e bastante crível.

Yonebayashi ainda consegue manter o suspense o tempo todo em relação ao que está realmente acontecendo ao longo do relacionamento entre Anna e Marnie, jogando algumas pistas aqui e ali para ajudar o espectador a montar o quebra-cabeça. Quem for um pouquinho mais antenado conseguirá matar a charada antes da hora, mas mesmo que isto aconteça, não reduzirá em nada o impacto emocional da história. Interessante notar que tanto "Marnie" quanto "Divertida Mente", dois dos indicados ao Oscar 2016 de Melhor Longa-Metragem de Animação - sendo que o filme da Pixar foi o vencedor do prêmio - tratam dos sentimentos, emoções e alterações psicológicas da personagem principal, mas de formas totalmente distintas, e igualmente brilhantes.



Se "As Memórias de Marnie" fosse realmente o último filme do Ghibli, faria um excelente papel como obra de despedida deste estúdio mítico. É um anime emocionante na dose certa, com algumas pitadas de fantasia que não afetam negativamente o lado mais realista da narrativa. Possui personagens cativantes e muito bem construídas, e momentos memoráveis que ficarão na lembrança por muito tempo. Ainda bem que não será o último filme do Ghibli: um mundo sem novos animes do estúdio seria triste demais.


Marcelo Reis